A escola na terra da aurora boreal


Alerta: este blog chove no molhado.

Analisando os resultados de testes que avaliam o desempenho de alunos de vários países do mundo, um país europeu tem recebido destaque nos últimos anos: a Finlândia. Após ocupar sucessivamente o primeiro lugar no ranking de desempenho de alunos com cerca de 15 anos de idade em testes de leitura, matemática e ciências, o país das luzes lindas no céu virou alvo de outros países interessados em entender as razões do sucesso (e certamente copiar sua "fórmula").

Entender o processo que levou a Finlândia ao patamar onde se encontra quando o tema é educação não é difícil. Difícil é copiar o modelo. Para início de conversa, não há escolas privadas na Finlândia. O artigo que li sobre o assunto diz que há algumas poucas escolas "independentes", mas estas também são financiadas pelo governo e são proibidas de cobrar pelos serviços prestados. Os professores são profissionais muito bem valorizados, bem remunerados e muito bem treinados. Ser professor na Finlândia, penso eu, parece ser uma profissão de prestígio: os programas de formação profissional estão entre os mais seletivos do país. Não é simples ser professor por lá e são eles os responsáveis pela elaboração das avaliações semestrais, inclusive no que diz respeito ao sistema de pontuação dos questionários fornecidos aos alunos. Periodicamente, o governo avalia grupos de estudantes país afora como uma espécie de termômetro do desempenho. Mas isso são tecnicalidades. O que importa mesmo é: qual o alvo do projeto educacional finlandês?

De acordo com P. Sahlberg, membro do Ministério da Educação da Finlândia, nada deixa um finlandês mais desconfortável do que a ideia de competir. Não há ranking de escolas na Finlândia; não importa para o país saber qual a melhor escola porque eles estão interessados em deixá-las, todas, praticamente iguais. Ao invés de vender educação em um mercado onde o melhor custa mais caro, o foco dos finlandeses está na cooperação. As escolas são incentivadas a aprender umas com as outras. Os pais podem escolher a escola dos filhos na Finlândia, mas não faz muita diferença no fim das contas. Talvez a que tenha mais árvores? No entanto, nem sempre foi assim: o sistema educacional finlandês sofreu suas crises. Décadas atrás, segundo o artigo linkado no parágrafo anterior, o país se engajou em uma reforma necessária e que parecia um grande desafio. Não mirou na excelência, mas na igualdade. Desde o início do grande projeto, lá nos anos 80, a ideia era que educação fosse vista não como um caminho para formar profissionais de destaque, mas para encolher a desigualdade social. A ideia de que não adianta de nada ter as melhores escolas do mundo dentro de suas fronteiras quando dentro dessas mesmas fronteiras há crianças que não podem usufruir delas.

Quase desnecessário dizer que, dentro de um projeto com esse foco, os elementos-base estão todos lá: refeições, assistência médica e psicológica, monitoramento individual. As crianças são acolhidas em um ambiente seguro onde os jogos criativos têm absoluta prioridade em relação às tarefas enfadonhas e repetitivas. Não deixa de ser irônico ou até engraçado que um dos efeitos colaterais desse projeto venha sendo o notável desempenho dos adolescentes finlandeses nos testes de avaliação que mencionei no início do texto. Outro efeito, quase imediato, vem na forma de visitas de representantes de vários países para dar uma olhadinha mais de perto no que esse pessoal anda fazendo nas escolas. 

Cada país, cada país. As histórias e estruturas são tão várias quanto há países, mas Sahlberg não se rende facilmente a esse pretexto e usa a Noruega como exemplo de país com resultados "medíocres" em avaliações internacionais (com um sistema educacional voltado para a competitividade), mas com características estruturais muito similares às da Finlândia. A grande diferença entre eles estaria no projeto educacional. 

Sahlberg compara o desafio encarado pela Finlândia nos anos 80 com projetos e ambições de celebridades históricas: Kennedy sonhando com o homem na Lua, L.King com o fim da segregação racial, a Finlândia com educação pública de qualidade para todas as crianças de seu país. Muitos disseram que seria impossível, mas eles pagaram pra ver. 

Seria falácia, no entanto, dizer que não há competição no ar. A diferença, no entanto, é que os finlandeses não competem entre si em um sistema que deixa crianças preteridas pelo fato de a educação ser um privilégio para poucos. Eles competem com o mundo e parece que estão indo muito bem. Ainda assim, é preciso dizer, competem com cooperação, revelando a fórmula para quem tiver vontade política de seguir: mirar na igualdade. 

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O artigo que li e que quis compartilhar com vocês pode ser lido aqui. Chegou na minha TL do twitter via @NPTO e foi escrito após uma visita de Sahlberg aos Estados Unidos (país  cujo modelo educacional tem características opostas às do modelo finlandês). O foco é a educação estadunidense, mas podemos vestir a carapuça. Boa parte do mundo pode. 

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Sahlberg escreveu um livro sobre a revolução educacional na Finlândia. Vontade.

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Morro de inveja. É bom frisar que sei nada sobre a cultura finlandesa e que a admiração que expresso neste post é toda voltada para um projeto que adoraria ver rondando nosso país. Não estou falando do país Finlândia, mas de suas escolas gratuitas e lindas. 




10 comentários:

Angela disse...

Um projeto educacional com o foco prioritario de encolher a desigualdade social? Simples, obvio, e ainda assim, brilhante!

Luciana Nepomuceno disse...

E é por coisas assim (essa experiência, esse post, esse blog) que mesmo quando a humanidade dói em mim eu respiro e miro no possível. Que beleza de horizonte, esse.

PS. Mas o frio, brrrrr...

Tina Lopes disse...

Já contei que tive vizinhas finlandesas, não? Nos anos 70, duas meninas, uma da minha idade e outra mais nova. A mais nova estava no segundo ano primário. Das escolas finlandesas, ficamos sabendo tudo isso: tinha alimentação, era integral, e eu achava muito engraçado que elas demoravam vários anos para aprender a escrever em letra cursiva, só usavam as de fôrma. Elas tinham um irmão que ficou por lá com os avós porque tinha uma doença séria e recebia tratamento do governo. A convivência com elas foi revolucionária: não iam pra catequese, não aprendiam a limpar a casa desde cedo, mal viam tv. O único problema me parecia uma recomendação estatal para os casais não terem mais de dois filhos - se não me engano, aquele terceiro custou uma multa. E a faculdade era assegurada, pública, também.Eu sentia muita inveja. Entrei no Orkut e depois, FB, para tentar encontrá-las, mas nunca consegui. BJK.

Niemi Hyyrynen disse...

Olá Rita :)

Nossa, muito legal essa sua matéria sobre a educação da Finlândia.Realmente o ensino lá é ótimo, ver a alimentação e o descanso como parte essencial do ensino é prioridade para qualquer país que deseja se pronunciar avançado.

:) lembro bem da matéria de "recreação livre", é como brincar no parque mas com a supervisão do professor que vai te instigando com perguntas a aprender sobre Física por exemplo, o ensino lúdico.

O professor é super valorizado lá pois muito se discutiu em como manter um país "vivo" após a decada de 50 e o fim da guerra.

Chegou a conclusão que é necessário manter a cultura preservada e o professor é o principal agente da transmissão do saber, por isso ele é importante!

Cheguei aqui pelo twitter, muito bom conhecer novos blogs feministas :)

abçs fica bem!

Clara Lopez disse...

Muito bom, rita, e a fala do pensador linkado é ótima também,
abraço, clara

Mariana disse...

Pois é Rita, é o contrario disso que eu temo quando te falo da minha angustia em relação às escolas em Floripa. Não tem como ser mais elitizado que aquilo..; e ainda tem mais: tenho certeza que nem a elite da elite tem uma educação sequer comparavel à dos finlandeses! E ae que estou aqui, usufruindo de um sistema de educação publico ha anos luz da Finlândia mas ainda assim, muito mais igualitario que o do Brasil. A partir de setembro a Sofia vai para a Maternelle e la vai encontrar coleguinhas de varios lugares do mundo, de todas as etnias e de todas as classes sociais. E ja li o programa de cabeça pra baixo e de tras pra frente e estou confiante de que ele esta bem perto do que eu considero como um bom começo de vida escolar. Pena que depois o negocio por aqui degringola. Tudo que os franceses inovam em termos de educação infantil eles ignoram no ensino fundamental e principalmente no médio. Aula-palestra é o método pedagogico mais utilizado. Na minha area, eles pararam no século 18. E infelizmente, os profissionais da educação não tem prestigio e nem ganham o que mereciam apesar das inumeras formações especificas que eles devem fazer. No passo que a coisa vai, ja ja a França vai estar como o Brasil: quem paga tem ( e olhe la), quem não paga...mofa!
Queria muito muito saber como os finlandeses trabalham com a questão da deficiência em suas escolas! Vontade de ir pra la descobrir mas finlandês não deve ser uma lingua facinha, né?
:°(
bjus!!!

Mariana disse...

Voltei aqui pra te perguntar uma coisa: vc ja viu o documentario "waiting for superman"? é sobre a decadência do ensino publico americano. Eu baixei, vi e fiquei de cabelo em pé!
Mas o filme vale muito à pena!

Rita disse...

Oi, gente.

legal o comentário da Niemi com seu testemunho, né. Obrigada, Niemi, seja bem vinda.

Anginha, Lu, Clara: dá uma vontade de chamar o povo que manda, ne? E dizer, psiu, escuta aqui, meu. Vumbora mudar essa coisa? Né, assim, bem simples. :-)

Tina, onde se escondem essas pessoas que nem o facebook acha?? Mistério. :-)

Mariana, teremos muitas figurinhas para trocar, querida. Muitas.

Beijos, pessoas.

Rita

Anônimo disse...

Excelente post!

Não basta, como dispõe o nosso art. 205 da CF (ou o art. 2o da Lei de Diretrizes e Bases da Educação), que a educação vise "ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho", é preciso que ela efetivamente se preste à redução da desigualdade social.

Sinceramente, é uma alegria saber que existem lugares assim no mundo. Oxalá o Brasil consiga um dia chegar a esse nível também!

Abs.,
P.

Rita disse...

Obrigada, P. Todos na torcida. :-)

 
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