Austen e o biscoito


E aí sigo lendo Jane Austen e de vez em quando interrompo a leitura e reparo como tudo parece tão preciso, tão bem colocadinho, arrumadinho. Como se a história tivesse se desenrolado à sua frente e Austen tivesse simplesmente descrito o que via. Aquelas pessoas realmente existiam e estavam ali naquelas casas de campo enormes desfilando suas convicções, exercendo seus poderes minúsculos em seus reinados minúsculos. Acreditando que tudo em suas vidas era muito grande e importante para o funcionamento do mundo. E, como um fantasma, acho que Austen pairava por ali, nas salas, nas cavalgadas, nos saraus. E a tudo via. Depois, com sua caneta precisa e cheia de ironia, pintava o livro pra gente. Porque não é possível que tudo saísse da cabeça dela, né? Digam que não é possível.

Eu queria ter esse dom, o de escolher as palavras certas com o efeito perfeito, às vezes surpreendente. O dom de empregar a frase certa, no tom exato e com ele deixar todos boquiabertos diante de minha capacidade extraordinária de expressar sentimentos. Ser capaz de descrever lindamente as relações humanas e revelar, com aparente tranquilidade, alguns dos caminhos intrincadíssimos de nossas mentes. E não estou falando de literatura. ;-)

***

Mas, ah, a minha mente. 

Gosto de levar um pacotinho de biscoitos para o trabalho. Mantenho um na bolsa para a fome que sempre, sempre me visita no meio do expediente. Hoje esqueci, como de costume, o pacote sobre o balcão da cozinha. Só me lembrei dele quando o café da manhã já era saudade e meu estômago queria mais. Bebi água. Na hora do almoço mirei o pacote e pisquei para ele: você vem comigo à tarde. À tarde, na hora do lanche, lembrei-me do pacote sobre o balcão e xinguei. Bebi água. No carro, de volta para casa, sentindo a dor de cabeça se aproximar por causa da fome, abri a bolsa para guardar os óculos e, voilá, eu não tinha esquecido o pacote sobre o balcão da cozinha. Eu tinha esquecido que não tinha esquecido. E morri de fome com a bolsa cheia de biscoito. Minha mente. 





5 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

ah, Freud, seu pândego...

(e eu queria também uma coleção de letras obedientes que formassem as mais precisas frases)

Inaie disse...

to rolando de rir do biscoito nao esquecido...

Jarid Arraes disse...

Ah, esse biscoito.
<3

Lud disse...

Aconteceu comigo, e foi com um livro.

Quanto à queridíssima Jane Austen, eu adoro quando ela faz os personagens dizerem A e a gente entender que eles estão dizendo B. Sendo que às vezes os próprios personagens acreditam que estão dizendo A!

Beijos!

Rita disse...

Ai, gente, é tão a minha cara passar fome com biscoito na bolsa, vcs não fazem ideia...

bjs
Rita

 
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