Flee



Criei uma crosta em torno do meu coração, uma espécie de casca programada para me proteger de determinadas sensações negativas. Chamo aqui "sensações negativas" tudo que me angustia sem que haja qualquer relação direta comigo. Notícias de tragédia, desmandos do governante em quem você confiava (tudo bem, isso tem a ver comigo), qualquer notícia envolvendo sofrimento de crianças, comentários racistas ou homofóbicos em redes sociais, etc. Qualquer evento relativamente distante de mim, mas que, historicamente, sempre me atinge com um potencial destrutivo muito grande. Já tratei do assunto em sessões de terapia porque o sofrimento nascido da empatia é algo que realmente preciso aprender a controlar. É normal e saudável se solidarizar. É maravilhoso transformar empatia e indignação em atitudes construtivas. Mas não podemos sofrer as dores do mundo. Não me considero uma pessoa com tendências depressivas, mas já perdi muitas noites de sono por causa de tragédias mundo afora. Não quero parar de sentir, tornar-me indiferente ao mundo, não é por aí. Mas busco um equilíbrio possível que me mantenha atenta à dor alheia sem me destruir por dentro. 

Não faço ideia se minhas táticas são furadas covardes ou estratégias ponderadas de amadurecimento emocional, faço o que posso. Uma das coisas que posso é parar de ler sobre tragédias. Posso me manter informada e sofrer pelo outro, meu igual, sem precisar me inteirar de cada detalhe do acidente, da tragédia, da catástrofe. Posso, por exemplo,  saber que o trem de Buenos Aires se desgovernou e atropelou muita gente, sem procurar ler sobre cada caso de cada pessoa que perdeu o pai, o marido, o amigo no acidente. Sou capaz de lamentar e me solidarizar com os envolvidos, de me indignar diante dos sinais de sucateamento dos trens, sem detalhes. Preciso me poupar dos detalhes. Acho que é tudo temporário, um exercício de fortalecimento, mas preciso disso agora. Então eu soube do atropelamento na praia, mas não quero ver a foto da criança. Não dou conta. 

Eu me preocupo com isso, de verdade. Tenho vergonha de assumir que estou fugindo dos detalhes, porque parece que, de uma maneira ou de outra, estou dando as costas para quem precisa de suporte. Mas não funciona assim. Realmente temo por minha saúde. Meu peito dói e me assusta um pouco. Também me envergonho por ter consciência da posição privilegiada em que me encontro, enquanto tantos enfrentam limitações inconcebíveis. O que me custa chorar as dores alheias, afinal, elas nem são minhas? Mas preciso, pelo menos, recarregar as baterias.

(Mas estou aqui, inteira e sem crosta para os amigos. Viu, você?)   

***

Deve haver algo muito equivocado no funcionamento do mundo quando a gente se envergonha tanto ao dizer que quer chorar menos. 

13 comentários:

Angela disse...

Com relacao a isso estou no mesmissimo barco que voce. So que estou me protegendo ha mais de cinco anos, evito as noticias e as tragedias. Virei uma completa alienada. Mas quando elas me acham de surpresa, nao controlo e vou ver os detalhes. A crianca na praia aqui nao foi atropelada mas se afogou. Na praia do "meu" salva vidas. Eu havia ido la no dia anterior para a aula de yoga, e tinha passado um tempo observando as ondas, que estavam mais fortes do que nunca. Li e vi tudo, e deitei para dormir nao chorando, mas aos prantos. O sabado passado inteiro foi de muita sombra, por ter lido tudo sobre o caso de Queimadas. Tambem nao sinto que tenho tendencias depressivas, ate pelo contrario. Mas minha fragilidade nesses ultimos anos diante da crueldade humana e sofrimento dos mais vulneraveis eh inexplicavel. Sinto vergonha como voce, e culpa de tentar chorar menos.

Daniela disse...

Nossa, faço isso direito. Soube pouquíssimo sobre o caso da criança, sobre o trem em BsAs e me recusei terminantemente a ler sobre o estupro como presente de aniversário. Sei que é preciso denunciar, chorar, se solidarizar. Mas tem dias que não dou conta. Também fico meio envergonhada, mas a gente precisa sobreviver. Mais do que isso: a gente precisa permanecer inteiro.

Beijocas

Mariana disse...

Pois é Rita, te entendo muito! Mas eu não sofro de tristeza mas de raiva! Tenho ulceras pensando nos responsaveis (quando ha) em casos como aquele assassino que atropelou os ciclistas em Curitiba ou vendo aquele video da Miriam Rios, ou lendo sobre os estupros de Queimadas... me causa tanta indignação que acabo tendo problemas de saude também, além de ficar agressiva com o mundo todo, que permite que essa gente exista.
E essa blogsfera não ajuda muito nisso... perco meu tempo lendo cada coisa...cruzes! A gente acaba buscando justamente aquilo que deveria evitar... Acho que poupar-se é um exercicio de auto-preservação nesses casos! Nada para se envergonhar!
bjus!

ps: não tô sabendo da criança na praia, mas talvez seja melhor assim!

Lud disse...

Puxa, Rita, te entendo muito. Parei de assistir a jornais televisivos faz um tempo, e me sinto muito melhor desde então. Sei das notícias pela internet, e também não fico atrás de detalhes. Acho que a gente tem de escolher nossas batalhas, e poupar as forças para tentar fazer a diferença. Or the world becomes overwhelming.

Lolla disse...

Rita, nem é fuga.
A gente pode sim se solidarizar sem ter que ficar usando a tragédia das pessoas como entretenimento. Li outro dia no jornal uma psicóloga falando sobre isso, da facilidade que as pessoas ultimamente têm de usar o sofrimento do outro como ATRAÇÃO, só faltam pegar a pipoca, sabe? Sentir muito pela pessoa que morreu ou se feriu, e ficar olhando as fotos na internet, discutindo a dor dos outros e dando opiniões baseadas em nada.

A gente escuta, a gente sofre, a gente deseja luz e força, recuperação, qualquer coisa. Mas precisamos mesmo ir pro google buscar "fotos do acidente XXX em ZZZ"?

Ou seja, admiro a sua atitude. :)

Mari Biddle disse...

Rita,

é dificil se distanciar de tudo ruim que acontece.Estou procurando ler o menos possível sobre tragédias. As vezes dou RT ou compartilho por aí sem ao menos ler tudo. Um dia eu fiquei tão arrasada com uma notícia e mostrei ao meu marido. Ele determinou que eu não fizesse isso mais com ele e nem comigo.

bjs

Renata Andrada disse...

Rita, eu estava pensando em escrever um post hoje exatamente sobre isso. Porque a decisão que você tomou é a mesma que eu tomei. E não acho que seja covardia, é uma estratégia de fortalecimento mesmo, uma tentativa de nos protegermos. Porque há maneiras e maneiras de saber, se envolver, sentir. Podemos (e, acho eu, devemos) buscar formas de não estarmos alheios ao mundo mas, ao mesmo tempo, temos sim que nos proteger. A vida é maravilhosa, mas nela também há tantas coisas difíceis e pesadas. Se não criarmos nós mesmas nossas defesas, como iremos lidar com o que não é tão bacana de uma forma saudável e racional? Prá isso é preciso estarmos inteiras, não nos desmanchando pelas dores do mundo. Pensando em tudo isso eu tomei algumas decisões bem práticas: não ler notícia sensacionalista de tragédia, não ver aquilo que eu sei que vai me fazer mal (inclusive fisicamente), participar apenas das discussões e debates que eu acho que vão ser produtivos. Polêmica à toa e improdutiva só me estressa e, por isso, estou fora.

Um beijo!

Anônimo disse...

Rita,
Sigo seu blog, mas nunca comento. Há algum tempo tenho feito o mesmo que vc. É um sofrimento e não podemos fazer nada para ajudar. Concordo plenmente com a Lola.
Por outro lado, li hj uma entrevista (antiga)feita pela Eliane Brum que me deixou com o coração aos pedaços. Fala de indifereneça ao sofrimento do outro e de como a alienação pode ser "confortável". Claro que não é o caso dos fatos que vc citou. O texto se refere à violência e miséria humanas. Fiquei mto triste, me achando acomodadas e pesando o que eu posso efetivamente fazer para ajudar ao próximo, mesmo que um tandinho só...
Isadora

Anônimo disse...

Se alguem se interessar, segue o link da entrevista:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI228050-15230,00.html

Isadora

Denise disse...

Oi Rita,

Concordo inteiramente com a Lolla.
Eu já sofri muito como você, mas agora sempre que eu ouço estas notícias eu procuro rezar pelas pessoas envolvidas e nào quero saber de muitos detalhes.
Quanto ao sentimento de culpa por estar numa situaçao privilegiada eu não tenho mais. Sabe como solucionei isto, eu digo para mim mesma, eu não consigo mudar o mundo sozinha, mas eu posso ajudar quem está ao meu lado, eu posso educar meus filhos para que sejam boas pessoas e talvez tornar um mundo melhor, eu faço o que está ao meu alcance, pois se todo mundo assim fizesse a vida de todos seria bem melhor. Eu sou responsável apenas por minhas atitudes, eu nào tenho suerpoderes e não posso transformar o mundo todo de uma vez. Sinceramente, por tudo que leio em seu blog acho que vc também é assim.
Fique tranquila, nào tenha vergonha ou culpa, seja esta pessoa boa e torne a vida daqueles que cruzam o seu caminho melhor. Um grande abraço e continue sempre com sua ótima energia.

Rita disse...

Oi, gente.

Esse assunto é meio espinhoso pra mim. Quando falo que sinto vergonha em evitar buscar maiores informações sobre eventos violentos ou trágicos eu realmente quero dizer isso, que sinto vergonha de verdade. Eu não me orgulho de buscar conforto porque naqueles segundos em que me coloco no lugar do outro já percebo quão pequeno é meu incômodo se comparado à perda, à morte, etc. Trato minha atitude como uma limitação mesmo, algo com que preciso aprender a lidar melhor, sei lá como. Adorei os comentários de vocês porque sei mesmo que essa é uma sensação compartilhada por muita gente, mas que nem sempre conseguimos expressar muito bem e sempre corremos riscos de entendimentos equivocados. Mas queria frisar que nada é confortável para mim nessa seara, eu me sinto mesmo muito impotente.

A Lolla tocou num ponto interessante, essa cultura do assombro da qual realmente quero me afastar. Então são duas coisas: não quero fuçar detalhes mórbidos; mas eu queria ser capaz de fazer alguma diferença às vezes, sabe. O que penso, no entanto, é que muitas vezes podemos fazer essa diferença aqui perto, tornando a vida de quem nos toca um pouco mais confortável, menos limitada.

Isadora, quando li a entrevista da Brum no ano passado, fiquei profundamente comovida. Lembro-me que repassei o texto da médica sem fronteiras para meus seguidores nas redes sociais e, se não estou enganada, devo ter mencionado o texto aqui no blog. Foi, de longe, a coisa mais valiosa que li em muitos meses. Então você imagine como é conflitante essa busca por um pouco de sossego quando nos colocamos diante de atitudes como a da Débora Noal.

A violência tem um efeito estranho na gente e desconfio que muitos anos de terapia ainda não dariam conta de me trazer muito conforto. Viver, às vezes, é simplesmente espinhoso demais. Não há saída.

Denise, sem dúvida trazer filhos ao mundo nos faz agentes fundamentais na transformação que queremos ver. É que há dias, aqueles dias, em que a esperança cochila. E há dias em que eu queria ir além, sabe. Mas fico aqui, com o coração encolhido.

Muito obrigada pelos comentários e pelo carinho, todos vocês.

Beijos,

Rita

Murilo S Romeiro disse...

Compartilho com voces esse mesmo sentimento - e no Brasil de hoje tá cada dia mais difícil não se alienar.

A entrevista com a Dra. Débora feita pela jornalista Brum foi uma das mais impressionantes que já li.

Anônimo disse...

Saber que tem gente que compartilha da nossa angustia já é um começo! Dá a sensação de que um dia as coisas podem mudar!
Isadora

 
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