Malas erradas, coisas esquecidas, férias velozes, Jogos Vorazes


Algo trava em meu cérebro e não consigo arrumar malas adequadamente para uma estação que não seja aquela em que me encontro no momento da arrumação da mala. Traduzindo: em Florianópolis, com meias grossas, moletom e encolhida de frio eu simplesmente não tinha coragem de botar na mala apenas roupas leves. Meu cérebro não deixava. Fiz um esforço enorme e coloquei algumas camisetas leves para o Arthur e uns dois vestidinhos para a Amanda (cada um acompanhado de uma meia-calça e uma blusa de mangas compridas por garantia). No momento em que pus os pés no aeroporto de João Pessoa pensei na mala das crianças cheias de blusinhas quentes. 28 graus. Sou gênia. Nem parece que morei por essas bandas por mais de duas décadas. Um dia eu aprendo, não percam a fé.

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A geladeira do avô das crianças tem frutas picadinhas e caixas de chocolates lotadas. Que infância, não?

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Ainda em Floripa: para não correr o risco de esquecer nada, tomei providências. Na véspera da viagem deixei tudo arrumadinho para evitar correria na hora de sair para o aeroporto, até os anéis que eu queria usar na viagem deixei separados, ao lado do relógio. Pus o carregador do i-pad (valiosa peça em tempos de i-books) dentro da bolsa da máquina fotográfica para evitar sustos. E lá, no mesmo lugar em que foram colocados, ficaram. Já no avião dei por falta da máquina, viajei sem relógio (bom, férias) e vieram só os dedos, nada de anéis. Quando a carga restante da bateria do i-pad acabar, não haverá Moby Dick, nem o livro que o Ulisses está lendo, nem eventuais jogos para os pequenos. Todo mundo curtindo a paisagem. Férias. Eu trouxe a cabeça porque esta ainda fica em cima do pescoço. Só me restou ligar para a pessoa que ficou em nossa casa e pedir que guardasse tudo, por favor.

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Viajamos com duas crianças, mas, olha, nem parece. Tranquilidade total. Conexão tranquila no Galeão, voos suaves, lanche razoável (que devorei como se fosse um banquete, estava faminta) e leitura descansada. Agarrei-me a Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Ed. Rocco, Tradução de Alexandre D'Elia) e concluí a leitura agora há pouco depois que as crianças dormiram, já vestida em meu pijama quente demais para a noite morna. Então. 

De tanto o povo falar, fiquei curiosa. Não fazia ideia de que se tratava de "literatura juvenil" (é assim que se chama?). Só me dei conta quando peguei o livro, que ganhei de presente de aniversário, e vi o selo da "Rocco Jovens Leitores". Naturalmente, a informação diminuiu bastante o grau de ansiedade diante da obra. Some-se a isso o fato de eu estar lendo também outro livro com apelo muito mais forte (pra mim, claro), é natural que minha relação com Jogos Vorazes tenha começado cambaleante. Dito isso, foi bem divertido. 

A história se passa num futuro desanimador, ambientada no que restou da América do Norte após uma série de desastres ambientais e guerras por sobrevivência terem quase aniquilado o continente. O que restou passou a se chamar Panem, um conjunto de treze distritos unidos em torno de uma Capital. Um levante dos distritos, conhecido com Dias Escuros, teria levado à destruição de um deles. Os doze distritos restantes passaram a viver sob o jugo da Capital que mantinha os moradores em uma espécie de escravidão, com racionamento de todo tipo de recursos e outras restrições severas. Para celebrar o poder da Capital e lembrar a todos que a rebelião não deveria se repetir, foram criados os Jogos Vorazes. Uma vez por ano, cada distrito é obrigado a enviar um casal de representantes para participar dos jogos que consistem, basicamente, em uma matança transmitida em tempo real pela TV. Somente um representante pode sobreviver e os  jogos duram até que os outros 23 estejam mortos.

Quem narra a história é Katniss, moradora do Distrito 12, o mais miserável de todos. A proposta do livro me pareceu interessante por várias razões, mas senti falta de profundidade em várias descrições (resoluções simples para situações de muito suspense tendem a frustrar expectativas) e acho que vários personagens poderiam ser bem mais explorados (alguns participantes dos jogos me deram a impressão de que teriam um papel bem maior na história, o que nem sempre se confirmou). Por outro lado, há personagens cativantes também e quem leu sabe que a pequena Rue está na lista deles. Além disso, a espetacularização da tragédia, uma população inteira torcendo por jovens que se matam em uma arena montada para transformá-los em bestas desvairadas, a crítica que a autora propõe quando aborda o papel crucial da mídia na manutenção do poder e do sistema são elementos muito bons na história. Ao mesmo tempo, a trajetória de alguns personagens, que prometem, mas não se mantêm interessantes, deixa no ar a sensação de tudo poderia ser bem mais rico do que é. Daí me lembro que o livro mira num público mais jovem, leitores adolescentes, talvez, e me pergunto se a autora não quis mesmo pegar leve. Certamente quis, acredito. No fim das contas,  gostaria de ler uma versão para maiores. :-) Há muito pano pra manga. Um futuro sombrio em um planeta semidestruído onde tudo sucumbe, menos a eterna mania de poder, o autoritarismo sem medidas da Capital, não parecem um prato pronto para um bom livro de ficção? Jogos Vorazes tenta e, em certa medida, até que se sai muito bem. E agora quero saber como nos outros dois livros da trilogia Suzanne Collins explora estes aspectos que ela aponta no primeiro livro. E ainda que o livro não seja excelente, pode ser uma boa pedida para longas horas de voo e uma noite morna de férias. E rende um tanto bom de papo legal. Férias. 


5 comentários:

Silvia disse...

Boas Férias Rita!
bons mergulhos e bom descanso, beijinhos

Cristiane Rangel disse...

Boas férias querida! Aproveite pq td mundo merece dias de descanço!
Bjos

Juliana disse...

sofro do mesmo mal que você,viu? Minha mala nunca e grande, mas sempre tem um monte de roupa inadequada ao clima. Em geral, não levo roupas quentes o suficiente. Quer dizer, eu me recuso a achar que vai fazer frio onde quer que eu esteja.hihihi

VocÊ disse tudo sobre o livro. Eu soube um pouco antes de ler que era um livro juvenil.

Rita disse...

Obrigada,gente, tô curtindo bem (mesmo com mala errada).

Beijos
Rita

Anjo Canhoto disse...

http://anjocanhoto.blogspot.pt/

 
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