Minha Tia Maria


No final da tarde da última quinta-feira meu primo me ligou lá do Nordeste. Um minuto e meio depois minha cabeça dava voltas tentando assimilar a notícia que ele me deu. Tia Maria havia nos deixado. Morreu em casa, na companhia dos sobrinhos que a socorreram e dos enfermeiros que atenderam ao chamado de emergência. Sucumbiu ao problema cardíaco que a acompanhava há alguns anos e foi embora.


Deixei o trabalho, busquei com o Ulisses as crianças na escola e fui para casa organizar as coisas para viajar no primeiro voo disponível. Não consegui voo na noite de quinta e compramos minha passagem para o dia seguinte, às sete da manhã. Eu não chegaria a tempo de ajudar minha família em muita coisa, mas pelo menos poderia velar o corpo de minha tia, acompanhar seu enterro. Não seria nada perto de estar com ela horas antes para ajudar a diminuir o medo que ela certamente sentiu ao sentir o peito apertar e seu coração perder o ritmo, mas ainda seria muito para mim. Eu poderia ver seu rosto mais uma vez e, junto com aqueles que também a amavam, participar da despedida simbólica.

Agarrada a esse pensamento, fiz diversas ligações para parentes, chorei com eles por telefone, chorei com Ulisses, falei dela para as crianças. Arthur se lembrou assim que Ulisses lhe contou da morte dela: "Ela gostava muito de mim, me dava mamão no café da manhã." E dava mesmo, nas férias, de colherinha. Atravessei a noite pronta para partir na manhã seguinte, dormi um pouco. Eu ainda estava em Florianópolis, mas minha cabeça estava lá na Paraíba com meus primos e tios que velavam o corpo dela. 

Na manhã seguinte parti para um voo muito, muito longo. Por causa do mau tempo em Congonhas, o voo da Gol que me levaria ao aeroporto de Confins/MG, para a segunda conexão, partiu com atraso. Mesmo sendo da mesma companhia, o voo que saiu de Confins não esperou os vários passageiros que viriam de Congonhas e partiu. Ao desembarcar, com 15 minutos de atraso, recebi da funcionária da Gol a notícia de que eu já tinha hotel reservado para passar o resto do dia e aguardar o próximo voo que me levaria a Campina Grande, onde eu chegaria doze horas após o previsto, às duas e meia da manhã. Passei alguns segundos esperando que ela dissesse que era uma brincadeira macabra, mas logo enfrentei a pior notícia que eu poderia receber naquelas circunstâncias: eu não conseguiria sequer ver o corpo de minha tia. Desesperada, liguei para Ulisses e para meus parentes sem saber direito o que dizer. Pedi que me colocassem em um voo para João Pessoa, mas não havia nada disponível, nem em outras empresas. Não verifiquei nada, aceitei as notícias que a funcionária da Gol me passava porque eu não tinha condições de fazer nada. A essas alturas eu chorava convulsivamente apoiada à primeira parede que encontrei. Fui amparada por uma desconhecida que também estava no mesmo barco e que viajava ansiosa para ver seus pais. Essa alma boa, de nome Cátia, foi meu ombro naquela tarde infinita num quarto de hotel nos piores momentos que vivi desde a morte de minha mãe. Foram vários telefonemas ao longo da tarde, parentes e amigas me consolando pela minha ausência. Às cinco da tarde, enquanto eu chorava no hotel o cortejo partiu e o corpo de Tia Maria foi enterrado. Não vi, não ajudei, não levei flores, não segurei a mão de ninguém. A palavra é solidão.

Às duas e meia da manhã desembarquei emocionalmente destruída em Campina Grande. Fui recebida por meu primo e sua esposa, as mesmas pessoas que havia socorrido Tia Maria no momento em que ela passou mal. Exaustos e desolados, ainda me receberam e foram ombro e ouvido. A palavra, meus queridos, é gratidão.

A sensação que experimentei ao chegar lá foi de que não havia muito para mim. Voltar à casa de minha mãe já tinha sido uma experiência desafiadora em dezembro passado, mas ali ainda houve o abraço fofinho da Tia Maria. E o que vou aprendendo é que vazios crescem.

Em 2001, quando me visitaram em Floripa: mamãe, eu e Tia Maria

Tia Maria tinha 82 anos. Dez anos mais velha que minha mãe fez com ela uma dupla e tanto em minha vida. Foi uma figura fundamental em minha infância, tantas vezes me trazendo a leveza que faltava em minha casa em tempos mais difíceis. Foi companheira de minha vida escolar nos anos em que me acolheu em sua casa para que eu frequentasse o colégio que ficava em sua cidade. Anos depois mudou-se para a cidade de minha mãe e virou muito mais que uma vizinha. Foi companheira inseparável de minha mãe nos últimos anos de sua vida, testemunha diária da difícil luta que ela travou contra seus muitos problemas de saúde. Era uma voz de conforto, era um abraço fácil e sempre longo, muito bom. Tinha a pele incrivelmente macia e mãos tão suaves. Ela era suave, quase sempre. "Tão bom abraçar Tia Maria, né?", vários diziam. Porque era mesmo, toda fofinha e sorridente. 


Com Arthur, em dezembro de 2005.


Tia Maria era a rainha absoluta das palavras cruzadas. Cresci vendo-a de caneta na mão e nos últimos meses recebi pelo menos dois telefonemas feitos exclusivamente para resolver um desafio que ela sozinha não conseguiu decifrar: "Rita, como era mesmo o primeiro nome de Van Gogh?" "Vincent, tia." "Ah, é verdade... mas não era Claude?" "Não, esse é o Monet." "Ah, é. Tchau." Não satisfeita em apenas solucionar inúmeros passatempos em suas muitas revistinhas, Tia Maria dedicava horas a criar seus próprios desafios. Bastava que dois ou três sobrinhos se reunissem perto dela e lá vinha Tia Cebolinha, caneta em punho, sorrisinho  de quem trazia nas mãos uma relíquia, desafiá-los a solucionar suas cruzadas inventadas. Em sua casa encontramos caixas de revistinhas que nem consegui tocar. Foi em sua casa que aprendi a fazer palavras cruzadas, foi ela quem me ensinou a fazer ponto de cruz, quem decorou meu quarto quando fiz 15 anos, quem viajou comigo de férias tantas vezes, quem fez tantas outras coisas comigo, memórias que agora desfilam pela minha cabeça em uma tentativa quase inócua de tentar diminuir minha frustração por não ter estado lá mais cedo.


Com Amanda.


Também era especialista em plantas, seu jardim era sua paixão. Desde a antiga casa onde me hospedava, com um jardim que mais parecia um desfiladeiro morro abaixo, até a atual onde mantinha um pequeno canteiro no quintal, Tia Maria dedicava muitas horas de suas semanas aos cuidados com as plantas. Gostava delas como nem todo mundo gosta de gente e foi com esse tanto de carinho que cuidou daquelas florzinhas cuja história contei no post que fiz por ocasião de seus 80 anos. Há cerca de um mês, ela me ligou dizendo que, infelizmente, a florzinha amarela havia secado e morrido. Lamentamos juntas, mas acho que a planta me deu muito mais do que eu esperava quando a comprei. Agora eu trouxe comigo uma de suas plantinhas e espero, ainda que com muito atraso, fazer o mesmo que ela fez com a florzinha que lhe dei.


Descobrimos que Tia Maria tinha um diário. Durante quatorze anos, de janeiro de 1992 a dezembro de 2005, registrou em um caderno eventos, impressões, pequenos gestos de sua rotina às vezes solitária, às vezes cheia de aventuras. São registros breves, geralmente uma linha para cada dia. Estão lá o nascimento dos filhos de seus sobrinhos, a morte de pessoas conhecidas, as visitas de amigos, pequenos passeios; também coisas tão simplórias como uma consulta médica ou um programa de TV que ela viu; suas aventuras pela Europa em sua viagem mais ousada que ela organizou caladinha e revelou à família às vésperas do embarque, quando tinha 69 anos; em registros cheios de amor, lá estão marcados os aniversários de seu casamento, ainda que fosse viúva desde 1985: "bodas de prata" ou "30 anos de meu casamento"; várias vezes a linha se resume à palavra "solidão", ainda que ela não estivesse fisicamente sozinha. Li maravilhada cada linha desse caderno valioso que trouxe comigo e que vou guardar pelo resto de minha vida. Já me perguntei se ela gostaria que suas palavras fossem lidas. Nunca vou saber. Ninguém na família sabia da existência desses registros que agora valem tanto para nós. Encaramos o caderno como um inventário de parte de sua vida, palavras que nos trazem um pouco dela de volta cada vez que lemos. Meu coração dançou quando vi ali registrado o dia em que ela conheceu o Ulisses, na primeira vez em que namoramos, em 1996. "Ulisses simpático" está lá. Meus telefonemas ao longo dos anos estão lá. Nossos passeios. O dia em que engravidei pela primeira vez. O nascimento de Arthur. E o último registro, em dezembro de 2005, que aqueceu meu coração: a visita que ela recebeu de "Ritalice e Ulisses". Sem qualquer justificativa registrada, o diário se encerra ali. Ela, que adorava uma charada, dessa vez me pegou de jeito, não sei o motivo que a levou a abandonar o diário 14 anos depois de iniciá-lo. Talvez tenha se cansado, talvez tenha ficado sem paciência para os curtos relatos. No fundo tenho uma suspeita: desorganizada como ela só, pode ter parado de escrever por não se lembrar onde guardou o caderno (desculpa, tia, tô brincando).




Levei flores. Enfeitei seu túmulo, ao lado do de sua irmã que teria sentido muito sua partida.   Às duas levei minhas lágrimas e minha saudade. Três dias antes da morte de Tia Maria, tive aquele sonho. Minha amiga Verônica tinha ido e visto que o túmulo estava lindo. Jamais suspeitávamos que voltaríamos lá, três dias depois. A vida tem coisas esquisitas. O túmulo de minha mãe estava mesmo lindo e agora virão as flores de Tia Maria para que seu túmulo também fique. Ela, que sonhava tanto com minha mãe. Ela, que foi quase um mãe pra mim, tantas vezes. Ela, que agora é mais um silêncio em minha vida. Ah, Tia. Que saudade, que vontade de receber seu abraço. Como foi bom ser sua sobrinha, como foi bom. Que pena, Tia. Que pena.

14 comentários:

Anônimo disse...

Rita,

A sensação que tenho é que, com o passar dos anos, vamos tendo que aprender a perder... Dói muito e fica um vazio que nada nem ninguém pode preencher... Sinto tanto, tanto... Ela era um pouquinho tia de todos que a conheceram... Era um pouquinho minha Tia Cebolinha também. Sim, tinha uma pele tão macia, uma voz tão delicada... Sorria sem rir diretamente, sem extravagância... E concordo: ela era um pouco sua mãe... Dividiu vocês com D. Bernadete. Lembro da visita delas duas em Floripa e de como foi engraçado ver as duas brigarem e não se separarem, como duas crianças que se amam muito...
Foi bom te ver, poder te dar um abraço. Poder chorar um pouquinho junto. Com certeza, ficam as lindas lembranças e as fotos, como as que vocês postou aqui. Seja forte, como você sempre é, conte com o apoio de todos que te amam - amigos e família. Estou aqui a qualquer hora. Bj!

Cléa disse...

Oi,
Cheguei a temto no velório e gostaria muito de ter te encontrado, para te dar um abraço.Lembranças boas não me faltarão ao lembrar da doce e meiga tia Maria. bjs

Anônimo disse...

Boa noite Rita,

Lamento muito pela sua perda...sinto muit..não há muito a dizer nestas horas, apenas que Deus abençoe e te conforte....

lucieneteotonio disse...

Que saudades de Tia Maria
Que saudades do cheirinho dela e daquela pele macia ,daquele abraço gostoso...
Várias vezes, em alguns dias que passei com ela ,ela olhava pra mim e dizia: te amo , te amo, te amo...
Oh tia obrigada pelo seu carinho e pelo seu amor . A senhora foi muito amada por todos nós.Adeus Tia Maria.
xero Rita se precisar estamos aqui.

Mariana disse...

Que relato lindo Rita, ainda que tão triste... e essa provação esperando poder encontrar os teus, que barra!
Espero que a saudade pare de te machucar logo (mesmo sabendo que ela estara sempre contigo)!
um abraço querida!

Paulo Marreca disse...

Pelo seu post de 2010, "Tia Maria" não só era a tia que todos gostariam de ter, mas também de se tornar um dia. Se precisar, estou aqui. Minhas condolências!

Debby disse...

Oi Rita
Meu nome é Débora moro em Salvador
Lamento por sua tia Maria.
Em 22 deMarço foi o enterro da minha madrinha que também era Maria só que das Graças e faleceu com menos de 70 anos vitima de um forte AVC..
Falei sobre ela aqui e sei um pouco do muito que você está sentindo..
http://debbyeuamominhavida.blogspot.com.br/2012/03/ainda-lembro.html

Gostei muito do seu blog.
Força e muita paz
Debby :)

Tina Lopes disse...

Ah, guria, sinto tanto, um dia a gente conversa sobre isso, de pertinho, não consigo comentar. Força, né.

ludelfuego disse...

querida, um abraço bem apertado. sinto tanto tanto. fica bem

VAL disse...

Depois de ter mandado a mensagem para o e-mail, foi que vi o post.
Esta semana que passou, tive um sonho com minha mãe, num maravilhoso jardim em Buenos Aires, cheguei a ligar para casa, mas nunca é com quem sonho. Sempre fico tensa quando isso acontece. Nesta mesma semana, falei em D. Maria, (sempre falo nela) lembrando de coisas engraçadas (o açúcar para despistar as formigas; o bolo de fubá que não sabíamos fazer pois não acertávamos a ordem dos ingredientes e ela foi nos ensinar e misturou tudo de uma vez só e deu certo, e foi um dos bolos mais fofos que já comi; o comentário que fez de madrugada, quando já estávamos deitadas, na véspera da tua viagem para Londres, sobre os micróbios que iam gozar lá) lembra? Sua tia faz parte da minha vida nas melhores memórias que tenho do nosso tempo no colégio!
Apesar da distância minha amiga, carrego comigo memórias vivas que me fazem sorrir ao lembrar de tempos tão bons que vivi! Sinta-se abraçada, estou aqui em sintonia com você de coração e pensamento! O que fica para nós são os momentos únicos em cada dia da existência delas em nossas vidas! D.Maria e D.Bernadete, vocês continuam sendo muito ESPECIAIS NOS NOSSOS CORAÇÕES!

Silvia disse...

Rita,lamento muito, desejo-lhe muita força e coragem nesta hora tão difícil. Um beijinho

Rita disse...

Olá, vocês.

Sempre me emociono com o carinho de vocês. Muito obrigada, de coração. Aos amigos, aos leitores amigos, a todos, muito obrigada. Não que a gente não saiba disso, mas é sempre bom lembrar: passa isso, passa aquilo, o que vale nessa vida são as pessoas, né? E vocês valem pra mim, viu? Obrigada demais.

Beijos
Rita

Juliana disse...

Li o post antes, mas só agora posso comentar. Sinto muito por sua perda e por todos esses problemas que vc enfrentou.

E ao mesmo tempo , tô encantada pelo que vc contou da sua tia e feliz por vc ter podido desfrutar da presença de alguém tão especial.

beijo.

Anônimo disse...

preise cialis tadalafil
prezzo cialis cialis online
cialis comprar cialis original
cialis commander cialis

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }