Birras em lugares públicos - como lidar?


Na semana passada presenciei uma cena bem incômoda (foi "horrível", mas "incômoda" é uma palavra mais aprazível). Uma criança de cerca de 4 anos e meio estava com os pais numa loja de brinquedos. Era uma menina e o pai estava brincando de empurrar um carrinho com a criança dentro. A certa altura da brincadeira, a capota do carrinho emperrou e o pai não conseguiu abaixá-la. O fato irritou um pouco a criança que reagiu dirigindo-se ao pai em tom um pouco ríspido: "larga, pai!". O pai prontamente repreendeu o tom de voz da menina e ordenou que ela saísse do carrinho, encerrando a brincadeira, enquanto explicava: "não é assim que se fala com as pessoas". A menina se aborreceu ainda mais e começou a chorar. Sentou no chão e ficou ali. A mãe passou um brinquedo para as mãos do pai e assumiu a tentativa de encerrar a birra da menina. Segurou a mão da criança e saiu da loja. Sentou-se com ela em um banco que havia no hall do shopping e tentou conversar. Acontece que, ao ser retirada da loja, a menina iniciou uma sequência de berros e chiliques nunca antes vistos na história desse... blog. Não houve conversa possível, ela estava irredutível em sua decisão de chorar e gritar. Se eu não soubesse nada sobre a menina ou a família, pensaria do alto de meus pensamentos equivocados que ali estava uma família em apuros no quesito filhos. Acontece que conheço bem a família. A criança era a Amanda e a mãe era eu. O pai era o... bom, vocês já entenderam.

Ao perceber que Amanda não estava em condições de conversar ou me ouvir, fiz sinal para o Ulisses e segui rumo ao elevador. Ulisses chamou o Arthur e nos acompanhou. A visita à loja de brinquedos tinha duplo objetivo: escapar do trânsito miserável que se espichava lá fora e permitir que o Arthur desse uma espiada em possibilidades para o sábado, dia em que faria 7 anos. Com a birra da Amanda, fomos embora, com trânsito e tudo (que já estava bem melhor, a essas alturas, mas isso nem vem ao caso). A caminho do elevador ela percebeu que estava encrencada. Ceder, no entanto, aparentemente não passou pela cabeça dela. Bateu pé, gritou de novo. Pediu colo e a negação de nossa parte gerou mais nervosismo. Abaixei-me para olhá-la nos olhos e expliquei que o comportamento dela estava horrível, que ela não ia conseguir nada com aquilo e outros blás. Falei firme e deixei muito claro que estava brava (estava muito brava e estou me achando a rainha do equilíbrio emocional porque, né, não surtei). Quanto mais eu falava, mais ela se irritava, chorava, gritava e batia os pés no chão. Lindo, um amor, só que ao contrário. O elevador veio, entramos e o pranto seguiu. Quando um casal entrou no elevador com um bebê no carrinho, falei para Amanda que o choro dela assustaria o bebê (verdade) e só então ela deu uma regulada na intensidade dos decibéis. Não queria sair do elevador, não queria caminhar para o carro. OLHA.


Bronca no carro, mais choro. Uma vez em casa, direto para a cama. Pediu desculpas, mas deixamos claro que o papo rolaria no dia seguinte. No dia seguinte conversamos e explicamos bem desenhadinho as implicações do comportamento dela. Anunciamos os confiscos e castigos, os passeios que não fará, etc. Anunciei ajustes rígidos no "programa piti zero". Enfatizamos que a amamos demais, mas que o comportamento dela foi inaceitável, que ficamos tristes e que ela não ganhou nada com aquilo. Pelo contrário, colecionou várias pequenas perdas (pequenas para nós, mas bem grandes para ela).


Jamais imaginaria um piti desse porte por parte de nenhum deles. E considero Amanda uma criança de gênio forte, mas me surpreendi de verdade. Ela já tinha dado um chilique (bem menos intenso) uma vez numa loja de calçados, mas estava exausta e nossa conduta de levá-la para casa sem o sapato novo (usou o velho surrado por várias semanas até que eu voltasse à loja com ela) rendeu ótimos resultados. Ulisses ponderou que, dessa vez, ela pode ter sentido ciúmes pela ocasião. Estávamos na loja para que Arthur escolhesse um presente para o aniversário ("escolher", claro, com ressalvas) e isso pode ter gerado um desconforto com o qual ela não soube lidar. Não sei, ambos estão bem habituados a ver o outro ganhar presentes sem receber nada. Amanda é uma criança articulada e muito viva, tenho certeza de que tem plenas condições de se expressar sem tanto chilique. Se tivesse dois anos, eu daria maiores descontos. Aos quatro e meio? Não, Amandinha, não é assim que a banda toca, meu amor. Tome tento.


Fiz uma breve enquete no Facebook e, pelo visto, nossa atitude foi bem próxima do que fariam vários de nossos amigos: retirar a criança do lugar e explicar que ela não conseguirá nada com aquilo. Apenas uma das amigas considerou inadequado retirar a criança (salvo em caso de teatros, cinemas e afins) por entender que um espaço público é um espaço de todos, inclusive dos birrentos. De minha parte, considero importante poupar os outros dos chiliques dos filhos, apesar de entender a lógica do pensamento da amiga que se posicionou assim. 



Considero meu exercício de paciência da década completado com louvor. 

***

Arthur escreveu uma declaração de amor para mim: entre outras coisas, disse que sou a melhor mãe do mundo porque lavo louça. E aí, conto agora que ele também vai lavar, ou espero o dia chegar? 

7 comentários:

Tina Lopes disse...

Você não acha que às vezes a gente teoriza demais, tenta racionalizar demais? Um surto pode ser só um surto, um ataque, uma coisa parecida com os ataques hormonais da adolescência ou da menopausa... hehehe. (DIgo isso pq pelo q "conheço" das tuas crianças, não seria o caso de ciúme. ) E daí nem tem sentido ficar argumentando demais, também. Bem que vc fez de só conversar no dia seguinte.

Rita disse...

Concordo Tina. Um piti precisa ser combatido para que a criança entenda que esse não é o caminho para conseguir nada. Mas se, no geral, a criança segue outra linha de comportamento, não há razão para neuroses por parte dos pais.

Beijos
Rita

Cecília disse...

Rita, agora que descobri o caminho do seu blog: Òtimo!Mais um canal para troca de experiências nas questões entre pais e filhos. Faria e fiz o mesmo que vocês, quando uma única vez, minha filha,então com 2 anos deu um piti num shopping aqui de Aracaju. Só que uma situação dessas é que percebemos que filhos são seres humanos com suas particularidades, suas singularidades,com a capacidade de nos surpreender tanto positivamente como negativamente. No meu caso, além da vergonha imensa, (parece que todo mundo olha te acusando), a frustração por não ter conseguido parar aparece e ainda há ,ao meu ver, a surpresa, com um misto de tristeza embutida, de quase não acreditar que a filhinha amada, seu anjinho, pudesse ser capaz de uma reação tão humana e não condizente com a meiguice e fofura inerentes ás crianças pequenas! Nunca mais passei por isso, porém quando uma crise temperamental ultrapassa todos os limites aceitáveis aqui em casa, tiramos o que ela mais gosta e ás vezes a situação é sanada! Beijos. AH! seus filhos são lindos! :)

Mariana disse...

Exercicio de paciência é uma expressão que cabe muito nessas situações. Eu exercitei muito a minha paciência no ano passado. Foi uma sequência sem fim de birras para todos os gostos e niveis de paciência, em lugares publicos e não publicos. Muitas vezes aconteceu no meio da rua. E nesses momentos, ir embora não é uma solução.. alias, não ha solução... No inicio eu tentava conversar, impor limites mas a crise so piorava. Também não vou me prestar a arrastar uma criança se debatendo pela rua. Então eu cruzava os braços e esperava a crise passar. Vergonha eu nunca senti porque aprendi aqui a não ligar para o que os passantes pensam. Assim como não ficava preocupada com as caras feias no ônibus quando a Sofia era bebê e chorava. Criança chora, criança faz birra. Quem se incomoda com criança sendo criança, que fique em casa, no seu espaço privado. O espaço publico é de todos, inclusive dos birrentos. Depois da birra, a gente conversava e tentava mostrar o erro do comportamento...
Cada caso é um caso e não ha formula genérica que sirva pra todas as crianças do mundo.

Angela disse...

Uau. Quanto mais lia o texto mais dizia "Ih se Rita visse a Julia nessas ultimas quatro semanas". Acabei de desligar o telefone com a mamys, estava contando a ela de como Julia esta ruim. De dizer que nao quer fazer as coisas que sabe que sao inegociaveis (hora do banho, da janta, do sono, etc...), chora, grita. Vai para a cama do Max e dorme la e ainda leva um monte de brinquedos para a cama, parece um mercado central (ele detesta, vou te mandar uma foto, vais dar muita risada). Encrenca, acho que faz esforco para coletar ideias do que fazer para encrencar. Ontem resolveu que queria comer o meu suhshi (que ela e Max absolutamente detestam) no jantar. Eu ja sabia que ela ia morder, cuspir fora e estragar. Falei serio e perguntei duas vezes se ia comer mesmo, que era o meu jantar, que eu dividiria, mas se ela nao comesse ia dar problema. Mordeu, o rosto imediatamente formou uma careta, ela desmanchou a careta a forca e me deu um sorriso enorme completamente forcado. Disse que gostou e comeu todo. Mas sei que tava tendo que engolir o sapo por que nao quis dar para traz. Personalidade forte, e agora encrenqueira e birrenta... sorte dela que a cada dia fica mais linda, para eu poder aguentar ;) Beijao!

Silvia disse...

Olá Rita!!
Eu (in)felizmente já não tenho esse(mas tenho outros rs rs!!)problema, porque o meu filho já é um homem, mas gostaria de lhe contar uma cena que eu assisti aqui em Portugal num centro comercial.
Uma mãe com seu filho +- da idade da sua Amanda, andava a fazer compras quando a criança desatou numa birra e aos gritos e mandava-se para o chão, eu juro fiquei de boca aberta com o seguinte: a mãe colocou a mala no chão e sem dizer nada ao seu filho mandou-se para o chão e começou a espernear e a gritar e a bater com as mãos no chão!! o miúdo calou-se e ficou de boca aberta a olhar a mãe e depois começou a olhar para as pessoas que tinham parado para assistir e ficou muito vermelho e disse à mãe: mãe levanta-te do chão porque as pessoas estão a olhar e eu estou com VERGONHA!!!
a sério Rita!! foi hilariante e o miúdo nunca mais chorou. a mãe levantou-se muito calma sacudiu a roupa e pegou na mala e nas compras e foram embora!! para a próxima se tiver coragem(eh!eh!!) experimente quem sabe se resulta e cura de vez as birras!! beijos e tudo de bom

Juliana disse...

virei fã dessa mãe que a Sílvia viu!kkkkkkkkkkkkkkkkk


eu tava pensando aqui que nunca tive enfrentar birra, graças a deus, blá, blá, daí que me lembrei de uma vez que meu priminho de 6 anos decidiu dormir aqui em casa. Ele é louco por dormir aqui, sem pai, sem mãe, só ele. O menino ótimo, zero estresse, zero chilique.

Coloquei um dvd pra ele ver, deixei jogar videogame, fiz nescau quentinho, tudo certinho. Na hora de deitar, o moleque empacou. Ficou sentado no sofá com olhar vazio. Não falava, não se mexia, só com aquela cara. Aí eu fui ver o que tinha acontecido. Assim que eu comecei a falar, ele caiu numa choradeira pavorosa. Parecia que tava com a pior dor do mundo. Perguntei o que queria, medi temperatura, e nada. Por fim, me cansei. Ele só chorava.

Minha mãe tb tentou de tudo, conversou, brigou, até que ele disse que queria ir pra casa da minha tia, que fica perto daqui. Minha mãe explicou pra ele que era tarde, que não dava pra sair na rua naquela hora, mas nada. Na boa, cansadas de tanto tentar convencer o menino, fomos deitar. Não dormi, claro, porque nem dava com tanto barulho, mas apaguei as luzes, me deitei e deixei ele lá. Tb não adiantou.

Aí, num momento de inspiração, minha mãe levantou, pegou ele no colo ( ele tremia de tanto chorar), foi até a rua desertíssima e escura e falou pra ele: " Vc quer andar nessa rua escura? Vc acha mesmo que eu e vc podemos andar a essa hora por aí? Se você não tem medo, eu tenho." Um milagre se fez. O menino parou de chorar, lavou o rosto,pediu desculpas e dormiu em 5 segundos.
Até hoje , eu tô querendo entender!kkkk Sei lá o que se passou na cabeça do moleque. É como a disse a Tina: até as crianças mais tranquilas de se lidar têm seus momentos de chilique.

 
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