Velhas memórias da velha Escócia


É um post longo. E a história é velha. Mas é final de semana, então senta aí e relaxa. 

***

Foto que tirei do Monstro do Lago Ness (mentira).

A decisão de visitar a Escócia veio de repente, procurando o que fazer no final de semana prolongado. Eu teria cinco dias para fazer o que quisesse e não demorou muito até encontrar outros quatro desocupados. Eram três brasileiros (um casal de irmãos do interior de São Paulo e um guri de Minas) e uma garota de República Tcheca, todos alunos da mesma escola em que eu estudava. Com cinco pessoas, o aluguel do carro e a hospedagem ficariam mais baratos. Decidimos tudo rapidamente, apesar de ninguém se conhecer direito (com exceção dos irmãos, logicamente). 

Faz tanto tempo que não me lembro mais como foi a compra das passagens de trem para ir de Londres a Edimburgo. Só sei que na véspera da viagem fui dançar num barzinho australiano em Shepherd's Bush e, consequentemente, perdi a hora no dia seguinte. Quase fiz todo mundo perder o trem, mas felizmente conseguimos chegar em cima da hora e embarcar. A caminho da estação de trem, no metrô, conversei com meus companheiros de viagem (morta de vergonha por causa do atraso) e percebi que a viagem seria, hum, divertida. Já no trem, exausta, adormeci nas primeiras milhas da viagem. Quando acordei, o mundo estava branco. Era a primeira vez que via neve na vida e nunca vou me esquecer das imagens que passavam pela janela do trem: plantações cobertas com lonas imensas cercadas por quilômetros a perder de vista do branco mais branco. Ainda era norte da Inglaterra, as terras eram planas, eu nem tinha descido do trem, mas já estava satisfeita. Naqueles campos ingleses, cabia pelo menos metade das minhas fantasias de adolescente que eu importava dos romances que lia. 

Quando chegamos em Edimburgo, fomos imediatamente alugar um carro. Não queríamos nada com a capital naquele dia, nossos planos eram todos voltados para as Highlands e o famoso Lago Ness. Exploraríamos Edimburgo na volta para Londres. Alugamos um carro pequeno, o mais barato que conseguimos, acomodamos nossas mochilas no porta-malas do jeito que deu, ligamos o aquecedor, abrimos o mapa e seguimos para Inverness. A Escócia, dizem, é um lugar bem mais animado no verão. Entre setembro e abril, no entanto, é uma espécie de terra fantasma, coberta de neve, com várias atrações turísticas fechadas (destilarias, my lord) e mais neve. Nosso caminho para Inverness foi ficando cada vez mais branco, cada vez mais montanhoso e, aos meus olhos, cada vez mais lindo. A cada quilômetro vencido, nossa empolgação crescia. Paramos várias vezes na estrada para admirar ovelhas enormes e gordas, com suas carinhas pretas muito curiosas; vimos muitas renas, ou parentes delas, e, claro, fizemos boneco de neve enquanto o carro esperava no acostamento. Resumindo: o deslumbre foi grande. 

Inverness estava praticamente deserta, mas a gente nem ligou. Era só uma parada para dormir e seguir rumo a Isle of Skye no dia seguinte, high, high in the north. Foi em Inverness que vi a neve despencar com força pela primeira vez e também foi lá, no albergue onde pernoitamos, que tomei o pior banho da minha vida. Para ganhar espaço na mochila, não levei chinelos. Ora, todo banheiro por aquelas bandas é aquecido, não haveria necessidade. Pois bem, o chão do banheiro do albergue gelado era gelado. O chão do cubículo destinado ao banho era de inox, gelado. A água que saía do chuveiro fervia a mil graus. Queimei a cabeça, congelei os pés, morri de frio e xinguei até os tataravós de William Wallace. Fazia tanto frio no quarto do albergue que dormi de luvas. No dia seguinte, de nariz entupido, toda a raiva passou. Da janela do quarto no terceiro andar do albergue, vi telhados, ruas e árvores cobertos de branco e fui feliz de novo. 

Comemos qualquer porcaria e fomos embora. Apesar da nevasca da noite, a estrada estava impressionantemente limpa. Não sei quem eram os abnegados que passavam o maquinário para remover a neve das estradas nas primeiras horas da manhã, mas todo meu amor foi para eles. Seguimos em meio a montanhas brancas infinitas por uma estrada absolutamente limpa e muito bem sinalizada. E um céu inacreditavelmente azul. Fiz fotos lindas que, se não estivessem guardadas num álbum pesado lá na última prateleira da estante, juro que digitalizaria alguma para pôr aqui. Mas não, vocês não são assim tão curiosos. (Aliás, tem alguém aí lendo ainda?)

Entre Inverness e a Isle of Skye, onde chegamos no final do dia, visitamos castelos. Vários. Aliás, visitamos castelos todos os dias, era o que tínhamos para ver. Amei cada visita. A lembrança que guardo dos castelos que visitei no norte da Escócia é algo que cheira a história. A expressão é muito clichê, mas não há motivo para  não usá-la: viaja-se no tempo. Cada um com seu pedaço de glória e seu histórico de invasões e conflitos, aquelas paredes seculares me causaram arrepios. A Escócia é velha. É uma bisavó cheia de história e sua voz é linda. E, de novo, eu era a criança; só que com os pés num castelo de verdade. E depois mais um. E mais um. 

A noite em Skye foi bem mais agradável que a de Inverness. Dormimos num confortável B&B, tomei um banho de gente e tivemos um café da manhã de reis. A dona da casa onde funcionava o B&B era a simpatia em pessoa e até tentou nos ensinar algumas palavras do dialeto engraçado que os escoceses falam em alguns lugares. Sem sucesso, claro, ninguém aprendeu nada. A neve seguiu com sua trégua bem vinda e, de barrigas bem cheias, fomos à caça (modo de dizer) de focas e leões marinhos que habitam as ilhotas do lugar e, tchan ans!, era chegada a hora de ver o fabuloso, o legendário, o inigualável Lago Ness. Pois bem. Pausa para contextualização. Quando eu era pirralha, li um livro que contava a história do Monstro do Lago Ness. O livro era uma graça e cresci louca para ver o tal lago. Que, na minha cabeça, era um lago, assim, pequeno, sabe. Como lagos pequenos, vocês me entendem. Hoje, quando falam "lago", penso nos grandes lagos da fronteira dos EUA com o Canadá, ou na Escócia - água a perder de vista. Mas naquela época, "lago", pra mim, era um troço pequeno. Pois bem. Depois de fotografar os leões marinhos ou sei lá que bichos eram aquelas coisas moles e grandes, abrimos o mapa e fomos na direção do, oh, emoção, Lago Ness. Demoramos muito até nos localizarmos. Seguimos, seguimos, seguimos, nada. Voltamos, voltamos,  nada. Tornamos a seguir e tudo era montanha e vales de um lado, água do outro. Muita água. Dirigimos quilômetros margeando o que achávamos ser qualquer coisa, menos um lago. Até que a garota tcheca que lia o mapa anunciou: gente, essa coisa aí, essa água que tá do nosso lado há quilômetros, é o Lago Ness. Cabeças se voltaram para a esquerda. Óóó! O Lago Ness. Eu olhava aquela coisa enorme, sem fim, e pensava no lago que por alguma razão eu visualizava pequeno, redondo e com patos. Seguimos por mais alguns quilômetros até um mirante e lá tiramos nossas inevitáveis fotos ao lado das grandes placas com desenhos de Nessie, o monstro que ninguém viu. Nem nós, claro (a gente quase nem viu o lago, imaginem o monstro). Depois seguimos margeando suas águas escuras e rindo da minha falta de noção.

Depois do Ness, mais castelos e uma noite em Glasgow. Para mim, é oficialmente a capital mundial das pessoas simpáticas. Em Glasgow, um motorista chegou a descer do carro dele, enquanto o sinal estava vermelho, para nos mostrar o caminho porque PERCEBEU que estávamos perdidos. Inédito. Deixamos o carro em frente ao B&B e exploramos a cidade a pé. Estávamos cansados, felizes e, agora sim, loucos para conhecer Edimburgo.

Finalmente, no dia seguinte fomos para a capital do país e visitamos o maravilhoso Ebinburgh Castle. Depois de tanto castelo, achei que não fosse mais me interessar por ele, mas foi só me ver diante daquela grandeza toda para escalar feliz as muitas subidas que nos levariam à entrada do castelo - Edinburgh Castle foi erguido sobre um vulcão extinto. E é lindão. Em seguida descemos morro abaixo e, para não dizer que fomos a Roma e não vimos o papa, visitamos a única destilaria que conseguimos encontrar aberta. Turista é bicho muito tolo, porque eu detesto uísque. Mas lá estava eu. Aff.

Devolvemos o carro e pegamos o trem de volta para Londres levando lembranças saborosas do país mais lindo que visitei na Europa. É uma pena que eu não tenha feito um diário de viagem, certamente já me esqueci de muita coisa, lá se vão 14 anos... Sei que rimos muito de nossas trapalhadas com o hermético sotaque escocês ("pay"[pagar] pode ser pronunciado da mesma maneira que "pee" [fazer xixi] e vocês podem imaginar minha cara negociando o pagamento do aluguel do carro); que comemos muito mal com nosso orçamento apertado de mochileiros; e que curtimos muito. Adoraria voltar. 

Foi preciso esperar vários dias até revelar as fotos naquela era mesozóica pré-digital. Devo ter umas, sei lá, trinta fotos da Escócia. Hahaha. Fosse hoje, teria trezentas. O engraçado? Não precisei ver nenhuma delas para navegar nas lembranças daquele final de semana. Just thinking. Mas a verdade é que adoraria voltar lá para tirar mais mil fotos, de cada montanha, lago, castelo. Queria voltar com minha tropa e me deslumbrar de novo, mostrar aos meus filhos o lago que eu imaginava pequeno e redondo. É bom ver de perto os cenários de nossa imaginação e, com sorte, descobrir, como eu descobri, que podem ser ainda mais fantásticos quando vistos assim, ao alcance da mão.



13 comentários:

caso.me.esqueçam disse...

"Queimei a cabeça, congelei os pés, morri de frio" - hahahahaha fiquei imaginando rita sambando no box…

"Mas não, vocês não são assim tão curiosos. (Aliás, tem alguém aí lendo ainda?)" - somos sim, muito curiosos. e espero pra esse ano ainda (razoavel, né) a digitalizacao dessas fotos 8)

"Em Glasgow, um motorista chegou a descer do carro dele, enquanto o sinal estava vermelho, para nos mostrar o caminho porque PERCEBEU que estávamos perdidos". ééé… igualzinho na FR. soh que nao.

(e esse castelo? O_o)

Livia Luzete disse...

Parei de ler o post, só para vir clamar por fotosss ,please!!!

Livia Luzete disse...

Eu acho que essa do "tamaninho" do lago faz parte do imaginário de muitos ,viu?...rsrsr

Luciana Nepomuceno disse...

fotos, please (2 ou 3, rs)

lendo tudo, comentando nada, a net aqui é terrível. saudades e já é quase março \o/

Daniela disse...

obvio que eu li tudo né? e né? fotos, onde? :-)

Mariana disse...

Li tudinho e quero muito ver as fotos! Morro de vontade de conhecer a Escocia!!!

bjus!!!

Anônimo disse...

Adorei o texto. Ri muito de você achar que o Loch Ness era um "tanquinho", pois eu sempre achei o contrário. Você nunca se perguntou como eles não conseguiam encontrar Nessie num lago "tão pequeno"?...Fiquei com vontade de ver as fotos das ovelhas, do carro, do grupo esquisito, aliás, de tudo...

Paulo M

Rita disse...

Pessoas, vou digitalizar umas fotos e botar aqui, ta? Vocês venceram.

bj
Rita

Murilo S Romeiro disse...

Parabéns pelo texto! e agora as fotos!!!!
:-)

Nathália disse...

Rita, acabei entrando aqui por causa do seu reblog no meu post do picolé de kiwi, mas acabei ficando, pois seus textos são lindos!
Adorei.

Beijos!

Nathália disse...

Aliás, sua versão com leite condensado deve ser muitoooo melhor!!
;)

Luana disse...

Escócia, preciso muito ir pra la! =)

Livia Luzete disse...

êba!!!!! obrigada,já ví as fotos amei!!!!

 
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