O truque


Existe uma praia em Alagoas chamada Ipioca. Muitos anos atrás me hospedei em uma casa de praia que pertencia a um primo meu. A casa foi emprestada à minha tia por uns dias fora da temporada e viajei com ela e seu marido. Foi a única vez que visitei Ipioca, de modo que  não faço ideia de como o lugar está hoje em dia. Naquele tempo, era uma praia relativamente deserta, com grandes casas de veraneio se multiplicando na área (essa foi a impressão que ficou, mas é bom levar em conta que visitei o lugar fora de temporada). Eu tinha dez anos e havia na casa outra menina da mesma idade, filha não sei de quem, que conheci durante a viagem e de quem nunca mais tive notícia. Ela foi minha companheira de férias e, por dez dias, minha melhor amiga para sempre.

As ruas de Ipioca eram todas de barro e por causa das chuvas passei aqueles dias enfiando o pé na lama. Era impossível chegar à praia sem cruzar as ruas com enormes poças de água barrenta e até hoje a cor marrom daquela água disputa espaço em minha memória com o verde do mar, os móveis de alvenaria da casa e a enorme mesa onde comíamos peixe todos os dias. Duas coisas tornaram aqueles dias paradisíacos para mim: as chuvas fortes com carão de temporal que despencavam à tarde, encharcando até os pensamentos, e a maré. A maré em Ipioca recuava quilômetros e eu brincava de dizer que seria possível caminhar até a África. Nas horas de maré baixa, andávamos muitos metros mar adentro com a água fresca e transparente na altura da canela. Minha tia voltou daquela viagem com muitas sacolas de conchas lindas que ela depois transformou em enfeites para sua casa. Eu amava aquelas manhãs de biquini, sacos de conchas, caminhadas "dentro do mar", lama na rua. Nossas tardes quase sempre tinham banho de chuva e bronca da minha tia, não necessariamente nessa mesma ordem.

Numa tarde, logo após o temporal, saí com minha nova melhor amiga para a praia. Fomos apesar dos protestos de minha tia, pois já tínhamos tomado banho e estávamos "arrumadas". Teimamos, digo, argumentamos que iríamos só até a esquina e evitaríamos as poças. Dez passos depois estávamos com os pés cobertos pelo barro mole recém formado com a chuvarada cujo cheiro inebriante ainda dominava o ar. Corremos às gargalhadas pelas ruas ladeadas por casas em construção, terrenos alagados e grandes casas desertas, rumo à praia,  dizendo uma para a outra que iríamos dar um pulinho rápido na África. Ao chegarmos à "praia" fiquei muda. Ainda me lembro do deslumbre que foi ver o mesmo mar que na manhã daquele dia mais se assemelhava a uma grande piscina cristalina agora transformado em um gigante feroz e terrivelmente barulhento. As águas turvas se quebravam em ondas imensas e ameaçavam o limite entre a praia e a rua. Toda a faixa de areia fora engolida pela ressaca, a praia havia desaparecido. O vento que quase arrancava meus cabelos nos forçava a gritar para sermos ouvidas e nem consigo dizer do medo que senti daquele Mr. Hyde enfurecido. Ficamos as duas ali, rindo nervosas diante das ondas absurdas que estremeciam o mundo como trovões. Ainda assim nos aproximamos do mar o suficiente para nos encharcarmos com os respingos que pareciam vir de todas as direções. 

Foi a maior bronca da viagem, obviamente. Horas mais tarde, depois de termos tomado banho novamente, minha amiga e eu ainda olhávamos espantadas uma para a outra, rindo de vez em quando. Não sei se ela ria só pela excitação da aventura, pela imagem impressionante daquele mar enorme. Sei de mim. Eu ria para disfarçar o terror que senti, o medo que tive de ser engolida por aquelas ondas. Ainda hoje o mar de Ipioca visita minhas lembranças envolto num ar ameaçador e tento me livrar da imagem rapidamente. Porque me lembro que até dançamos olhando aquelas águas escuras que se erguiam em enormes paredes vivas, mas enquanto eu dançava sentia muito medo de morrer ali, engolida pelo mar.  Eu brinquei de me sentir corajosa. Mas foi só brincadeira. De vez em quando ainda uso o mesmo truque. 


1 comentários:

Angela disse...

"Brinquei" disso sem querer durante o US Open of Surfing em 2007, em Huntington Beach. Estava assistindo ao Open em um lado do pier e resolvi dar uma mergulhadinha no outro lado do pier. Os segundos de antecipacao do que seria de mim enquanto assisti a onda gigante durou seculos. Sempre tive o pesadelo da onda tsunami mas nesse dia foi real. Angela 1 x 0 Mega-Onda.

 
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