Chips no pescoço


Arrumando minha estante de livros antes de ontem me lembrei de que essa também era uma tarefa minha na casa de minha mãe. Era eu quem arrumava os livros de tempos em tempos, fazendo a grande faxina do escritório dela. E, claro, era um deleite. A grande estante escura abrigava volumosas enciclopédias, alguma literatura e muitos livros de Direito. Era uma diversão mudar tudo de lugar, organizando os volumes, quase todos com capa dura e colorida, de uma maneira que me parecesse mais atraente que o formato escolhido na faxina anterior. Entre uma espanada e outra, eu atrasava todo o serviço folheando, descobrindo. 

Agora arrumo aqui e fico me perguntando por quanto tempo os volumes que temos hoje vão continuar despertando a curiosidade de nossos filhos. Hoje um amigo me mostrou que, em 2010, um grande site de vendas vendeu 180 livros digitais para cada 100 impressos. Ou seja.

O mundo muda, oh, não diga. A mesma pontinha de tristeza que essa notícia me dá deve ter atingido os amantes do vinil quando o CD veio com tudo revolucionando a indústria fonográfica. Mas ninguém parou de ouvir música por causa disso, quero crer. A gente se adapta, né, Darwin, e dá nosso jeitinho de dançar conforme o ritmo. Talvez eu fique bem velhinha folheando meus volumes que ninguém mais vai querer ler, talvez não. Talvez eu prefira a conveniência de aumentar o tamanho da fonte em meu dispositivo digital do momento e assim ler com mais conforto nos meus 98 anos. Quem sabe. Certa amiga minha não duvida que, ao nascer, os bebês de um futuro não muito distante tenham chips implantados em seus pescoços para, vida afora, receber os downloads de histórias (adequadas a cada faixa etária, claro). Rimos da hipótese, né. Mas... quem aposta que nunca? O fato é: quem quiser ler, vai ler. Será?

Com essa mesma amiga dos bebês com chips no pescoço dividi minha angústia de que o contato visual com os livros impressos tenha certo poder de estimular a leitura que os e-books não teriam. Crianças imitam adultos. Ao nos ver folheando, mexendo, explorando uma livraria ou biblioteca, eles repetem os gestos e, cedo ou tarde, o bicho morde. Mas quando nos sentamos com um i-pad na mão, não estamos necessariamente lendo: estamos jogando, tuitando, brincando de quebra-cabeças, passeando pelo google earth, muitos etecéteras. Ou lendo. Mas não existe uma associação imediata entre a imagem de alguém com um dispositivo digital na mão e o ato da leitura, como existe quando meu filho me vê lendo no sofá e pega um gibi para me fazer companhia. Aí minha amiga dos bebês com chips me falou, Ritinha, relaxe. Esse lance de ter a casa cheia de livros é coisa muito recente, de duzentos anos pra cá e olhe lá. E, né, é óbvio. Quando Jane Austen criou seus personagens (que, após três páginas, acreditamos que realmente existiram), é bem provável que ela não tivesse mais que meia-dúzia de livros, ainda que sua família estimulasse sua paixão pela leitura. Pelo fato de que livros não eram uma mercadoria abundante e facilmente disponível no final do século XVIII e início do XIX. Nem por isso Austen deixou de nos presentear com sua obra apaixonante (estou partindo do pressuposto meio óbvio de que leitura e produção literária caminham de mãos dadas). 

Ainda segundo minha amiga dos bebês com chips, algo que pode, de fato, "ameaçar" nosso consumo de literatura é a enorme gama de estímulos difusos na internet. Gastamos muito tempo em redes sociais, blogs, troca de e-mails, notícias, links, vídeos, etc. Sem gastar um segundo de meu tempo estipulando uma escala de valores entre tais atividades (sou adepta de todas elas) e a leitura, o fato é que as novas gerações estão crescendo num mundo onde se lê mil notícias por dia, não necessariamente digerindo tudo muito bem. E como um link leva a muitos outros, não é de todo estranho conceber que o hábito de leituras entrecortadas e abreviadas pelo formato das redes faça a leitura de um livro parecer algo demasiado lento ou enfadonho. Claro, seres humanos não são robôs e  nem todo mundo se relaciona com a internet da mesma maneira.  Mas entendo que quem cresce tuitando e pesquisando no google desenvolve uma relação com os livros (impressos ou digitais) diferente daquela das gerações que cresceram pesquisando nas enciclopédias. Ou não, saberemos em breve. (O oposto pode ocorrer, naturalmente: papos sobre literatura e cinema em um canal de rede social podem despertar o interesse por uma obra; em seguida, a facilidade com que se tem acesso àquela obra em formato digital possibilita o consumo imediato do texto literário, o que simplesmente não era possível quando eu tinha 15 anos).

Sou fã dos livros infantis. Outro dia comentei como é fácil hoje em dia fazer uma criança se apaixonar por eles, tão elaborados, ricos, com projetos gráficos impressionantes. Como fica esse mercado no mundo dos e-books? Que formatos de livro lerão meus netos (se eu os tiver)? Quem arrisca um palpite? A minha amiga já arriscou: chip no pescoço. 


10 comentários:

Anônimo disse...

Oi Rita!

Ótimo post! Quando você falou em, aos 98, aumentar o tamanho da fonte, eu imediatamente aumentei o tamanho da minha fonte, pois estou lendo seu post em uma tela de 42 polegadas, sentado confortavelmente em um sofá. Eu nem penso em iPad, tablets, penso em coisas muito mais avançadas: Holodecks, holo-rooms, onde você e seus filhos "vivenciarão" a história, podendo interagir por meio de diálogos com os personagens. Você não pode negar que o kinect oferece uma experiência única, que os livros não podem oferecer. Sim, os livros estimulam a imaginação de uma maneira única também. Por isso, e por outros motivos, não vejo os livros impressos desaparecerem tão rápido quanto os discos de vinil. É uma mídia muito eficiente. Você pode emprestar para uma pessoa e ela não precisa ter nenhum aparelho, apenas a capacidade de ler. Bem diferente dos e-books. Volto depois com mais tempo e comento mais um pouco. Estou voltando para meu jogo de tênis de mesa no kinect. Té +

Paulo Marreca

Mari Moscou disse...

Flor, isso é uma das minhas características favoritas no kindle: ele serve PARA LER. Se alguém me V~e com o kindle na mão, sabe que estou lendo. E assim espero que meus filhos aprendam também, haha. O que acho muito bacana dele é mesmo o acesso facilitado, contanto que se tenha cartao de credito internacional. Se eu ouço falar de algum livro e ele custa menos de 15 dolares eu geralmente entro na hora no kindle e compro o "teste" (dá pra comprar um teste"), leio e qualquer coisa compro o livro mesmo.

Pra mim, que não cresci com internet mas a internet chegou cedinho na minha vida (lá pelos meus 10 anos de idade), gosto de variar a leitura. Leio sempre vários livros ao mesmo tempo - coisa que o kindle também facilita demais... Troco de um livro pra outro com um clique, e carrego todinhos na bolsa. <3

Eu tenho a opinião sociológica de que a internet é uma reprodução do que rola fora da internet em termos de etsrutura social. Quer dizer, as pessoas mais distantes dessa cultura "legítima" que é o hábito de ler digital ou impresso, mas textos aprofundados e mais longos (mesmo em blogs), não se aproximarão muito dela com a internet. Farão outros usos da internet. Mas para quem já está nesse contexto elitizado, como nós, a internet tem o potencial de estimular mais.

falei, falei e nao disse nada. hahahahaha <3 adorei o post

beijos

Angela disse...

Eita que quando vim postar meu comentario o Paulo Marreca ja tinha o feito hihi. Foi quase exatamente o que pensei, so que na minha imaginacao o que veio foram nossos netos sentadinhos observando os hologramas, mas nao necessariamente interagindo com eles.

Ah foi divertido encontrar esse post aqui hoje, pois ha menos de duas horas atras meu comentario para Pete (depois de desligar do Facetime com nossa sobrinha Hannah) tinha sido: Quando pequena eu nunca pensei que fosse presenciar isso ainda na minha vida, muito menos tao cedo nos meus anos. Lembro claramente de minha imaginacao quando crianca, e receber um "video telefonema" em um pequeno monitor era delicia que so em Star Trek. E pensar que o monitor ia caber na palma da nossa mao?? Loucura. Outra coisa que me deslumbrava era a ideia de uma camera em um lapis, ou objeto pequeno. Hoje, coisas tao comuns. No ritmo que esta, nem imagino o que vai estar rolando daqui ha apenas duas decadas.

Beijao!!

Angela disse...

(Ai e a concentracao de erros de portugues a cada ano cresce mais. Da um desconto??)

Dária disse...

A Mari aí roubou meu comentário rss - eu ia justamente falar do kindle, meu namorado comprou e adora. É totalmente diferente de ler no PC. O tipo de tela é apropriada, sem aquela luminosidade exagerada dos demais aparelhos eletrônicos; o formato é bom de segurar, dá pra vc ler se balançando numa rede... e objetivo dele é e realmente ler e-books. Até acessa a net, mas não é muito prático não. Dificilmente vc vai se distrair fazendo alguma outra coisa nele que não isto.

Ler no computador me incomoda justamente pela dispersão. De uns tempos pra cá tenho estudado mais no computador, porque uso sites de questões de concursos, vejo algumas aulas online, mas definitivamente minha concentração é melhor trancada em algum quarto com um livro. Mas enfim, somos seres adaptáveis, nos acostumamos com o que o mundo nos der, e pronto.

Dária disse...

A propósito, falou em livros de direito... sua mãe era da área jurídica então?

Não consigo visualizar como era para um advogado trabalhar num mundo pré-internet heheh. Hoje vc atende um cliente com as mãos no computador, enquanto ele fala, já pode ir pondo um "ctrl + F" em alguma lei e sair pesquisando um termo, já diz a ele em que dispositivos o caso dele se enquadra, dá até pra ir pesquisando jurisprudência, separando modelos de peças, enquanto fala com a pessoa. Ou se é sobre um processo em andamento, é só ir no site do tribunal... quer discutir uma decisão e ela está lá, sem vc ter q se deslocar para nada. Se tenho alguma dúvida qnt aos livros, a tendência dos processos eletrônicos me parece algo fascinante!

Lud disse...

Assunto empolgante, Ritinha. Acho que, hoje, nada substitui os livros belos: os livros de fotos, com desenhos, com texturas. O que não quer dizer que, no futuro, um substituto não apareça.

Eu sou uma recém-convertida ao Kindle. O meu chute é que a história dos livros vai se aproximar mais à do cinema/videocassete+DVD do que à do vinil/CD. Ou seja, leitores digitais e livros impressos conviverão alegremente, cada um proporcionando uma experiência diferente.

Beijos!

Rafael Pinheiro disse...

Oi, Rita. Tudo bem?

Meu nome é Rafael, e apesar de já ter visitado o seu blog algumas vezes, é a primeira que comento.
Uma pausa antes de dizer o que eu vim dizer: incrível como os seus comentaristas gostam de escrever, né? Acho que nunca vi um blog com comentários tão longos assim!
Enfim, a única coisa que eu quero adicionar a tudo que já foi dito é que, não interessa o quanto a "tecnologia de leitura" evolua, nada tira a emoção de se abrir a capa de um livro pela primeira vez, e ver o título bem grande no meio da folha toda branca. Essa é uma das coisas que um kindle nunca poderá substituir.
Beijos.
Adorei o seu blog, e até o próximo post ;D

Rita disse...

Oi, gente.

Pois é, não temos kindle, mas temos um i-pad. Ulisses, meu marido, não quer mais saber de livro impresso, ou pelo menos não pretende mais comprá-los, apesar de ainda ler coisas de nossa estante. Pensando sobre o assunto de ontem pra cá, tendo a acreditar no que diz a Lud: mais do que uma substituição completa e definitiva, teremos por muito tempo a convivência das duas formas de leitura. Assim, todo mundo satisfeito. Bom, ne?

Amei os comentários, pessoas, obrigada!

Rita

Murilo S Romeiro disse...

Oi,
ler seu post e ler todos os comentários me deixou otimista quanto ao futuro.
Conclui que com ou sem livro impresso, com ou sem chips, as nossas crianças lerão muito mais que nós.
:-)

 
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