O homem do gesso


Passei a quinta-feira me emocionando. O tanto que fui paparicada me estragou por décadas, coitados de vocês. Já escrevi em algum lugar desse blog que hoje em dia podemos ser rejeitados em várias frentes, no twitter, no facebook, no celular, no e-mail, etc. Também é verdade que podemos ser afagados nas mesmas frentes e, olha, ontem vocês capricharam. Ainda não sei se dei conta de agradecer a todos. Se deixei escapar alguém, saibam que li todas as mensagens em todos os canais e curti (mesmo) cada uma delas. Bando de lindos e lindas, vocês.

Conforme planejado, mantive a decisão que expressei no final do post de ontem: "ficar em casa ou, no máximo, jantar com minha família em algum lugar bonitinho". Pois bem. No fim do dia, enquanto íamos buscar as crianças na escola, Ulisses me convenceu a ir a um restaurante. Ele já havia feito a reserva e combinamos que seria algo rapidão, comer, brindar, voltar. Pegamos as crianças e fomos para casa. Arthur foi pro banho, arrumei a Amanda, minha sogra toda animada, queridíssima - bem sei que ela não gosta de sair à noite. Vamos lá. Quando estávamos saindo de casa comecei a me preocupar com a escolha do Ulisses, um restaurante que adoro, mas sem qualquer estrutura para receber crianças. Mais de oito horas da noite, as crianças com fome (o que, para a Amanda, nem sempre é sinônimo de "disposta a sentar e comer bem") e cansadas depois de um dia com natação, ensaio para festa junina, aulas - o cenário começou a me parecer meio tiro no pé. Mal saímos de casa, o telefone do Ulisses tocou. Pausa para contextualização.

Minha sogra em breve irá se mudar para seu próprio apartamento, num condomínio a dois minutos de nossa casa, cujas chaves recebemos na última terça-feira. Há dias Ulisses vinha tentando entrar em contato com o gesseiro que fará/faria o rebaixamento do teto em algum ambiente do apartamento. O homem nunca retornou as ligações. Fim da pausa.

Eu dizia que o telefone do Ulisses tocou. Era, claro, o homem do gesso, no exato momento em que saio de casa com minha família para meu jantar de aniversário. Ulisses trocou meia dúzia de palavras com o cara, das quais ouvi com especial atenção duas palavrinhas: "cinco minutos". Desligado o telefone, seguiu-se algo como:

- Amor, o cara do gesso tá aqui do lado, no apartamento da mãe, vou lá rapidão, cinco minutinhos só pra mostrar a ele...
- Cinco minutos, Ulisses? Onde que esse cara só vai tomar cinco minutos da gente?
- Pois é, que hora pra ligar, mas eu tentei falar com ele e ele não ligou antes e ..
- Ah, mas as crianças tão com a gente, Ulisses, vão ficar impacientes e com fome...
- Tá, eu vou só entregar as chaves do apartamento pra ele e a gente vai embora.
- Você vai entregar as chaves do apartamento prum cara que você nem conhece?
- Ah, ele foi indicado por Fulano.
- Ulisses...
- Esquenta não, etc.

Nesse momento minha consciência me mostrou que eu estava enchendo o saco do Ulisses que, gentilmente, tinha me convencido a ir jantar com ele para um brinde de aniversário, todo empenhado em tornar o dia mais legal e tal. Falei, então:

- Tá, faz do jeito que você achar melhor.

A essas alturas, já estávamos entrando no condomínio, praticamente ao lado de nossa casa. O carro estacionando e eu pensando "não vou nem descer do carro". Ulisses abre as portas e convida: 

- Vamos, criançada, dar uma olhada no apartamento da vovó. 

Olha. Suspiros. 

Seguimos pela área de lazer do condomínio e aí desencanei. Comecei a parabenizar minha sogra porque o lugar tá uma graça e eu ainda não tinha visto a área de lazer depois de pronta, tudo novinho e bem cuidadinho e muitos outros inhos. Eis que o homem do gesso liga novamente para dizer que estava esperando pelo Ulisses numa salinha de reuniões do condomínio, sei lá onde, ali perto de nós. Seguimos. Ulisses atrasou o passo para pegar Amanda, acho, e apontou "é aí, amor, nessa porta". Cheguei até a porta e dobrei à direita para entrar. O mundo explodiu.

Um estouro de gritos, palmas, risadas, coisinhas luminosas caindo sobre minha cabeça, um cenário tão completamente inesperado que precisei de muitos segundos até ser capaz de absorver aquilo ali. Enquanto eu preparava minha pior cara de poucos amigos para encarar o "homem do gesso" que estava atrasando meu jantar, dei alguns passos e me deparei com uma salão de festas cheinho de muitos amigos. Uma festa surpresa bem barulhenta. O homem do gesso nunca existiu e em seu lugar comecei aos poucos a reconhecer cada rosto, a receber cada abraço. Não sofro do coração, falei pra vocês? Com a ajuda de amigos, Ulisses providenciou tudo e os detalhes tinham tanto amor que todas minhas carências devem ter sido extintas definitivamente. De cada balão preso no teto pendiam fotografias minhas com pessoas queridas que não podiam estar ali. Amigas que moram longe, minha mãe. Fotos de minha infância e adolescência (imaginem os cabelos). A sala estava linda, colorida e cheia de gente querida. Arthur dançava e batia palmas junto com seus amigos que também estavam lá. Amanda surgiu com flores e Ulisses me deu outras para eu enfeitar os vasos solitários das mesas e minha mão tremia tanto que eu mal conseguia enfiar as flores nos vasinhos. Uma taça de champanhe aterrissou na minha mão. Outro amigo, outra amiga, outro abraço. Foram muitas horas de muvuca, abraços, afofações, brindes, bolo. Eu queria saber dizer bem direitinho como me senti, mas minha competência linguística não vai tão longe, desconheço as palavras.

Aos poucos os bastidores foram se revelando e certamente ganhei anos de vida com o tanto de risada boa que dei. Todo mundo me enganou. O amigo que nem me deu os parabéns na escola das crianças, enquanto ele também buscava o filho, me fez conversar sobre o presente que eu receberia em breve sem que eu soubesse. Ninguém me ligou durante o dia, mas, né, tava todo mundo ali no Facebook, com mensagens tão carinhosas... o tal documento que Ulisses precisava levar no banco era balela, álibi para ir providenciar os preparativos. Atrapalhei um monte porque precisei do carro no meio da tarde para buscar um bolo que serviria aos colegas no trabalho, bem na hora em que Ulisses iria buscar a comida encomendada. O livro mencionado no café da quarta-feira virou presente de outro amigo. A vizinha me abraçou de manhã, na academia de natação das crianças, com cara de paisagem. A esposa do "homem do gesso" me perguntou no Facebook se haveria "um bolinho" à noite. Respondi que não... A propósito, o nome do amigo que se passou pelo "homem do gesso" no telefone é Daniel. Caso eu tivesse visto a tela do telefone do Ulisses no momento da ligação-senha, não teria visto "Daniel", mas "Fernando - gesso". Assim, bem cinematográfico. Arthur sabia e não revelou nadinha. Para Amanda, tudo foi surpresa também.

À certa altura da noite, levei as crianças e minha sogra para casa. Depois voltei para o melhor presente de aniversário da vida e comi, bebi e conversei até as três horas da manhã. Já agradeci mil vezes, mas a balança ainda não se equilibrou. Estou em dívida com todos.

Foi o maior abraço do mundo. Obrigada, vocês.
Obrigada, Ulisses, de novo. A vida com você é absurda de tão boa.

Falando sobre o futuro, escrevi no final do último post que "a gente nunca sabe." Olha aí. Nunquinha. E se é verdade que alegria rejuvenesce, na noite de quinta-feira fiquei bem mais nova.  



16 comentários:

Juliana disse...

eu, a louca por aniversário, a entusiasta das festas surpresas, até me arrepiei!
que lindo, rita!!!!

Ah, os balões! Lindeza de ideia!

Liliane disse...

Quelle emotion!!!! Des larmes dans mes yeux m'empéchent de dire plus! Toute cette amour c'est à toi! Profitez-en!
<3<3<3

Renata Andrada disse...

Lindos os gestos, lindo seu relato. Me emocionei. E parabéns - um tiquinho atrasado mas com carinho.

Um beijo!

Caminhante disse...

Meus parabéns ao Ulisses e demais conspiradores - nunca soube de uma festa surpresa que tenha sido 100% surpresa, que legal!

Claudia disse...

Mais uma vez vc escreve emocionando do incio ao fim....bjocas Rita..

Lílian disse...

Que coisa mais linda do mundo inteirinhooooo!!! Parabéns, deu prá sentir através destes milhares de quilômetros o carinho, o frisson, a surpresa, o encantamento. Eu aqui feliz por você, por vocês, por esse momento inesquecível - que presente lindo! Chorando, viu?... :***

disse...

Que delicia de surpresa, adorei!

Daniela disse...

ai, Rita :-)

e feliz aniversario atrasado. os parabéns vem depois, mas espero que meu amor tenha chegado a tempo.

Silvia disse...

Que maravilha Rita!! fico muito feliz pela surpresa boa que recebeu!!
A felicidade está nestas pequenas coisas, onde o amor está presente não é preciso mais nada!
Beijinhos e obrigada também pelos parabéns, vou festejar amanhã em família com um belo churrasco!!!

Luciana Nepomuceno disse...

Uma festa delícia e merecida. A gente nunca sabe. ;-)

bjs

Helena disse...

Nossa, deu até vontade de chorar lendo teu relato, que coi sa mais linda! Parabéns de novo, pelo aniver e pela familia linda! Beijos

Rita disse...

Foi tão bom, tão bom, tão bom que ainda me emociono toda vez que penso no momento da minha chegada lá. :-)

(Dani, chegou, sim. :-**)

Obrigada, gente, por vibrar junto comigo.

Bjs,
Rita

Anônimo disse...

Que surpresa linda! Parabéns mais uma vez. Toda felicidade do mundo para você! Muitos beijos,
Ju

Angela disse...

Li esse post bem depois do fato e vibrei muito super atrasada! Ulisses danado, familia maravilhosa, o timing pefeito imagino nao ter sido por acaso. Um grande beijo!

Fabiana disse...

Que linda você, que linda essa comemoração! Vibrei daqui com a sua alegria. : )

Fabiana disse...

Ai, nem tinha lido o seu "Obrigada, gente, por vibrar junto comigo"!

 
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