Flores



Se eu chegar aos 72 anos de idade, espero que seja, claro, com saúde e autonomia. Espero ter ainda projetos, disposição para tocá-los e vários motivos bons para olhar à frente sem muito temor. Quero ser tranquila, muito mais que hoje; mais terna também, mais lenta e seletiva. Quero, principalmente, olhar por sobre os ombros e gostar do que vejo. Quando eu tiver 72 anos, se eu chegar lá, quero memórias que exibam pés de galinha ao redor dos lábios muito mais que rugas tensas em minha testa e que essas linhas fundas de minha pele sejam rastro de tropeços úteis e, de preferência, que ecoem risadas. É claro que quero, é óbvio, todos querem. Mas tem mais uma coisinha. Quero que todos digam que ainda me pareço com você. Quero esticar a lembrança de você o tanto que eu conseguir porque você foi uma coisa bonita nesse mundo. Você trouxe bondade, beleza, amor e sabedoria; trouxe paciência, companheirismo, alegria, você tinha alegria. Era fácil passar despercebida nos últimos anos, eu sei, mas você tinha alegria e eu sei onde morava. Você foi justa, amorosa e tão generosa. Tínhamos diferenças enormes, mas elas nunca me impediram de ver a incrível mulher que você foi. É uma pena que você tenha ido embora tão cedo e que seus últimos dias tenham sido tão difíceis. Diferente de você, o mundo não é justo e você não pôde dar aos seus últimos passos a leveza merecida. Não era para ser como foi, com sofrimento e dor. Era para ter sido bailado ao som de sinfonias, com sorriso largo e saia solta, rodopiando num salão de amigos, como em sua juventude. Era assim que deveria ter sido. Mas o mundo não é assim. E amanhã você não vai completar 72 anos porque você partiu antes. E fico aqui me perguntando se vou chegar lá e então percebo que, se for, quero que seja seguindo o pontilhado que você traçou pra mim de bondade, generosidade, amor, ternura. 

Minha casa tem várias flores. Os girassóis que as crianças plantaram crescem tão rápido que fico impressionada. O que de manhã é semente espiando desconfiada por uma fresta na terra escura à tarde já é um galhinho arrebitado e altivo. Ulisses trouxe gardênias brancas e você gostaria delas. E os lírios invadem nossos narizes com sua fragrância onipresente, transformam nossa sala em um jardim que me lembra você, toda hora. Amanhã é seu aniversário e fico aqui falando de flores porque não sei o que fazer.

10 comentários:

Angela disse...

O texto eh lindo. Lindo como ternura e delicadeza de mae. Para mim, D Bernadete, apesar de fragilidades como todos temos, foi uma mulher forte. Apesar da saudade, celebremos sua existencia, sua vida, seu legado. Voce, Jr, as criancas, genros, noras, amigos e tantas vidas tocadas pela sua presenca. Um grande abraco.

Clara Lopez disse...

Muito lindisssimamente lindo e terno!
beijo, clara

Maite disse...

Lindo! Lindo! Lindo!
:*

Cristiane Rangel disse...

Querida, tenho certeza que de onde ela está sente todo esse teu amor, que transborda em palavras, que se fazem sentir tanto quanto o perfume dos lírios. Um beijo enorme!

Fabiana disse...

Não sei o que comentar, então apelo pro óbvio, que é o que eu sinto ao terminar de ler seu post:

<3

Silvia disse...

Um abraço Rita!
como não sei o que dizer deixo um abraço bem apertado.. beijinhos

Débora disse...

maravilhoso!!!

Beijos!!

Débora Matos

Anália disse...

Rita,
Eu acredito que as pessoas se eternizam pelas lembranças que deixam. Feliz a tua mãe, que continua a existir através de lembranças tão boas!
Bjs,
Anália

Rita disse...

Ô, gente, cês são uns doces. Obrigada mesmo, viu.

Um beijo carinhoso,
Rita

Anônimo disse...

Um abraço bem apertado!
Ju

 
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