Febre boa


Alguns efeitos das Olimpíadas nessa casa são inusitados. Meu filho de sete anos hoje me falou:

- Mãe, você anda assistindo televisão demais, hein.

Um folgado. Fiz cara de paisagem, mas depois usei o argumento imbatível:

- São só duas semanas, a cada quatro anos e...

E ele:

- Mesmo assim...

Aí acabei com o desaforo e mandei calçar os chinelos, onde já se viu.

Estamos imersos no mundo dos esportes, encantados com tanta graça, força, coragem, beleza. Hoje fiquei alguns segundos observando a plástica do salto da russa Yelena Isinbayeva, deliciando-me com a variedade infinita de possibilidades de nossos corpos. Olha o que ela faz. Um balé invertido com pernas para o ar, cabeça para baixo, as costas arqueadas por alguns instantes ultrapassando o sarrafo até que se dê a volta mágica e de repente seu corpo está de novo de frente para o sarrafo. Uau. E lá em cima ela começa a assistir sua queda vitoriosa - ou não. É lindo, um quadro lindo. O que gosto no salto com vara é que o movimento é relativamente lento, permite nosso deleite prolongado. Não que a gente não curta as passadas do Bolt, claro. 

Também estamos amargando nossos lamentos. Desde o início das competições em Londres, hoje foi provavelmente o dia em que vi a derrota que mais lamentei. Eu tinha como certa nossa medalha de ouro no vôlei de praia com Ricardo e Pedro. Mesmo feliz da vida com a incrível apresentação do ginasta Arthur Zanetti, cheguei em casa com cara de tédio por causa da eliminação da dupla de praia. Eu não vi a queda do Diego, um dia depois sequer sabia que ele tinha se apresentado, já que estávamos em trânsito no primeiro sábado dos jogos. Então hoje foi meu dia de "putz!". Um "putz" dito no carro, presos no trânsito, vendo o jogo pela TV do kit multimídia que nunca usamos e que só nos lembramos que estava ali depois que mais da metade da partida já havia se passado. Eu vinha tentando obter os resultados pelo twitter, mas a conexão do celular estava uma vergonha. Ulisses já tinha ligado para a mãe dele para saber do placar e estávamos apelando para o rádio, buscando alguma estação mãe que transmitisse os jogos. Até que de repente Ulisses falou as palavras mágicas: "Meu, esse troço tem TV". Somos mesmo feitos um para o outro. 

Nos próximos dias terei outras partidas para torcer, sofrer e esconder o rosto atrás do travesseiro às seis horas da manhã com medo de ver a bola cair no lado errado da quadra ou a rede errada balançar. Vou ainda almoçar com um olho no peixe e outro no cavalo, vibrar como se vibra em gol de copa. Foi assim hoje com aquela nota inacreditável de nosso ginasta (dei pulos olímpicos incríveis), espero que seja assim nas finais que conseguirmos disputar.

E para que meu filho não ficasse com a sensação de que estava sendo trocado pela TV, sugeri hoje que ao invés de assistir aos jogos, apenas deixássemos a TV ligada ali enquanto desenhávamos alguma coisa. Ele topou. Fez um desenho bem legal e ninguém pode dizer que não tentei mudar de assunto.

Olha, mãe, desenhei o hipismo.




1 comentários:

Angela disse...

Ha quanto tempo!

A TV aqui tambem esta tirando o mofo. Gravamos tudo no DVR e assistimos o que podemos geralmente tardao da noite. Duas noites anteriores me deliciei assistindo o Oscar Pistorius competir, hoje pela manha o prazer foi assistir a entrevista com Alice Coachman, a primeira medalhista negra a ganhar (ouro) nas Olimpiadas hoje aos 88 anos. As competicoes me inebriam e as criancas quando comecam tambem nao desgrudam. E Max quer estar ai 2016. Bjs!

 
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