Menina Lispector

Li alguns livros e artigos sobre a obra de Clarice Lispector na faculdade de Letras, naturalmente. Comecei a ler sobre a autora na mesma época em que comecei a ler sua obra - e quase acrescento a palavra "naturalmente" a esta frase também. É que acho mesmo natural sentir curiosidade em torno da vida de quem escreve o que ela escrevia. Pelo menos eu sentia, sempre quis saber. Queria saber como tinha sido a rotina da pessoa, da mulher que escrevia aquelas coisas, que via o mundo e nossa experiência nele com aquele olhar. Tenho dessas bobagens, às vezes. As referências à vida de Clarice que eu lia por aí, no entanto, normalmente eram um tanto frustrantes. Não que fossem textos ruins, apenas se prolongavam por demais em assuntos que pouco me interessavam. Se alguém me perguntasse "mas afinal, que raio de informação você está procurando?", eu diria um desanimado "não sei". Porque eu não sabia mesmo. Todo mundo sabe de fatos da vida cosmopolita da escritora e esposa de diplomata que morou em vários países e conhecia várias línguas; todo mundo sabe que era filha de imigrantes ucranianos; que morou em Recife logo após chegar ao Brasil; que foi mãe e morreu vítima de câncer. Essas e várias outras informações abundam em biografias e artigos por aí. E eu seguia incapaz de apontar exatamente o que mais eu queria saber. Quando o livro Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser (tradução de José Geraldo Couto, Ed. Cosac Naify), chegou às minhas mãos, confesso que junto com a alegria pelo presente veio o pensamento "here we go again". Temi pela minha paciência em atravessar mais uma biografia com as mesmas informações que já vi repetidas vezes. Eu estava docemente enganada.

Comecei a leitura e fui esperando o momento em que as informações já tão familiares começariam a pular das páginas. Ando ali pela página 120 e isso ainda não aconteceu. Moser se dedicou a pesquisar e nos mostrar o contexto histórico que levou a família de Clarice a migrar para o Brasil e a ressaltar o papel da infância na formação da mulher Clarice. Mais do que mencionar en passant os efeitos gerados pela Primeira Guerra e pela Revolução Russa na história da família, Moser descreve detalhes da saga dos Lispector, forçados a deixar suas terras por conta das perseguições implacáveis aos judeus. Quando Clarice nasceu, em 1920, sua cidade natal, Tchechelnik, no sul da Ucrânia, amargava fome, epidemias e toda espécie de misérias causadas por saques e invasões. As temperaturas chegavam a 30 graus abaixo de zero e sua família a chamou de Chaya Lispector. O bebê que nasceu em meio a um cenário de horror, a pequena criança, com menos de dois anos, acomodada na imunda terceira classe de um navio na longa e dramática travessia do Atlântico (rumo a uma terra completamente desconhecida para a família), a garota de infância pobre em Maceió e Recife, a aluna com boas notas mas com mau comportamento, a menina que dava nome aos azulejos do banheiro e brincava o dia inteiro com uma palavra, essa Clarice é a que eu procurava em outras biografias. Achei, agora sei. Tem sido de longe a biografia mais envolvente que li sobre ela. Irônico que eu esteja dizendo isso de um autor estadunidense. Ou talvez não haja ironia alguma pois, como diz o próprio Moser*, há tantos aspectos grandiosos na escrita de Clarice que talvez o termo "literatura brasileira" nem seja o enquadramento mais relevante ao se descrever sua obra. Moser descobriu a autora brasileira - porque ela fazia questão de ser brasileira - quando estudava língua portuguesa, com A Hora da Estrela, e se apaixonou a ponto de dedicar boa parte de sua vida acadêmica e profissional à autora, pelo menos até aqui (ele ainda deve ter longa carreira pela frente, tem apenas 33 anos).

Agora sei que Clarice se via como uma criança fracassada naquela que teria sido sua principal função nesse mundo: curar sua mãe. Durante algum tempo, circulava entre algumas populações mundo afora a crendice de que uma mulher poderia se curar de sífilis se engravidasse. Quando já tinha duas outras meninas, Mania Lispector foi contaminada por soldados que a violentaram durante as perseguições antisemitas de que sua família, entre tantas outras, foi vítima na Ucrânia. A gestação de Clarice seria, portanto, uma tentativa de cura. A cura nunca veio e durante anos as irmãs mais velhas de Clarice cuidaram da mãe em seu lento calvário até a morte em Recife, em 1930. As palavras da Clarice adulta dão uma ideia do turbilhão de sentimentos experimentados pela Clarice menina: "...fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. (...) Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe." Tinha nove anos quando perdeu a mãe, época em que já tinha a reflexão sobre a linguagem como elemento forte em sua vida. Moser fala da busca pelo milagre, por palavras mágicas que tivessem o poder de restabelecer a saúde da mãe. Clarice brincava de entreter a mãe moribunda com encenações e teatrinhos, criando situações mágicas em que uma palavra a salvaria da terrível doença. A brincadeira de procurar o poder oculto das palavras continuaria e daria o tom de toda sua obra. A brincadeira de Clarice para salvar sua mãe aliada à sua aguçada sensibilidade a levariam a confrontar nossa relação com a linguagem de maneira revolucionária em nossa literatura. As tentativas da menina Clarice de curar sua mãe e o que foi gerado a partir daí continuam me emocionando. Lamentavelmente, a origem de tudo isso carrega a sombra dos horrores a que a família Lispector foi submetida.

Clarice brincou com as palavras até o fim. Semanas antes de morrer, disse à amiga que a acompanhava ao hospital: "Faz de conta que a gente não está indo para o hospital, que eu não estou doente e que nós estamos indo para Paris". Se para acalmar os que a cercavam ou se para zombar de sua própria brincadeira infantil, não sei; o fato é que em outros momentos a "brincadeira" se transformava no incrível exercício filosófico que foi sua escrita. O que é a palavra? Que poderes tem? Como nos reconhecemos para além dela? É possível tal reconhecimento? Até que ponto somos moldados pela linguagem que acreditamos usar para "nos expressar"? Sempre aceito os convites para observar as "brincadeiras" e reflexões de Clarice. Até aqui, quando lia qualquer texto dela, trazia comigo a imagem da mulher elegante e um tanto antipática nas fotos que circulam por aí. Agora não mais. Vou ler pensando na menina que ficava no banheiro dando nomes aos azulejos**. Vontade de dizer: posso brincar também?

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Ganhei Clarice, uma biografia da leitora, colega-blogueira e finíssima flor Juliana. E ela dizendo lá no blog dela que não sabe dar presentes, vejam vocês. Estou longe de terminar a leitura - e sem qualquer pressa.


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Há posts sobre Clarice e sua obra escritos por Benjamin Moser no site da editora do livro.



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* Li a afirmação em algum lugar no site da editora (link acima), mas não consigo agora localizar o post exato.


** Engraçado como em uma das biografias que li há vários anos, Clarice, Uma Vida que se Conta, de Nádia B.Gotlib (Ed. Ática), há duas fotos de Clarice ainda criança. Revisito essas fotos agora antes de encerrar o post e vejo que em uma delas ela veste luto pela morte da mãe, aos nove anos. É como se eu visse a foto pela primeira vez. A biografia escrita por Gotlib não se demora sobre a infância de Clarice, apesar de haver ali várias menções a ela, e só as palavras de Moser me fizeram ver a foto.




4 comentários:

Anônimo disse...

Menina, você me deixou com a maior vontade de ler essa biografia. Vou ler.
Beijão,
Ju

Clara Lopez disse...

Tenho esse livro há vários meses, e como todo mundo que transita na área das Letras, conheço sua obra e já escrevi alguns ensaios sobre ela, mas lendo seu comentário sobre o livro do Moser sei agora o que me espera naquele livro em minha mesa, e fico feliz por ele estar ali me aguardando, merci e um abraço,
clara

Marli Belloni disse...

Oi Rita,
adoro Clarice e não tinha visto essa biografia ainda. o mais interessante é que a tradução foi feita por josé geraldo couto que, se não for um homônimo, é um colega jornalista aqui de são paulo que agora mora em florianópolis. o mundo não é um ovo?
bj, linda escrita a sua!

Rita disse...

Oi, Marli

Puxa, é um ovo mesmo. Obrigada pela visita!

Bj
Rita

 
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