A Bruxa do Dente




Certa dor de dente que senti há alguns anos está entre as duas piores dores físicas que já tive o desprazer de experimentar. A outra foi causada pelo empedramento do leite no início da amamentação do Arthur. A dor de dente, no entanto, ganha no quesito compensação zero. Lidar com o leite empedrado não foi tarefa fácil, mas o estímulo para vencê-la era imenso. A dor de dente, no entanto, só me causava vontade de sumir. A data também não foi das melhores (se é que podemos falar em datas boas para dores de dente): o dia em que eu enfrentaria um longa viagem de avião. Senti a primeira pontada mais forte no momento em que tomei o primeiro gole de meu café antes de seguir para o aeroporto, por volta das seis horas da manhã. Lá, no aeroporto, já telefonei para minha mãe, que me receberia em Campina Grande, para que ela agendasse uma visita a qualquer dentista com horário disponível naquele dia. Àquelas alturas a dor já não era em pontadas, mas contínua, pesada, pulsante. 

Embarquei com muita dor, mas não poderia imaginar o inferno que enfrentaria nas horas seguintes. A sensação que tornava minha boca ultrassensível aos poucos foi se irradiando para a região das orelhas e do pescoço. Depois da segunda conexão, minha cabeça inteira era uma enorme melancia latejante sobre um pescoço rígido que experimentava, a todo segundo, as ondas de dor que irradiavam a partir do meu incisivo inferior. Eu não conseguia virar a cabeça, olhar para baixo ou para cima. Movia-me com imensa dificuldade e cheguei ao aeroporto em Campina Grande com a face retorcida, banhada em lágrimas. Foi preciso esperar cerca de quatro horas até poder ser atendida, já à noite, por uma dentista santa e abnegada que aceitou fazer um canal depois de um longo dia de trabalho. O momento em que ela aplicou a anestesia entrou para a história de minha vida ali, no rol dos grandes alívios.


A causa da dor foi meu velho companheiro de infância, o bruxismo. De tanto voar em uma vassoura, opa, não, isso é outra coisa; de tanto ranger os dentes, aos poucos vou desgastando o esmalte até expor a polpa. Descascar o esmalte, danificar a dentina, é um processo indolor, quase invisível. Os dentes têm a forma alterada, mas a gente vai se acostumando e praticamente não se dá conta das pequenas mudanças anatômicas do sorriso. Até que o desgaste é tanto que expõe a polpa do dente. A dor é excruciante. O tratamento é um canal e a promessa de dormir para sempre com a placa protetora. Um charme.


A placa protetora poderia ser receitada como método anticoncepcional. De vez em quando brinco de seduzir o Ulisses com minha voz de pato que cospe. Mas é bem de vez em quando mesmo porque a verdade sem vergonha é que negligencio meus dentinhos e durmo sem a bendita. Esqueço de botar, ou me lembro, mas fico com preguiça. Essas coisas de pessoas disciplinadas. O resultado é que, vira e mexe, lá estou eu na cadeira do dentista retocando as aplicações de resina que vivo fazendo para recompor o esmalte e evitar um desgaste maior nos dentes. A última vez foi em dezembro. De lá pra cá, dormi com a placa uns cinco dias. A próxima vez será ainda esta semana, porque a resina já se quebrou outra vez. 


O bruxismo costuma ter relação direta com níveis elevados de stress. Sou uma pessoa ansiosa desde sempre e sei que tudo deve mesmo passar por aí. Não raro me pego com o maxilar travado, em momentos de maior tensão durante o dia. Chego a sentir a região cansada, como se tivesse mascado chicletes por um longo tempo. Dormindo, o bruxismo se manifesta pra valer e mexo o caldeirão, digo, pressiono as arcadas uma contra a outra e vou lixando os dentes, coitados. 


Hoje estou com medo porque senti um leve desconforto ao comer um sanduichinho de nada. Mal vejo a hora de ter a resina novamente aplicada. Vou de novo prometer ao meu dentista que vou dormir com a placa. Dessa vez vou cumprir. Palavra de bruxa. 


***


Enquanto mastigo suavemente com medo de abrir o dente, os dentes do Arthur despencam como goiaba madura. Tá, tô exagerando, foi um só. O da frente, da grande porteira; mas o vizinho tá balançando e não tarda a despencar também. Dizem que a Fada do Dente vai passar hoje à noite. Ainda não tenho certeza, mas acho que ele só finge que espera a Fada. Já sabe que quem passa mesmo é a Bruxa. 


7 comentários:

Tina Lopes disse...

Também tenho bruxismo, mas não ranjo os dentes: travo. Até que eu usasse aparelho e desentortasse um pouco a mordida, entre os 31 e 34 anos, quebrei muitos dentes, acho que quase todos. Até a raiz, muitos. Uma beleza. Cirurgia de reduzir a gengiva pra se chegar ao comecinho da raiz é comigo. Minha ex-dentista do interior de SP, professora da USP, levava minhas radiografias pros alunos. Agora a coisa parou um pouco. Mas volta e meia... crec. O mais recente foi o da frente, um tantinho só. Amanhã ligo pro dentista. A placa? Nem sei onde foi parar.

Liliane Gusmao disse...

Bruxismo, presente!
Durmo de placa, sempre se não durmo o ar gelado da manhã é o suficiente para doer até o fundo da alma! O crec crec acorda o marido e todas as pessoas num raio de 500 km. Tá é exagero! Um canal foi o suficiente para mim... A placa amiga me salvará!

Aline Mariane disse...

outra sofredora de bruxismo e usadora (esquecedora) de placa.
A melhor solução que me receitaram até hoje foi de um terapeuta e não de um dentista: gastar o estresse do maxilar antes de dormir. Então em dias de grande ansiedade, pode-se me ver mordendo uma toalhinha com muita força antes de dormir. Isso garante que eu consiga abrir a boca no dia seguinte.

Juliana disse...

Nossa , fiquei meio assustada com o que vc escreveu e com o comentário da Tina. Não imaginava que o Bruxismo chegasse a esse ponto.

Clara Lopez disse...

Nessa estrada anil sempre temos ótimas leituras, tb estou às voltas com cirurgias em dente, antibióticos que me dão rubores, taquicardias - sou alérgica e sensível a quase todos, agora esperando sem medicação que não inflame, para tirar pontos na quinta. Enfim, maior coincidência vc tratar desse tema excruciante. E maior injustiça - todos devíamos ter fadinha do dente forever.
bjo, clara

Deborah Leão disse...

Mais uma da turma do bruxismo aqui, mas fiel convertida da plaquinha - viajou comigo até Ushuaia, inclusive, sendo usada todas as noites na frente dos coleguinhas de viagem.

No meu caso, antes de aderir à bendita placa, desgastei os dentes da frente de tal forma que parece que eles estão tortos, embora não estejam. E não tem saída, se for tentar nivelar tudo, vai ficar pior.

Marido ainda é pior, ele tem bruxismo inclusive de dia (o meu, pelo menos, é só à noite), e está enrolando pra ir ao dentista...

Rita disse...

E se a gente fundasse um Liga das Bruxas Desdentadas??? Hein, hein?? Tentadora a minha proposta, não?

:-D (sorrido banguela)

bjs!

Rita

 
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