Da sede que faz feliz. E alguma melancolia.

Eu.


Eu tinha imagens idealizadas durante a infância do que seria a eu adulta, visões esporádicas e sem muitos detalhes. Hoje tentei resgatar a forma dessas lembranças, mas não tive muito sucesso. Consigo me lembrar de que pensava nisso, mas não consigo saber que contornos eu dava a mim mesma nos pensamentos. Só ficou isso: eu me via feliz.


Depois que a gente cresce e, como o Renato Russo, entende que não é mais criança a ponto de saber tudo, é comum perceber que o conceito de felicidade é algo bem mais amplo que nossas idealizações infantis. O tempo nos mostra que não importa o quanto gostemos da vida que levamos, de vez em quando todo mundo vai se deparar com as incertezas, os equívocos, as escolhas infelizes, as dores, as perdas. A boa notícia é que a gente também se depara com as boas descobertas, com o aprendizado, as boas escolhas, as alegrias, o crescimento. Vou achando que se sentir feliz parece ter mais relação com a forma como lidamos com a geleia da vida do que com a quantidade de eventos "bons" ou "ruins" que cruzam nossos caminhos. E que se libertar de um conceito idealizado de felicidade é um passo importante para se sentir bem nesse mundo. Acho que fiz isso há bastante tempo e talvez esteja aí uma das razões de eu me considerar uma pessoa feliz, ainda que eu tenha sempre tido, aqui e ali, motivos para me preocupar, reclamar, lamentar, etc. Porque ninguém é feliz o tempo todo, obviamente, mas ainda é o conjunto da obra que importa.


Sei que larguei um tanto bom de bagagem pelo caminho, trocando por outras cargas que julguei mais leves ou mais atraentes. Ainda assim, olho para a eu criança, ou para o que ficou dela em minhas memórias, e vejo que trouxe para a vida adulta algo muito valioso que eu já trazia comigo lá atrás. A sede veio junto, cresceu comigo. Ainda quero aprender mais, no sentido mais vasto a que essa palavra possa remeter, todo dia. Pode ser aprender a ficar quieta, a ouvir; a falar outra língua, dançar outro passo, conhecer outro quadro; aprender um jeito mais eficiente de aproveitar a infância de meus filhos, aprender uma receita nova, conhecer outro país; aprender a pilotar um barco, fazer um coque ou tirar mancha de tecido; qualquer coisa. Eu gosto assim: não sabia e agora sei. Gosto de saber que ainda serei muitas outras a cada dia, pelo tempo que for. Isso me faz feliz.


Eu tinha vinte e quatro anos quando conheci Ulisses. Tinha trinta e três quando meu primeiro filho nasceu, trinta e cinco quando a caçula chegou. Não há a menor chance de eu dizer que tenho saudade dos meus vinte anos. Eu fui feliz aos vinte, também, mas minha vida tomou dimensões tão maiores nas últimas duas décadas que seria meio incoerente lamentar a passagem do tempo. Eu quis muito aos vinte, muita coisa, e, ainda assim, não consegui visualizar naquela época quão feliz eu me sentiria agora, aos quarenta. E quem me conhece sabe que tenho minhas fontes de choro e saudade, tenho tristezas não resolvidas como todo mundo, tenho fracassos e desistências e medos e traumas, um tanto bom de frustrações. Mas a soma do que vi, li, descobri, aprendi e até do que me esqueci, tudo me empurra para um estado de espírito de bem com a vida. Também é verdade que tenho medos imensos desse mundo e que ter filhos é perder um pouco a paz, mas enfrentar os medos e ver os filhos crescendo parece compensar a tremedeira. No fim das contas, remo, remo e o nome da ilha é amor.


Ontem terminei a leitura da biografia de Clarice e, do nada, um detalhe sem qualquer importância deixou meu coração aos pulos. A data da morte dela coincide com a data da morte de minha mãe, 9 de dezembro. Foi a gota d'água que faltava para eu encarar a falta que se anuncia para este 21 de junho. Mais uma vez não haverá o telefonema dado bem cedo com sua voz orgulhosa de mãe coruja me saudando. "Quarenta, hein", ela diria. Bem sei que haverá muitos abraços por aqui e que a tristeza será cercada de afagos. É uma ótima certeza, eu diria, apesar do vazio deixado por ela. De novo, a vida tem disso e quero os abraços que valorizo com o coração cheio.


Optei por não fazer nenhuma comemoração barulhenta. Vou ficar em casa ou, no máximo, jantar com minha família em algum lugar bonitinho. Sei que vou convidar aquela menina que idealizava felicidades futuras para que ela veja que a gente nunca sabe. E com esse pensamento vou encarar a nova etapa. Que venham outros quarenta. 



15 comentários:

Dária disse...

E como eu vim ler este texto pontualmente as 0h: Parabéns Rita!!! =)

Você é uma daquelas pessoas únicas, que a gente não precisa ver, não precisa conhecer, pode nunca ter ouvido a voz... mas sente! Sente por perto. Conhece, compreende. Deseja conhecer. Sinto que leio tanto seu blog, que reconheceria tua voz se te ouvisse falar, ou talvez, reconhecesse a maneira de falar.
Gosto de imaginar as pessoas, a vida delas. Passei a adolescência inventando histórias e diálogos com pessoas reais de um mundo virtual.

Vou ficar agora aqui imaginando o quanto eu conseguiria bem imaginar você. E se daqui a 40 anos você será uma velhinha a quem darei os parabéns numa caixa de comentários de blog. E se ainda haverão blogs. Se existirem ou não, sei que o tempo em que eles duraram valeram a pena pela simples oportunidade de poder ler pessoas como você ;)

Beijão

Continue feliz! =*

Angela disse...

O vida boa mesmo:
Eu aqui
Tu ai
um pouquinho depois da meia noite
e o Feliz Aniversario ja ta chegando.

Tu com saude
com criancas
com Ulisses
com blog
e projetos mirabolantes.

Nao desejo que a saudade va embora,
so que se misture com a alegria.

Mega Beijos Astronomicos!!!
Saudades

Murilo S Romeiro disse...

Parabéns! Feliz aniversário!
abração

Luciana Nepomuceno disse...

Lindo post, linda você. Queria eu fazer letrinhas virarem abraços. Nem preciso desejar que seja um Feliz Aniversário...sei que será, há tantos que a amam e estarão aí, pertinho, pra fazer, da vida, riso e sonho. Mas quero dizer: parabéns! parabéns pela força, pela suavidade, pela acolhida, pelo olhar. Parabéns pelo caminho e pelo andar. Parabéns pelos valores, pela dúvida, pela esperança. Parabéns por ser quem é e querer ser ainda além. Todo meu querer bem e admiração, baby.

Lílian disse...

Oi, Rita. Puxa, lembrei dos meus próprios 40, de uma conversa que tivemos no carro (eu a caminho do aeroporto para voltar a Jampa) e, por tantas razões, fiz uma historinha prá você, há tempos eu não fazia uma em aniversários... Engraçado, também citei o Russo Renato, algumas coisas sobre tristeza e agora penso que a vida é assim mesmo,tão cheia de encontros - talvez por isso seja tão, tão linda, apesar de todas as melancolias. Parabéns, Rita, muitos afagos prá você. :***

Fabiana disse...

Que post lindo.

E parabéns, sua fofa. : )

Maite disse...

Clap! Clap! Clap!
Lindo post! Amei!

Um abração meu, virtual porque só 'rola' assim, mas sinta-se abraçadona de verdade!!!

Feliz aniversário!!!
E muitos beijos também, claro!

Tina Lopes disse...

É amiga, viramos adultas. Felicidades, amor, abraços pra você. =***

Clara Lopez disse...

Que bom que eu entrei aqui, que é hoje e que é seu aniversário de quarenta anos - PARABÉNS!!
Poucas pessoas podem fazer um balanço de uma história tão bonita, e da forma como você o faz: sutil e terna.

Desejos outros quarenta cheio de alegrias erealizações, pessoais e profissionais,
beijo,
clara

Ana S. disse...

"Quarenta anos
Não quero a faca nem o queijo
Quero a fome" (Adélia Prado)
Feliz aniversário Rita!

Deise Luz disse...

Me identifiquei com essa sua reflexão sobre a felicidade, Rita. De ela ter mais a ver com o modo como vemos e lidamos com a vida do que com as coisas boas que podem nos acontecer.
Acho que é bem isso mesmo.

Feliz aniversário! =)

Anônimo disse...

Texto lindo, amei! Feliz aniversário :)Ana Carolina

Silvia disse...

Feliz Aniversário Rita!! um pouco atrasado eu sei, mas de coração!!
Que a vida reserve muitas alegrias par preencher os seus dias, são os meus votos!! beijinhos


fazemos anos quase no mesmo dia, Rita!! eu fiz dia 20 de Junho!!

Rita disse...

Obrigada, povo! Mando de volta um abraço bem apertado em cada um de vocês.

Ângela, tinha foto sua na minha festa surpresa... :-)

Silvia, feliz aniversário!!!!!!!!!

Beijos, amores.

Anônimo disse...

Adorei seu texto. Me detive nesta parte "...aprender um jeito mais eficiente de aproveitar a infância de meus filhos." Muitas vezes tenho a impressão que não estou aproveitando. Quero mais...
Foi muito bom falar com voce hoje, mas deu a saudade. Liga se vieres mes que vem.
Toda felicidade do mundo!
Abraço apertado,
Ju

 
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