Vida de filme real


O Arthur precisava de fotos antigas para uma tarefa da escola. Abri o grande portal das memórias impressas (já infinitamente menor que o portal das memórias digitais) e em dois segundos me vi cercada por fotografias em preto e branco de meus pais e avós, fotos do Arthur e da Amanda quando bebês, registros de outros tempos, outras vidas. Em um pequeno envelope plástico algumas fotos de minha própria infância renderam boas risadas e algum desaforo:

- Você saía na rua com esse cabelo, mãe?
- Ha ha, que engraçado, só que não.

Mais tarde comentei com o Ulisses que me acho muito sortuda por não sermos da mesma cidade. Acredito piamente que, caso ele tivesse crescido me vendo cruzar a rua para ir à padaria com aqueles cabelos, não estaríamos juntos hoje. Ele nega, generoso. E como o pensamento é um cavalo sem rédeas, fico imaginando que coisa maluca essa vida, que delícia esses roteiros de nossos filmes.

No ano em que nasci Ulisses morava em Juiz de Fora/MG, sua terra natal. Ficou por lá até os nove anos de idade, quando se mudou para Manaus/AM. Nessa mesma época eu vivia na mesma cidade onde nasci, no interior da Paraíba, onde roía as unhas e ia à padaria com aquele cabelo. Menos de três anos depois, ele se mudou para João Pessoa, numa época em que eu ainda brincava com meus amigos imaginários. Tempos mais tarde, em 1988, ele começou a faculdade em Campina Grande, quando eu ainda cursava o ensino médio em outra cidade do interior paraibano. E foi nessa mesma cidade que comecei minha primeira faculdade, que só largaria quase três anos depois para, só então, começar Letras no mesmo campus onde Ulisses já cursava Ciências da Computação e Engenharia Elétrica. E só um ano depois de entrar na faculdade de Letras, cruzei com ele a caminho da biblioteca. Com aquele menino que morava em Juiz de Fora quando nasci. E como se estivéssemos acostumados às muitas bifurcações antes dos grandes encontros, ainda colocamos Belo Horizonte e Florianópolis na equação, para ver se era mesmo isso. Pois era, mas só dez anos depois de nos conhecermos, sete anos depois de nos separarmos. De vez em quando olho para Arthur e Amanda e acho graça da quantidade de quilômetros que foram rodados para que esses dois nascessem.

Conheço histórias com roteiro de todo tipo, de casais que se olhavam desde sempre, de gente que começou a namorar praticamente na infância e está junto até hoje; gente que esperou em outro país por cinco anos até que o amor da vida concluísse a faculdade; gente que largou noivo quase no altar por um amor à primeira vista, fulminante; gente que se conheceu na balada; gente que encontrou uma cara-metade em terras muito, muito distantes. Não falo de "finais felizes", porque não saberia dizer o que é isso, mas todos esses exemplos de que me lembro agora são de pessoas que vivem atualmente suas histórias incríveis. Olho para essas histórias como se visse filmes bons daqui de dentro de meu próprio filminho. E gosto muito.

A foto escolhida para a tarefa do Arthur tem Ulisses e os irmãos em um barquinho, em Manaus. Tinha nove anos. Eu tinha sete na época e se uma fada tivesse me mostrado a foto e me dito que o futuro amor de minha vida era aquele menino magricela e que ele estava em Manaus, eu teria estragado tudo. Ele logo se mudaria de lá e eu poderia ter passado a vida toda procurando no lugar errado. Ainda bem que nem todo filme tem fada. 

 

1 comentários:

Angela disse...

Penso *bastante* nisso tambem de onde ele estava aqui enquanto eu estava ai.

O dia do seu reencontro em Florianopolis merece um post dedicado so para ele viu?

Outra pessoa que conheco: enquanto ela crescia em Campina Grande, morava no oeste do Canada e depois rodava o Brasil, ele crescia em Toronto. Enquanto ela morava em Austin ele morava em Londres e rodava o mundo muito mais ainda. Mas quando ela se mudou de Waterloo para Toronto ele voltou para casa. E dizem que quando se encontraram pela primeira vez em uma coffee shop, a conversa durou apenas quatro horas. O casamento vai ser no sabado e eu vou!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }