O dia em que vi uma baleia. Mais ou menos.


Sempre imaginei que ver de perto uma baleia seria um troço emocionante e inesquecível.

Todo esse papo em torno das baleias em Moby Dick me fez relembrar um episódio que vivi aqui em Floripa alguns anos atrás. Logo que me mudei para cá, e lá se vão  13 anos, passei a cogitar um passeio de barco para avistar baleias na época em que as belezuras se aproximam da costa catarinense. Os anos se passaram, até agora nenhuma baleia abanou o rabo pra mim e continuo vendo as beldades pela TV como quando morava no Nordeste. Tuuudo bem. Eis que um belo dia uma pobre gigante encalhou e acabou morrendo em uma praia da ilha. Uma operação relativamente complexa foi montada, com alguma morosidade, para retirada do imenso cadáver da areia e fazer sabe-se lá o quê com o que restou da coitada. Pois bem. Era a minha chance, tchan-ans! Quem não tem baleia viva exibindo a cauda, vai de baleia morta. Isso foi horrível, mas vocês me entenderam. Eu queria ver o bicho gigante de perto. Vivo seria melhor, mas... Enfim.

Ideia ruim de verdade a gente divide com os amigos, que é pra isso que eles existem. É claro que eu não fui sozinha, mas acompanhada de umas cinco ou seis pobres almas que tiveram o azar de atender o telefone naquela manhã de domingo. (Detalhe: pensando nisso agora, estou na dúvida se a ideia não partiu, na verdade, de minha amiga e eu aceitei o convite; mas isso pode ser só um recurso gerado pela culpa para eu me sentir melhor.) E lá fomos nós ver a baleia morta na praia. Que ficava longe. Bem longe. Sem acesso de carro. :-) 

A informação que tínhamos dava conta de que a baleia havia encalhado em uma praia "vizinha à praia do Moçambique". Naquela época, Moçambique era uma praia que eu frequentava de vez em quando nos dias em que queria sol sem muita muvuca. Pode ser considerada uma praia "mais afastada", mas não é o fim do mundo. Vamos. Deveríamos ter apurado melhor o que estavam chamando de praia "vizinha". Moçambique era na verdade o ponto final dos carros, o ponto de partida para a caminhada que nos levaria ao cadáver cetáceo (cadáver cetáceo é coisa de quem tá lendo Moby Dick, relevem). Uma caminhada longa, bem longa. De horas. Sob o sol. Ô gente, estou vendo a inveja de vocês daqui. 

Tudo valeria a pena se a gente chegasse à tal praia e desse de cara com uma baleia como a conhecemos. Percebam, contudo, que a notícia da morte da coitada circulara durante toda a semana. Estamos, portanto, falando de um gigante que havia morrido há vários dias. Deveríamos ter preparado nossa visão para certo grau de decepção. E, principalmente, deveríamos ter preparado nosso olfato. Porque, queridas e queridos, o que vimos foi bem decepcionante, mas não foi nada comparado ao que sentimos. Ao fim da longa e cansativa caminhada, apreciamos um imenso monte de geleia branca, uma montanha de gordura disforme que tanto poderia ser de uma baleia como de uma lesma gigante. E "apreciamos" por cinco segundos, o tempo que conseguimos suportar em meio ao odor nauseabundo que já sentíamos desde metade da caminhada e que até hoje me pergunto como não bastou para que desistíssemos da ideia de jerico de seguir em frente. 

O cheiro da baleia morta e podre impregnou minhas roupas e meus sapatos, fez com que eu sentisse nojo de mim mesma, penetrou em minhas veias e cérebro. O desconforto pelo fedor durou dias porque a memória do mau cheiro fazia meus pensamentos federem também. Esfreguei o par de tênis que usei até meus braços quase caírem de cansaço e o cheiro não sumia. Acreditem em mim: é um troço insuportável. Sabe peixe podre no lixo? Fichinha. 

E assim se encerrou meu único contato com uma baleia. Foi, sem dúvida, emocionante. E eu nunca vou me esquecer. 


9 comentários:

Maite disse...

Ai, Rita!

Eu ri: programa de índio mesmo, como diria o outro!

E me identifiquei também: sou conhecedora de causa. F.E.D.E. Fede, fede, fede.

Na minha faculdade tinha um grupo de pesquisa chamado Maqua (=mamiferos aquaticos). O papel deles?! Recolher baleia e golfinhos mortos pra estudá-los. Eles analisavam os ossos, sei lá.

Só sei que cada vez que chegava uma carcaça lá no corredor das salas de aula eu ficava pra morrer: podre! Às vezes rolava de abandonar a aula, mesmo.

Eca! Senti agora, o cheirinho...
Eca. Eca!

Uma amiga até chegou a fazer estágio com eles (oiiin, golfinhos, tão fofos #not!): ela tinha que ir pra praia enterrar a geléia e dias depois voltar pra desenterrar os 'ossos' que, obviamente, nunca estavam totalmente limpos, né?!

Eca!

Um beijo pra você!

Anônimo disse...

Menina, que trágico, que cômico hihi.
Acho que está na hora de vc aceitar o convite de Odisseus para cruzar os mares,... e muitas baleias com rabo abanando...
Beijo,
Ju

Rodolffo Saldanha disse...

"impregnou minhas roupas e meus sapatos, fez com que eu sentisse nojo de mim mesma, penetrou em minhas veias e cérebro."
eu ri lendo essa parte!
a saga por uma baleia viva tem que continuar né? rsrs

bj :)

Ashen Lady disse...

Quando criança, numa ida ao Playcenter com a escola fui escolhida para receber uma "beijo" da baleia Orca.
Levei uma baforada e um banho que me deixou o resto do dia com cheiro de peixe e fui zoada o caminho de volta no ônibus escolar.
Felizmente bastou uma chuveirada, espero que da próxima vez que você se deparar com uma baleia as circuntâncias sejam mais agradáveis e cheirosas.

Fabiana disse...

GENTE!, que pesadelo.

Ana S. disse...

Mas Rita, eu voltei ontem de um passeio à ilha de Florianópolis (moro em Porto Alegre) e vimos baleias (vivas!) no morro das pedras, ao sul da ilha! Era uma mamãe e um bebê. Segundo nos disseram, elas estão ali há dias, e vão descer para Pântano do Sul! E são 5! Corre lá!:)

Rita disse...

Ana!! Que ótima notícia, obrigada! Vou ver o que posso fazer aqui, no meio da semana fica difícil... mas valeu demais!!

beijos
Rita

Ana S. disse...

Rita, vc pode tentar no fim de semana. Elas estavam lá há 15 dias! Parece que nesse período de reprodução elas se deslocam muito lentamente. A melhor vista é do convento, é possível subir de carro. Não sei se vc conhece bem o local, mas é fácil de encontrar.
Bj.

Rita disse...

Conheço, sim, Ana. Fui lá várias vezes quando me mudei pra cá curtir a vista. Depois levei minha mãe lá também. :-)

Valeu, vamos ver se rola.

Beijinhos
Rita

 
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