A cultura da realidade camuflada ou os choros calados com presentes



Estou gripada, entediada e com vontade de jogar conversa fora = post longo.

***

Num dia qualquer no início dessa semana, levei Amanda para a sala de aula enquanto Ulisses acompanhava o Arthur rumo ao pátio do prédio onde ele tem aula. Na rampa de acesso às salas do Ensino Infantil, passei por um casal que conduzia pela mão um menino de três ou quatro anos que chorava e gritava, insistindo que não queria ir à escola. Eu já tinha cruzado com essa mesma família outro dia e o quadro era o mesmo, então deduzi que eles devem estar passando por um momento de adaptação um pouco conturbado. Como o casal avançava lentamente, por causa da resistência da criança, Amanda e eu os ultrapassamos. A mãe da outra criança apontou para o presente que Amanda levava, por causa do aniversário de um colega naquele dia, e disse:

- Olha, a amiga tá indo bem linda pra aula. Ganhou até presente porque não chora. 

Tivesse eu um pouquinho de aproximação com essa mãe, teria dito um "não" bem apressado. Mas eu nem a conheço, estava quase atrasada e fiz que não ouvi nada. A postura da mãe está bem longe de me surpreender, já que observo por aí que a prática de camuflar a realidade para obter um comportamento julgado adequado por parte da criança é muito comum. Mas fico me perguntando por quê tanta gente cria problemas que não precisa ter. Criar filhos, como diz meu marido, não é criar pinto. As dificuldades e desafios diários já tornam a jornada emocionante demais. Então por que cargas d'água alguns pais ainda mentem ao invés de conversar com seus filhos sobre o fato de que, oi, o mundo não é exatamente um parque? Aquela mãe sabia que estava mentindo e fico me perguntando se no dia em que o filho finalmente parar de chorar na hora da entrada vai ganhar um presente por isso. E o que ela está dizendo a ele com essa atitude. 

Arthur também chorou algumas vezes na hora da entrada, quando tinha menos de dois anos e já frequentava a creche. Cortava meu coração, mas o prêmio pelo fim do choro vinha sempre em forma de elogios e carinho, em tentativas de fazê-lo se sentir seguro e confortável. Nunca em presentes. 

Mesmo ganhando presentes demais (ainda acho meus filhos ganham presentes demais), de alguma maneira eles costumam lidar bem com os "nãos" recebidos, que são muitos em algumas fases, quase desnecessários na maior parte do tempo. Não temos nenhuma dificuldade em negar o presente a um, mesmo que o outro esteja ganhando alguma coisa por alguma razão especial. Já cansei de presentear Amanda enquanto Arthur só olhava e vice-versa. É verdade que também já enfrentei choro em situações assim, mas sempre optei por conversar e explicar as razões do "não" ao invés de ceder com o intuito de parar o choro. Aliás, o choro birrento costuma ser o caminho mais curto para se perder regalias aqui em casa. 

Um conhecido de meu marido outro dia afirmou que não consegue sair do shopping sem ao menos um carrinho para seu filho, sob pena de enfrentar choro e muita insistência. A afirmação de que "meu filho [de três anos] é muito consumista" me parece quase surreal. E por mais que estejamos enterrados até o pescoço em uma sociedade ultraconsumista, ainda acho fora do comum a cultura das crianças que ganham presente no grito. 

É claro que meus filhos pedem. Desejam brinquedos que não têm. Ficam tristes por não ganhá-los. No entanto, vê-los superar a tristeza, conformar-se com o fato de que o amigo pode ter e eles não e, depois de horas ou dias, acostumar-se completamente à ideia me parece saudável, parte do crescimento. Ensaio para a vida lá fora. Tanto mais na condição privilegiadíssima em que vivem, nascidos em uma família que pode provê-los com harmonia, segurança e, de quebra, doses generosas de conforto (e acho fundamental que eles tenham essa noção, de que são privilegiados). Camuflar a realidade e fazê-los crer que podem ter tudo que desejarem não me parece uma conduta muito compatível com o mundo em que, dizem por aí, todo mundo quer viver. É importante ensinar a lidar com a frustração, nunca é demais repetir. 

No ano passado, fomos a uma loja de brinquedos comprar um patinete para Amanda. Arthur já tinha o dele e a ideia era de que os dois aproveitassem a chance de patinetar juntos pelos parques de Paris. Arthur vinha há dias pedindo um ioiô de presente porque o seu tinha se quebrado. Um ano antes, ele tinha ganhado o patinete em um dia em que Amanda ganhou nada (e ela bem que pediu, mas não encontramos nada adequado para o tamanho dela na época). Dentro da loja, Arthur pediu sei lá o quê e chorou muito por não conseguir. Não havia ioiôs na loja e meu argumento foi "o seu presente será o ioiô, mas aqui não tem". Um patinete versus um ioiô inexistente parece uma injustiça tremenda, mas o contexto era mais amplo que isso e ele chorou o que quis até desistir e esperar o dia do ioiô - que não tardou a chegar. 

Hoje, com a queda do segundo dente em uma semana, Arthur ganhou o direito de abrir o cofrinho, contar suas moedinhas e comprar o que quisesse com elas. Eles não recebem mesada, mas ganham moedas aqui e ali e vão guardando no cofrinho, mais pelo prazer de ouvir o barulhinho do que qualquer outra coisa. Amanda ensaiou um bico em casa, "e eu?". Nossa resposta foi simples: "você espera, assim como fez o mano; quando seus dentes caírem, você compra o que quiser". Nas próximas semanas, Arthur irá a três festas de aniversário (socorro) e combinamos que eu compraria os presentes enquanto ele escolheria o que fazer com suas moedas. Entre espirros e fungados, fomos os três ao shopping enquanto Ulisses dormia no sofá resolvia outras coisas. Fomos, compramos, a garota do caixa contou as moedas, saímos da loja com quatro pacotes e Amanda, de quatro anos, não pediu nada. Nada. Brincou com os brinquedos disponibilizados pela loja, esperou com carinha boa, mostrou coisas que achou lindas e voltou para casa para brincar com Floquinho. Perdoem a corujice, mas acho digno de nota. Uma evidência muito boa de que não precisamos criar problemas extras na já difícil arte de criar filhos.

Arthur comprou um robô e já deu quatro pitis cada vez que se deparou com uma peça mais difícil de encaixar. Interrompi este post nas quatro vezes para baixar a bola dele, mas essa já é outra conversa. Falei que criar filho não é criar pinto? Então.

***

Reli agora antes de publicar e achei o post um pouco com tom "eu sei o que fazer". Não é por aí, tá, gente? Cometo vários equívocos, como toda mãe e pai; tenho dúvidas enormes e busco auxílio quando preciso. Mas não aguento essa coisa de comprar fim de choro com presentes. Tá falado.



4 comentários:

Angela disse...

Nao lembro de Max ter feito as birras que a Julia faz, mas ela eh de se deitar no chao e espernear. Ou as vezes pede cheia de grosserias. Sempre falo a mesma coisa para ela "sempre que nao quiser uma coisa minha linda, peca assim. mas quando quiser, peca direitinho." Ela fica com mais raiva ainda ate que uma hora cansa e pede direito ou se faz de fortona e nao quer mais. Por outro lado, tambem se comporta direitinho na loja de brinquedos. Ate por que foi a elas pouquissimas vezes na vida. Quando era so Max viviamos la, mas com ela sendo a segunda ja ha bastante brinquedos dele para diverti-la. Eh tao desapegada que ate parece que ela nao notou que quando esta la eh uma hora oportuna de pedir.(?) Ou entao nao liga mesmo. Max pede, e as vezes insiste, mas sem choro nem esperneio. E muitas vezes, sai sem. High five! :)

Mariana disse...

"É importante ensinar a lidar com a frustração, nunca é demais repetir. ". Assino embaixo Rita! também é o principio que me guia nos percalços do dia a dia. Mas vou te dizer, não sei se tu passeias pela blogsfera materna, mas a mulherada anda pirando no outro lado da força... Uma coisa meio "meu papel é poupar meu filho de todas as frustrações possiveis, inclusive e acima de tudo a frutração da separação". Não é a mesma coisa que dar presentes para calar a birra mas a idéia é que se a mãe estiver sempre sempre com a cria, entupindo de amor, leite materno e compreensão, a cria não vai ter esse tipo de atitude nunca. Sei la, eu também acho que cada mãe sabe dos seus, mas pra mim não rola.Infelizmente a vida não so amor, carinho e colo da mamãe. Acredito que o meu papel é prepara-la para encarar a vida como ela é.

bjus pra patota!

Silvia disse...

Falou e bem Rita!
Gostei da maneira simples e carinhosa, beijos

Pira For Kids disse...

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