O bem pra mim


Em algum ponto da década de oitenta chegou às minhas mãos o álbum de figurinhas Bem Me Quer. Dez entre dez amigas colecionavam as figurinhas supostamente desenhadas por uma senhora australiana chamada Sarah Kay (que nunca cheguei a saber se existia de verdade ou se era só marketing para vender as figurinhas fofas: as informações davam conta de que Sarah vivia em algum lugar remoto no interior da Austrália, com seus filhos, um cachorro e três gatos, em uma casa no meio de um bosque, óin, e que sua vida bucólica era a fonte de inspiração para seus desenhos). Se Sarah existe/existiu de verdade, onde morava e quantos gatos tinha são coisas que continuo sem saber. Mas aquele álbum marcou minha infância e suspeito que suas estampas floridas e retrô estão por trás de meus suspiros quando ponho os olhos em certos temas vintage.

Outro dia, navegando em busca de só deus sabe o quê, enchi os olhos com as figurinhas que circulam pela web. Quase senti de novo o cheirinho do adesivo das minhas velhas figuras. Eu passava horas no meu quarto namorando aqueles desenhos cheios de curvas e daria um dedo da mão para passear pelos quintais e jardins que compunham os cenários com cheiro de terra e flor. Tinha adoração pelo meu álbum, que nunca cheguei a completar, e fico muito intrigada por não fazer a menor ideia do que aconteceu com ele.

No último final de semana resolvi fazer um desenho para minha filhota de quatro anos colorir. Como raramente consigo criar algum desenho minimamente interessante, optei por copiar alguma coisa de um livro ou site, ampliando a gravura para ela pintar à vontade. Voltei às páginas com os tais desenhos Bem Me Quer, escolhi uma que me pareceu mais simples e tentei reproduzi-la a lápis numa folha de papel A3. O exercício é uma delícia, desenhar é um troço relaxante demais. (Imagino o prazer de criar algo bonito e ver o resultado, hein, Joana?) Amanda adorou e coloriu toda animada. Eu achei que aquele foi o momento mais prazeroso que as figurinhas Bem Me Quer me trouxeram, assim, depois de tanto tempo. É que eu não sabia do que viria logo a seguir. Depois que acabou a pintura, Amanda abandonou o desenho em algum canto da sala, quis retribuir o "presente" e fez um outro pra mim. Quis desenhar a mesma menina colhendo flores. E fez, do jeito dela, reproduzindo detalhes como o chapéu e a tesoura na mão da menina, o desenho mais lindo que já ganhei. Ainda vou colorir, bem caprichado. (Ela fez o maior suspense, não me deixou ver enquanto desenhava e não consultou o primeiro desenho outra vez; fez "de cabeça". <3) 

Obrigadinha, minha flor.

De mim para ela:


E dela pra mim:


O universo desocupado


Adoro aqueles pequenos casos de coincidências incríveis. Alguém fala no Fulano que sumiu há dez anos e o Fulano liga no mesmo dia. Casos bobos, sem qualquer consequência, que rendem risadas e só. Adoro, fazer o quê. Achei muita graça da experiência coincidência-incrível ocorrida com o Ulisses na semana passada.

Meu marido aceitou a proposta de um banco X para fazer cartão de crédito tal. A representante do banco foi ao trabalho dele caçar clientes, então Ulisses preencheu propostas e conheceu as condições sem precisar pôr os pés na agência bancária que, aliás, ele nem sabia onde ficava. As assinaturas seriam colhidas depois, quando tudo fosse aprovado e tal.

Passaram-se duas semanas, talvez. Numa tarde qualquer da semana passada, Ulisses acompanhou sua mãe a uma consulta médica. Depois da consulta, quando caminhavam para o ponto onde eu os encontraria para uma carona, viu a agência do tal banco e comentou "olha, mãe, a agência do banco do tal cartão novo; nem sonhava que ficava aqui". Pois bem, no exato momento em que Ulisses passava na calçada do banco, em frente à porta de entrada, seu celular tocou. Era a moça do banco querendo agendar uma hora para ele dar uma passada na agência e assinar a papelada do cartão que ficara pronta. Uia.

O colega místico comentou que era o universo e suas confluências. Eu acho graça e penso que as forças do universo têm motivos mais nobres para se mobilizar que a papelada do banco do Ulisses. Mas achei um barato a coincidência.


A natureza



A princesa e o sapo (que foi transferido do quintal para "a natureza" lá fora).

A cientista e o besouro intruso (que foi devolvido para "a natureza" lá fora).

Outras formas da natureza...

...que derretem meu coração. E que quero bem pertinho.


A turma que nunca se separa


Eu não recebia mesada na infância. Com sorte, descolava algumas moedinhas aos sábados, quando meu pai voltava da feira ou minha mãe tinha alguma por ali, sobrando. Eram as moedinhas do gibi. Eu corria pra banca - que, na verdade, era uma vendinha de doces, picolés, revistas e cigarros - e comprava invariavelmente um exemplar de algum gibi da Turma da Mônica. Havia muitos gibis na minha casa, a maioria dos personagens da Disney (Tio Patinhas, Donald, Mickey, esse povo) e eu gostava desses também. Mas nada batia um Almanaque da Mônica. Como os Almanaques eram mais caros, normalmente eu comprava um mais fininho, do Cebolinha, da própria Mônica ou do Chico Bento, o que tivesse a capa mais atraente.

Eu era muito pequena quando tive meu primeiro contato com a Turma da Mônica. O que guardei na memória: o formato da revista (diferente das atuais, era mais larga que comprida, com duas tirinhas por página), as linhas dos personagens (eram mais esquálidos) e minha vontade de que existissem mais tirinhas quando a revista acabou. Nem sei se li a revista ou se só a folheei, porque desconfio seriamente que ainda não sabia ler naquela época. Também não sei se já se tratava de alguma edição comemorativa especial, porque não me lembro de ter lido outras com o mesmo formato. Depois minha memória dá um salto e só me recordo das outras, mais recentes, semelhantes às atuais. 

Quando eu estava grávida do Arthur, rolou uma promoção da editora de uma revista sobre pais, bebês, gravidez, essas "coisas": assinando a revista, ganhava-se a assinatura das revistinha da Turma da Mônica por um ano. \o/ Claro que assinamos e claro que eu lia também a revista sobre gravidez, mas só depois de ficar por dentro das últimas novidades do Bairro do Limoeiro. Ulisses nem disfarçava e só lia as da turminha, rindo de se acabar com o Chico Bento. Hoje em dia não assino mais revistas sobre gravidez, mas as revistinhas da Mônica podem ser encontradas em qualquer cômodo de nossa casa. Algumas vezes não leio as histórias, é verdade, mas sempre fico sabendo do que rola porque meu filho lê e me conta; ou lê pra mim; ou decora e sai recitando as historinhas pela casa. 

Aí hoje alguém no twitter comentou que Maurício de Souza está fazendo 76 anos. E fico pensando que coisa mais gratificante que deve ser olhar-se no espelho e reconhecer ali o idealizador de personagens que viraram parceiros de brincadeiras e da imaginação de milhões de crianças, geração após geração; saber que sua arte, sua criatividade e seu talento tocaram, e por isso transformaram, a infância e o mundo de tanta gente. Quando comentei com o Arthur que hoje era o aniversário do Maurício de Souza, ele abriu um sorrisão e perguntou se eu tinha o telefone dele. Não, Arthur, infelizmente não tenho. Mas a gente deixa um recadinho aqui: Maurício, seu fofo, obrigada demais, viu.  Parabéns de verdade. Porque, né, como se não bastasse, você ainda nos deu o Horácio (alguém não ama?).


(Em breve o Arthur passará a receber uma pequena mesada. Tem mais o intuito de ensiná-lo a programar, esperar, valorizar as coisas do que propriamente conferir-lhe poder de compra, portanto não deve ser muito. Mas desconfio que sei exatamente o que ele vai fazer com seu dinheirinho.)

Traçadas linhas


Fomos à papelaria renovar o estoque de tintas e papel. Arthur pediu para comprar um diário, "pra escrever como foi meu dia, o que aconteceu de bom".

Arthur me pediu um diário. :-) Eu dei.

E imaginei o seguinte diálogo com a minha mãe (porque hoje eu teria ligado pra ela):

- Mãe, adivinha o que o Arthur me pediu hoje?
- O quê?
- Um diário...
- Mas uma coisa dessas!! (seria exatamente o que ela diria)
- Eu dei.
- Ah, minha nossa senhora, que coisa engraçada... (ela diria isso também) Tá bom, depois você me conta o que ele escreveu nele.
- Oi? Como assim? Como eu vou saber o que ele vai escrever no diário dele, hein, mãe? Hein, Dona Bernadete?
- Hahahaha. Tá chovendo aí?
- A-hã! Eu sabia! Hahahaha!!
- Para, deixa de ser boba. Fala, tá chovendo?

Do que não é



Peguei a caneta e o papel branco parecia o mar: revolto. Ergui o olhar e o espelho parecia a adolescência. Olhei ao redor e ninguém sabe onde foi parar minha estrada florida. Ninguém viu. No meu peito mora um aperto. No meu aperto encaixo o mundo inteiro, que sou assim, exagerada. Sou uma mulher que faz dramas. Mas insisto que são legítimos.

Dias em que eu queria que tudo fosse mais simples.

A cápsula


Arthur precisava fazer uma cápsula espacial como tarefa da escola. A professora enviou uma "receita", providenciamos os ingredientes (garrafinha plástica, saco de lixo fino, linha, tinta). Primeira camada de tinta, põe pra secar. Brinca, brinca. Segunda camada de tinta, põe pra secar. Almoça. Corta, saco, faz furinhos, dá nozinho, mede, calcula, amarra. Grande expectativa. Eu, particularmente, não botando nenhuma fé que aquela coisa, quando arremessada lá pro alto, desceria suavemente até o chão. Corre todo mundo pro jardim. Arthur lança a cápsula. Aterrissagem perfeita, porém, sem grandes efeitos, já que a garrafa subiu a uma altura modesta. Papai se dispõe a lançar a cápsula. Grande expectativa aumenta ainda mais. Papai lança! Sucesso total, olha como o para-quedas abriu!! Olha, olha... olha, tá indo embora... oh, não, aiiii.... putz, tá ventando, né?

A cápsula caiu no terreno do vizinho, que não estava em casa, e acabou-se a brincadeira.


Um ano, uma semana, um meme em um dia


Há cerca de um ano passei a fazer parte de uma lista de discussões criada por um grupo de blogueiras com certos interesses em comum. A ideia era unir, compartilhar, aprender, dividir, discutir, pesquisar, entender - resolvi experimentar. Tantos meses depois, sinto-me bem sortuda em fazer parte da tal lista, aprendo muito com muitas das discussões e não exagero ao dizer que ela amplia meus horizontes em uma intensidade que eu sinceramente não suspeitava que fosse acontecer quando fiz minha inscrição no grupo. Estou falando das Blogueiras Feministas. A história do grupo está registrada nesse post maneiríssimo da Cynthia, feito para marcar o primeiro aniversário da lista. Nesse final de semana acontece o primeiro encontro nacional das blogueiras feministas, o que dá uma ideia da dimensão que a coisa tomou: o grupo cresce todo dia e sei que as meninas que iniciaram a lista em outubro do ano passado, no auge da campanha eleitoral, não poderiam imaginar que hoje, apenas um ano depois, seríamos mais de 400 participantes.

Para comemorar um ano de falação sem fim, a Marília criou um meme. Fui logo avisando à Marilia que sou rebelde e não vou seguir sua sugestão de responder os tópicos do meme ao longo de uma semana, mas vou fazer tudo junto ao mesmo tempo agora já. Antes, porém, quero só ressaltar uma coisinha: a diversidade em nosso grupo de mais de 400 pessoas é imensa. Obviamente, existe uma linha que nos une, a crença nos feminismos (é plural, gente) como  formas de refletir sobre nosso papel no mundo e a partir daí adotar práticas e posturas que possam fazer diferença. Mas que ninguém se engane, essa lista não se resume a discussões em uma nota só, nas quais todos os membros concordam e reverberam opiniões alheias. Longe disso, a especialidade desse grupo é perguntar. E eu gosto muito de quem faz perguntas, porque uma das coisas que mais me assustam no mundo é o tanto de certezas equivocadas que a gente espalha por aí. 

A Marilia soltou as seguintes perguntas (bem festivas, hehehe), que respondo: 
 
  -Quem foi a primeira blogueira feminista que você se lembra de ter lido? Sinceramente não me lembro. Pode ter sido a Lu (que anda bem silenciosa, mas que fazia posts ótimos!), pode ter sido a Lola, pode ter sido a Cynthia, ou mesmo outra que não passa pela minha cabeça agora. Uma coisa puxa a outra e nesse mundo de links fica difícil saber onde a coisa começou exatamente. E pode ter sido alguém que nem se define como feminista, mas cujas ideias sobre relações sociais e de gênero dialogam de perto com o as ideias do grupo. 
  - Que blogueira feminista você ainda não conhece pessoalmente e gostaria de conhecer? O mundo gira e espero ter a alegria de abraçar a Luciana, a Iara, a Marilia e tantas outras. 
  - Qual o post que mais te surpreendeu ou apaixonou em nosso blog? Eu indico o blog inteiro pela diversidade de assuntos relevantes, naturalmente. Dei uma passeada por lá agora e não sei dizer o que mais me surpreende ou apaixona. Gosto da salada. Pode isso, Arnaldo? Mas vou indicar um que até já tinha sido publicado no blog pessoal da autora, mas, se tá lá, minha resposta é legítima: é esse, da Lu Borboleta, pela amostra inteligente que ele é na abordagem de alguns padrões comumente impostos às mulheres.
  - Como você chegou até a lista e/ou até o blog? Fui flutuando na maré boa da minha timeline no twitter.
  - Como foi (ou como acha que será) o seu primeiro encontro ao vivo com uma BF? Hahaha, essa pergunta tá bem no estilo fã que encontra ídolo, né? "Encontro ao vivo", :-). Foi assim: marquei com a Cynthia no shopping mais próximo para um café. Foi fácil reconhecê-la e quem não a conhece nem suspeita da fofice da menina. Ficamos ali comendo bobices e falando dos gatos dela, das frustrações profissionais, das experiências dela com trabalhos incríveis em comunidades de BH, de blogs e receitas. Foi assim, um papo bom, bom demais.
  - Qual a sua maior descoberta, em termos de feminismo, que veio pela lista ou pelo blog? Não foi exatamente uma descoberta, mas a confirmação da velha suspeita: nunca vou deixar de me espantar com a humanidade, para o bem e para o mal. Algumas histórias colocadas em discussão quase me deprimem (seja pelo machismo no que ele tem de pior, seja pela ingenuidade ainda presente em tantos meios de achar que as mulheres não precisam lutar por mais nada nesse mundo); e aí nascem as discussões e  com elas meu encantamento diante de mentes tão iluminadas de algumas participantes da lista.
  - Que assuntos você gostou mais de ver em nosso blog ou lista? Por quê? Ah, não sei responder. Adoro aquela falação toda lá e só lamento não dispor de mais tempo para pitacar à vontade e faze um montão de outras perguntas.

Algumas meninas da lista vão seguir o meme. É uma boa chance de conhecer os ótimos blogs delas. Ao longo da semana, os links devem aparecer no blog da Marília, entre outros. Se eu fosse você, dava uma espiada. ;-) 

As visitas


Desde ontem minha casa vive um clima de festa. Não, não é pelas medalhas do PAN, apesar de eu ter vibrado com isso também. Começou na hora de dormir, quando Ulisses comunicou que tinha visto na árvore da calçada uma coruja. Pulos, gritos, vivas. Mas estava escuro, a lanterna sem pilha, todos para a cama. Protesto, choro. Hoje de manhã pulei da cama bem cedo e fui trabalhar, nem me lembrei da inquilina olhuda. Quando voltei, no final da manhã, vi todos os demais moradores humanos da minha casa com o queixo pro céu, no jardim. Duas corujas. Duas corujas camufladas nos troncos marrons de nossas palmeiras. Duas, que a gente decidiu ser um casal. Que amor. Não sabemos desde quando elas estão ali, mas é comum ouvirmos piados durante a madrugada que sempre acreditamos ser de algum bicho passeando do lado de lá da rua, onde há mais árvores que em nossa calçada. Agora achamos que são elas, desde sempre. Agora que "temos" duas corujas (aff, o ser humano é muito sem noção, viu; os bichos escolhem as "nossas" árvores e a gente tem a cara de pau de dizer que "tem" os bichos), estamos nos achando a família mais completa do bairro. Amanda, que ama corujas, como vocês já sabem, está quase descontrolada. O Arthur já desenhou um esquema com as árvores da calçada e uma linha pontilhada representando o trajeto de uma delas, que "ontem tava aqui, depois voou pra cá e agora tá aqui". 

Agora nosso passatempo é conferir o ipê e as palmeiras pra ver se elas estão lá. Não faço ideia de quanto tempo vão ficar (corujas se mudam muito?), se há um ninho, uma toca; se pretendem ficar pro verão, se são migratórias, vou ao google. Sei que são mestres no disfarce e isso é uma coisa muito boa, não só para a sobrevivência delas: é tão difícil distingui-las no meio dos troncos, que, na dúvida, a Amanda proclama "eu vi, tá ali, ó, eu vi os olhinhos!" e a gente acredita. Porque a gente tá adorando as visitas.    

Olhem. Acharam?


E agora?

Voilá!

E aqui, a melhor foto que consegui:



A Inconfidência com prazer


Durante alguns anos não fui muito fã de História do Brasil na escola. Não quero me eximir de minha parcela de "culpa", mas sei que parte de minha alienação em relação à disciplina vinha da forma enfadonha com que a grande maioria das aulas eram ministradas. Cheguei a ter professores que permaneciam sentados durante toda a aula, pediam que um ou outro aluno lesse certo trecho do livro e mandava que sublinhássemos a parte que seria cobrada nas provaszzzzzzzz. Era o preâmbulo da decoreba e assim, no ano seguinte, passávamos adiante na matéria sem fazer qualquer conexão com o conteúdo visto no ano anterior. Nada de mapas, gráficos, encenações ou qualquer outro recurso ou abordagem que de fato envolvesse os alunos em discussões apetitosas ou que acendesse aquela vontade de conhecer mais, saber o que viria depois. Felizmente esse não foi o caso de todos os professores de História que tive, mas sei que esse quadro não é exceção. Enfim, nem era disso que eu ia falar, olhem o tanto que divago.

Ia falar do livro que li nessa semana que passou, O Aprendiz de Tiradentes, da escritora goiana Simone Athayde. Inevitável pensar na soneira das aulas de História em contraste com o prazer de ler, com vontade de passar logo à próxima página, sobre um fato tão relevante na história da formação de nossa nação como foi a Inconfidência Mineira. Ia lendo e imaginando como seria legal se aos alunos dos ensinos fundamental e médio fosse dada a chance de se aproximar da História assim, com sabor. Vejam que estou imaginando que o quadro atual das aulas de História mantém alguma semelhança com parte de minha própria experiência no passado, pois não tenho conhecimento de causa para afirmar que de fato ainda é assim ou assado. Não sei como escolas públicas e particulares lidam como o ensino da História para a geração atual de alunos, mas acho que, com alguma margem de acerto, é possível imaginar que os dois quadros não difiram em tudo. O fato é que O Aprendiz de Tiradentes resgatou meu interesse por um período fascinante de nossa história e só por isso já teria valido a pena a leitura.

O livro mescla ficção com pesquisa histórica e conta a saga pessoal de Hélio, um garoto muito pobre que se torna ajudante de Joaquim José, cirurgião-dentista atuante em Vila Rica na reta final do século XVIII. Aprendiz e amigo de seu mestre, o garoto acompanha bem de perto o desenrolar das tramas que culminaram com o trágico fim dos inconfidentes. Paralelamente, Hélio vive sua história de amor com Ana, cuja mãe, Joana, também se envolve com Joaquim José, o Tiradentes. Meu lado docinho gostou muito do Tiradentes do livro, apaixonado e ansioso; aos meus olhos, a imagem casa muito bem com a figura do idealista que queria ver seu povo livre do julgo (insano) da coroa portuguesa.  E achei que o envolvimento de Tiradentes com Joana teve peso certo na trama: a história de fundo, com amor impossível , servindo de tempero ao fundo histórico, central no livro. A prosa de Simone tem trechos assim:

"A feira consistia em um amontoado desorganizado de barracas improvisadas, mesinhas de madeira ordinária e tapetes grosseiros atirados ao chão, nos quais os comerciantes expunham, de maneira precária, suas mercadorias. Tudo ali se vendia ou se trocava. Animais vivos, como porcos, galinhas e cabras, misturavam-se aos seus congêneres mortos, ali mesmo abatidos e limpos pelas mãos experientes e nada higiênicas de vendedores de carnes. As carcaças, jogadas ao chão, eram disputadas por miseráveis e por urubus que, pela constância do acontecimento, já não se estranhavam. Prostituas negras e brancas ofereciam-se a quem pudesse pagar-lhes pelo menos o que de comer. Outros gêneros, como o café e o açúcar, mais caros e, por esse motivo, mais nobres, eram dispostos em área afastada da balbúrdia.
O lugar era barulhento, sujo e mal cheiroso, como tantos outros de Vila Rica e das outras cidades da colônia. Para os moradores, acostumados com situações insalubres, havia muito a se ver, comprar ou provar num lugar desses. Porém, quando Hélio chegou à feira, não pôde ver mais nada, nem pensar em outra coisa que não fosse aquela menina bonita que, de pé, ao lado de outra mulher, vendia ervas na barraca em frente àquela a qual deveria ir."


Gostei de ler sobre Tomás Antônio Gonzaga e sua infeliz história de amor nunca concretizada com sua Marília e de visualizar Claudio Manuel da Costa e seus parceiros idealizando as Cartas Chilenas. Foi ótimo também entender de verdade as razões que levaram o sacana Silvério dos Reis a delatar os inconfidentes. Esses e outros personagens históricos circulam, assim como Hélio, Ana e Joana, por uma Vila Rica miserável, mais uma das cidades que amargavam a condição de colônia de um reino que sugava até o último grama de nosso ouro. Lendo O Aprendiz, e levando em conta que a pesquisa de Simone nos renda um quadro verossímil das posições sociais dos principais inconfidentes, também fica fácil supor as razões que levaram Tiradentes a ser o único sacrificado na forca, enquanto aos outros foi concedida a permuta da pena de morte pelo degredo na África: sem relações com o governo ou posto de poder, sobrou-lhe o título de idealizador da inconfidência. Tiradentes certamente foi uma voz forte na tentativa de levante, mas parece evidente que seus parceiros de ideias tiveram papel igualmente relevante no movimento, afoitos que estavam com a novíssima independência dos Estados Unidos. O reles alferes que nunca avançou na hierarquia militar, o cirurgião-dentista que tratava a população paupérrima em troca de pouco, foi a cabeça premiada para servir de exemplo a quem ousasse sonhar em questionar o poder da coroa portuguesa. Tempos difíceis, ui. Não que ser forçado a deixar família, trabalho e sua terra para viver sozinho do outro lado do oceano seja pena leve, mas o enforcamento de Tiradentes tem certo ar de "vamos mostrar quem manda", algo além da punição.

Se eu fosse professora do ensino médio atualmente, adotaria o livro de Simone como leitura. Mataria dois coelhos: colocaria nas mãos dos alunos um bom exemplar da literatura brasileira que se produz atualmente e mostraria como pode ser gostoso aprender História.

***

Meus dois exemplares d'O Aprendiz de Tiradentes foram presentes: um do leitor desse blog, Rogério, e outro da própria autora. Ganhei ainda seu livro de contos, A Ilha Triste e outras histórias. Tudo autografado, ó que chique. ;-)  Adorei.

 

Desde sempre



Tenho uma foto da Tia Socorro. Na foto ela me segura no colo, na festinha de meu aniversário de cinco anos. Meu conceito de festa infantil incluía a mesa de nossa própria sala, os colegas da escola de uniforme (porque a escola era logo ali e eles tinham sido levados pela professora para minha casa), um bolo simples com a vela e um copo plástico para cada criança. E alguns balões. E minha professora, Tia Socorro, em minha casa. Seu sorriso era uma coisa assim, fora desse mundo, e vai ver que vem daí minha alegria em ir à escola ao longo da infância inteira. Talvez não explique tudo, claro, mas é uma das lembranças boas: o sorriso da Tia Socorro. Não faço ideia dos rumos que ela seguiu, mas sei que nenhum outro teve o sorriso dela. Houve o bonzão de inglês, a terrorista de matemática, a rigorosa do português, a simpática da geografia, a perdida de história, o showman do cursinho, a irmãzinha dos trabalhos manuais, a talentosa da dança, os amigos do curso de inglês, a entusiasmada do mestrado, os gênios e os confusos do doutorado e de todas as fases, os colegas do outro curso de inglês; hoje em dia há o ótimo de francês, meus filhos, tudo que me cerca. Mas o sorriso da Tia Socorro me olhando na foto é algo que extrapola o aprendizado. É algo assim: vai, Rita, vale a pena.

Ando com muitas saudades da sala de aula, dos dois lados. Ando pensando muito no formato de escola que estou oferecendo a meus filhos. Leio relatos de professores de vários cantos do país e seus desafios são algo que não deveríamos mais admitir. E todos sabem que não adianta sonhar com uma escola revolucionária se não revolucionarmos a maneira como a profissão de professor é encarada em nosso meio. Não há milagre possível. Há trabalho a ser feito e preconceitos a derrubar.

Mas em meio ao pessimismo que me assombra de vez em quando, hoje quero pensar na beleza de não saber e depois aprender, no processo que os professores fazem possível. E quero me lembrar de como me sentia envolvida por aquele sorriso da Tia Socorro; como, de alguma maneira, com cinco anos de idade, eu sentia que valia a pena. Ainda sinto.

Obrigada por tudo e feliz Dia dos Professores.



Quando a escola não sabe


No curso que fizemos em Londres no ano passado, o professor de inglês do Ulisses indicou um vídeo bem interessante. Era uma breve palestra dada por Ken Robinson, renomado especialista em educação, em uma conferência internacional. Assistimos e gostamos muito, certamente pensei em indicá-lo aqui naquela época, mas por alguma razão deixei passar. Hoje vi o vídeo novamente, em um blog que visito de vez em quando. Caso vocês ainda não tenham visto (vai ver todo mundo já viu e eu estou aqui sugerindo um repeteco), recomendo fortemente. O tema da fala de Robinson é a forma como a escola tradicional afeta, de forma tremendamente negativa, a criatividade de nossas crianças. Apesar de extremamente relevante, o tema pode facilmente passar despercebido em nossa busca constante por resultados em disciplinas valorizadas pelo mercado, ou vistas como indispensáveis para o sucesso de qualquer pessoa - como se todas as pessoas fossem iguais. Vale a pena assistir a palestra até o final e, entre outras coisas, conhecer a história de Gillian Lynne como um ótimo exemplo de quão equivocados os parâmetros de avaliação podem estar quando não levam em conta talento e criatividade.  


Fui, mas não muito


Uma das boas coisas que Campina Grande oferecia a seus moradores na década de noventa do século passado (aff...) era o ótimo Festival de Inverno da cidade. Não sei a quantas anda o festival atualmente, mas na época em que eu morava por lá, julho era mês de palco e era mês de coisa boa. Durante três semanas, o principal teatro da cidade recebia espetáculos de dança, música e artes cênicas, uma semana para cada modalidade. Lembro que foi lá que tive a chance de ver em cena grandes grupos de dança do país e do exterior, ver concertos de orquestras renomadas e, sempre na última semana do festival, curtir encenações de ótimos espetáculos teatrais. O festival se estendia a outras cidades do interior do estado e normalmente tinha casa cheia nas três semanas. Eu ia a tudo que podia e achava que a cidade ficava esquisita quando tudo acabava.

Fiquei toda feliz quando vim morar em Floripa e descobri que aqui também havia um festival de teatro, o Isnard Azevedo. Depois que meus filhos nasceram têm sido raras as vezes em que vou ao teatro, normalmente fico sabendo que alguma coisa interessante está em cartaz depois que a tal coisa já passou - oh, well. Mas esse ano, com parte dos espetáculos encenada em um teatro a cinco minutos da minha casa, decidi que iria nem que fosse uma noite só. Fucei o site, liguei para a bilheteria (para saber se ainda havia ingressos disponíveis), fui lá comprar os ingressos, botei as crianças pra dormir mais cedo e fui (sou dessas). 

O espetáculo escolhido foi O Buraco, encenado por um grupo de comédia que eu já conhecia de outra edição do Isnard Azevedo há alguns anos, o Centro Teatral Etc. e Tal, do Rio de Janeiro. Na época, sei lá, talvez em 2001, vi a peça Fulano & Sicrano e gostei bem. Gostei tanto que fui ver de novo, quando morava em Itajaí e eles se apresentaram por lá, acho que em 2003. Vi a mesma peça, ri tudo de novo. Então quando vi que o Etc. e Tal estava em cartaz ali na esquina com outra peça, fiz a maior propaganda da que eu já tinha visto pro Ulisses, consegui convencê-lo, liguei para bilheteria, etc.

Pois bem, saímos de casa a cinco minutos da hora prevista para o início do espetáculo, estacionamos sem qualquer dificuldade, pegamos ótimos lugares (o teatro não tem lugares marcados) e esperamos um pouquinho. Cerca de dez minutos depois, com leve atraso, a produção anuncia que, devido a um problema de saúde de uma das integrantes do grupo, eles encenariam outra peça, não O Buraco. Guess what? Isso mesmo, a mesma peça que eu já tinha visto. Oh, well. Ganhou o Ulisses que ainda não tinha visto e eu fiquei ali, né, rindo (não tanto) de novo.

Vou dizer diferente: a pessoa passa a vida sem ir ao tipo de evento que adora; quando consegue, vê pela ter-cei-ra vez a mesma peça. Ou seja, foi meio como se eu não tivesse ido.

Quem sabe amanhã ponho as crianças na cama mais cedo outra vez.   

Feliz coração de criança




Que a vida seja assim essa brincadeira boa. Que vocês encontrem os esconderijos da alegria mesmo quando o mundo parecer um tanto fora de foco. Que percebam que torto, incompleto e esquisito podem ser belos também porque as cores da beleza estão nos olhos de vocês. E no coração. Que o coração seja um guia bom nos saltos e também nas calmarias que, acreditem (e entendo que agora seja tão difícil entender), às vezes são muito bem vindas. Que o esconde-esconde dure para sempre, porque buscar pode ser tão gostoso quanto encontrar. Que a dança nunca seja interrompida, nem nas subidas - vocês já sabem que a imaginação às vezes é toda a música de que se precisa, não é? Que a infância seja longa, do tamanho da vida. Que no momento em que calendários e hormônios indicarem curva fechada, vocês levem no peito a reserva boa para os anos que virão, como aquele bombom levado para casa no final da festa. Que gargalhada, pé no chão e suco de maracujá sejam de sempre, não só de agora. Que vocês  nunca deixem de ver beleza naquela lua que se move, no besouro esquisito, no passarinho grande, no sol ser maior que a terra. Surpresas: que sejam muitas e que em todas elas os olhos brilhem como agora. Que as perguntas nunca parem e que vocês não se esqueçam de que duvidar pode fazer crescer. Que a força venha de mãos dadas com a ternura que vocês já têm. Que a generosidade os torne tão grandes que seja impossível marcar na Dona Girafa. Que o mundo seja palco, campo, praia, estrada. E que nunca deixe de ecoar o som dessas risadas que preenchem minha vida.

Feliz vida de criança, meus filhotes.

J'aime à nouveau


O que mais gosto em estudar línguas é a sensação de que o mundo cresce. A gente aprende uma nova língua e outras perspectivas aparecem como num passe de mágica. Enxergar o mundo por outras lentes, descobrir a melodia de um idioma novo, arrancar a palavra mais desafiante lá de dentro da boca que antes  não sabia dizer - tudo isso tem sabor de juventude, de descoberta, de montanha escalada.

Na semana passada descobri a Zaz e quem já a conhece há muito tempo vai torcer o nariz e dizer "hum, grande coisa, sua atrasada". Pois vou sorrir e dizer: é, grande coisa mesmo. E espero descobrir muitas outras novidades velhas à medida que me aproximo dessa língua linda e abro um pouco mais a cortina. Um mundo inteiro de biquinhos e erres me esperando. 

Voz linda, talento, música boa. E um sotaque maravilhoso. :-)
  

Os Irmãos Karamázov


<3 Acabou. Não sei o que fazer.

Depois de mais de um mês, encerrei hoje minha leitura da obra-prima de Fiódor Dostoiévski. Entreguei-me com prazer à narrativa sobre a família Karamázov e minha única lamentação é não ter lido o livro antes. Hoje fiquei um pouco sem rumo. Terminada a leitura, voltei a abrir o livro na última página e reli o último diálogo. E vi a neve e a meninada, e quase ouvi o vento. E me senti grata.

Deve haver uma infinidade de tratados, dissertações e teses sobre os elementos, a narrativa, os personagens, os confrontos filosóficos, religiosos e sociais, o papel fundamental da psicologia e tudo mais que compõe a saga dos Karamázov. Como disse meu digníssimo marido, não é clássico à toa. Não, não é.

Aprendi, alguns anos atrás, com Crime & Castigo, que Dostoiévski era um ás na construção de seus personagens. Suas descrições e caracterizações são multifacetadas, complexas - como nós aqui no mundo real. Isso é fundamental para a experiência do leitor: os personagens são tão intensos que nosso envolvimento com a obra também se intensifica. A cada apresentação de um novo personagem, paro, respiro e suspiro: caramba, o cara mandava muito bem. Esse talento extraordinário em descascar a alma humana (vamos chamar de alma, okay) abunda em cada página d'Os Irmãos Karamázov. As caracterizações dos personagens, a construção de suas falas e as descrições de seus conflitos são nada menos que geniais. E aí ele dá um passo além: esses personagens tão bem construídos são também personificações de posicionamentos filosóficos diversos que se cruzam, enfrentam-se e dialogam em páginas que são verdadeiros embates filosóficos e existenciais. Delirante.

A história do livro é a história dos filhos de Fiódor Pávlovitch Karamázov, pessoa que podemos descrever a partir de adjetivos como egoísta desprezível ou outros correlatos. Os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha se criam apesar do pai, órfãos de mãe, tomam rumos distintos, crescem praticamente sem vínculos entre si e voltam a se encontrar na vida adulta, quando seus destinos se cruzam de maneira trágica com o do pai. Muitos outros personagens cruzam os caminhos dos Karamázov, como o criado Smierdiakóv e as mulheres que ocupam papéis centrais na trama, Catierina Ivánovna e a sedutora Grúchenka - e ninguém aparece na história por acaso. Os rumos distintos seguidos pelos irmãos antes do reencontro formam adultos com convicções distintas e personalidade conflitantes. Essas caracterizações dissonantes são um deleite para o leitor, pois é a partir das convicções de cada um dos irmãos que Dostoiévski constrói passagens memoráveis, como a parábola do Grande Inquisidor em que o intelectualizado Ivan (meu personagem favorito, muito amor por ele!*) confronta a fé e a moral do mundo idealizado pelo místico Aliócha (um fofo também): páginas saborosas para ler e reler muitas vezes.

Gostei muito do narrador da história, figura interessantíssima e que me arrancou, inclusive, algumas risadas. Apesar de onipresente, aqui e ali declara-se incapaz de se aprofundar muito em alguns pontos por não se lembrar de tudo (a narrativa se dá treze anos após o desenrolar dos fatos) e assim coloca pulgas atrás de nossas orelhas: haverá mais? Oh, my god! Gostei também de sua parcialidade - narrador que tem personagem favorito! - e dos momentos em que se coloca como coadjuvante da história, puxando para si um pouco da excitação em determinadas partes da trama, um pouco da profunda tristeza em outros momentos.

Os Irmãos Karamázov não é "só" filosofia e psicologia: é uma história envolvente, magistralmente bem construída e surpreendente. Na reta final quase dei pulos do sofá e odiei com todas as minhas forças... não vou dizer quem. Há passagens emocionantes e ainda personagens infantis adoráveis. A linda sequência final nos deixa com um gostinho bom de fraternidade, de esperança na humanidade, com um olhar para a infância como campo de boas sementes. Entrou fazendo barulho para a lista dos meus favoritos, com lugar de honra.

Como se não bastasse, a edição que tenho é linda e primorosa. Trata-se, segundo consta no posfácio do tradutor, da única edição integral da obra em língua portuguesa. Editada pela Editora 34 (a mesma da edição de Crime e Castigo de que falei aqui), tem tradução de Paulo Bezerra e ilustrações (já falei que adoro livros ilustrados?) de Ulysses Bôscolo. Bem sei que dispensa recomendações, então me limito a engrossar o coro: fundamental.

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*Em seu posfácio, Paulo Bezerra se refere a Ivan Karamázov como "uma das criações mais geniais de toda a história da literatura".  

Onilda


Ontem o Arthur voltou da escola com um livro emprestado da biblioteca, tal qual acontece toda quarta-feira. Sentou-se no sofá ao meu lado para ler a história nova pra mim e eu lá, mais contente que ele. E foi lendo, todo animado, tirando uma dúvida aqui outra ali sobre palavrinhas que eram novidade; foi lendo e meu entusiasmo foi morrendo. Porque o livro era forte concorrente ao prêmio literatura sem qualquer noção.

Não quero que me entendam mal, pelamordedeus, não precisa me acusar de defensora da censura, censura! absurdo! a rita quer censurar o livro, corram para as montanhas, onde esse mundo vai parar, socorro!! Não, não precisa nada disso. Menos. Prestenção. Estou dizendo que não gostei do livro. Pronto, já terminou.

O livro integra a série de títulos com a Bruxa Onilda - só pelo nome, já gosto dela demais. Da Onilda. Mas gostar não significa engolir todos os sapos, concorda? Pois bem. O da vez chama-se Os amores da Bruxa Onilda. Eu fiquei curiosa, você não ficaria? Livro indicado para crianças a partir de 7 anos. Arthur tem 6, tá valendo. Bom, lê aí, Arthur. 

O livro tem duas histórias: Anjo ou demônio? e Um patinador fora de série. Na primeira, a bruxa recebe a visita de um "diabo travesso", fã da bruxa, que é, nessas exatas palavras, o "filho do demônio". A bruxa se queixa, diz que o diabo não foi convidado e que viver com ele é um "verdadeiro inferno". Mãe, o que é demônio? Mãe, o que é inferno? etc. Daí o diabo apronta um monte e a bruxa resolva fazer um feitiço e transformá-lo em um diabo bonzinho. Lindo. Mas ele não pode ser bom, porque é um diabo e então ele acaba sendo expulso do inferno. Ex-pul-so-do-in-fer-no. Ri e tal. Para finalizar, a bruxa, sentindo-se culpada com o destino do filho do demo, consegue "arranjar um emprego" para o diabo que passa a assustar crianças no túnel do trem fantasma. Fim. Ah, o diabo passa a escrever cartas "ardentes" para a bruxa. Olha, na boa. Ruim e sem noção (o duplo sentido de "ardentes", baby, não é captado pela criança de sete anos, sabe), mas passa. O "melhor" ainda estava por vir. 

Vamos à segunda, Um patinador fora de série. Resumindo: um entregador de pizza que a bruxa chama de "cabeça de vento" esbarra nela. Ela se apaixona por ele. Depois de perceber a falta de talento do moço para o universo das bruxarias, Onilda faz crescer em sua boca dois dentes de vampiro. Orgulhosa de seu trabalho, Onilda suspira: "Eu bem que poderia me tornar dentista. Dizem que isso dá muito dinheiro!" (As pérolas abundam: "Enfim, pude apresentar meu novo amor à sociedade. Minhas colegas ficaram se roendo de inveja!") Oi? Saem para patinar. O moço se interessa por uma garota e "troca a bruxa por ela". Na última página, o desabafo de Onilda: "Eu só podia esperar isso de um cara tão insignificante como ele!". Olha. No meu mundo, um livro infantil não terminaria com a personagem principal rotulando alguém como "insignificante", call me fresca. Nem essa mesma personagem suspiraria por dinheiro. Call me fresca again.

O livro é baseado em ideia original de E. Larreula e R. Capdevila (esta última ilustra o livro também), traduzido por Irami B. Silva e publicado aqui pela Scipione. E comprado pela biblioteca da escola do meu filho. E trazido para a nossa casa por ele. E xingado por mim. Mas lido, relido, comentado e tal, tá, pessoas? Ganhou até post.

No fim das contas, acho que vale a diversidade, a chance de conhecer mais e mais. Quero que ele leia tudo e construa seus gostos ao longo do tempo. Que desenvolva seu senso crítico, que aprenda a enxergar nuanças e que se divirta com a leitura de seus títulos favoritos (que podem ser bem diferentes dos meus). E, principalmente, lendo muito ou lendo pouco, que tenha mais noção que o povo que escreveu esse livro aí. Mas, sinceramente, achei o livro horroroso e, se eu fosse responsável pela biblioteca da escola, no mínimo deixaria o volume láááá embaixo, bem escondidinho na última prateleira. Sem dó, que não falta nesse mundo livro legal para a criançada.





Dos motivos possíveis


Arthur, 6 anos, e Amanda, 4, falando da peça que viram na escola outro dia:

Arthur: - Ah, aquela peça foi legal.
Amanda: - É, mas a Fulana não foi.
Arthur: - A Fulana lá da sua sala?
Amanda: - É, ela não foi, ela faltou no dia do teatro.
Arthur: Hum. [pausa] Vai ver tinha compromisso.
Amanda (que não sabe o que é compromisso): É. [pausa] Ou soluço.

Vai saber, né. Pode ter sido. :-)

Sky high



Olhando aquele chão de estrelinhas bailarinas você me falou que nunca foi tão feliz como quando me reencontrou. Falou isso e gostei muito de ouvir. Aí na mesma hora me lembrei daquela sensação que eu tinha antes, bem antes, quando sabia que a felicidade seria interrompida. Era assim, do mesmo jeito: nunca vou sentir igual. É que eu não sabia, e nem poderia saber, que tanto ainda iria acontecer, então ficava triste porque aquela coisa grande demais iria fatalmente se dissolver. Você estava indo embora. Se estivesse indo embora para o outro lado da rua já seria ruim e triste, seria como se estivesse se mudando para outro estado. Imagine, então, você realmente estava se mudando para outro estado, foi como se estivesse deixando o planeta. Foi muito solitário tudo aquilo. Aí quando você disse, olhando as estrelinhas verdes dançantes, que se lembra daquela felicidade enorme da volta, pensei assim: e a gente ainda nem sabia da história a metade. A metade, nem isso. O que a gente já sabia era que não haveria limites. Não há limites. Acredito nisso.

A Rússia é aqui


Ando meio tola, fora do ar. É assim quando leio um livro que me encanta e me fisga e descubro muito antes de terminar a leitura que ele vai ficar em mim para sempre. Ando quieta, calada, sentada pelos cantos da casa, sempre que dá. Carrego-o comigo o tempo todo e, além da leitura sagrada antes de dormir, leio naqueles dois minutos que sobram entre uma correria e outra. E quando não leio, falo dele. Só tenho um assunto. Um assunto de mil páginas que nunca vou apagar da memória (da memória afetiva, vocês me entenderam, né? Não vou memorizar as páginas, :-P). Ainda faltam muitas, mas, dessa vez, não me queixo de ser uma leitora lenta. Não há qualquer pressa. A demora é um longo prazer. :-)

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Caso você não tenha reparado na lateral do blog, é d'Os Irmãos Karamázov que estou falando.
 
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