Inverno: lado A, lado B


Gosto de frio, adoro o inverno. Mas. 

Na primavera gelada de Londres, dois anos atrás, lidávamos todos os dias com o choque de temperatura cada vez que saíamos de casa. Nos dias mais frios, com o termômetro oscilando entre cinco e quinze graus na rua, a temperatura dentro do apartamento que alugamos era muito, muito mais alta. Andávamos de roupas curtas dentro de casa, descalços ou de chinelos; os pijamas grossos que levei para as crianças voltaram para a mala no segundo dia de viagem. Se pudéssemos, teríamos diminuído o calor dentro de casa, mas o controle do aquecedor era centralizado. Na hora de sair era um pequeno sufoco: era preciso agasalhar bem as crianças para o frio da calçada, mas elas não aguentavam mais que dois minutos dentro de casa com tanta roupa. Vestíamos somente as roupas "de baixo", blusas no estilo "segunda pele" e thermal nas crianças; somente na horinha de sair, chaves de casa na mão, colocávamos as outras camadas de roupas. Bem agasalhados, raramente nos incomodávamos com o frio. Água sempre quente na torneira, a primavera com temperaturas de inverno era uma estação muito linda e só.

As temperaturas nos últimos dias têm sido bem baixas por aqui. E a gente se agasalha, usa luvas se preciso. A gente sabe que dura pouco e logo os termômetros ficam razoáveis outra vez, então a gente curte. Mas é claro que é irritante sentir tanto frio dentro de casa. Não é confortável. Adoro casacos, mas eles foram feitos para a rua e eu não queria precisar usar blusas pesadas dentro de casa. Mesmo vendo nossos filhos embrulhadinhos em seus edredons e tomando meu chazinho quente, calefação é aquela palavra que não nos sai da cabeça. É muito ruim se virar no colchão e sentir o lado vazio do travesseiro completamente gelado, quase úmido. É ruim ir ao banheiro. É preciso coragem para tomar banho. Mesmo com água quente nas torneiras, os primeiros jatos gelados que nos brindam quando vamos lavar as mãos ("fenômeno" comum por causa do sistema de aquecimento solar aqui) parecem saídos direto da geladeira. 

Imagino casas com estrutura fraca, com o vento penetrando por frestas e soleiras. É muita heresia dizer que os governos dos estados mais frios do país deveriam colocar calefação como item prioritário em construção de casas populares? Por mim, seria uma regra da engenharia por aqui. Porque se não tá fácil digitar com os dedos congelando, imagine ver seus filhos dormindo sob cobertores úmidos em quartos gelados. Eu gosto de inverno. Mas uma coisa é chá, sopa e fondue. Outra bem diferente é criança passando frio dentro de casa. Dureza. 

5 comentários:

Amanda disse...

Pois é, se eu tô passando frio dentro de casa aqui no Rio, imagino vcs aí embaixo! E minha pia tá com toda a louça da casa me esperando, mas cadê a coragem de meter a mão naquela água congelante?

Daniela disse...

Concordo plenamente, o frio que a gente passa aqui não é nada civilizado. Eu uso estufa e ar condicionado direto. A conta de luz vai para as alturas, mas se eu morasse no exterior iria pagar o aquecimento também. Mas quem não pode pagar tem que se virar colocando um monte de roupa mesmo.

disse...

Amanda, passando frio no Rio? Ah va! Quer enganar quem? :)

Mas na Rita eu acredito sim, no sul eu sei que é brabo. No inverno a gente passa mais frio no Brasil do que na Europa. Ano passado passei 1 semana de junho na casa dos meus sogros em Sampa e morri de frio!

Lembro que ganhei do Rô num dia dos namorados um aquecedor eletrico quando morava em SP, nossa, que felicidade! O problema era a conta de luz... eu ligava so' para aquecer o quarto, fechava tudo e desligava na hora de dormir.

Fabiana disse...

É o que sempre penso quando chove: que delícia pra mim, que inferno pra quem vive na rua, pra quem vive em encostas, pra quem é desamparado de tudo.

ismaelgoulart disse...

Eu concordo com você, moro no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, e manhãs abaixo de 5ºC são maioria no inverno. Eu moro em uma casa antiga, tenho lareira em casa e no meu quarto, meu banheiro tem um bom chuveiro e aquecedor, a água das torneiras é aquecida, mas mesmo assim sinto falta de uma calefação. É uma das coisas que tenho pensado muito em fazer no projeto da casa nova.

 
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