Dos dias comuns


Houve um tempo em que abrir o diário e não ter o que escrever me deixava angustiada. Meu diário fechado com cadeado devia ter coisas importantes, afinal. Era algo secreto e segredo que se preza é valioso. Infelizmente para o grande mundo secreto dos segredos valiosos não eram raras as noites em que não havia muito a registrar. Nenhum menino me lançara um sorriso na escola, nenhuma amiga havia ido estudar em minha casa, nada acontecera. Eu então preenchia as poucas linhas do dia com frases doloridas como "hoje foi um dia comum" ou "escola, casa, nada diferente", fechava o cadeado, guardava o diário na gaveta e apagava o quebra-luz. Nos sonhos, a esperança de que o dia seguinte me presentearia com episódios importantíssimos, dignos de nota em letra bonita.

Não tenho mais lamentado os dias comuns, não nos últimos anos. Meus diários, se sua existência tivesse se espichado aos dias de hoje, agora viveriam abarrotados de letras atropelando-se para marcar na página tanto acontecimento. Com dois filhos, pfff, haja caneta, querido diário, haja caneta. Isso sem contar que compartilho os dias com aquele menino que me sorriu na faculdade, haja caneta.

A verdade é que a quantidade de poesia que preenche nossos dias, se prestássemos atenção, poderia nos deixar mudos e boquiabertos. Todos os dias. Talvez seja bom mesmo, tanta desatenção. Ou não? De vez em quando, contudo, a poesia fala tão alto que se faz inevitável: cabelos assanhados, pão quentinho, cachorro cochilando na escada, uma mão afagando minhas costas enquanto ligo a cafeteira. Meus diários poderiam ter guardado muito mais, hoje sei. Muito mais. "Dia comum" é coisa enorme, eu que não sabia.

Há ainda poemas por aí. Ou frases felizes como essa que um amigo compartilhou hoje na rede: 

"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida".

Tempo é o tecido da nossa vida, nota mental em caneta de tinta firme. E como se fosse pouco, fiz rabanada no café da manhã e os piados anunciam que temos de novo corujas em nossa rua. Eu diria assim: querido diário, veja que maravilha, meu dia hoje foi bem comum. 

11 comentários:

Fabiana disse...

Você é mesmo uma linda! : )

Tina Lopes disse...

Own

Daniel Nascimento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel Nascimento disse...

Lindo texto! É impressionante como acontecimento singelos, frases inesperadas surgem para que nossos dias "comuns" adquiram mais poesia.

Grande beijo.

Silvia disse...

Como hoje é simplesmente um dia comum, não tenho nada de muito interessante para dizer, então deixo um beijinho grande para a Rita que alegra os meus dias comuns :))Que alegria passar por aqui e sorrir!!

Rita disse...

Vou falar pra vocês que dias comuns com blog e os amigos e leitores que ando arrumando, tanto melhor! :-)

Angela disse...

20 de agosto para minha mae nao era um dia comum. Era o dia em que perdeu seus primeiros filhos, gemeos, aos cinco meses de gravidez, ha 40 e tantos anos. Mas o tempo, teceu algo diferente para ela nessa data. Eu e Pete, ha quinze anos atras, ignorantes sobre esse especifico acontecimento, nos casamos! E hoje as corujas, nasceram! Viva!

Rita disse...

Anginha!

Parabéns!!! 15 anos????? <3 Os primeiros 15, já??? Que delícia, queridos, parabéns. E eu me lembro demais que vi o vídeo e ri da aliança, lembra? ;-)

Um beijo grande, meus amores!
Rita

Dária disse...

Engraçado vc dizer que não tem mais diário. Para mim isto aqui era exatamente isto rs

Fabiana disse...

Rita, lembrei de você:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/ivan-martins/noticia/2012/08/noites-de-inverno.html

: )

Rita disse...

Dária, eu sei. ;-P

Fabiana, obrigada pela lembrança. Fui lá ler e gostei. :-)

Beijos!

 
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