Boletim


Hoje meu filho trouxe para casa o primeiro boletim de sua vida escolar. Em meio aos parabéns pelas ótimas notas, fico pensando por que cargas d'água precisamos dar notas para avaliações de crianças com sete anos de idade. Não seria essa a fase de estimular a curiosidade e despertar a paixão pelo conhecimento? De tornar a escola um lugar divertido por excelência? Sei não, estou amadurecendo pensamentos acerca do tema, mas me pergunto se plantar a semente da ansiedade e da competição tão cedo não pode mais atrapalhar que ajudar. Sob o pretexto de "preparar para o mundo competitivo lá fora", temo que a escola, na verdade, só contribua para manter o tal mundo competitivo do jeitinho que ele está. Não seria mais produtivo cultivar pequenos amantes das descobertas pelo prazer das descobertas em si e não pelo desempenho em testes que, ao meu ver, chegam cedo demais em suas vidas? Não estou bem certa se a maioria das crianças nessa idade têm maturidade emocional para lidar com a ansiedade que inevitavelmente cerca um sistema de avaliação pautado em notas. O que estamos testando afinal? Os professores alegam que a avaliação contínua (adotada pela escola de meus filhos, com testes praticamente todas as semanas) permite aos professores manter um controle muito preciso do desempenho das crianças. Acredito, não questiono isso. Questiono o sistema de notas que gera uma ansiedade a meu ver absolutamente desnecessária nessa idade. Penso que avaliações podem ser desenvolvidas sem tanta pressão por resultados. Em nosso sistema educacional atual, a segunda série do Ensino Fundamental é o momento em que as crianças passam a ter contato mais direto com disciplinas fascinantes como Ciências, Geografia ou História, entre outras. Não seria um pecado vê-los mais preocupados com o boletim que com os conteúdos em si? Nem digo que isso esteja ocorrendo agora, não tenho elementos para fazer tal afirmação, apenas temo que isso passe a ocorrer muito em breve. Já vi crianças reclamando por não terem tirado a nota máxima, mesmo tendo tirado uma excelente nota. Sei não, tenho a impressão de que isso não combina com eles. 

Posso estar equivocada e este pequeno post é um convite à reflexão. Gostaria de saber como funciona o sistema de avaliação em outras escolas do Ensino Fundamental por aí. Estou procurando chifre em cabeça de cavalo? 

11 comentários:

Tina Lopes disse...

Na escola da Nina a avaliação é contínua e as "notas" são cores - azuis, verdes, vermelhas - que significam sabe tudo, tá aprendendo e tá com alguma dificuldade (obviamente não nestes termos). Algumas atividades são avaliativas e isso é avisado para as crianças - mais pra elas tomarem consciência de que é importante prestar muita atenção do que pelo resultado, pq não sabemos quais são. Os pais não são encorajados a mostrar as avaliações para os filhos. Isso até o quarto ano, depois fazem provas como todas as outras. Acho legal, acho suficiente. Lembro sempre de minha irmã vomitando e passando mal em vésperas de prova... aos 8, 9 anos. É isso. Bjk.

Mari Moscou disse...

Flor, vc sabe que eu estudei em escola alternativa? E que mesmo na escola alternativa tinha boletim? Era conceito e tal. mas eu hoje, pensando, só vejo uma função pra existência em si de qualquer tipo de boletim: é uma ferramenta da instituição "escola" para enquadrar as pessoas em seus moldes. Na sociologia da educação muito se discute sobre isso e tem uns debates bem interessantes de como os valores da escola são inculcados, etc. Acho que essa é uma das formas, sabe...

Agora, você conhece o Instituto Lumiar ou outras escolas de educação democrática? Eles tem um esquema legal. Não tem boletim. :) Vale a pena dar uma pesquisa pra se inspirar.

A disse...

Oi, Rita!

Na escola do meu filho as provas com nota só começam a partir do 5o ano. Mas dá para acompanhar bem como ele está em relação às matérias através das lições de casa.

Bjs,

Anália

Deh disse...

Rita, tenho a mesma inquietação que você - para que serve essa aferição institucionalizada e como ela tem impacto sobre as crianças e sobre as famílias. A escola do Alê foge um pouco - não muito, mas mais do que as outras escolas que conhecemos, que inclusive introduziram lição de casa e "conteúdos" formais mais cedo, enquanto meu filho só recortava e desenhava, fazia garatujas - disso, mas percebo também que há muita, MUITA ansiedade por parte dos pais por essa formalização de desempenho. Não sei quando isso vai começar no caso do Alê, é boa pergunta pra fazer lá (a gente nunca lembra tudo o que precisa quando vai conhecer a escola, principalmente quando é meio na pressa, o que foi meu caso).

Rita disse...

Gente, obrigada por comentar. Tenho conversado com algumas mães de colegas do Arthur e percebemos que as famílias vão precisar ser o contraponto na balança no que se refere à ansiedade.

De minha parte, tenho tentado conscientizar o Arthur de que as notas são só uma parte da história, que estou mais interessada em vê-lo envolvido com os conteúdos do que em ver uma sequência de notas 10 estampadas no boletim. Ele tem se saído muito bem nas notas, mas ainda não consegui averiguar o tanto que ele está envolvido com os conteúdos em si - e é isso que me incomoda. Porque as notas acabam me dizendo muito pouco.

Ainda é cedo, a coisa tá só começando, mas eu assumo que tenho medo de em breve ver essa garotada que no ano passado babava diante de um atlas do universo (quando tudo que eles tinham que fazer era montar um móbile representando o sistema solar <3) começar a sofrer com decorebas que garantam boas notas. Sabe?

Observemos. Beijos.

Flávia disse...

Oi, Rita

Não sou mãe, mas trabalho com formação de professores. Bom, muito se tem discutido sobre a temática, no entanto, os autores são bastante firmes em apontar a necessidade de avaliação em todos os níveis, mesmo na Educação Infantil. A avaliação tem muitos fins, sendo os principais a reflexão por parte do docente de seu próprio trabalho e a reflexão do aluno sobre os conhecimentos construídos e como podem ser melhor desenvolvidos.
Obviamente, há formas e formas de avaliar: provas, portfólios, uma avaliação atitudinal etc. Nesse sentido, acho que vale a pena você conversar com a professora sobre esse aspecto.
Outro ponto importante: a maneira como o aluno é colocado frente aos resultados obtidos. Penso que o boletim não é a melhor forma de evidenciar o desenvolvimento cognitivo de uma criança, porém também não vou demonizar tal instrumento e invalidá-lo. Acho que ele pode ser uma oportunidade para que o Arthur e outras crianças tenham momentos de auto-reflexão. Nada de competição, mas que ele pense quais foram os méritos, atitudes que levaram ao bom desempenho (se for o caso) e tentar preservá-las. Se o desempenho não for bacana, acho que também é uma oportunidade de fazer essa reflexão no sentido de transformar.

A escola deve ter uma postura de pensar o boletim como um momento de reflexão.

Trabalho também com o fundamental II (6º ao 9º ano) e esse ano fiz uma auto-avaliação: me surpreendi com as respostas dos meninos e meninas!

Há autores mto bons que falam sobre o tema, se quiser passo indicações. No entanto, tudo que falei acima tem a ver com o que penso sobre o tema. =)

Espero ter ajudado.

Rita disse...

Oi, Flávia.

Nossa, ajudou demais. :-)

Como falei, minha birra não é com a avaliação em si. E nem com as notas propriamente ditas. É só com o timing. Acho cedo, sabe.

Mas você tocou em um ponto crucial: na maneira como a própria escola (professores principalmente, porque eles são a ponte com os alunos) e os pais lidam com o assunto. Porque é bem verdade que nós também transmitimos nossas ansiedades e nossa mania de competição para eles (estou generalizando, vivo fugindo de competições na medida em que consigo e bem sei que nem todo mundo tem necessidade de exibir resultados).

Outra coisa que me incomoda - e esse talvez seja o ponto principal em meu questionamento - é que tudo acaba convergindo mais ou menos para os resultados que as notas "traduzem". Mas elas não mostram nem metade do que me interessa agora, sabe. Acredito muito num ideal de escola nos moldes propagados pelo Ken Robinson, por exemplo, que tivesse como objetivo central estimular a criatividade das crianças e despertar a paixão pelo processo de descoberta do conhecimento. Não estou dizendo que dar notas e exibir boletins impeçam isso, mas na maneira como tenho visto na maioria dos casos as notas acabam sendo o único termômetro do desempenho das crianças. Então quando pergunto no post o que estamos testando, é porque tenho a impressão de que a escola não está muito preocupada em estimular criatividade, curiosidade, etc., mas em garantir que todo mundo saia bem na foto. Será que fui clara?

De qualquer forma, não estou arrancando os cabelos (ainda), estou só observando e me perguntando como posso contribuir para que meus filhos e seus colegas enxerguem além do boletim.

Beijos e muito obrigada por seu ótimo comentário. Fique à vontade para indicar leituras sobre o tema, serei grata. :-)

Rita

Flávia disse...

Oi, Rita

Concordo com seu posicionamento e acho que todas as mães e pais deveriam fazer essa reflexão sobre uma quantificação do desempenho que nem sempre representa a aprendizagem do filho. Mas a escola não está fora da sociedade (para o bem e para o mal) e sofre pressões dos mais diferentes tipos: pais que desejam o boletim desde cedo, questões burocráticas e legais etc. Há alguns anos era professora de turmas de 4º e 5º ano e ouvia absurdos de alunos ganharem dinheiro dos pais de acordo com as notas do boletim.

Na minha opinião, pelo menos nesse momento inicial (do 1º ao 5º ano) a avaliação não deveria ser quantificada em notas, mas penso que se a escola adota esse sistema, como pais e professores nós podemos adaptar esse mecanismo quantificador como um meio de reflexão.

Outro ponto: como educadores e pais temos que dar um novo significado ao boletim (se não for possível transformá-lo). Devemos encarar o boletim (e a avaliação como um todo) não como a parte mais importante ou final do processo de aprendizagem, mas como uma etapa. Acho que devemos reavaliar o peso que damos ao boletim, às provas (por que criar uma ansiedade frente a uma avaliação a ponto de fazer a criança passar mal?). Por outro lado, a criança precisa ver o quanto é importante ter momentos para refletir sobre seu aprendizado.

Sobre as indicações. Uma das especialistas em Avaliação é a Jussara Hoffmann
http://www.jussarahoffmann.com.br/site/index.asp

Também acho que as obras de Cesar Coll são importantes para pensar a questão.

Ah, e tem esse artigo curtinho da Katia Smole que pode ser interessante: http://www.novoolhar.com.br/textos-artigos/26-avaliacao-escolar.html

[]'s
Flávia

Rita disse...

Muito obrigada, Flavia. Vou dar uma olhada nos links que você indicou.

Valeu mesmo.

Um abraço,
Rita

Tais Vinha disse...

Oi Rita, muito legal sua reflexão. Esse negócio de boletim com nota para os pequenos tb me incomoda. Mas ouvi de alguém que a nota é obrigatória no fundamental. Exigência do MEC. Vou pesquisar e te digo. Concordo com vc: as crianças tem que ser avaliadas, mas como forma de orientar o professor sobre o que está avançando ou não. Notas, numa idade que não há compreensão do significado das mesmas, servem apenas para deixar os pequenos frustrados. Aí vão dizer...frustração faz parte da vida...óbvio, mas tem que começar tão cedo? Vou lincar seu texto no meu blog, ok?! Acho que esta reflexão vai ajudar muitos pais. Um beijo e obrigada pela dica do texto.

Rita disse...

Oi, Tais. Obrigada pela atenção, querida. Acho que o papo lá no Ombudsmãe vai render. Vou convidar outras mães para a conversa também. Beijos.

 
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