Melville e os pequenos torcedores


Alguns autores que leio despertam em mim uma vontade quase incontrolável de escrever. Largo o livro, normalmente quando termino a leitura, e venho correndo para o computador escrever coisas que ninguém vai ler. Às vezes o surto dura dias, semanas, às vezes meses. Sinto vontade de escrever assim como de comer ou dormir, necessidade mesmo. Isso em nenhum grau quer dizer que eu escreva algo digno de nota, não significa necessariamente que eu tenha talento. Também sinto vontade de pintar e não tenho qualquer talento para a coisa. Com a escrita, contudo, é como se logo ali estivesse a chave para a alegria ininterrupta. Procurar palavras, a busca sem fim, poderia me entreter por duas vidas.

Há autores, contudo, que me calam. Leio e as palavras parecem inalcançáveis. Nenhuma das duas situações reflete meu juízo de valor sobre as obras. Há livros que amo e me inspiram, outros que amo e me dão um branco total radiante. Este tem sido o caso com Moby Dick. Não me sinto capaz de escrever uma frase minimamente interessante após ler um capítulo escrito por Melville. Algo em seu bom humor, suspeito, não me permite arriscar nada: qualquer coisa soaria sem graça demais. Algo em sua fluência escancara meus tropeços. À primeira vista, pode parecer comparação simples e sem sentido; no entanto, não é bem isso. A leitura é um componente da escrita, ajuda a compor cada linha que criamos, então falo de causa e efeito, não de comparações estapafúrdias. 

Tenho gostado muito do livro, mas torço para que ele não acabe com um de meus passatempos favoritos. :-) Sai pra lá, Melville.

***

Arthur e Amanda brincam, aprontam, brigam, fazem as pazes. Vira e mexe, dão uma olhada nas Olimpíadas. E torcem. E como torcem. Vejo dois futuros sofredores. Arthur vibra a cada ponto do vôlei, lamenta cada saque na rede. "E isso lá é hora de errar saque??!", reclama, indignado. Invade o banheiro durante meu banho para me dizer, eufórico, que a Coreia do Norte ganhou no tiro de arco por um ponto, yeah! Almoça com os olhos grudados nos ginastas e, de boca cheia, não deixa ninguém comer em paz: "Olha isso!!". 

Amanda conta nos dedinhos a pontuação do set decisivo do vôlei. 20 para o Brasil, 22 para as adversárias. "Só dois, mamãe!!". Mas não dá, perdemos o jogo. Arthur lamenta. Ela consola: 

- É só fingir que foi a gente que ganhou, Arthuuuur!!!


2 comentários:

Silvia disse...

Olá tudo bem?
Rita eu acho que escreve de forma maravilhosa e tenho certeza que qualquer livro escrito pela Rita seria um sucesso!!
Se um dia publicar eu quero ser das primeiras a comprar!!
Beijinhos e tudo de bom!!

Rita disse...

Silvia, obrigada, querida. Toda gentileza do mundo em você. Beijinho,

Rita

 
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