As sapatilhas de porcelana


Quando fiz quinze anos ganhei um pequeno par de sapatilhas de porcelana que enfeitou a parede de meu quarto nos anos que se seguiram. Quando me mudei da casa de meus pais, o enfeite ainda ficou na parede pelo tempo que minha mãe julgou conveniente. Aos poucos ela foi se desfazendo daquele e de outros badulaques, depois que ficou evidente que eu não combinava mais com aqueles lacinhos ou com os bichos de pelúcia; depois que ficou evidente que eu dificilmente voltaria a morar ali, como de fato nunca aconteceu. Vários itens foram doados para outras crianças, outros tomaram rumos que desconheço. Assim como desconhecia, até bem pouco tempo, o rumo que tinha tomado o par de sapatilhas.


Duas semanas atrás, quando estive em minha cidade natal, uma grande amiga de minha mãe me contou que tinha recebido as sapatilhas das mãos dela. E que ainda as tinha, guardadas em algum lugar de sua casa. Disse também que gostaria de que eu as recebesse de volta para repassá-las a Amanda, agora às voltas com aulas de ballet. Eu sequer me lembrava das sapatilhas até minha amiga tocar no assunto; a visão delas, contudo, jogou-me imediatamente no meu antigo quarto e em lembranças da adolescente que fui.  Aceitei a oferta, obviamente, e contaria do efeito que o gesto teve em mim se eu soubesse como. Sei que agora o parzinho branco e rosa integrará o cenário da infância da Amanda  pelo tempo em que ficar no quarto dela. Ela adorou. 


Não faço ideia de quem me deu as sapatilhas na primeira vez. Mesmo assim sou grata, talvez mais do que quando as recebi anos atrás. Sou grata a minha mãe por tê-las entregue à sua amiga; e a esta por tê-las guardado por tanto tempo e pelo sensibilidade em me passá-las agora. Não é maravilhoso ganhar o mesmo presente duas vezes, com anos de intervalo, e ver como a peça se valorizou tanto que nem podíamos supor? Eu acho. Acho um luxo mesmo, desses que têm o valor de mão estendida, de abraço solidário. Do melhor tipo de presente. Daqueles que a gente nem sabe como agradecer.



2 comentários:

Angela disse...

Karma karma karma
bom bom bom

Anônimo disse...

Que gesto lindo! Que feliz coincidência!
Beijos,
Ju

 
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