Passeando pela casa (e desculpas esfarrapadas da minha mãe)



Não tem sido tão divertido quanto o primeiro livro que li de Bill Bryson, mas tenho tido meus bons momentos com Em Casa - Uma breve história da vida doméstica. A frase "não sabemos quase nada sobre..." se repete mais do que eu gostaria em um livro que tem a palavra "história" no subtítulo, é verdade. No entanto, nada me resta a não ser aceitar a informação como legítima: não há mesmo registros sobre a rotina dos homens das cavernas, por exemplo. 


A presença de lacunas desse tipo não compromete o valor do livro. Quem conhece a proposta de Bryson sabe que sua pesquisa pode levar a algum lugar alternativo. Mas pode também constatar que os únicos registros são mesmo aqueles contidos nos livros tradicionais de História. Na verdade, incomodam-me mais algumas "explicações" nitidamente pautadas em "dizem por aí". É o caso da passagem em que Bryson se refere a um grande incêndio que teria devastado Chicago em 1871. Nela lemos que "segundo se conta, uma vaca que pertencia à sra. Patrick O'Leary deu um coice em um candeeiro a querosene" e deu-se a catástrofe. Anedótico demais, vamos combinar. Há vários episódios com esse nível de "precisão" ao longo do livro (estou lendo como no tempo das velas e ainda nem cheguei à metade). 

Antes que todos vocês virem de vez a cara para o livro, contudo, já adianto que há um tanto bom de informação interessante nas páginas de Em Casa. Ou, pelo menos, o tipo de discussão que nos ajuda a olhar para certas coisas sob uma nova perspectiva, mesmo quando o assunto está longe de conter revelações inesperadas. Quando, por exemplo, relembro o fato de que somente em 1882 a lâmpada elétrica revolucionou o mundo, dou-me conta de que o século XX, que se iniciou logo depois, viu mais evolução social e tecnológica do que jamais tinha experimentado em toda a história da humanidade até então. E o século XX é um segundinho de tempo nessa história. Ou, como fico repetindo sem cansar em minha cabeça: até o finalzinho do século XIX, o mundo como o conhecemos hoje não podia sequer ser concebido pelo mais genial dos homens. De lá para cá passaram-se pouco mais que 13 décadas. Não sei vocês, mas acho pouquíssimo tempo em um planeta cujos habitantes humanos experimentaram as noites como sinônimos de escuridão quase completa por milhares e milhares de anos. E hoje estamos aqui, na blogosfera. No mundo da banda larga e outros detalhes.

Algumas partes do livro valeram pela informação factual mesmo. Não me lembro de ter lido qualquer coisa na escola sobre Skara Brae, uma aldeia datada da Idade da Pedra Polida, descoberta na Escócia, em 1850. Naquele ano, uma tempestade destruiu e arrastou uma colina na ilha escocesa de Orkney, revelando a aldeia. No interior das casas, havia ainda muitos objetos e rudimentos de móveis, como prateleiras de pedra e gaveteiros! Algumas casas tinham trancas nas portas, além de sistema de drenagem. Sobre seus moradores, naturalmente, "não sabemos absolutamente nada", o que se há de fazer. Imaginação está aí pra isso. 

Outras partes do livro servem à sempre bem vinda mania de derrubar mitos ou, pelo menos, salpicar de comentários maldosos essa ou aquela biografia costumeiramente enaltecida pelos livrões de História. Quem nunca? Thomas Edison não só não teria sido o primeirão a fazer experimentos com a lâmpada elétrica (os iniciados sabem disso, mas a grande massa ignora o fato, ou não?), como também é descrito como alguém "disposto a roubar patentes e subornar jornalistas para conseguir matérias favoráveis". Gente... quem diria, não? Pois então, o britânico Joseph Swan saiu na frente na lida com os primeiros exemplares da lâmpada elétrica, mas teriam lhe faltado empreendedorismo e método para dominar seu invento. Edison, anos depois, além de dominar o aparato necessário para fazer a novidade funcionar a contento (sistemas, centrais de energia, etc.), foi espertíssimo na escolha dos lugares para as primeiras instalações: Manhattan, Bolsa de Valores de Nova Iorque, Ópera de Milão, o Parlamento inglês. Não acho que ele precisou subornar jornalistas nesses casos. 

Lá pelo meio do capítulo sobre o advento da iluminação elétrica, dei uma boa gargalhada. Bryson fala das reações assustadas de muitas pessoas na época (imaginem). É natural que inventos assim, tão revolucionários, despertem receios que nascem junto com a admiração geral. Com a iluminação elétrica não foi diferente e a maravilha foi acusada de causar fadiga ocular, dores de cabeça e até sardas. O que diziam quando alguém morria eletrocutado, então. Minha risada veio, contudo, de uma lembrança bem pessoal. Quando os televisores coloridos invadiram o mercado, minha mãe não tinha recursos para comprar um. No melhor estilo "quem desdenha quer comprar", ela declarava aos quatro ventos que "aquilo faz mal pra vista". Meses (ou anos?) depois, quando ela finalmente conseguiu comprar sua primeira TV em cores, esqueceu completamente as ameaças à saúde e passou a reclamar constantemente do colorido que "fugia" e nos deixava na mão, a ver a novela em preto e branco outra vez (os aparelhos eram péssimos). Tivesse vivido no início do século XX, tenho certeza de que ela teria desdenhado da lâmpada também, talvez até falando das sardas. 

Vou ali ler mais um pouquinho, entre uma correria e outra. 

3 comentários:

Lud disse...

Breve História de Quase Tudo é um livro que eu adoro. Tá juntinho com O Última Teorema de Fermat, do Simon Singh, no topo da minha lista de livros preferidos de divulgação científica.
O problema do Bill Bryson é que nenhum outro livro que ele escreva vai ter um objeto tão amplo e tão interessante!
Beijos!

Silvia disse...

Olá Rita!
tudo bem?
leio sempre os seus posts com muita atenção, principalmente quando o tema é livros!
Adoro ler e sou uma leitora quase doente!!!
Prezo muito sua opinião e tenho feito boas leituras também pela sua influência e opinião.
Gosto imenso de ler o seu blog, por favor nunca desista, é sempre uma lufada de ar fresco nesta vida complicada aqui em Portugal.
Um beijinho, sabe muito bem tê-la aqui perto de mim,ainda que esteja tão longe...

Rita disse...

Lud, também adoro História de Quase Tudo. E vc tem razão: o tema é tão cativante que vai ser difícil ele atingir o mesmo nível em outros livros. Mas a gente segue lendo. :-)

Silvia, muito obrigada pelo carinho. Ainda não conheço Portugal, mas é um lugar na minha lista de interesses. Fico feliz por sua companhia, fique à vontade.

Beijos,
Rita

 
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