Prata




Hoje o dia está tão bonito na minha janela, lá no trabalho. Gosto daquelas nuvens espalhadas como se alguém tivesse passado os dedos por elas e desarrumado um pouco. Elas não escondem o azul, só o decoram e sussurram: outono. A água da baía está prateada pelo sol. Se prolongamos o olhar, o espelho d'água parece inerte. É só quando olhamos para as águas que se aproximam da borda e observamos os pontos de prata que percebemos a dança da água com o vento. Do ponto onde minha janela está, posso ver três braços de terra que se espicham mar adentro, como pequenas penínsulas. Há muita coisa nesses pedaços de terra e na água que os abraça. Interessam-me os tons e os contornos: morro, verde, azul, mais azul. E os pontos de prata. Posso ver mais um pouco, se me posiciono no canto da janela. De lá vejo a linha onde a água se torna esverdeada e brinca com meu olhar, que cor? E também as árvores que sombreiam banquinhos pintados de verde. Pergunto-me se elas gostam mais da vista que têm ou de fazer parte dela. Por fim, há a avenida com os carros que até me pareceriam robôs, se eu não soubesse de seus condutores: quantos deles cantam como cantei hoje de manhã, som do carro desligado? Quantos deles estão encantados como eu estava hoje de manhã, com esse sol, esse mar? Quantos deles quase desejam trabalhar um pouco mais longe, só para ter a baía por mais alguns minutos? Quantos deles invejam os ciclistas, como invejei horas atrás? Quantos deles vão abrir a janela do carro, entra, vento? Quando ergui as persianas pretas de minha sala no trabalho, senti-me muito privilegiada por não precisar me despedir desse quadro, apesar do computador e dos papéis. 


No meio da manhã me levantei, peguei um café e fui para a janela curtir a paisagem. Foi aí que vi uma gaivota tocando os pontos de prata. E me lembrei de como são lindas também as muitas paisagens que trago dentro de mim. Nelas sou a gaivota e os pontos de prata estão inteiramente ao meu alcance. 

***

(Post rascunhado no final da manhã; o dia passou e não tive tempo de publicá-lo) 

2 comentários:

Débora Ramos disse...

Rita, que linda reflexão. Bateu uma saudade da paisagem de Floripa. Essa paisagem também mexe demais comigo. Meu irmão mora lá. Da casa dele tem uma vista linda da ilha. Eu subia lá e conseguia brincar de Deus vendo os carros passando. Ufa! Quanta poesia tem o seu texto.

Angela disse...

Post bom para ja comecar definir o tom do meu dia! As temperaturas aqui essa semana estao sendo record, 25 graus e muito sol em pleno marco, quando muitas vezes ainda estamos enterrados na neve. Imediatamente apos um inverno, 25 graus parecem 35, Max e Julia tem andado de short. Um par de sandalias ja se mudaram para o carro, pois no almoco troco os saltos pelas havaianas e vou sentar em um banquinho que nem esses, para apreciar e cheirar a baia aqui, que nesses dias sem vento tambem tem estado espelhada e linda!! Que interessante que devido ha um "fluke" da natureza aqui, nossas estacoes opostas se encontraram em sintonia! Beijo!!

 
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