O Filho Eterno


Na primeira vez que li alguma coisa sobre O Filho Eterno, do escritor catarinense Cristóvão Tezza (Ed. Record), minha timeline trocava tweets sobre o autor - uma das tuiteiras em questão tinha sido aluna dele na Universidade Federal do Paraná há algum tempo e tinha publicado um post sobre o livro (no meme de livros que fizemos no ano passado). Não muito tempo depois, fui sorteada na brincadeira de final de ano do blog da Ju. E Dona Ju Finíssima Flor resolveu me enviar de presente seu exemplar d'O Filho Eterno. De imediato, tuiteiras que já tinham lido o livro trataram de me deixar com água na boca, falando maravilhas da obra. 

Ainda assim, mesmo antecipando que leria algo muito bom, não previ o que me esperava. 

Recebi o livro na sexta-feira passada, dia 06, e comecei a leitura no mesmo dia. Lá pela página 32, já entendia a empolgação do pessoal no twitter. E me espantava diante da generosidade da Ju em me enviar seu exemplar, para o qual, egoísta eu, olho agora com adoração, como quem admira um tesouro. Ontem, no sábado, depois de um dia gozado no fuzuê de filhos e amigos, voltei sedenta à leitura que me manteve acordada até 1:30h da madruga. Na manhã de hoje, concluí, saudosa já, a inesquecível experiência que foi este meu primeiro encontro com a escrita de Cristóvão Tezza.

Sortuda, eu.

O Filho Eterno é uma autobiografia escrita na terceira pessoa. Difícil apontar o que mais me espanta, se o domínio que o autor tem da arte de nomear coisas e descrever eventos (a palavra é perspicácia), se a coragem com que expõe suas angústias quase inconfessáveis, se a precisão com que lê nossa caminhada nesse mundo, se a fluidez de sua escrita que não nos permite perceber que as páginas se vão. Ao final, lindo aliás, senti o peito apertado, garganta travada e profunda gratidão por ele ter escrito sua história. Grata pelas aulas de bom uso da linguagem. Pelas reflexões tão acertadas sobre nossa relação com o tempo, sobre a fragilidade dessa relação e do tanto que ela nos define. Há mais reflexão filosófica em Filho Eterno - na melhor acepção que se pode dar à expressão -  que em muito tratado de Filosofia. Porque as janelas através da qual Cristóvão vê o mundo se multiplicam e se escancaram no momento em que sua estrada é revirada de forma irremediável, naqueles poucos segundos diante da notícia que não só transformou  sua vida, mas em grande parte determinou seu entendimento da confusa condição humana. E, generoso, ele nos oferta, sem qualquer traço de drama ou pieguice, o que de melhor extrai de sua desafiadora jornada. Um livro inesquecível. Para mim, a porta de entrada para a obra de Tezza, pois sinto-me agora muito interessada em saber o que ele tem a dizer sobre qualquer coisa.

Depois de terminar o livro, li várias resenhas (todas, com muita justiça, permeadas de elogios) e bastaria linkar uma ou duas para deixar qualquer leitor desse blog com vontade de correr à livraria mais próxima. Mas tenho esse comichão que me leva a verbalizar e declarar minhas paixões. O Filho Eterno me deixou com aquela felicidade leve que sinto cada vez que descubro uma obra de arte inebriante: a felicidade que vem quando nos lembramos que o mundo está cheio delas e que ainda há muito a se aprender, sempre. Ainda assim, segue um trecho extraído daqui:

"Quem termina a travessia arrebatadora das 222 páginas de "O Filho Eterno" haverá de sentir um alívio e uma alegria. O leitor concluirá que, feitas as contas, o poeta Drummond tinha toda razão ao dizer que nossa existência é "um sistema de erros", "um vácuo atormentado", "um teatro de injustiças e ferocidades" , mas, no caso de Cristovao Tezza, tanta dor, tanto tormento, tanto espanto, tanto vácuo, tanto remorso, tanta incredulidade, tudo, enfim, foi recompensado com uma bela contrapartida, o melhor prêmio que um escritor poderia esperar : concebeu um livro que todos deveriam ler sobre um personagem que todos haverão de amar. Chama-se Felipe.

É este o nome do filho eterno." 


É isso aí. Obrigada, Ju. (De certa forma, ainda não acabei de ler. O livro ficou em mim, em ecos.)


6 comentários:

caso me esquecam disse...

"De certa forma, ainda não acabei de ler. O livro ficou em mim, em ecos."

livro bom eh desse tipo, que destroi a gente :)

Juliana disse...

sobre esse livro, duas palavras: angústia e deslumbramento.

Não fui generosa ao te mandar meu exemplar.Na verdade, a cada página que eu lia, o livro meio que me dizia: " eu quero que a Rita me leia, eu quero que Rita me leia". Tive que ceder aos desejos do livro. =p

Eu nem vou falar sobre as minhas impressões porque o resultado será um comentário bem confuso. Fiquei muito tocada, muito mesmo - e mexida.

Daniela disse...

Eu até comentei com a Ju: MORRO de medo desse livro. Faz anos que fujo dele.

Angela disse...

Tantas obras de arte que nao sei mais se nunca vou ler ou assistir pela mesma razao da Daniela: medo. :(

O Divã Dellas disse...

Vai entrar pra lista de livros que lerei em 2012.

Adorei o post!

Verônica

Dária disse...

"De certa forma, ainda não acabei de ler. O livro ficou em mim, em ecos"

- Bonito isto!

 
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