Cana



Quando a velha casa foi comprada, o quintal era cheio de pés de cana. "Quintal" é modo de dizer, porque o minicanavial cobria praticamente metade de todo o terreno. No início da reforma, que durou meses, muitos pés foram derrubados, mas algumas fileiras foram deixadas ali por um tempo, esquecidas diante de tanta parede a ser erguida. E era lá, entre as folhas afiadas que abriam talhos nos dedos mais distraídos, longe das pilhas de tijolos e da poeira branca do cimento, que a menina se perdia e se encontrava. O tempo do canavial era o tempo dos passeios impossíveis, quando ela se reinventava mais forte, mais esperta, sem o susto do olhar. Era lá, escondida entre as folhas delgadas, que ela tocava sua alma e experimentava a certeza de que o mundo estava a seu dispor, pronto para ser reinventado também. Brincar entre os nós dos pés de cana e suas medulas de açúcar, enquanto conversava com a legião de seres que existiam para servir seus devaneios, tornava a vida mais que suportável: devolvia-lhe o sentido. Quando entrava para o banho, o prato sem graça e o uniforme amassado, era com saudades que o fazia. Arrastava o resto do dia pelas alças da mochila e apertava forte o lápis sobre as linhas do caderno, porque lhe faltava leveza mesmo. Dormia devagar, entristecida. Ou tinha assomos de revolução e sonhava agitada, antecipando como uma vidente. Fosse como fosse, corria para o quintal na manhã seguinte. Se chovesse, tanto melhor.

  

4 comentários:

Dária disse...

Bonito! Gosto destes seus textinhos mais literatura =*

Silvia disse...

gostei muito Rita! lindo mesmo!
Beijinhos

Rita disse...

Thanks, gurias. :-***

Anônimo disse...

Adorei :)
Ana Carolina

 
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