Ebony and ivory


Com exceção das aulas de canto, não estudei música na escola. Quando tinha uns 17 anos comprei um violão de quinta mão vendido por um amigo que me ensinaria a tocar o instrumento. O violão deve ter pertencido a um hippie em algum momento, já que sua caixa era toda talhada com figuras "cabeça" como uma pirâmide, o símbolo do infinito, o símbolo da paz e umas folhinhas esquisitas. Deve ter custado muito barato, já que eu não tinha mesada, minha renda independente vinha das poucas aulas particulares que dava e paguei com meu dinheiro. Pois bem, só precisei de uma aula para perceber que eu não tinha qualquer talento para a coisa. Notei que eu tinha superestimado minha opinião sobre minhas habilidades com os dedos da mão esquerda. O violão ficou comigo durante muitos anos, sempre encostado na parede do meu quarto à espera de que algum amigo ou amiga prendado/a me visitasse para uma rodinha de som. Dei por encerrada minha carreira musical, tão nova, tadinha.

Quando meu filho começou a estudar música (flauta) no início deste ano passei a frequentar com ele as aulas de prática de conjunto, não como aluna, apenas como acompanhante. Nessas aulas passei a ter contato com alunos de piano, violino, violão ou percussão. O ambiente vibrante dessas aulas (certamente monótono para quem se importa em ouvir a mesma canção executada diversas vezes em pouco tempo) sempre me alegra, é um momento especialmente bom em minhas semanas. Aos poucos fui lamentando cada vez mais não ter experimentado algo além daquele violão maluquete. E estava assim lamentando quando me perguntei "por que não"? O pior que poderia acontecer seria constatar de novo que não tenho jeito pra coisa. E assim me matriculei nas aulas de piano.

Foram três aulas até agora que me deram um repertório de cerca de doze canções simplificadas para começar a brincadeira. Temos em casa um teclado que vivia guardado em um gavetão, herança da última banda de rock do Ulisses, o melhor brinquedo do mundo. Treino no teclado as canções que aprendo no piano da escola e digo feliz que estou me divertindo muito mais do que supunha possível quando me inscrevi no curso. O que eu tinha em mente eram horas de uma dedicação quase tensa, lutando contra minhas limitações. Não estava contando com o método de ensino que funciona e faz tudo parecer fácil ou, no mínimo, prazeroso.

Estou de novo desafiando minhas mãos, feliz por já ter ido além da primeira aula. Estudar as notas, praticar as sequências, repetir até conseguir executar tudo no tempo certo são meus novos passatempos. Não há qualquer pretensão além de tocar para mim mesma em minha sala tendo como plateia as plantas que observam da janela. E isso já basta para que eu olhe à frente e veja anos cada vez mais divertidos. Estou quase saltitante.



5 comentários:

Deh disse...

Ah Rita, que delícia. Ainda aprendo a tocar qualquer coisa. Nem que seja da meia-noite às sete. Parabéns pelo recomeço!

:***

Anônimo disse...

Parabens! Continue assim, saltitante e feliz! Pena que esse post nao tem som, queria ouvi-la tocar.
Beijos,
Ju

Angela disse...

Saltitante somos duas!

Evelyne Joyce disse...

Seu post me deixou com vontade de começar a praticar piano também!! *--*
Mas não, antes eu tenho que me empenhar bastante no violão (bastante MESMO porque estou por enquanto praticando a agilidade dos dedos sozinha, enquanto não tiro notas excelentes na escola, para ficar mais sossegada nos últimos bimestres) porque se eu deixar esse violão encostado, minha mãe vai reclamar o dinheiro empregado nele até o resto da minha vida. Hahahahaha
Depois que eu conseguir o feito de aprender violão (também não tenho nenhum talento, mas a esperança é a última que morre) vou aprender piano, está prometido. :D

Rita disse...

Vumbora fazer barulho, meu povo. :-)

 
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