A caneta mágica de Katherine Mansfield



Outro dia eu estava batendo papo com uma amiga sobre sei lá que texto, dizíamos que estava bem escrito e coisa e tal. Acho que falávamos de como uma história tão simples estava tão bem contada, algo assim. E ela então comentou que o que importa mesmo nas boas histórias - ou naquelas que julgamos bem contadas, bem escritas - é justamente a forma como são construídas, já que, no final das contas, qualquer tema pode se prestar igualmente a um excelente texto ou a um péssimo texto. Pode-se escrever, lindamente ou de maneira sofrível, sobre guerras, corações partidos, grandes amores, um pneu que furou, alguém que ficou muito doente, alguém que morre, um achado genial, determinado período político, uma viagem incrível - qualquer coisa, obviamente. Assim, uma árvore pode ser o cerne de uma história comovente, enquanto grandes feitos da humanidade podem ser descritos de maneira pobre e mal amarrada, gerando um texto ruim.

Não há nada de novo nessa conversa, mas sempre me pego sorrindo à toa quando leio a obra de alguém que ilustra com perfeição o fato comentado por minha amiga. Não me perguntem por quais caminhos seguia eu outro dia nessa rede sem fim, pois não me lembro. Mas sei que passei a vista por um pequeno trecho de um conto de Katherine Mansfield. Gostei, lembrei-me de que só "conhecia" um ou dois contos da autora, lidos há tanto tempo que nem me lembro mais (daí as aspas) e resolvi procurar por mais. Acabei aterrissando nesse site e de lá não quero mais sair. Essa sou eu, suspirando por mais uma mulher nascida no século XIX (o que havia na água que essas mulheres bebiam, gente??), encantada e apaixonada. Que sou assim, dos exageros. Apaixono-me.

Foi amor instantâneo, difícil largar o osso. Depois de ler o primeiro conto, estava com a respiração presa. No segundo, já queria conhecer tudo dela. Depois de ler quatro ou cinco contos, estava me xingando por não ter lido tudo aquilo antes. Pois ali estava, na tela do meu computador, mais um exemplo inequívoco do fato mencionado na conversa com minha amiga: não importa o tema, se a mesma velha história de traição e amizade ou as inseguranças e medos da infância, desde que o tecido do texto seja nobre. Katherine Mansfield sabia disso e abusava. Escrevia e é bonito, não importa muito o assunto. Talvez ela usasse uma caneta mágica, é possível.

Estou em lua de mel. Bliss ainda é meu favorito, mas não me surpreenderei se mudar de ideia daqui a pouco, depois de ler mais um. Quem sabe encontro outro conto em que, à maneira como acontece em Bliss, o verdadeiro tema da história só se revele nas últimas linhas? (Que a linguagem é linda, sim, mas a trama não deixa por menos e nos pega direitinho.)

***

Estava neste ponto do post quando decidi procurar por traduções para indicar a quem se interessar, mas quiser ler em português. Comecei pelo blog da Denise Bottmann, com a intenção de, quem sabe, encontrar alguma indicação de boas traduções. Imaginem minha surpresa ao ver que a própria Bottmann traduziu um conto da Mansfield, The Garden Party (não será publicado por nenhuma editora, fez por conta própria, conforme me contou no twitter). Uma lindeza a sequência de posts ilustrados feitos durante o processo de tradução. Espiem lá e leiam o conto. E apaixonem-se. 


2 comentários:

Francine Ramos disse...

Eu amo os contos da Katherine, não somente isso, mas a história dela, tudo, tudo dela! Que legal encontrar este post! Infelizmente pouco se fala dela aqui no Brasil, mas ela é uma das grandes e faz com perfeição o que vc explicou no post: escreve sobre coisas simples do cotidiano com uma genialidade impressionante.

Um beijo

Francine

Rita disse...

Francine,

Katherine Mansfield foi uma das melhores descobertas literárias que fiz nos últimos tempos. Já tinha lido alguma coisa há muito tempo, mas agora é como se estivesse lendo pela primeira vez. Estou absolutamente encantada.

Bj

Rita

 
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