A chance


Não é exatamente do ouro que estou falando.

Ontem fomos pedalar no meio da tarde. O dia estava cinza, a tarde meio úmida, mas a chuva não era uma ameaça muito convincente. Seguimos para o parque onde fica a ciclovia e dividimos as "tarefas". Marido preferiu se deitar ao pé de uma árvore que foi reiteradas vezes escalada pela pequena. O Arthur me acompanhou na bicicleta dele e demos umas duas voltas pelo parque antes de ele também resolver brincar de subir em árvore com a irmã. Eu continuei minhas pedaladas.

Nosso bairro é cheio de ladeiras, péssimo para bikes. Então normalmente prendemos as bicicletas no carro e seguimos para outro bairro provido de uma boa ciclovia. A tal ciclovia corta um parque ainda bem servido de espaços verdes (lotes ainda sem construções em andamento),  pequenos lagos artificiais, alguma mata e miniparques infantis. Gosto de lá ainda, apesar de achar que, no futuro, seria obrigada a pedalar o tempo todo pelas calçadas dos moradores. Se cada centímetro daqueles lotes vier a abrigar uma casa (algo meio inevitável), não acredito que continuarei experimentando a mesma sensação de refúgio que ainda experimento por lá. O lugar já é bem habitado, mas ainda é um bairro silencioso, cheio de passarinhos.

Pedalando sozinha enquanto minha família se pendurava ou cochilava na árvore, fiquei pensando que daqui a alguns dias não vou mais poder usufruir do luxo que são essas horas de lazer no meio da tarde. As férias estão acabando e antes que o final de semana chegue já terei tido contato novamente com prazos e tarefas no trabalho. Acabam-se a leitura no final da manhã, a companhia das crianças o dia inteiro, os almoços tranquilos. Começa a ciranda outra vez. O problema? Não era para eu achar ruim.

Preciso mudar, eu sei. Preciso trabalhar menos com algo que me identifico tão pouco e mais com o que me dá prazer. Preciso pagar o preço e criar coragem de mudar o que precisa ser mudado. Preciso parar de reclamar. Não porque me calei, mas porque resolvi. Preciso. Mas quem disser que é fácil nem sabe do que estou falando. Há quem diga que eu deveria me envergonhar de reclamar com a barriga tão cheia (eu mesma digo isso muitas vezes). No entanto, ando cada vez mais convencida de que trabalhamos demais. Oito horas por dia é tempo demais. A vida passa, a velhice vai chegar, e não consigo encontrar o momento em que comecei a acreditar que seria bacana passar tanto tempo da minha semana dentro de uma sala fazendo algo reto, repetitivo, burocrático. Naturalmente, se o sujeito sente prazer com seu trabalho, oito horas não parecerão tempo demais. Não é meu caso, atualmente. 

Anda, coragem, vem.

Aí voltamos para casa e fomos, famintos, para a mesa da cozinha (tá, todo mundo tomou banho antes). Olhando por acaso para o quintal enquanto me servia na cafeteira, dei de cara com um enorme, meganítido arco-íris. Ali, no nosso quintal. A chuva fina que finalmente caiu assim que chegamos em casa armou esse presentão para acompanhar nosso café. E só hoje me pergunto porque cargas d'água não fui correndo pegar o pote. Com ouro, talvez, mas também com outras soluções menos "sólidas". O fim dos meus conflitos bem ali e nem me dei conta. Quem sabe na próxima chance. Quem sabe. 


6 comentários:

Lud disse...

Oi, Rita!

Olha, concordo muitíssimo. Pergunta: não tem nenhuma posição no seu trabalho em que o expediente seja de 6 horas? Dá uma investigada. Às vezes é um segredo bem guardado pelos felizardos que estão alocados lá.

Também existe uma legislação que permite você trabalhe menos horas com o correspondente corte no salário. Se for uma possibilidade, acho que vale a pena, porque tempo é o bem mais precioso que existe, né?

Beijos e boa sorte!
Lud

Dária disse...

Li o texto e me toquei que até hoje não sei com que você trabalha.

O Divã Dellas disse...

Gente, que texto mais gostoso de se ler! Que maestria! Muito lindo, muito bem escrito e com uma mensagem importantíssima.
Amei!
Cinthya - O Divã Dellas
http://odivaadellas.blogspot.com

Daniela disse...

Há controvérsias. Eu adoro o que eu faço e continuo achando que a gente trabalha demais. Eu chego em casa, leio algo, vejo uma série que eu gosto e já está na hora de dormir pra começar tudo de novo. 8 hs fora de casa, sendo produtivo pra alguém (no meu caso o governo, mas não importa) é muito tempo.

Eu sempre digo que meu sonho de ganhar na mega sena (hahahaha) não é pra andar de primeira classe, ter carro importado ou jóias. Eu ia pensar assim: ok, a sobrevivência já está garantida. Vou me dedicar ao que eu gosto agora: dar aulas de espanhol (5 ou 6 hs por dia), estudar, aprender idiomas e viajar.

Daniela disse...

Vi esse vídeo e lembrei de você e desse post: http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/sir_ken_robinson_bring_on_the_revolution.html#.TxukvHYW728.facebook

Mariana disse...

Eu vi um arco-iris lindo na beira-mar bem nesse dia. Acho que foi o primeiro arco-iris da Sofia. Pena mesmo que temos sempre tanta coisa para dar conta que praticamente nunca podemos apreciar esses momentos! Courage nas mudanças! Que tragam novos arco-iris para o teu quintal Rita!
bjus!

 
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