Do tamanho do universo, duas vezes



Em novembro de 2009 fiz um post sobre os óculos e o tampão ocular usados por meu filho. É um texto que atrai um número considerável de visitas ao blog e espero que ele seja útil às famílias envolvidas com crianças que precisam de tratamento oftalmológico semelhante ao do Arthur. Acho bom falar sobre uso do tampão ocular já que, apesar do desconforto que normalmente causa, é uma necessidade na infância de muita gente. No caso do Arthur foram quase cinco anos convivendo com o tampão ocular e seus incômodos. Notaram o verbo no passado? :-) Ontem meu filhote recebeu "alta do tampão". Não sei medir minha alegria, nem tentei. Só olhei para ele pulando no consultório da oftalmo e segurei as lágrimas. Boba, eu. Segurar pra quê, né? Devia ter deixado rolar mesmo, a ocasião é grande.

O olho esquerdo do Arthur tinha a visão subdesenvolvida. Quando isso acontece, o cérebro tende a priorizar o "olho forte". Sem tratamento, é uma questão de tempo até que o cérebro "desligue" o "olho fraco" e leve à perda parcial da visão (ou pelo menos a um sério comprometimento da funcionalidade daquele olho). Essa diferença entre a capacidade visual dos dois olhos é conhecida como ambliopia. Muitas vezes, como no caso do Arthur, a ambliopia pode estar relacionada ao estrabismo que, por sua vez (também no caso do Arthur), é consequência de uma diferença marcante no grau de visão dos olhos. Em outras palavras: Arthur precisa de cerca de dois graus em uma lente e mais de quatro em outra; é uma diferença grande que, sem os óculos, causa o desvio de um dos olhos e prejudica o desenvolvimento da acuidade visual. Em casos assim é preciso respirar fundo e encarar, junto com a criança, o desafio de dar ao "olho fraco" a mesma capacidade visual do outro olho; isso se faz com o uso do tampão: tapando o "olho bom", o outro é forçado a trabalhar e, consequentemente, desenvolver-se. E foi essa etapa que o Arthur acabou de superar, com seus olhos agora em igualdade de condições no quesito acuidade visual. Meu banguela sentou-se na cadeira da oftalmo e mandou ver. Pra baixo, pra cima, pra esse lado, pro outro lado, não errou nenhum "E" na escala optométrica. Daqui a três meses ele repetirá o exame como teste final para verificar se não há mais perdas. Em algumas crianças o uso do tampão pode se prolongar até os 9 anos, pois é nessa fase, entre 7 e 9 anos, que a visão atinge seu ponto máximo de desenvolvimento (no próximo mês Arthur completa 7 anos). Como nos últimos meses ele já não usou o tampão e, mesmo assim, houve uma melhora significativa entre a penúltima consulta e a de ontem, tenho motivos de sobra para acreditar que daqui a 3 meses o exame também será um sucesso. Se o desempenho dele se mantiver pelos próximos 3 meses, vou jogar todos os tampões no lixo, numa cerimônia que terá gargalhadas e sorvete. Ou chocolate quente, porque vai ser no inverno. 

Não é fácil. Descrevi as fases e avanços do tratamento do Arthur lá no post de 2009. Nos últimos tempos, até o final do ano passado, eram apenas duas horas diárias, um passeio no parque para quem antes ficava o dia inteiro de tampão. No entanto, o Arthur já andava meio de saco cheio e não é pra menos. Mas perseverou e, mesmo descontente, usou quando foi preciso. Uma lição que servirá para sempre, um exemplo sentido na pele de que a vida às vezes exige paciência e disciplina. A vitória veio com seus olhinhos a mil enxergando longe e bem. Ele ainda usará óculos por muitos anos porque, como eu, tem astigmatismo. Por causa da diferença marcante de grau entre os olhos, ainda ocorre o desvio se ele fica sem óculos (aprendi com o tratamento do Arthur que grau é uma coisa e capacidade visual é outra). Mas essa diferença também vem diminuindo e mais tarde ele poderá a) seguir com os óculos (hoje em dia, é o que ele diz que vai fazer); b) optar por lentes de contato; c) fazer uma cirurgia corretiva de grau, se ainda usar óculos aos 18 anos e quiser se livrar de tudo (como fez o Ulisses); d) não fazer nada e largar os óculos, caso tudo se resolva naturalmente. É um detalhe diante do fato de que ele poderia ter perdido a visão do olho esquerdo se não tivéssemos tratado a tempo. E aqui entra o olho bom do Ulisses que percebeu o desvio no olho do Arthur quando ele tinha apenas 2 anos. Amanda tinha acabado de chegar e foi uma época cheia de desafios para o Arthur: a irmã mais nova no pedaço, os óculos, o tampão. Agora é correr pro abraço. 

Se você chegou aqui porque está vasculhando a internet em busca de informações sobre o tratamento da ambliopia, digo que siga em frente e encare o tampão. É muito tentador desistir e livrar nossos filhos do incômodo. Afirmo de coração aberto que nada se compara à alegria de ver o tratamento funcionar e de termos a certeza de que contribuímos para garantir a saúde dos olhos deles. É difícil, alguns dias são desanimadores, mas vale a pena. Tomara que a oftalmologia evolua a ponto de o tampão ser superado por técnicas menos desconfortáveis para as crianças. Tomara mesmo. Enquanto isso não acontece, brincar de piratinha pode ser um caminho bom.

***

Arthur, meu amor, seus olhos lindos me deixam sempre de queixo caído. E como você consegue enxergar tudo tão longe, menino? Estou tão feliz por você, sabe quanto? Do tamanho do universo, duas vezes. Te amo demais. Parabéns, seu pititico.


8 comentários:

Tina Lopes disse...

Pôxa, eu não tinha lido o post de 2009, não sabia do tampão, nadinha. Fiquei emocionada aqui. Eu era vesguinha quando criança mas não cheguei a precisar de tampão; me livrei do estrabismo com muita força de vontade, também, fazendo exercícios com a ponta dos dedos, vai e volta, horas e horas... e lendo muito gibi. Eu tinha muito medo de ter de usar tampão porque já era zombada o suficiente na escola. Que bom que vcs passaram sem traumas por isso. Parabéns Arthur, coisico lindo, ex-pirata, novo capitão do navio.

Angela disse...

Ai gente, o poder da paternidade/maternidade: ter a certeza de que contribuíram para garantir a saúde dos olhos dele. Que coisa recompensadora poder tomar conta do bem fisico, mental e emocional dos nossos filhos nao eh? E que presentao, regado a muita dedicacao por parte de voces tambem, voces ajudaram o Arthur a alcancar. Parabens para todos, inflei de felicidade pelo Arthur, um batalhador. Um grande beijo!

Claudia Serey Guerrero disse...

Parabens Arthur! muito corajoso e decidido! beijinhos

Dária disse...

Não me lembro se li este post de 2009 (eu já andava por aqui nessa época? acho que não), mas me identifiquei com a historinha olha só.

Uso óculos desde os 4 anos. Na época ninguem percebeu que eu tinha deficiência visual, mas como minha irmã já estava usando óculos (no caso dela, a professora da escola percebeu que ela não aprendia nada qnd sentava mais atrás - era miupia) meus pais resolveram me levar por precaução ao oftalmologista.

Resultado, eu precisava de lentes de pouco mais de 2 graus pra corrigir uma hipermetropia... mas era só em um olho. A médica disse que não percebia a deficiência justamente proque o cérebro estaria induzindo à utilização apenas do olho bom, e que sé não tivessemos ido cedo só perceberiamos quando eu tivesse quase cega de um olho.

Uso óculos até hoje, mas como diferente de miopia, a hipermetropia não é progressiva, e sim corrigida, meu grau naquele olho hoje é tipo 0,5. Aí agora tenho mais grau 1 de miupia no outro olho... e isso fez com que no ensino médio meus óculos fossem os prediletos pros professores de física darem aulas sobre lente rsrss (defeitos opostos - lentes com funções opostas).

Anônimo disse...

Que felicidade!!! Parabéns Arthur, parabéns Rita e Ulisses! Muitos beijos,
Ju

Rita disse...

Obrigada, gente. Beijocas pra vocês!!

Rita

Renata disse...

e os meus olhinhos ficaram cheios de lagriminhas! Parabens pra vcs todos!
Venho sempre aqui ler vc, mas nunca comentei.
:)

Rita disse...

Obrigada, Renata. :-)

 
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