No intervalo


Eu queria um marca-páginas de conversa. Imaginem. Estamos eu e Ulisses lá na cozinha engajados na maior discussão filosófica (sei) do século e, pimba, lá vem Amanda perguntar se pode pintar. A gente responde e se levanta, vai lá e monta a parafernália, lápis, papel, pincel, borracha, sei lá. Volta a conversa. Onde estávamos? Não sei. Mas deixa eu te contar outra coisa. Daí eu tava lá na minha sala trabalhando e ... o Arthur quer ver o DVD que sumiu. Ah, filho, não sei, vê lá na gaveta. Tá, o que você ia contar? Putz, esqueci. Enfim. Um marca-páginas nos mandaria de volta ao lugar exato onde a conversa parou, à frase exata, ao suspense perdido. Seria um item bem útil, especialmente em uma família de desmemoriados como a nossa.

Gosto bem dos marca-páginas, os de verdade. São só objetos, mas vou chamar de generosos. Seguram a história para nós. É claro que sem eles também poderíamos retomar a viagem, sempre podemos decorar o número da página ou dobrar o canto superior dela. O charme, contudo, é deles. Ficam ali ouvindo os ecos das últimas frases que lemos e espiando as que virão. São eles que conhecem antes de nós o início dos próximos capítulos. Eles que leem antes a sequência que precisamos adiar para dormir, atender o filho, ir para o trabalho; ou simplesmente respeitam nossa preguiça e seguram as pontas. Meu favorito era um vermelhinho em formato de traça sorridente. Um bookworm (a palavra inglesa para "traça" -  e também algo como a gíria "rato de biblioteca"); a graça era colocá-lo entre as páginas e deixar a cabecinha espiando o mundo lá fora. Perdi por aí, esquecido em algum lugar. Em algum canto bagunçado do quarto do Arthur está um que herdei de minha mãe, de plástico, em espiral. Não gosto muito, porque deixa marcas no papel, mas tem valor especial por razões óbvias. 


Fofura em forma de marca-páginas, presentinho luxuoso da Mari. Veio com Mrs. Dalloway "ao redor". \o/

Charminho no i-pad. Sou dramática e fico com pena dos tradicionais. 

Um dia as pessoas visitarão marca-páginas nos museus. Olha, a maioria era de papel. É, como os livros. Verdade.



2 comentários:

Dária disse...

Eu coleciono marcas páginas. Farei meu próprio museu.

Mari Biddle disse...

<3

 
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