Sem anestesia


Hoje li umas coisinhas a respeito da época em que a humanidade ainda não conhecia a microbiologia. Quando pouco ou nada se sabia sobre a dinâmica das doenças. Sobre o tempo em que a anestesia não existia e as pessoas se submetiam a intervenções cirúrgicas de toda sorte, mesmo assim. Sobre o tempo em que se acreditava que lavar a pele abria os poros para a entrada de doenças e o mundo não era exatamente um lugar cheiroso. Fico impressionada que sobrevivemos a tudo isso. A humanidade vingou e acho isso fora de série porque tínhamos tudo para dar muito errado e sucumbir à falta de noção.*

A noção foi vindo, foi vindo, estamos aí na caminhada. Não é pouco. Que as pestes não tenham aniquilado a população inteira da Terra é algo espantoso, dadas as condições em que as pessoas lidavam com as epidemias. Ainda assim, estamos aqui, um banho por dia (pelo menos), anestesia, antibiótico, toca o bonde. Ficamos, inclusive, cada vez mais eficazes quando o assunto é inventar formas de aniquilar os outros. Incrível.

Alguma porção dessa capacidade formidável de superação e crescimento dentro das adversidades deve habitar nosso inconsciente coletivo; quem sabe está diluída em nosso DNA. No fundo, a gente sabe que dá conta. Que as explicações virão e que as coisas vão, pouco a pouco, fazer sentido. Claro que muitas coisas habitarão sempre o reino do inexplicável, mas a gente vai seguir tentando. Nem que seja aos trancos e barrancos, mais ou menos como os médicos do século XVIII enfrentavam seus enormes desafios, tateando. Hoje em dia, ainda que não sejamos capazes de evitar a morte (e isso não daria muito certo), ao menos conseguimos aliviar muitas formas de sofrimento. Então a gente aprende que vale a pena e segue na busca: os otimistas esperando que o lado bom do homem prevaleça, os pessimistas lamentando nossa sorte em uma caminhada tão sofrida. Na maior parte do tempo, nossos lados otimista e pessimista dialogarão e nos empurrarão pra frente. 

Esse tanto de força e garra herdado de tão longe certamente habita também nossas emoções. E é bom que seja assim, especialmente nos dias em que o peito experimenta aquelas pontadas. Aquelas contra as quais não há anestesia. A gente enfrenta no cru mesmo porque sabe que é preciso dar conta.

***

*Ainda estou a bordo de Breve História da Vida Doméstica (Bill Bryson, Cia das Letras, trad. Isa Mara Lando).


4 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia Rita,
três dias sem seus textos ja fazem a maior falta.
Esse seu texto me fez lembrar um livro que li recentemente Borboletas da Alma - Escritos sobre ciência e saúde(Drauzio Varella). A primeira parte do livro é um pouco cansativa, mas depois a leitura fica bem interessante. Trata sobre a evolução das espécies, muitas curiosidades, crendices,... Vale a pena.
Quanto as dores que enfrentamos no cru, só nos resta força e termos a certeza que somos mais fortes que elas.
Abraço,
Ju

Dária disse...

Não tem muito a ver com isso, mas me lembrei agora de um filme que vi há alguns dias: O homem da terra. Já ouviu falar? O cara vive 14 mil anos, aprende com o tempo a se mudar a cada 10 anos para que não notem seu não envelhecimento e imortalidade... assim, ele passa da idade da pedra até os dias de hoje. É bem curioso! Assiste! rs

No mais, também gosto destas histórias sobre épocas, vidas, culturas... histórias de nosso passado e de como chegamos aqui.Talvez eu leia depois este livro.

Rita disse...

Ju, saudades de você. Precisamos de uns e-mails trocados. :-)

Dária, fiquei curiosa, parece interessante. O capítulo que estou lendo agora no livro do Bryson fala da história da moda. Bem legal.

Beijos,
Rita

Anônimo disse...

E pensar que, daqui a alguns séculos, serão os futuros homens que irão dizer sobre nós, homens de agora, o "Fico impressionada que sobrevivemos a tudo isso. A humanidade vingou e acho isso fora de série porque tínhamos tudo para dar muito errado e sucumbir à falta de noção".

:)

Abs.,
P.

 
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