A grama do vizinho




Florianópolis é cheia de flamboyants. Adoro essas árvores, mesmo quando não estão floridas - com flores são irresistíveis. Gosto da maneira como a copa se espalha. Não é muito equivocado dizer que um flamboyant não é uma árvore que cresce para cima. Cresce, claro, até certa medida, mas depois se esparrama e é nisso que está muito de sua graça. Se fosse um chapéu não seria cartola, mas sombreiro. Uma copa de flamboyant não é exatamente frondosa (apesar de haver alguns exemplares bem volumosos), mas extensa. Perto de minha casa, há um que atravessa a rua: suas raízes estão em uma calçada e as folhas mais novinhas do galho mais recente pendem sobre a calçada oposta, rumo ao chão. São lindos e, para minha sorte, abundantes por aqui. Estão em todos os lugares, na esquina do colégio das crianças, no próprio pátio do colégio, nas praças todas, nos jardins de felizardos. Eu queria um para mim, na minha calçada. Na minha calçada, no entanto, há um ipê, segundo me disseram. Nunca deu flores. Está agora bem maior do que era quando nos mudamos para cá, há cinco anos, mas ainda nada de flores. Gosto de ipês também, trazem lembranças da estrada que me levava à escola, às margens da mata pintada de ipês amarelos. Naquele tempo, eu via os ipês pela janela do ônibus enquanto suspirava e torcia pelo futuro que tenho hoje. Então gosto de ipês. Mas amor, amor mesmo, sinto pelos flamboyants. Ainda assim, espero pelas flores do meu ipê para suspirar de alegria e quem sabe me apaixonar, mas nem sei se virão um dia. Enquanto isso, suspiro nas esquinas e praças de Floripa pelos flamboyants alheios. Sei, sei, sei que são de todos. Mas, ah, ando egoísta, quero tudo pra mim. Quero um flamboyant, o meu. Ao contrário dos baobás que ameaçavam o amor do Pequeno Príncipe, um flamboyant só me traria alegria. Sua copa larga bem que poderia cobrir minha casa inteira, pintar de vermelho meu telhado e atrair todas as borboletas. À sua sombra, eu faria quadros inspirados nos jogos da luz do sol em seus galhos. E sendo a natureza humana essa coisa louca que conhecemos, não duvido que nesses quadros eu pintasse os ipês de minha infância. 

3 comentários:

caso.me.esqueçam disse...

ai, eu fico com os ipes. os ipes amarelos da lagoa... tinha um namorado que morava no carice. quer dizer, ele mora ainda la. a gente ia tomar cerveja la e, em epoca de flor dos ipes, a gente tomava a cerva debaixo de chuva de petala amarela. romanticuzinho.

Silvia disse...

Olá Rita!
Como sempre fico a sorrir quando leio o que escreve!!
por momentos esqueço da crise aqui em Portugal e deixo-me transportar até á sua terra para apreciar essas árvores lindas... eu adoro árvores e flores!!
Beijinhos e por favor continue a dar um pouco de si neste cantinho maravilhoso!! Bem haja!

Luciana Nepomuceno disse...

borboletas a postos, esperando copa e telhados vermelhos

 
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