Os planos e as cordas



Vira e mexe Ulisses vem com aquela conversa do barco. Que um dia viajaremos pelos mares por aí. Hoje afirmei que, tudo bem, eu topo. Com uma condição: deixaremos uma corda prendendo o barco à nossa casa. Uma corda bem grande para que a gente possa ir bem longe, o quanto ele quiser. E para que a gente possa voltar em segurança se algo der errado, tipo, se nublar. Ele me olhou com aquela cara. Aí eu disse:

- Você sabe que eu vou, não sabe?

E ele disse:

- Claro!! Quando a gente estiver em alto-mar eu removo a mordaça e as cordas que estavam te amarrando e digo "ah, amor, que bom que você veio".

São uns planos aí que a gente tem.

***

Adoro saber dos planos dos outros, assim como adoro alimentar os meus. Os favoritos são os radicais, como largar o emprego (ainda que temporariamente) e sair pelo mundo; ou sair pelo mundo, simplesmente; ou mudar de país, nem que seja por um tempo determinado, para experimentar outros olhares. Tenho alguns amigos nessa vibe agora e acho que eles estão vivendo partes importantes de suas vidas, torço por eles. Outros já embarcaram e ainda saboreiam o gostinho que é lançar-se no mundo sabendo que isso intensifica muito nossa percepção do que é estar aqui. 

Ainda me recordo do frisson que era planejar a mudança, do friozinho na barriga que vem com a decisão de abrir mão do bom salário. Ou embarcar em uma viagem longa apenas com metade das pontas amarradas. Botar à prova a fluência na língua estrangeira, com a cara e a vontade. É muito bom. É vibrante, instigante. Claro que há milhares de modalidade de planos ousados que não necessariamente envolvem passagens e malas. Minha loucurinha atual tem mais cara de paredes que de mares, e nem por isso me excita menos. É Ulisses que vem com esses papos de ir por aí, sabe. Gosto dessas conversas que espicham a vida lá pra frente, então imaginamos o céu impossível que poderemos ver da popa. Ou da proa, sei lá. Antes disso ainda há muita terra para a qual pretendo arrastá-lo e vou ganhando tempo à espera de que o Amir Klink que mora em mim dê o ar de sua graça. 

A essas alturas vocês já perceberam que estou escrevendo sobre nada. Estou só alimentando minhas caraminholas enquanto seu lobo não vem. De vez em quando levanto voo e saio por aí, sem cordas, com meus delírios mirabolantes, minhas viagens que podem ou não se converter em fotografias um dia. Quem sabe. Na minha última aula de francês, aprendi uma expressão que traduz dois ou três saltitos que já dei em outros tempos. Pretendo fazer bom uso dela, ainda. Ah, pretendo: jeter tous par la fénêtres*. Em francês fica ainda mais tentador, obviamente. 

***

Alguém aí com planos mirabolantes? Vou revelar um: planejo arrumar o quarto da minha filha no final de semana! Adrenalina é isso aí.


* Algo como chutar o pau da barraca, enfiar o pé na jaca, jogar tudo pro alto, essas coisas sensatas e bem planejadas. ;-)


6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

04 anos além-mar. Eu, que sou um fracasso em coisas práticas, sozinha.

louco o bastante?

Cristiane Rangel disse...

Eu sempre tenho planos, ainda que ñ os revele. Ultimamente eles terão que esperar menina crescer o suficiente para traçar seus próprios planos. Quando este dia chegar darei asas aos meus sonhos.

Anônimo disse...

Mirabolantes!? Alguns. Mas enquanto não chuto o pau da barraca, enfio o pé na jaca,... vou revelar um: fazer 04 albuns de fotografias de Raquelzinha. Escolher, levar para imprimir e montar a moda antiga como diz minha mãe. Ela diz que foto em computador não é foto. Ela coloca a culpa na câmera: "essa máquina é de verdade?". Se for digital não é de verdade para ela.

Ah, adorei "...ah, amor, que bom que você veio". hihi.

Beijão,
Ju

Clara Lopez disse...

Morar pelo menos 3 meses em buenos aires aprendendo espanhol in loco. Planejando.
beijo, clara

ps. seu blog é o mais bem escrito dos que eu acompanho, sua escrita é dez.

ps. (fiquei em dúvida: 'mais bem escrito'?; 'melhor escrito'? - ambos estranhos...:)

Angela disse...

Eu ainda estou vivendo meus ultimos planos mirabolantes. Um tem quinze anos, um tem seis e um tem tres. Degustando e apreciando, assim, devagar. Tenho a impressao de que talvez isso se estenda por mais uma decada, no minimo. Beijos!

p.s.: ao meu redor, assisto aos planos mirabolantes dos outros: essa semana, na minha nova vida social virtual, reencontrei Ramon que acabou de se mudar, esta ha menos de seis horas de viajem de mim. Esse mundo eh um botao!

Trocando experiências Pedagogia disse...

No verão passado viajamos de navio pela primeira vez e foi incrível. Permita-se vai ser mágico!
Beijo grande Kaka

 
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