Miniconto displicente IV



Exausta

Aos poucos foi deixando de tirar os sapatos quando chegava em casa. Não mais se jogava no sofá nem retirava a maquiagem. Por não conseguir deixar as amarras na calçada, passou a trazer a rua para dentro e, sem perceber, foi perdendo a capacidade de jogar a bolsa, prender os cabelos num coque torto ou tomar água direto da jarra. Era como se todos voltassem para casa com ela, todos os dias. O resultado foi a fadiga. Cansada demais, deixou de dar de ombros e abandonou as amplas coreografias na sala. Seu sofá não tinha mais farelos, sua carteira estava sempre dentro da bolsa e era simpática o tempo todo. Somente no banho, nua de tudo, voltava a si. E, exausta, chorava.

3 comentários:

Angela disse...

Esse miniconto eh um par de brinquinhos de diamante em uma pequena caixinha do mais saboroso dos chocolates. Precioso, valioso, delicioso. A primeira leitura nao foi uma, mas tres, e vou le-lo mais umas cinco vezes. Obrigada por presentar-nos com um miniconto tao delicado! Um beijo.

Anônimo disse...

Lindo mesmo. Esse conto é um primor!
Gostei do seu blog.
Tenho um no wordpress que jamais consigo cadastrar em blogs do blogspot nos comentários. Então deixo aqui pra vc caso goste de ler outros blogs também.
Luciana
http://luwithdiamonds.wordpress.com

Anônimo disse...

Lindo Rita! Toca! É profundo e leve. É belo!
Beijos,
Ju

 
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