Dos bons clichês



Apesar de ser ignorante em certos territórios das artes, sou feliz por não achar que preciso entender para apreciar. Não sei a diferença técnica entre uma sonata e uma sinfonia, mas sei ouvir e me arrepiar. É claro que eu adoraria saber mais, inclusive adoraria tocar um instrumento, qualquer um. Não estou desdenhando de quem sabe, mas sou sincera ao dizer que me emociono com certas peças ainda que sequer saiba quem as compôs. Nos tempos das velhas fitas K7 (aff...), eu tinha lá a minha coleção. As campeãs de audiência eram, sem dúvida, as fitas do Caetano (não diga) e a do maior clichê do universo da música erudita, As Quatro Estações de Vivaldi, além de uma coletânea de Beethoven, Tchaikovsky e Mozart (que escolhi ao acaso entre as opções disponíveis na loja onde encomendei a gravação da fita - outros tempos, gente). Só muito tempo depois "descobri" Bach, a tonta, e, quando vieram os CDs, pude me envolver um pouco mais com a música clássica. Mas guardo As Quatro Estações num cantinho especial do peito até hoje. Não sei dizer qual o movimento de que mais gosto, mas há grande chance de ser o segundo movimento do Inverno. A culpa é deles, os violinos. 

Depois de várias aulas individuais de flauta doce, ontem o Arthur foi à sua primeira aula de prática de conjunto. Todo apreensivo, pediu que eu ficasse com ele. Nem precisei pedir à professora, foi só chegar e já ser convidada a participar da cantoria. Tomei um susto quando entrei no salão onde acontece a aula. A escola é pequena e não esperava encontrar lá tanta gente. "Conjunto" de cinco ou seis já é um conjunto, né? Mas havia cerca de 35 pessoas na sala. Vários a postos com o violão no colo, outros tantos com violinos, um garoto com um contrabaixo, três ou quatro meninas sentadas diante dos teclados, etc. Maior galera, alunos, professores, adultos e crianças. No canto esquerdo da sala ficavam os novatos, munidos de clavas para acompanhar a barulheira numa espécie de percussão para iniciantes - e foi para lá que eu e Arthur nos dirigimos. Todos a postos, letras e cifras disponibilizadas, soltamos a voz. E batucamos bem. Achei divertidíssimo. O repertório maluquinho incluía de Vinícius de Moraes a Pitty. Depois de uns quinze minutos o Arthur começou a se sentir mais à vontade e passou a cantar junto. Tomara que a professora me convide toda vez. 

Aí fico ali olhando os violinos. As canções do aulão eram todas populares, então ninguém executou nada demais. Mas como não amar? Um acorde mequetrefe de nada e já fico ali achando que o instrumento não é coisa desse mundo. Se eu não soubesse da minha absoluta inaptidão para a música, cogitaria uma matrícula no curso de violino, afinal a escola fica perto da minha casa e estou com o pé lá dentro por causa do Arthur. Mas todo mundo precisa de um pouco de senso de ridículo. Vou ficar bem quieta no meu canto, entendendo nada e curtindo muito.


3 comentários:

Angela disse...

Achei divertidissimo esse encontro musical do Arthur. Gente tem tanta coisa sendo ensinada para o pequenino ai, a parte no todo, a beleza do resultado de um trabalho em conjunto, os sons e nuances dos intrumentos, que imersao maravilhosa!

E o bom das artes eh que o conhecimento teorico ou as diferencas tecnicas nao sao prerequisitos para os apreciadores, e as vezes na minha opiniao pode ate limitar, ao inves de expandir.

E por falar em limitacoes, chuta esse Sr. Senso de Ridiculo que se pos entre voce e a musica. QUem nao tem aptidao tem que praticar mais para conseguir a mesma recompensa musical, mas que rola rola. As unicas pessoas que conheci que nao conseguiam tocar o instrumento para falar a verdade foram as pessoas que nao gostavam de tocar. Se tiver tempo vai la e faz! Tocar um instrumento musical eh inofensivo e vem do coracao. E me parece que o seu coracao ta cheio de musica.

Dária disse...

Segundo um tio meu: se todo mundo soubesse tocar, a música não teria tanta graça. Concordo em parte com ele. Tendemos a apreciar ainda mais aquilo que não somos capazes de executar. A ignorância é boa, em vários momentos ;)

Atapoã Da Costa Feliz disse...

Rita,
Você está certa, o mais importante não é conhecer a diferença entre uma sinfonia e uma sonata, mas saber ouvir com o coração.
O poeta e escritor Rubem Alves gostava tanto da profusão de cores dos ipês que sugeriu a um músico que fizesse uma Sinfonia, com três movimentos: Ipê rosa, Ipê amarelo e Ipê branco. Parece que não foi atendido. Não tenho capacidade para compor uma Sinfonia, a qual, segundo o Dicionário Grove, é uma obra orquestral de grandes dimensões, geralmente em três ou quatro movimentos. É tradicionalmente considerada a principal forma de composição orquestral. Mas, fiz uma Sonata -peça musical, quase sempre instrumental e geralmente em vários movimentos, para um solista ou pequeno conjunto - composta de 3 movimentos que ora compartilho.
Parabéns pelo bom gosto.
Atapoã Feliz
www.omapala.mus.br


Ipê roxo - 1º Movimento:

https://www.youtube.com/watch?v=U6WyEEEAK7c&feature=youtu.be

Ipê amarelo - 2º Movimento:

https://www.youtube.com/watch?v=laL_aYI_Dp4&feature=youtu.be

Ipê branco - 3º Movimento:

https://www.youtube.com/watch?v=FyoWP3c0efo

 
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