O fantasma dos móveis arrastados


Flagrante raro de fantasma arrastando móveis em um apartamento. Vítima desconhecida.

Houve um tempo em que tive vizinhos abaixo e acima da minha cabeça. Até entrar na faculdade e sair de minha cidade natal, vivi em casas. A partir daí morei em seis apartamentos, em três cidades diferentes. Foram cerca de onze anos lidando com regras de condomínios, avisos, síndicos, taxas, normas confusas para vagas de garagem, escadas em prédios sem elevador, etc. E vizinhos. Em cima e embaixo. No geral, tive sorte, acho. A julgar pelas histórias que ouço e leio por aí, minha experiência com condomínios até que foi bem tranquila. Não fosse pela vizinha que me alugou a vaga de garagem e desistiu de uma hora para outra, eu nem teria uma história de tribunal de pequenas causas para contar. A primeira história que me vem à cabeça quando penso em desavenças de vizinhos em apartamentos, no entanto, nem é a da garagem; é a dos fantasmas do andar de cima.

Aconteceu no segundo apartamento em que morei. Fiquei por lá durante uns cinco anos, acho, talvez menos. Eu morava no primeiro andar e a vaga de garagem descoberta que eu ocupava ficava bem abaixo da varanda. Era um condomínio simples, com muitos apartamentos, relativamente próximo à universidade e bem longe de meu trabalho. Eu gostava muito de lá, apesar de nunca ter me entrosado com muitos vizinhos (ou justamente por causa disso, hohoho). Na verdade, eu gostava mesmo era de ter um apartamento só meu, onde podia estudar e trabalhar com tranquilidade, além de receber os amigos sempre que quisesse. E tudo era mesmo muito tranquilo. Até o dia em que a vizinha do térreo, do apartamento abaixo do meu, resolveu cismar comigo.

Certa noite, no momento em que abri a porta do hall de entrada, ela surgiu na porta de seu apartamento e me abordou. Pediu que eu, por favor, parasse de arrastar os móveis em horários tão inconvenientes, que minha mania estava incomodando toda sua família. Levei alguns segundos até entender do que ela estava falando. Ao ouvir "arrastar os móveis", lembrei-me que, de fato, eu já havia notado ruído semelhante, quando julguei que o barulho tivesse vindo do segundo andar, do apartamento acima da minha cabeça. Assegurei à minha vizinha que eu não era a responsável pelo barulho de móveis arrastados, até porque todos os móveis da minha casa de estudante pé duro eram tubulares, com exceção do guarda-roupas - que eu nunca, nunquinha, tirava do lugar. Ou seja, ainda que eu de fato tivesse o estranho hábito de brincar de arrastar móveis, eles não gerariam muito barulho. Além do mais, eu passava o dia inteiro (todos os dias) fora de casa, alternando meus horários entre o curso de Letras e o trabalho na escola de inglês. E ninguém mais morava comigo. Dei a história por esclarecida e subi as escadas. 

Aqui é preciso falar da rede. Nessa mesma época, havia no meu prédio um barulho de rede balançando. Quem tem rede em casa sabe que um suporte de rede mal lubrificado causa um barulho semelhante a uma dobradiça de porta no mesmo estado. Nhenc nhenc nheeeenc nheeenc. O barulho costuma reverberar pelas paredes e pode ser ouvido vários andares abaixo ou acima do apartamento de quem se balança. É de bom tom, portanto, manter suportes de redes bem lubrificados, caso você more em apartamento. Enfim, eu vinha há tempos ouvindo o barulho da rede e já havia comentado com meus amigos que, assim que descobrisse de que apartamento vinha o som, deixaria um tubinho de óleo lubrificante de presente na porta. Para se ter uma ideia de quão alto era o som da rede, não raro eu o ouvia assim que saía do carro, ainda na garagem. 

Assim que entrei em casa naquela noite, comecei a me perguntar se o vizinho de cima não seria o responsável tanto pelo barulho de móveis arrastados como pelo da rede. Ambos prosseguiram, assim como as reclamações de minha vizinha do térreo. Diversas vezes ela interfonou para minha casa pedindo que eu parasse com aquilo, que ninguém conseguia mais aguentar, onde já se viu arrumar a casa àquela hora da noite, ainda mais depois de uma tarde inteira de barulheira, etc., etc., etc. Certo dia, depois de ela interfonar para minha casa mais uma vez, desci e bati à sua porta para dizer, olhando em seus olhos, que naquela tarde meu apartamento tinha permanecido vazio, como acontecia todas as tardes. Que o som que a incomodava certamente vinha do vizinho de cima. Foi então que ela me disse que aquilo era impossível, já que os apartamentos do segundo e terceiro andares (na linha acima do meu) estavam desocupados. Só restava eu. Surpresa, convidei-a para subir ao meu apartamento e ver meus móveis, por mais ridículo que aquilo estivesse se tornando. Minha vontade era gritar na cara dela: eu passo o dia fooooooooooooooooraaaa!!! Enfim. Ao invés disso, acrescentei: "incrível, pois eu achava que a rede vinha de lá de cima também". Ao que ela respondeu: "a rede? Não acredito que você escute minha rede". Quer dizer.  

Ali estava, diante de mim, a dona da rede. Que não morava no segundo andar, mas no térreo. Não sei o que acontece com a acústica desses prédios, que leis malucas da física nos levam a jurar que um som gerado lá embaixo vem lá de cima. Sei que olhei para minha vizinha e disse, lentamente: "eu ouço a sua rede do estacionamento; todo mundo ouve". Rá. Indignada, ela disse que aquilo era um absurdo e que não aguentava mais uma vizinha tão barulhenta bla bla bla. Fui embora, satisfeita. 

O ruído da rede diminuiu logo em seguida (hihihi), mas os vizinhos do segundo e terceiro andares, de fato, não existiam. Os apartamentos estavam vazios há algum tempo. Por falta de explicação melhor, passei a acreditar que o barulho viesse do subsolo, mesmo sem saber quem morava lá - formigas gigantes? Tatus? A outra opção eram os fantasmas do andar de cima. A vizinha parou de me encher o saco, certamente por vergonha da rede, já que móveis continuaram a ser arrastados - eu ouvia tudo nas noites e finais de semana em que não viajava para a casa de minha mãe. Era uma mudança eterna, uma arrumação sem fim, mas ninguém sabia em que lugar do prédio.

Comentando o assunto com amigos, fiquei então sabendo que isso é um clássico. O fantasma dos móveis arrastados habita muitos prédios e incomoda muita gente, gera discórdia entre vizinhos mundo afora. Ouvi relatos de dois ou três casos semelhantes, do barulho de móveis que ninguém sabia de onde vinha, ou do toc toc de saltos altos supostamente vindos de apartamentos onde não morava nenhuma mulher. 

Mais tarde, em outras cidades, outros apartamentos, incomodei vizinhos, de verdade. Um dia reclamaram do som alto e tinham razão. Pedi desculpas e passei a tomar mais cuidado com o volume do rock & roll. Nunca reclamei dos móveis arrastados, no entanto, porque já tinha know-how e sabia que aquilo era coisa dos fantasmas. Quando criança, aprendi que eles arrastavam correntes. Só quando fui morar sozinha e não tinha mais medo deles, descobri que também gostam de móveis. Acho meio estranho, mas é mais plausível do que tatus arrastando mesas. 



9 comentários:

Anônimo disse...

Oi,
dos fantasmas vou prestar mais atencao, agora quanto a acústica, que nos levam a jurar que o som vem de cima qd na verdade vem de baixo... Aqui em Aracaju estamos morando no 13 andar, o ultimo andar do predio. Ha uns dias atras barulho de reforma, muito barulho. Dai fiquei reclamando. "Puxa, que azar, acabamos de mudar e o vizinho de cima começa uma reforma,... horrivel." A noite Leo chega, dai falo para ele da reforma no apartamento de cima: "Ju, nós moramos no último andar." Eu mas eu podia jurar que era em cima...". Gente, a reforma ainda continua, se voces vierem me visitar antes que acabe, voces tambem terão certeza que é no apartamento de cima.
Beijos,
Ju

K. disse...

Barulho de móveis arrastando eu não escuto, mas os toc tocs têm horário (e vem de uma pessoa real) assim como os "barulhos sexuais" matinais, que de tão altos me acordam.

leila disse...

e tem o barulho de mil pratos e panelas derrubados ao mesmo tempoe tu chega na cozinha e tudo está arrumadinho em seu lugar

Luma Perrete disse...

Nossa, isso acontecia muito no outro apartamento que eu morava! Era um tal de arrastar móveis tarde da noite no apartamento de cima!

Maite disse...

Ahhhhhh!
Eu tambem tenho como vizinhos de cima (ou de baixo) fantasmas que arrastam moveis e andam de salto alto! Ambos a noite, claro!!!
Beeeijos!

Débora Ramos disse...

Nossa sofro o mesmo problema que você. Já conversei com a vizinha, mas não adianta. Ela acha que sou eu que faço o barulho.

Rita disse...

Eu sabia que vocês não iam me deixar na mão. Todo prédio é assombrado mesmo. Fim.

Beijos
Rita

Anônimo disse...

Olha...convivi durante anos com isso. E em varias cidades. Até em uma pousada em Portugal eles me acompanharem. Mas os barulhos se intensificaram absurdamente quando morei em um predio em São Paulo. Tanto que não me deixava dormir, a ponto de eu pedir ajuda espiritual, o que amenizou o problema. Até agora eles não voltaram, e espero que não voltem.

Anônimo disse...

Cheguei até esse site após uma noite muito mal dormida, com tantos móveis arrastados durante a noite. Parece mentira, mas dura a noite toda, madrugada, manhã. Desde que me mudei para o apt sofro com isso. Já reclamei na portaria, mas nunca acaba. é no andar de cima, escuto pisadas, como se PESSOA estivesse descalça , de um lado para outro, de objetos caindo como moeda, bolinhas, e muito arrastar de móveis. Estou ficando louca, não consigo mais dormir, sempre que pego no sono acordo com o barulho. nao quero mais ficar aqui.

 
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