Mundos



A morte mexe comigo. Hoje fui ao trabalho normalmente, levei Amanda à aula de ballet, os dois para a escola; Ulisses teve dentista, Arthur teve tarefa e eu me esqueci de meia-dúzia de compromissos - não paguei isso, nem aquilo; não comprei o presente da menina; deixei o professor de francês esperando. Apesar da cabeça na lua, o dia foi um dia comum demais. Fez frio, depois esquentou, o Floquinho fez graça, descobrimos um biscoito bem gostoso. Amanda comeu tudo no almoço, Arthur quis chocolate de sobremesa. Nada extraordinário, nada surreal. O mundo gira e nada parece alterado diante do fato de que minha tia não está mais nele. Seu corpo jaz sob a terra umedecida pela mulher gentil que mantém os túmulos de minha família floridos, mas ela não está mais aqui. A imagem de seu corpo me visita a toda hora, nitidamente por eu não ter podido chegar a tempo de acompanhar o funeral. Um luto incompleto, esquisito. Mas ela não está mais aqui. Há os que acreditam que ela se reencontrou com seu marido, com minha mãe. Há os que se consolam diante da crença de que ela estaria em um plano melhor, um reino que não nos cabe visualizar ou questionar. Há quem não pense nisso. Há quem ainda nem acredite, talvez, como a amiga que conversou com ela horas antes, pelo telefone, cheia de animação. Quanto a mim, não sei. Sei que ela sumiu de minha vida. Claro, sempre terei as lembranças e os vestígios de sua passagem, mas a ideia de que ela morreu (repito em minha cabeça bem devagar: ela morreu, até eu decorar) mexe muito comigo. O que é isso? Arthur disse que gostaria muito que esse negócio de morte não existisse. Eu gostaria de aprender a lidar com ela. Ou talvez eu já saiba: é assim mesmo, algo que vem e chacoalha nossa estrutura, arrancando de nossos mundos pedaços de chão e nos desafiando a reaprender a caminhar.

***

Um pedaço de meu mundo segue assim:

BU-RA-CO
PER-NA
BU-TTER (pronunciado búter)
PI-RA-TAS
TE-SOOOU-RO

Amandinha está começando a ler. <3


3 comentários:

Anônimo disse...

Rita, a morte tbm é uma coisa esquisita pra mim. Eu queria tanto acreditar em algo que confortasse, mas é difícil. Eu acho que o funeral é um ritual muito importante pra gente assimilar a ideia da morte, e vc traduziu isso perfeitamente na expressão "luto incompleto".
Nem pude te dar um abraço quando vc chegou, mas meu pensamento estava com você durante o velório. Força Rita. Um grande abraço!
Larissa

Clara Lopez disse...

Um abraço, o tempo é ainda aqui o senhor da paz e da vida, mesmo sendo também o senhor da morte.
Em algum momento, vai doer menos, espero que não demore muito,
abraço, clara

Juliana disse...

uma tia minha morreu há anos. foi a primeira morte que me abalou, ainda que tenha sido esperada. ela estava doente há muitos meses.

no dia do enterro, eu decidi não comparecer ao funeral e me arrependo muito. levei muito tempo pra me acostumar com a ausência dela. até hoje, ao falar o nome dela, é difícil acreditar que ela morreu.

acho que a desestabilização que a morte provoca é difícil de assimilar por qualquer um, independente das crenças. numa hora a pessoa existe; em outra, não. parece um desafio de lógica. Difícil demais. Mas a gente se acostuma.

 
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