Memórias de uma adolescência sem mesada


No tempo em que minha mãe pagava todas as minhas contas, as coisas eram bem controladas pro meu lado. Nunca tive mesada, o dinheiro para o lanche do colégio era contado, roupas eram compradas apenas quando realmente necessárias. Os tickets de estudante para o ônibus da escola eram dados dois a dois, todos os dias - o talão de tickets não ficava comigo - e ela sempre cobrava o troco do pão. Eu tinha que dar conta de tudo de novo ou diferente que aparecesse em minhas mãos. Uma vez usei o dinheiro do lanche para comprar bijus e precisei enfrentar um longo interrogatório até que a verdade viesse à tona e ela se convencesse de que não haveria uma segunda vez. Não que eu estivesse cheia de bijus e aquilo fosse um ato de consumismo exacerbado, nada disso. Eu praticamente não tinha acessórios como pulseiras, brincos ou anéis, porque um par de brincos sobreviventes à primeira infância e um único anel eram mais do que suficientes para satisfazer minha vaidade adolescente, julgava ela. O problema era que dinheiro para lanche era dinheiro para lanche e só. 


Minha mãe foi uma pessoa muito pobre na infância e começou a trabalhar quando ainda era uma menina. Só concluiu a faculdade quando eu, a filha mais nova, tinha nove anos. Sempre trabalhou demais e desde muito cedo precisou aprender a fazer o dinheiro render. Acredito que quis ensinar esse controle aos filhos, mostrar que, quando o dinheiro não é abundante, pequenos gastos dispensáveis podem fazer uma diferença importante no final do mês. Então eu estudava em escola particular, mas o dinheiro do lanche era controlado a ferro e fogo. 


Os tentáculos do controle financeiro de minha mãe se movimentavam por todas as esferas da casa. Nada de luz acesa em cômodos vazios, banhos prolongados, comidas requintadas. Dinheiro sobrado era dinheiro aplicado e nunca gasto com "futilidades", como férias na praia ou um carro para a família. E, obviamente, nada de conversas longas ao telefone. Em um tempo sem internet, sem os longos papos no twitter ou no canal que for, o telefone muitas vezes era o único caminho disponível para a boa conversa jogada fora, tão abundante em tempos de banda larga. Sem ele, a última novidade sobre aquele cara, que olhou para você ontem, teria de esperar a próxima aula de inglês até que você pudesse dividi-la com a amiga da cidade vizinha. Claro, você poderia ligar para ela e ficar de papo por uns quinze minutos - se você não fosse filha da minha mãe. Comigo a regra era clara: telefone, só para emergências. 


Um dia a necessidade fofocativa falou mais alto e bati o pé. Eu tinha uns ganhos mixurucas com aulas particulares e posei de independente wannabe: anunciei que ela não precisava se preocupar com o valor a ser pago por aquela ligação porque eu precisava conversar com Fulana e pagaria a conta com meu "salário", cof cof. Ela concordou. Ainda me lembro que me senti muito dona do meu nariz. Peguei o telefone e botei todos os papos em dia, sem me preocupar com o relógio. Ou com o bolso. Semanas depois, quando a conta chegou, minha mãe cobrou a promessa. Entreguei o dinheiro certa, absolutamente certa de que ela perdoaria a dívida depois de uma ou duas palavras sobre o valor do dinheiro, bla bla. Mas nada. Ela segurou o dinheiro bem diante dos meus olhos suplicantes e disse: "é seu, mas você já gastou". E lentamente guardou o dinheiro na bolsa dela. E nunquinha me devolveu. Foi um episódio corriqueiro, mas a verdade é que nunca me esqueci dele. Aquilo valeu muito mais do que longos sermões sobre a importância do planejamento quando o assunto é dinheiro.


Não foram poucas as vezes em que minha mãe me ajudou financeiramente. Do jeito que conseguia, no limite que podia, sempre me estendeu a mão e, muitos anos depois da conta do telefone, ela até colaborou com gastos que, sei, não considerava "essenciais". Mas sei que ela o fazia porque percebia que tínhamos apreendido a lição. Agora a brincadeira vai começar pro meu filho.


A partir desse ano, Arthur vai poder comprar o lanche na cantina da escola. Poderá ainda levar lancheira de casa, se quiser, mas duvido que queira. O lanche da cantina, ao que me parece, tem ares de passaporte para o final da primeira infância. O segundo ano. Não mais no mesmo prédio do ensino infantil. Não mais formando fila no parquinho. Não mais a lancheira. Veremos. Se o monopólio da cantina se confirmar, serão cinco chances semanais de lidar com o dinheirinho contado. Porque vai ser contado. E vamos ver onde isso vai dar. Educação para as finanças é algo fundamental, especialmente em uma sociedade tão consumista quanto a nossa. Sempre convivi com crianças muito mais abastadas do que eu e é engraçado a forma como me lembro disso: o que ficou não se parece em nada com rancor ou tristeza por saber que meu poder de compra era menor. Lembro-me que eu entendia claramente que eu podia menos porque minha mãe ganhava menos - sem muito drama. Eu também tinha amigas mais pobres que eu e isso certamente me oferecia uma boa perspectiva para enxergar as coisas. Seja como for, sei que não terei pudores em controlar os gastos de meu filho durante a infância e adolescência, porque estou absolutamente convicta de que isso me fez muito bem. Na vida adulta, passei por fases com grana curtíssima e saber administrar o pouco que entrava fez toda a diferença. Não é à toa que quase sempre que preciso me programar ou cortar gastos para o fim que for, aquela conta do telefone volta a trancar minha garganta. É que desceu quadrado, mas me fez muito bem. Nem todo remédio é doce, afinal. 



6 comentários:

Tina Lopes disse...

Aqui teremos cantina mais de uma vez por semana, também, e a escola já pede dinheirinho contado. Eu poderia ter escrito esse post, viu. E não creio que vá dar mesada para a Nina, não, mesmo quando for mocinha. Ela também vai ter que dar umas aulas particulares e fazer uns estágios. Só vai ser duro controlar o pai dela.

Angela disse...

Voce pode sabia, mas escreveu sobre o meu pai. Quase tudo isso que voce escreveu me fez lembrar EXATAMENTE dele. Com excessao de uns detalhes: meu pai alugava casa na praia durante as ferias e tinha DOIS carros: um de 1972 e o primeiro carro da minha mae de 1968. Comprados novos, mas era no de 72 que ele estava no acidente que resultou em sua morte em 1999, e o foi no de 68 que aprendi a dirigir (pois alem se ser duro com dinheiro era duro com tudo, e quanto mais antigo o carro melhor motorista eu seria :D). Minha mae dirigia carro "normal" e quando minhas irmas comecaram a dirigir tambem ganharam carros da epoca. Mas, os dele funcionavam entao ele nao via por que trocar. A outra diferenca eh que ele ganhava bem igual aos pais que dirijiam carroes e uns ate trabalhavam no mesmo local do que ele. Mas se nao tivesse no terno do trabalho, estava vestido nas roupas mais velhas que podiam existir. Cresceu em extrema pobreza, o emprego bom veio aos vinte e poucos anos e so se formou por volta dos quarenta e poucos quando eu tinha uns tres anos. Tinhamos mesadas minimas (so o necessario para nos ensinar a controlar), dinheiro para roupa era contado e absurdo (tipo quatro pecas ao ano, quem nos salvava era minha mae), telefone, agua e energia contadissimos. Mas podiamos ir para aula de qualquer coisa nas melhores escolas da cidade, intercambio cultural quantas vezes quisessemos, musica e livros ilimitados. O resultado foi variado: uma irma que gasta o que tem e o que nao tem, eu que sou meio balanceada e a outra irma que eh a rainha de um minimalismo extremo que rende muitas historias interessantes. Mesmo assim, fico na queda de braco com Pete (que quer dar tudo aos meninos) e espero poder fazer parecido, no que for possivel com meus filhos.

E hoje, ele estaria completando 76 anos. Entao, obrigada pelo post e o mar de muitas coisas que ele causou do lado de ca.

Um abraco apertado.

Dária disse...

Também não tive mesada, mas até que minha mãe não precisou se preocupar muito com meus gastos. Acho que eu tinha instinto controladora mesmo. Não comia sempre - pq era uma daquelas menininhas raquíticas que qse não comem mesmo rss - e qnd isso acontecia mainha me deixava ficar com o troco... O que eu fazia? Emprestava o dinheiro que juntava ao meu irmão adolecente, 11 anos mais velho do que eu e super a fim de sair prumas farras, e cobrava juros! kkkkkkkkkkkkkkkkkk E tinha prazo de pagamento, e multa por dia de atraso... e o coitado pagava bem direitinho. No fim, sem ganhar mesada terminei a escola até com uns trocadinhos guardados. A faculdade terminei com uma folguinha na poupança (das bolsas de estágio) pra poder passar este tempo agora sem trabalhar, sem ter aberto mão de festas, de viagens, de nada que me davam um real prazer. Mas comprar, eu realmente nunca fui de comprar nada muito.

Enfim... minha mãe me ensinou o básico, sempre nos disse o qnt ganhava e oq poderiamos ou não comprar. Acho isto importante. Alguns pais descartam o assunto como se seus filhos não fossem capazes de lhes entender. Minha mãe nos contava até quando o governo do estado atrasava seu salário... já avisava que as coisas não iam bem. Sempre sabiamos a situação financeira da casa.

Quando criança vi uma menina, colega de escola, fazer um escândalo em uma loja de brinquedo pela mãe ter dito não pra algo... e lembro que achei aquilo tão feio, e tão estranho também. Lembro que ela me avisava antes e ir há uma loja pra olhar os preços e só pedisse a ela ate um limite X, por exemplo. Nunca saimos do limite, nunca fizemos confusão. Acho que ela conseguiu ser clara sem nem ter de ser muito rígida. Simplesmente foi apontando e confiando em nossa capacidade de organização. Me parece que deu certo! =)

Anália disse...

Oi, Rita!

Na escola do meu filho, a lancheira vai até o 4o ano, assim não tenho essa experiência. Mas o bombardeio de coisas colecionáveis é enorme: googles, figurinhas, pokemons, etc. A semanada foi a maneira que encontramos para lidar com isso. O Artur já entrou nessa fase?
Eu tinha semanada quando era criança. Em época de inflação, o indexador era 1 chicabom, rsrsrs!
Bjs,

Anália

caso.me.esquecam disse...

a gente nunca levou grana pra escola, pelo que eu lembro, sempre levavamos nosso lanche de casa. mas teve um dia em que a gente ia fazer um passeio. circo! dai minha mae me deu dinheiro pra que eu comprasse o que quisesse na cantina. eu nao tinha a menor nocao de quanto tinha, do que dava pra comprar... era a vendedora que ia me dizendo "voce tem tais e tais opcoes". lembro que eu comprei TANTO bombom! tanta pipoca e chiclete, que eu tive que sair dstribuindo pra ver se aquele doce todo acabava logo. mas a situacao era meio que a sua mesmo, isso era raro. afinal, eramos tres filhos nessa epoca (depois viria mais uma!) :)

Jaquee Ribeiro disse...

Apesar da diferença da idade e das circunstâncias, me reconheci em boa parte do texto. Em sua mãe vislumbrei a minha sem todo esse controle econômico mas trabalhando sempre. Comecei a trabalhar cedo, recebendo pouco e gastando com tudo o que eu queria sem dar muitas satisfações. Por trabalhar demais minha mãe quase nunca via o que eu comprava e temendo interrogatórios chegava ao ponto de esconder mesmo, temendo represálias. Como meus pais não impunham esse controle, davam sermões se limitando a isso, com o tempo acabei por me educar economicamente elaborando meu próprio modo de economia. Como nunca fui muito consumista, minha vaidade é quase inexistente e meus excessos são de livros, consigo controlar bem o pouco dinheiro que recebo enquanto ainda vivo na casa dos meus pais sem pedir a eles dinheiro.

 
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