A casa onde eu sempre morei


Em certa medida é assim: um pedaço difuso de mim nunca se mudou. Ontem visitei a casa. Meu tio agora mora lá.

Bom demais ver Arthur e Amanda tão entrosados com os primos, filhos de meus primos com quem também dividi parte da infância. Durante dois dias correram e gritaram sem parar pelo quintal que foi o meu quintal, jogaram e brincaram de tudo e se despediram com carinhas de quem queriam mais, muito mais. Vendo Arthur no carro na volta para João Pessoa, carinha de tristeza por se separar dos primos, pensei em como era mesmo tão triste o último dia de cada período de férias "nos meus tempos". Mas como era bom saber que meses depois tudo seria bagunça outra vez. Só para dar uma ideia do furdunço, Amanda hoje brincou de se pendurar em um varal de roupas. À certa altura, os pés do Arthur ficaram tão pretos que ele mesmo se assombrou: "nossa!". Pega-pega, esconde-esconde, uma variação de mamãe-filhinhos em que Amanda botou ordem em todos, detetive, pique-congela e sei lá mais o quê, tudo com muitos decibéis. Houve primo matando aula para brincar e cabelos tão emaranhados que achei que jamais conseguiria pentear. E planos de férias futuras, mais longas e com mais bagunça.

A casa cheia com seu ar para sempre vazio. A ausência de minha mãe é algo que quase consigo tocar com minhas mãos. Ou seria a presença? A presença dela em vários cantos. Minha tristeza por ver a beleza que ela não está vendo, seus netos brincando com os netos de seu irmão, crianças de quem ela também era um pouco avó. Seu túmulo tem margaridas e muita melancolia. Ao lado, o túmulo de Tia Maria. Cada visita que faço a essa cidade aperta tanto meu peito. Tanto. Minha saudade tem esquinas e salas muito bem desenhadas em minha memória e revê-las é resgatar dores. Ao mesmo tempo é também abraçar pessoas que se parecem com ela, que têm histórias com ela, que olham pra mim e se lembram dela. A vida vai por aí.

***

Os junhos da minha década de oitenta tinha sábados de canjicada. Meu pai trazia espigas de milho da feira local e em nosso quintal retirava a palha que mais tarde cobriria as pamonhas; a etapa seguinte, a retirada dos cabelos do milho, era minha tarefa. Durante todo o dia, mamãe, Tia Maria, eu e nossa cozinheira nos misturávamos na cozinha moendo grãos de milho, peneirando em grandes peneiras de palha (que chamávamos de arupemba), temperando, mexendo caldeirões gigantes com colheres de pau e, finalmente, no jantar, servindo travessas de canjica amarelinha temperada com canela (eu nem dava bola para as pamonhas, sempre fui canjiqueira). 

Ontem, quando cheguei por lá, uma bacia de espigas de milho me esperava no mesmo quintal. Minha prima e eu retiramos os cabelos do milho, dividi o moinho com o filho do primo que um dia me ensinou a andar de bicicleta, vi a esposa de meu tio temperar aquela maravilha com leite, sal e açúcar e mexi, num revezamento bem bagunçado com minha prima, o primeiro caldeirão de canjica em mais de vinte anos, a primeira canjica que mexi sem ter sido preparada por minha mãe.

Canjica boa é a que "dá corte". A nossa deu. A substância cremosa adquire uma consistência mais firme à medida que esfria. Para nós, a perfeição tem forma de fatias temperadas com canela e o auge da felicidade é comê-las no café da manhã do dia seguinte (gosto da canjica gelada, inclusive), com café quentinho. Obrigada, gente. Adorei. 

O moinho.

 
A arupemba.

O caldeirão.

A alegria.

Raspar o caldeirão é tradição. Fui atender a porta e quando voltei os esfomeados já tinham acabado com tudo. Aff.

Vem, gente.

The day after.

***

Estamos de volta a João Pessoa para os últimos dias de nossas curtas férias. As Olimpíadas já estão na área e vamos ver tudo, ou tudo que der. Eu ia reclamar de não ter marcado as férias para as semanas dos jogos, mas não posso reclamar de nadinha. Considero um luxo poder passar as férias das crianças com elas. De longe, estou no lucro. Mas vou torcer, chorar e contar medalhas, que sou dessas.

4 comentários:

lucieneteotonio disse...

Hummmm... que delícia foi tudo,
pena que passou rapidinho.
Os meninos foram deitar exaustos de tanto corre-corre rsrsrsrr
Amei as fotinhas da canjica,ah! vc demorou demais pra atender a porta kkkkkkkk não resistimos .
bjãooo querida até a próxima.

Nilma disse...

Rita, as vezes reclamamos do pouco tempo,mas na verdade o importante é viver esse momento,ele jamais voltará.Muito bom, a conversa, o café, a canjica, tudo.Ainda bem que não vi Arthur indo embora tristinho,só de saber fiquei de coração partido,kkk, fala para ele que logo,logo estará de volta.Daniel quando acordou disse que do pescoço para baixo doia tudo,kkk.Foi o que eles fizeram, aproveitaram cada momento.Abração, volta logo tá!!!!

Murilo S Romeiro disse...

Uai isso aí não é curau?
Canjica, pra mim, é branquinha...

Rita disse...

Murilo, depende de onde você mora. Na Paraíba, chamamos de canjica. A branquinha é mungunzá (que, por sua vez, aqui no sul é chamada de canjica como você diz). O importante é comer. Com canela. :-)

 
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