Cedo, tarde, sempre




Coragem


A professora perguntou quem queria ir lá na frente, cantar no microfone. No mesmo segundo senti o rebuliço na cadeira ao lado da minha. Ficou tão nervoso, queria tanto, mas cadê coragem? A professora insistiu muito, mas ninguém vai? Que coisa! Ah, vamos lá, gente, uma musiquinha só. E enquanto ela insistia com a aluna do violino, ele buscou lá do fundo da alminha espevitada dele a coragem, a grande coragem. E me passou a flauta, levantou-se, pegou na mão da professora e foi lá pra frente. Ela voltou e ele ficou lá, com a professora regente, microfone pesado na mão, olhar compriiiiido pro meu lado. Eu, fazendo muitos "joias" com o polegar, pensava "não acredito". Os violinos encheram a sala, os violões acompanharam e as flautas complementaram, bem bonitinho. Todo mundo cantou junto, mas eu só ouvia a vozinha dele no microfone, não muito alta, na medida para me embalar. "Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco...", cantou, todo banguela. Tão corajoso, ele. E tão espaçoso: o dedinho da mão livre não parou de reger os outros alunos um minuto sequer. Ficou se achando, mas só um pouquinho. ;-) (Parabéns, filho.)

***

Aquarela

Há um quê de eternidade quando eles se sentam no chão da sala para montar quebra-cabeças. Ficam assim, em um só quadro, minha infância e a deles, numa misturinha de tempos que dá certo. A gente troca peças, conversa, canta, enquanto monta o mapa do mundo. O mundo que eu queria conhecer como a palma da minha mão quando era do tamanho deles, o mundo que até hoje me fascina porque não perdi tudo. Ainda tenho uma porção boa dessa coisa que brinca nos olhos deles quando apoiam os dedinhos na Oceania e, num pulo, desembarcam no Canadá. Zuuum, cheguei! Como na outra música do Toquinho, igualzinho. Eu também não sabia do meu futuro, mas preservava numa esquina muito bem guardada de minha alma aquela chama preciosa com luz bonita. Eu sentia que podia seguir por ali, guiada pela chama. Sabia que o mundo poderia, de vez em quando, ter cores e formatos que eu quisesse. Aí me distraio e a África fica faltando um pedaço porque me esqueço da peça rolando na minha mão. É que olho para eles e tento adivinhar se também sentem, se já perceberam a chama. Eu queria tanto saber. 

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Pipoca

A Amanda ainda não entendeu as aulas de ballet. Passado o encanto diante do fato de sair de casa fantasiada de bailarina e ser oficialmente "aluna do ballet", ela quer mesmo é cantar de galo. A professora é só dela, faz o exercício se quiser e quando quiser, faz de tudo para chamar a atenção. Em suma, mais atrapalha do que dança. A professora já trocou figurinhas comigo e estamos de olho nessa primeira fase meio adaptação, meio piti. O padrão pipoca de comportamento que na natação não causa maiores transtornos (pula.sem.parar.) não serve para a aula de ballet. E não pensem que se trata de uma aula rígida e exigente, nada disso. Aliás, algo de que gosto muito na metodologia da escola em que ela está é o caráter lúdico das aulas. Nem sei se dá pra ser diferente com meninas entre quatro e cinco anos de idade, o fato é que o que vejo da aula me agrada demais: as crianças fazem o que precisam fazer, ou seja, brincam. E vão aos pouquinhos se familiarizando com o mundo da dança, no tempo delas, saltitando e fazendo graça. Mesmo assim, Amanda pede colo, vira menininha choramingona. Depois esquece e entra no clima, mas só até o momento em que a janela parece mais interessante. A professora dá o tempo que ela precisa para sentir interesse pela aula outra vez e assim vamos. Ela não é a única a se distrair, mas é para ela que estou olhando, obviamente. Já perguntei se a professora não acha que está cedo demais. A resposta que ouvi foi que, na verdade, está cedo demais para todas elas. A ideia é brincar mesmo e despertar o interesse por algo a que vão se dedicar mais tarde, se for o caso. O clique vai acontecer com algumas, claro, não com todas. Tenho cá minhas dúvidas em relação a Amanda. Observemos. Ela já me falou que gosta mesmo é de dançar "no palco", hahaha. Falei que para dançar no palco é preciso antes dançar na aula. O problema é que não quero insistir. Insisto no entendimento de que é preciso seguir as regras da aula, uma vez que ela está lá. Que não é admissível desobedecer à professora, por exemplo. Piso em ovos para não parecer que estou insistindo para que faça a aula. Já disse com todas as letras que ela só vai se quiser. Ela diz que quer e acho mesmo que queira. O problema é que quer do jeito dela. Fico me perguntando se ela vai perceber que não é assim que a banda toca. Se, daqui a pouco, não vai preferir ficar em casa fazendo piruetas com o Floquinho. Ou se vai seguir em frente e tentar imitar a Greice. Só o tempo dirá. 

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Allegro

Um dia por semana saio da sala de espera e vou para a sala de aula. Estou gostando tanto da experiência que não quero escrever sobre isso ainda. Deixa o tempo passar mais um pouco. O que pretendo com as aulas de ballet? Nada, não. Estou só fazendo o que já fazia lá na infância: seguindo aquela chama de luz boa. E me divertindo um monte.

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Sala

Mas o que o Floquinho quer mesmo é correr e passar por cima do quebra-cabeça, misturando tudo de novo. Arthur enlouquece de raiva, fica bravo e manda o Floquinho dar o fora! O cachorro entende tudo errado e fica em posição de "vou pular porque sei que você quer brincar comigo" bem em cima do que restou do quebra-cabeça. O rabo gira tanto que qualquer hora dessas ela vai sair voando, vai vendo. Olha, só rindo. 

4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Arthur!! Que corajoso e que lindo. Fiquei emocinada. Parabéns!

Montar quebra-cabeças,huuum. Como fica mais gostos montá-los com filha (os/as). Especial!

Lendo sobre o ballet de Amanda e a natação não tive como não deixar de comparar com Raquel, pois no que você escreveu elas são muito parecidas. Na natação Raquel não pára, pula o tempo todo. Ela adoora a natação. Acho que ela queria que fosse todos os dias. Ballet ela faz desde o ano passado. Só que é na escola (em Salvador ano passado e agora aqui em Aracaju). Só tem um detalhe, os pais não podem assistir. Só assistimos as apresentações públicas. Lembro que ano passado ela reclamou pois não estava dançando na aula de ballet e o que ela queria era dançar. Ela adora dançar...
Agora é melhor parar por aqui. Você tem razão vamos trocar uns emails. Estou com saudades.
Beijos,
Ju

Luciana Nepomuceno disse...

Posso ficar emocionada que vou ver um vislumbre do arco-íris de pertinho já já?

Silvia disse...

Obrigada Rita, por estes momentos de partilha em que esqueço tudo o que me preocupa e consigo sorrir com estes momentos mágicos das suas crianças e com a magia da sua escrita que me encanta sempre, obrigada por estar aqui, mais uma vez!! beijinhos

Clara Lopez disse...

Sua escrita transmite paz, reflete uma pessoa de luz, merci, e um abraço, clara

 
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