A faxina


Hoje foi dia de faxina minuciosa no escritório aqui de casa. Adoro. Revirar livros, trocar coisas de lugar, jogar fora papelada que não nos serve mais, ver tudo ficando limpinho. Minha principal meta (além de me livrar de um abajur velho e antipático) era me desfazer de livros que não me interessam mais e que dificilmente interessariam aos meus filhos no futuro. Livros da época do doutorado que eu insistia em guardar por puro apego, por exemplo; ou dicionários que jamais consulto em tempos de internet (vai levar muito tempo até que eu me desfaça de todos meus dicionários, não sei se algum dia vou conseguir); ou simplesmente livros ruins (ainda ficaram vários, esse negócio de passar livros adiante precisa ser feito com jeitinho aqui). 

É muito bom ver novos espaços surgindo nas prateleiras, sinto-me mais leve como se fosse eu a estante. Ainda assim, sei que não teria coragem de me desfazer de todos eles, por mais simpatia que eu tenha pelos minimalistas. Tenho acompanhado a fase nova da Lud, por exemplo, com seus dois pés fincados no minimalismo e acho interessante o desapego. Eu mesma não me considero uma pessoa muito consumista, apesar de sempre me perguntar se realmente preciso de tudo que tenho. Ainda assim, admito que tenho um chamego meio bobo com meus livros. Já mudou, sinto que já mudou. Concebo sem problemas a hipótese de substituí-los por arquivos digitais dentro de, sei lá, cem anos... tá bom, né? Por enquanto, ainda me divirto colocando Lispector ao lado de Woolf, porque acho que a primeira ficaria feliz; ou sacaneando um autor badalado que não curto, colocando-o ao lado do Dan Brown, hihihi. 

Livros à parte, sinto um imenso prazer em me desfazer daquelas coisas que não me servem mais. Roupas, por exemplo. Ainda essa semana, devo me livrar de boa parte das que não usei no último ano, por acreditar que não as usarei mais e que podem ser úteis a outras pessoas. Uma das melhores coisas que fiz nos últimos tempos foi parar de revelar fotografias (tenho uma prateleira inteira repleta de álbuns meus e do Ulisses; com duas crianças em casa, se não tivéssemos parado com  as revelações, precisaríamos de uma sala inteira só para as fotos). Gosto de passar tudo à frente: brinquedos, móveis, eletrodomésticos, qualquer coisa que eu  não use muito, que esteja me causando a sensação de que "tá sobrando". Já dei uns três sorrisos bem largos hoje só por entrar no escritório e não ver mais o famigerado abajur.

Aí chega a hora de organizar material escolar usado pelas crianças. Centenas de desenhos, atividades, colagens, pinturas. Livros, pastas, arquivos. Olho, acho fofo e sei que aquelas carinhas olhudas e aqueles sóis amarelos ficarão guardados por muitos e muitos anos sem que ninguém olhe para eles. Sem que "sirvam" para coisa alguma. Mas guardo mesmo assim. Releio, repasso, babo de novo, mostro a eles, damos risadas. Depois ponho tudo em grandes caixas plásticas e lacro. Vão morar no sótão até o dia em que nos mudemos dessa casa ou eles, os filhos, decidam dar novo rumo ao que é deles. Talvez eu devesse digitalizar tudo também, quem sabe. Por ora, ponho de lado o conceito da palavra "útil" e mantenho o minimalismo longe das luas e nuvens em tinta guache. No ano passado, rever minha letra torta em um cartão que dei a minha mãe quando eu tinha quatro anos deixou meu coração quentinho, como torta de maçã saindo do forno. Nem todo mofo me incomoda, afinal.



9 comentários:

Débora Ramos disse...

Oie! Adorei o post, também vou aproveitar o incio do ano para começar a minha faxina.

Só quero lhe pedir para me passar o link dessa nova fase minimalista da Lud.

O google não encontrou o link e eu fiquei hiper curiosa para ler sobre isso. Pretendo entrar em uma fase minimalista urgentemente e gostaria de referências.

Obrigada.

O Divã Dellas disse...

Rita, minha linda!!

te juro que sou assim, meio apegada.

Tem dias que amanheço com o espírito do desapego.

Dou, jogo fora, passo a diante, me desfaço...

Mas esse instinto de "me livrar" demora de me acometer. Por isso vou acumulando coisas e coisas e coisas....


Verônica

Deise Luz disse...

Tô que nem você, Rita, fazendo faxina. Doei DVD's de filmes que já tinha visto, separei livros pra levar pra biblioteca da cidade e quero doar roupas que não uso mais. Adoro fazer isso! Pra completar a faxina mesmo só faltava ter pra quem doar os meus textos de cinco anos de faculdade.

Tem um blog ótimo que descobri dia desses: podesermeu.blogspot.com. Foi através dele que consegui um doador pros meus filmes. Adoro iniciativas do tipo.

Beijo.

disse...

Rita, também estou faxinando tudo em casa. Nao como resolução de ano novo, mas para reorganizar os armarios p/ a chegada da nova integrante da familia. Tb vou aproveitar a onda e organizar os livros, papeladas, enquanto a vidinha ainda esta' mais ou menos tranquila. Nao tenho muito apego com roupa, mas os livros... problema sério.

Beijos e boa faxina!

Mari Moscou disse...

Flor, quando eu era criança, na escola a gente tnha uma pasta de artes. No final de cada ano, a pasta vinha pra casa. Èramos tr~es em casa. Três pastas de arte por ano. Acho que minha mãe conseguiu uma solução legal. A gente juntava tudo, todo mundo junto, e cada um (criança) decidia os trabalhos que iam guardar. Tudo tinha que caber numa pasta só (dos três), no máximo. E assim íamos... Eventualmente acabamos jogando tudo fora, cada um por si, quando fomos crescendo. Mas era tão gostoso sentar com a irmã e o irmão, rever os trabalhos, lembrar, perguntar, escolher...

Dária disse...

Eu até gosto de doar coisas, mas dá preguiçaaa... Arrumei a parte de calçados recentemente, então preciso de pelo menos mais uns 10 dias pra chegar às roupas. Sou assim pra coisas domésticas: lenta!

Livros eu tenho pena, mas até que já ando passando adiante.

Fotos eu adoro guardar rs

E tranqueiras em geral... recordações... é um mal de família. Acho que minha mãe tem nossos dentes de leite guardados ainda, quem dirá cartões de Natal.

Minha avó então, guardava tantos papéis velhos em seu quarto - alguns por algum motivo, outros não - que um dia uma vela acesa virou, encontrou seus papéis, e qse tocou fogo na casa toda.

E eu com alguns sintomas de TOC - pessoas com TOC sempre juntam muita coisa inútil - tenho umas caixas com todas as minhas agendas escolares (uma por ano - na verdade usei agenda na faculdade tbm, e tbm tão por lá rs) guardadinhas sabe-se lá deus pra que.

Rita disse...

Débora, obrigada por avisar que o link estava quebrado. Já consertei, dá lá uma olhada. O blog da Lud também está na minha blogroll.

Bom, pelos comentários parece mesmo que o início de ano ainda é a grande época das faxinas, ne? No meu caso, é o período do ano em que tenho férias, em casa com as crianças, sem viajar. Preciso aproveitar. :-) Anotei dicas da Marilia e vou lá dar uma olhada no blog que a Deise falou.

Beijo
Rita

Murilo S Romeiro disse...

Odeio faxinar minhas coisas, mesmo sabendo ser necessário - sou super apegado a tudo!
Costumo guardar as agendas de compromissos também, como comentou a Dária.
Desenhos, rabiscos, folders, fotos e livros - guardo tudo !
Até canetas sem tinta!!
Quanto aos seus desenhos infantis, quem sabe não podem ser úteis um dia?
Veja isto:
http://themonsterengine.com/

Boa sorte na faxina e se tiver algum livro aí ( não tão chato ) eu aceito ...rs.
Abraços
M

Rita disse...

Murilo, obrigada pelo link, adorei! E, olha, não há nada muito útil na pilha de livros descartados. O velho dicionário de inglês-português já deve ter duzentas atualizações - e tudo disponibilizado na internet (e isso nos leva ao post de hoje, dá uma olhada, se quiser!).

Abraços,

Rita

 
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