Os medos da infância


Ah, os medos da infância. Havia a ideia de que alguma criatura vivia embaixo de minha cama e poderia puxar meu pé durante a noite. Como consequência, eu dormia sempre com os pés encolhidos e bem cobertos. O medo do escuro e suas sombras me levava a cobrir a cabeça na hora de dormir deixando de fora somente olhos, nariz e boca. Não o fazia sempre, meus medos tinham fases e era comum eu me esquecer deles para meses mais tardes experimentá-los outra vez. Tive os medos coletivos, aqueles compartilhados por toda a turma: a loira do banheiro era um clássico da categoria (na verdade eu não tinha medo da loira do banheiro, mas me lembrava dela de vez em quando durante o banho e não era exatamente uma coisa bacana). Tive medos temporários, como o que sentia enquanto lia O Exorcista ou o medo do som da porta do banheiro que, quando deixada entreaberta, batia repetidas vezes e ecoava pela casa durante a madrugada. Desconheço o motivo que impedia um de meus pais de ir lá fechar ou abrir a porta de vez; sei de mim que não ia lá fechar por causa do outro medo, o do escuro. Também experimentei o pavor de achar que minhas bonecas mexeriam a cabeça a qualquer momento, tudo por causa da infeliz ideia de assistir o filme Não Adormeça. Enquanto estava de férias, na casa da prima onde vi o filme, tudo era festa. Passadas as férias e de novo dormindo sozinha em meu quarto, ai ai.  

Fui crescendo e dando jeitinhos. Encarando um quarto escuro aqui e ali, indo à cozinha sozinha no meio da noite beber água, essas coisas. Mas de todos os medos, o mais difícil de ser domado era o medo da fotografia da minha avó materna. Minha mãe mantinha com todo carinho do mundo uma fotografia de sua mãe, que morreu muitos anos antes de eu nascer, na parede da sala principal da casa. A foto é uma ampliação de uma 3x4 e nela minha avó é uma figura muito séria, lábios cerradíssimos e cabelos bem presos, com aquele olhar que me seguia pela casa à medida que eu atravessava a sala. E sempre me seguia porque eu não conseguia passar pela foto com indiferença, sempre dava uma conferida para inevitavelmente constatar que, sim, ela estava me observando. A paz na terra era ter mais gente na sala. Sozinha, contudo, lá vinha o olhar da vovó.

Eu não falava nada a minha mãe em profunda consideração ao fato de que, ora, era a foto da mãe dela. Um dia, contudo, tentei dar um jeitinho. Estávamos arrumando a sala, trocando móveis e quadros de lugar, quando ela pediu uma sugestão para o lugar da foto. Assim como quem não quer nada e morrendo de culpa sugeri que a foto ficasse ali, naquele cantinho. Ela olhou, ponderou e acatou. Com ressalvas, mas acabou concordando. As ressalvas vinham do fato de que a fotografia só ficaria visível caso a porta da sala que dava acesso ao jardim estivesse fechada. Se aberta, a porta a encobriria. E foi assim que tive anos de relativa paz, especialmente nos dias mais quentes quando a porta permanecia aberta quase todo o tempo. 

Andei pensando nesses medos por causa de meu filho de 7 anos que recentemente teve notícias, através dos amigos do colégio, da "existência" da loira do banheiro, da Maria Sangrenta e de sei lá eu quem mais que se ocupa de usar nossos banheiros. Anda meio cismado, evitando ficar sozinho pelos cantos. Nos momentos de bravura ele encara tudo numa boa e o medo desaparece. Vejo tudo com naturalidade porque sei que tive medos iguais, apesar de torcer muito para que ele se livre logo do incômodo. Para ajudá-lo a lidar com os seres do além, hoje meu marido e eu o convidamos a inventar nosso próprio monstrengo. A ideia era mostrar a ele que, assim como o nosso monstro não passa de uma invenção, também o são a Maria Sangrenta e sua turma. Criamos então o terrível Homem dos Olhos de Fogo, que vive nas saboneteiras, tchan-ans!. Todo cuidado é pouco. Resta saber se a coisa vai surtir o efeito desejado ou se ele vai passar a sentir medo de tomar banho. Vamos aguardar. Com a luz acesa.

4 comentários:

Cecilia disse...

Puxa, o medo da Loira do Banheiro atormentou boa parte da minha infância. Que bom que vocês estão ajudando o Arthur a superar o medo com as brincadeiras!

Anônimo disse...

Meu sobrinho e afilhado tinha medo de palhaço. Fomos convidados à festa de minha outra afilhda. Quando o palhaço chegou, à paisana, pedi a ele para se vestir no quarto do salão de festas e fui com meu sobrinho. Apenas ficamos conversando. Meu sobrinho viu tudo acontecer bem na frente dele e, quando o cara estava pronto pra entrar ele apenas me disse : Tio, então palhaço é isso?. Sim. Acabou.

Tina Lopes disse...

Eu tinha medo de ladrão e ficava muito tempo acordada ouvindo os sons das árvores, da grama, as madeiras estalando... qd minha irmã dormia no mesmo quarto, combinávamos de uma "vigiar" a porta enquanto a outra vigiava a janela. "Vou virar", uma avisava a outra, aí mudávamos de posto. Até que ela dormia antes, claro. Também tinha medo do som dos filmes que meu pai assistia e não me deixava ver - certeza de que minha imaginação piorava o enredo que eu construía ouvindo os sons e gritos. Eu tinha medo de palhaço, também, daí um belo dia ganhei um porta-pijamas de palhaço que ficava pendurado na parede da minha cama... =P

Juliana disse...

eu morria medo de ladrões tb, Tina! apesar de a janela do quarto ter grades, eu morria de medo de que alguém entrasse no meu quarto.

 
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