A mesa


Quando nos mudamos para a casa onde moramos atualmente deixamos a sala de jantar fora da lista de prioridades. Montamos os quartos, fizemos uma pequena reforma nos fundos da casa, trocamos o sofá. A mesa de jantar viria um dia, quando as crianças fossem maiores e já não usassem a sala como pista de motocas. Nos últimos anos temos improvisado quando recebemos visitas, por falta de espaço para que todos comam juntos à mesa.

Ontem recebemos nossa nova mesa, uma távola retangular grande o suficiente para Ulisses sugerir a instalação de interfones nas cadeiras, ha ha. Adorei o efeito que a mesa teve em nossa sala, trazendo ares de, não sei, casa de fazenda. Talvez pela madeira, as cadeiras de espaldar alto de que gostei demais, talvez pelos tons de marrom, não sei ao certo. Algo em minha sala agora me faz pensar em casas de campo. Ah, como gostei. 

Inaugurei a mesa lendo a biografia de Clarice (ainda). Optei por seguir com ela ao invés de voltar às páginas do livro da Fal, que comecei a ler ontem à noite. Raramente leio dois livros ao mesmo tempo, mas não resisti à tentação de dar só uma olhadinha em Sonhei que a Neve Fervia, recém-comprado, e lá ia eu pela página 45 antes de piscar. Engraçado como as coisas se misturam em minha cabeça oca e hoje pensei que o tal pensamento de "sala de fazenda" em torno de minha nova mesa ecoa o lugar onde a Fal se recolheu após a grande mudança ocorrida em sua vida, tema central de seu livro. E naquelas sequências imprevisíveis que nossos pensamentos formam, recordei uns papos com a Fal em que falávamos sei lá o quê sobre Veríssimo, o filho. Penso nisso e duas páginas depois leio sobre o período em que Clarice se aproximou da família Veríssimo, nos anos em que morava em Washington. Leio e fico com uma vontade danada de falar com a Fal, pensamento que abandono porque, na verdade, não há assunto. "Oi, acabei de ler sobre quando a Clarice conheceu Verissimo, o pai", não, ela tem mais o que fazer. A sensação de histórias intercaladas, no entanto ficou, e acho isso muito engraçado. Como se eu estivesse lendo os dois livros de forma complementar, quando um não tem absolutamente nada a ver com o outro. Divagação, meu nome do meio. 

Vou lendo sobre os trabalhos de Clarice como colunista de moda e "comportamento feminino" para pagar as contas enquanto não conseguia publicar seus livros, sobre sua luta contra a depressão, contra os fantasmas de sua infância pobre, as lembranças do sofrimento de seu pai forçado a abandonar sua terra natal. Vou lendo e tentando imaginar suas angústias. Acostumei-me a pensar em Clarice como grande escritora celebrada, o mito literário, de modo que tem sido de descobertas a leitura dessa biografia que revela tanto da mulher insegura, ansiosa, arrebatada por uma inteligência ímpar e um olhar tão analítico que a levava às raias da loucura. Como disse a Caminhante, saber das dificuldades enfrentadas pelos artistas só aumenta nossa admiração. Clarice não teve vida fácil, perdida entre papéis sociais que desgostava e uma busca incessante por descrever os mistérios da vida. Obviamente, percalços não são garantia de talento, mas em Clarice sofrimento se convertia na efervescência de sua escrita. Também vou lendo e me decepcionando, mas só um pouco, tenho sido generosa nos descontos. Não consigo, no entanto, não me incomodar com algumas observações feitas pela escritora que deixariam as feministas do mundo de cabelo em pé. Vou lendo e xingando "tá, doida, Clarice?". Toda íntima, eu. Sentou à mesa comigo, rolou certa intimidade, sabe como é. 

Uma mesa seria uma mesa e só, não fosse pelas pessoas que reunimos ao seu redor ou pelos textos que espalhamos sobre ela. Que bom que a tal mesa nova é bem grande, comporta muita conversa jogada fora, tal qual nesse post. Vem, Fal.

10 comentários:

Silvia disse...

Bom dia Rita!!
Como sempre, adoro tudo o que escreve, bem haja Rita por transformar um assunto "banal" numa história, a sua história que é sempre tão rica e que nos inspira!! beijos

Silvia disse...

Queria também dizer que sigo o Blog com muito carinho, sinto como se fosse parte da família( desculpa o abuso!!)e quase todos os dias ou sempre que posso venho fazer uma visita, e costumo dizer a mim mesma: vou ver como está a Rita!! e ás vezes quando as coisas não estão bem porque faz parte da vida também os momentos menos bons, fico triste :(.
Mas quando corre bem fico contente por estar tudo bem :) Não te conheço mas desejo tudo de bom na tua vida, beijinhos

Tina Lopes disse...

Ai que boba, Rita, pelo pouco que conheço da Fal esse é o tipo de e-mail que ela mais curte receber ;)

Rita disse...

Silvia, obrigada pelo carinho. Você sabe que esse blog me traz tantas alegrias... e entre as mais celebradas em meu peito está esse ar de bate-papo com café de seus comentários. Beijos e seja sempre muito bem vinda.

Tina, é verdade. :-)

Bjs domingueiros, pessoas.
Rita

Juliana disse...

eu tenho o Correio Feminino, o livro com esses textos " femininos" da Clarice, e quase morri quando os li. Aí um amigo , numa conversa qualquer,disse: " aquelas coisas que a clarice teve que escrever pra comer." Fiquei com essa frase na cabeça.

A gente tem que ser genorosa com os nossos " ídolos", né? È tão fácil esquecer que eles são de carne e osso feito nós. Tô curiosérrima pra ler essa biografia.

Mari Biddle disse...

<3 <3 <3 Só isso que tenho a dizer sobre esse post, sobra a Fal, sobre esse blog...

Caminhante disse...

Clarice sem ser musa? Também não consigo imaginar. E vou ficar sem imaginar, porque taí uma biografia que eu nunca me disporia a ler.

O livro da Fal me falta coragem de ler, porque sei que vou passar mal de chorar.

Anônimo disse...

Essa bio está aqui há tempos, tantos outros livros na fila, vou lê-la, e o livro da Fal não sei do que trata, vou me informar, mas essa sua conversa está ótima, só queria dar uma olhada na mesa ::)
bjo,
clara

Dária disse...

Se você escrevesse um livro, eu comprava. Juro que comprava!

Vivien Morgato : disse...

Eu to com a Dária.;0)
A Fal é uma fofa, vai curtir saber que ....foi curtida.

 
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