Dia internacional da tradução



E quando a gente se dá conta de que o mundo só conversa por causa da tradução? Não é pouco. Parabéns aos tradutores e tradutoras que causam esse barulhão todo.

Cárcere




Queria escrever um livro que me libertasse. Queria ser uma artista e enfeitar o mundo, dançar tão lindo que quem me visse se sentisse suspenso. Queria bordar uma colcha bem grande, com muitos metros de história, ou quem sabe pintar uma aquarela em azul e amarelo. Eu queria muito ser capaz de desenhar com traços livres e fazer gravuras sombreadas com manchas espalhadas por meus dedos. Queria ter dedos firmes e obedientes que fossem prolongamentos dos pincéis. Queria pincéis mágicos e telas largas, passar meus fins de tarde em um banquinho de madeira, tamborilando a perna do cavalete com meu dedão descalço durante o nascimento de meu quadro de mar. Andar descalça, somente. Costurar: fazer uma saia bem dançante e uma blusa com ombros bonitos que aparecessem sob meus cabelos sempre soltos. Cabelos coloridos pela tinta de meus dedos. De minha boca, canções e poemas, "kindness glides about my house"*, sem julgamentos ou filosofias, meu olhar todo, todo ocupado em amar. No palco, voz. E saltos. Voar em um trapézio. Queria criar um personagem tão surpreendente quanto um grito. Elevar a voz, soprano e sem medo. Que as cordas do violino não me escondessem segredo algum. E que o barro quase me implorasse por uma forma que já existisse aqui em minhas mãos de artesã.

Daqui, da minha cela, a vista da janela é linda. E dentro dela tem você. Você que aponta e me mostra o exato lugar onde está guardada a chave.

____________ 

*In Kindness, by Sylvia Plath.

Plim!


- Mãããe, vem, já peguei a escova!
- Tô indo, flor!

*anda anda anda*

- Pronto, cheguei.
- Ó, eu não subi na gaveta pra alcançar a escova, tá?
- Amandaaaa, como você pegou, então?
- Mágica! Eu fiz assim: "sim, salabim, plim!" E apareCEU uma escada! Bem AQUI! (olhos arregalados) E eu subi, e peguei a escova! Mágica, mãe!
- Amandinha, não pode mentir, sabia? E se você subir aqui, você pode quebrar a gaveta e se machuc...
- Não subi! Foi mágica! Apareceu uma escada bem aqui e...
- Amanda...
- "Sim, salabim!" Bem assim!
-...
- Foi!

E aí eu já comecei a acreditar porque, olha, foi tão convincente.


No tempo das mitocôndrias



Então houve um tempo de minha vida em que acreditei que queria ser agrônoma. Na mesma cidade onde ficava o colégio em que estudei havia uma faculdade de agronomia e zootecnia (há ainda), um complexo bonito que me acostumei a admirar da janela do ônibus a caminho da escola. Muitos estudantes da faculdade vinham de outros estados, passavam semanas ou meses sem voltar para casa e alguns deles ficavam hospedados em alojamentos localizados no meu colégio (muitos outros ficavam alojados no próprio campus). Assim era comum nossa turma do ensino médio do colégio se aproximar dos estudantes da Escola de Agronomia. No meu mundinho minúsculo, Agronomia era assunto, dava barato e rendia amizades e planos. Envolvida nesse ambiente, nem pensei muito na hora de fazer a inscrição para o vestibular. Para dar uma amostra do grau de maturidade e certeza de que eu dispunha na época, fiz a inscrição em outra universidade para... biologia? Não, jornalismo. Uma pessoa que sabia o que queria da vida.

The book is on the table, isn't it?

Com dezessete anos e um planeta inteiro borbulhando na cabeça, entrei naquela universidade sei lá em busca de quê. Estudava sem rumo, para passar em cada disciplina somente. Sofria para me entender com as disciplinas pautadas no mundo das exatas - parte da grade do curso andava de mãos dadas com as engenharias da vida e precisei introduzir física e matemática ao meu mundinho bom feito todinho de biologia e literatura. Fiz um milhão de amigos, flertei com um movimento estudantil disperso e meio caótico, conheci pessoas brilhantes e um tanto bom de gente mais perdida do que eu. Adorava a biblioteca, o orquidário e o oceano verde que cercava o campus. Aliás, o campus era o próprio verde. Sem carro, eu não era muito fã das ladeiras, mas cada passo era dado em meio a um cenário pra ninguém botar defeito: mata, grama, canteiros, passarada.

Ainda me lembro que, no primeiro semestre, minhas semanas começavam às sete da manhã com uma aula de citologia em que eu aguardava com ansiedade de criança o momento de manusear os microscópios. Essas mesmas semanas se encerravam numa aula de desenho técnico com três horas de duração em que cada segundo beirava o insuportável - eu detestava as tardes de sexta-feira e não era à toa.

No terceiro semestre decidi, porque precisava decidir alguma coisa, que me engajaria em um projeto de pesquisa. Eu já andava às voltas com aulas de química de solos e resolvi que dedicaria a boa sorte de meus neurônios ao estudo das minhocas. É, meu povo, eu quis as minhocas um dia. Persegui o professor entendido do assunto (uma figura histórica que, rezava a lenda vigente da época, usava o mesmo terno azul há seis anos, todos os dias) e pedi uma orientação introdutória de como nessa vida de meu deus a gente inicia um projeto de pesquisa. Ele deve ter ficado com pena de mim e me receitou umas leiturinhas iniciais. Eu não entendia muito o que se falava naqueles textos, mas gostava de praticar o inglês brincando de traduzir a coisa.

No semestre seguinte, passei a frequentar as aulas da disciplina mais badalada e ao mesmo tempo mais temida do curso, um divisor de águas na trajetória de todo aluno dali: as aulas de Fisiologia Vegetal. Era como passar por um portal, quase tão grandioso quanto passar no próprio vestibular. As aulas de Fisiologia do meu curso de Agronomia eram célebres por vários motivos: eram ministradas por um professor que tinha a fama de elaborar as provas mais difíceis da galáxia; eram aulas diferenciadas pelo grau de detalhamento da disciplina, na qual cada palavra poderia definir seu futuro profissional ou pelo menos seu desempenho no resto do curso; entender de Fisiologia era condição para entender o mundo da Agronomia, da Genética, de todo o resto; todos anotavam tudo, cada vírgula, o silêncio entre os alunos era absoluto e todo o ambiente era dominado pela voz do professor; e, pra completar, o índice de reprovação era considerável e isso atrapalhava muita gente, já que a disciplina era pré-requisito para boa parte das disciplinas mais avançadas da segunda metade do curso. Já no primeiro dia percebi que o professor era um pouco artista também e eu ficava babando com as células desenhadas no quadro, em giz colorido, com cada uma das minúsculas partículas representadas com primor - vejam no que eu me ligava.

Pois bem, foi exatamente nesse semestre que o professor do terno azul conseguiu me encaixar em seu grupo de estudos, o que significaria bolsa e mais estudo. E minhocas. Os trâmites burocráticos mal tiveram início e precisamos suspender tudo porque as federais entraram em greve e fiquei seis meses em casa. Foram seis meses dedicados ao curso de inglês que eu já amava. Seis meses de muita angústia também, porque eu precisava encarar o inegável: apesar de toda badalação, de toda beleza das mitocôndrias, eu não compartilhava daquele entusiasmo todo do grupo em relação à Fisiologia; nem em relação ao curso, quiçá às minhocas. A greve veio no momento certo - apesar de alguns colegas terem me dito que ela estava me confundido, que o entusiasmo voltaria com as aulas, eu sabia que não. O mais legal dos textos sobre as minhocas era mesmo o fato de que estavam escritos em inglês.

Foi um susto enorme para os colegas que me olhavam incrédulos: como assim, desperdiçar dois anos de curso já feitos? Não era desperdício, no entanto. Eu certamente faria tudo igual, eu me lembro da euforia do início: entrar para a Faculdade de Agronomia foi um debut na minha vida, mesmo. Foi romper, foi avançar, foi amadurecer em vários aspectos. Mas, né, teria sido assim em qualquer primeira faculdade, acho. O fato é que encarei o comichão que me chamava para o curso de inglês, tranquei a matrícula, comecei a ensinar inglês em uma pequena escola na cidade onde morava, dediquei-me como nunca à língua, senti-me leve, leve. Prestei novo vestibular, entrei no curso de Letras, mudei de cidade e muitos etecéteras. (O curso de jornalismo já tinha sido abandonado no primeiro semestre porque a faculdade era péssima.)

Enfim, essas lembranças me visitaram agora há pouco por causa de uma brincadeira no twitter (oi, @Lucianahn, tudo bem?), mas é verdade que de vez em quando penso na crueldade de se exigir de um jovem de 17 anos que decida os rumos de sua vida profissional Deveria existir um sistema que nos permitisse escolher a profissão aos 25 anos - no entanto, em condições normais de temperatura e pressão, aos 25 já concluímos nossas faculdades escolhidas no calor da adolescência. Claro, nada impede as mudanças, olha eu aqui, mas sei que várias pessoas concluem cursos pelo simples fato de terem começado - sendo bem simplista, cada um sabe onde o próprio sapato aperta, é claro. De minha parte, espero conseguir amenizar a ansiedade inevitável do final do ensino médio quando chegar a vez de meus filhos: é bom saber o que se quer, claro - e há aqueles casos de dúvida zero, o cara vai ser jornalista e pronto -, mas não custa tentar lembrar de que o mundo gira e que numa dessas voltas a gente vê tudo por outros ângulos.

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Como achar tudo insignificante: escrevo essas coisas e penso em quem não pode se dar ao luxo de escolher nada, trabalha desde que se conhece por gente e vive um dia de cada vez, do jeito que dá, the end.  

Agora vai


Há duas semanas retomei minhas aulas de francês, dessa vez pelo skype, com um excelente professor e cheia de vontade de falar aquela língua linda. É a primeira vez que experimento aula dessa forma, via skype, e devo dizer que tem funcionado muito bem. As aulas são ricas, os recursos estão aí para quem se dispuser a usufruir deles e não há nada melhor que fazer a aula de meias, no conforto da nossa própria cadeira meia boca, em nosso próprio escritório bagunçado, com as crianças dormindo nos quartos do outro lado do corredor. Tudo de que se precisa é uma boa conexão e uma webcam. E é engraçado constatar que, caso eu tivesse me matriculado em um curso particular regular, as aulas ainda nem teriam começado para mim: na primeira semana, fiz aula completamente gripada; na segunda, meu professor estava meio adoentado também. Dificilmente eu teria feito a primeira aula e para ele teria um sacrifício bem maior, na segunda semana, deslocar-se até a escola do que simplesmente ligar o computador em sua casa. Tenho feito aula à noite, num horário mais tarde do que eu normalmente conseguiria fazer em uma escola - o único horário que tenho disponível atualmente. Ou seja, pessoas, se eu não aprender a falar francês dessa vez, desistam de mim. 

E eis que na última aula, ele me pede para ouvir uma entrevista com um cidadão parisiense e, em seguida, comparar a rotina de trabalho da criatura com a minha própria rotina. D'accord, let's go. Imaginem vocês que gracinha: o tal personagem era um escritor famoso, que amava seu trabalho, cuja rotina incluía passear pelo parque para observar a natureza e se inspirar. Trabalhava em casa, normalmente à noite, curtindo o silêncio e fazendo aquilo que mais gostava na vida, escrever. C'est tout. E aí, Rita, qual a principal diferença entre a rotina dessa figura e a sua própria rotina? Imagina, quase nenhuma. :-)


I've got the power

Amor é um troço mágico. Eu pensava nisso quando era pequena, geralmente curtindo uma dorzinha de cotovelo enquanto atravessava um ou outro conflito familiar. Eu achava que amor resolvia muita coisa. Eu estava certíssima, apesar de só muito tempo depois experimentar e pôr à prova a sensação pressentida na infância. Amor resolve muita coisa. Tudo bem, não sei se "resolve", mas conforta. Torna mais fácil. Amacia.

Tenho tido dias bem corridos, a rotina anda meio conturbada e de segunda a sexta conto minutos. Tantos minutos para arrumar as crianças; tantos minutos para tomar café da manhã; tantos minutos para chegar ao trabalho; tantos segundos para ir ao banheiro. A vida anda boa demais, enxergo isso. Mas lamento tanto tempo dedicado ao trabalho, infelizmente. Talvez se ao final de uma semana eu olhasse para trás e visse um capítulo escrito, uma coisa construída, um projeto desenrolado ou, sei lá, uma pessoa diretamente beneficiada por uma ação minha, aí talvez eu me sentisse melhor e nem percebesse a correria. Porque o que realmente anda me incomodando não é o tempo dedicado ao trabalho, à ideia de trabalho; é o muito tempo dedicado a um trabalho que não me satisfaz, que é essencialmente burocrático e envolto em um sistema no qual não acredito. Não me falta vontade de fazer coisas, falta-me entusiasmo em fazer as coisas que preciso fazer todos os dias. Tenho brincado de dizer que não me importo mais, que, mesmo exercendo minhas funções da melhor maneira que conseguir, meu emprego é apenas minha fonte de renda  e que busco satisfações pessoais em outras áreas (em certo grau, usufruindo da renda que vem do trabalho, claro). É verdade, mas quando ponho na balança a quantidade de horas semanais dedicadas à fonte de renda e aquela dedicada às tais satisfações pessoais, entro em crise outra vez. Porque a vida passa rápido. Então se eu trabalhasse metade do dia e dedicasse a outra metade aos prazeres, voilá. Infelizmente, a conta não é bem essa. A solução seria unir as duas pontas e dar um laço bem dado, trabalhar no que gosto. Mas não vai acontecer agora.

Não liguem para meu mimimi, ninguém está me amarrando em lugar nenhum, posso pular fora na hora que quiser. Mas, né, humanos. Não nego os benefícios, reconheço as comodidades e só preciso olhar para o lado para fechar a boca e parar de reclamar, mas onde mais eu registraria minhas repetidas crises existenciais/profissionais se não em meu blog?

A dose de equilíbrio que mantém a sanidade vem de projetos paralelos (a língua coça, mas ainda: não), dos hobbies mantidos na base da teimosia e do pouco sono, da insistência em começar um curso de línguas bem no momento mais corrido do ano. E do amor.

Pois eu dizia que o amor é um troço mágico. Entro no carro, desligo os neurônios burocráticos e olho pro lado. Temos o banco de trás mais barulhento da cidade e rimos muito. Não consigo nem imaginar minha rotina sem o vínculo com essas pessoas que dividem a vida comigo. Seria insuportável, eu seria certamente a pessoa mais amarga do planeta. Minha família é minha salvação de mim mesma. Tem muito "m" nessa frase aí, mas ela é muito verdadeira. Pode rolar certa acomodação, pode aquele pesadelo que me acompanha desde a infância ficar mais frequente, pode o setor onde trabalho estar desfalcado, pode o noticiário ser louco, pode o mundo me chocar com suas notícias de canalhice e desamor, pode até ter gente rindo do que não deveria, mas algo no meu trio marido-filhos tem tal poder que a vida, vejam só, fica ótima. O olhar de meu filho. Não sei descrever, fica só assim: o olhar de meu filho quando me encara e me sorri, feliz só por eu estar ali, eu vejo isso.

Sei que é a bolha, mas é dessa bolha que vejo o mundo. Sei perfurá-la com meu nariz, mas é sua existência que me mantém una.

Então é acordar e me lembrar das pessoas que estão sob meu teto. Como num passe de mágica, acho que está tudo onde deveria estar.

Quero ver o farol

Day 30: A book you haven’t read yet but want to

A lista é, claro, sem fim. Quero ler enquanto puder e carrego comigo um medinho secreto de não enxergar bem na velhice, olha a neura. Há vários clássicos dos quais tenho muita sede e espero ler pelo menos vinte por cento deles antes de esquecer onde guardei a dentadura. Brasileiros, vários; estrangeiros, muitos.

Além de clássicos, quero ler o que piscar pra mim nas livrarias, o que meus filhos trouxerem para casa e o que mais cair no meu colo. Pretendo abandonar sem culpa o que não me cativar nas primeiras vinte páginas e tenho certeza de que vou me surpreender muito nessa vida, ali no meu sofá.

Neste exato momento, digo que gostaria que minha próxima leitura fosse To the Lighthouse, de Virginia Woolf. Na ressaca boa de Mrs.Dalloway, adoraria trilhar mais uma vez o caminho bom das palavras de Virginia. Assim, bem íntima, pelo primeiro nome, Virginia. Não é por nada, é só que provei e gostei demais. Talvez demore um pouco, ainda não tenho o livro. Além disso, resta-me concluir o primeiro volume dos Karamázov (estou no finalzinho) e ler o segundo. E tenho uma pilha de outros livros comprados ou ganhados e ainda não lidos me esperando emburrados pela demora.

Adorei a brincadeira e sigo acompanhando vários blogs que estão participando. Até onde sei, tem toda essa galera aí soltando dicas de boas leituras: além do Pergunte ao Pixel (a Tina também encerrou o meme hoje), há os blogs da JulianaRenata, Mari, Grazi, Lu, Niara, Renata Lins e vários outros que fiquei sabendo hoje pelos links disponibilizados no post da Tina. Acho que vou criar um arquivo no word: "dicas deliciosas daquele meme bom" e vou levar uma cópia impressa comigo toda vez que for a uma livraria. :-)

(Enquanto luto para me concentrar e concluir este post, minha TL ferve arquitetando um meme semelhante para filmes. As categorias são tantas que acho que teremos um desafio de 300 filmes em 300 dias...)


E não é que hoje é o dia da árvore?

Day 29: A book someone read to you


A relação imediata e mais óbvia que esse tópico nos leva a fazer é com a infância, época por excelência das "bedtime stories". As lembranças são inevitáveis, ainda que sejam fantasiosas ou emprestadas de filmes. A imagem de um adulto lendo para uma criança dormir poderia ser descrita como sinônimo de carinho, parte naturalmente integrante da maternidade/paternidade: ler para um filho, contar uma história, instigar a imaginação, preparar o terreno dos sonhos. Imagino que, criança, eu olharia para o teto, visualizando as aventuras, pondo meu rosto nos personagens, tendo a força e a coragem que me faltassem durante o dia. Isso se eu tivesse tais lembranças porque na verdade não as tenho. Se minha mãe leu histórias para mim, isso foi há tanto tempo que a imagem se perdeu soterrada pelas memórias que se formaram depois. Meu pai certamente não o fez. Cresci vasculhando as histórias sozinha e desconfio que esses eram meus momentos mais felizes de menina. Mas celebro muito o tempo que passa e nos arrasta vida afora, porque às vezes ele preenche lacunas da forma mais doce: meu filho lê para mim. Já leu vários, mas gosto muito (como vocês já sabem) quando ele me conta essa aí:
 
"Era uma vez uma árvore... que amava um menino."
(A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, tradução de Fernando Sabino)

Recomendo a todos, de qualquer idade, a história da árvore que amou e deixou partir, encarou tristeza e saudade, cedeu frutos e até seu tronco e, quando poderiam imaginar que ela já  não tinha qualquer serventia, foi ombro. Para ler sozinho, a dois, a mil - mas se tiver um pequenino que leia para você, tanto melhor. A história já é linda, mas na voz do Arthur ela é sublime.

Não lembro nem onde guardei as chaves

Day 28: A book you can quote by heart


Vou contar uma coisa a vocês sobre a minha memória: é quase um milagre que eu saiba meu nome de cor.
 
Dito isso, eis o fenômeno:
 
"São Pedro manda avisar
Aos bichos deste sertão
A grande Festa no Céu
Na noite de São João!
 
Não deve faltar à mesma
Nenhum bicho voador
Do Mosquito à Borboleta
Do Colibri ao Condor.
 
E para bicho sem asa
Não fazer vestido à toa
Manda avisar que a festa
É só pra bicho que voa."
 
(Festa no Céu - recontado por Braguinha, ilustrado por Tatiana Paiva)
 
E por aí vai. :-) Mas não vai muito, porque minha memória não ajuda. Já falei desse livro em outro post, logo que o comprei. Lemos tanto, tantas vezes, nos dias que se seguiram que foi impossível não memorizá-lo, pelo menos em parte. O Arthur decorou quase todo e seguiu dias recitando a delícia.
 
Além da saga do sapo teimoso, guardo fácil na memória um mísero poema de Cecília Meireles (5º Motivo da Rosa - "Pus meu sonho num navio..."), alguns momentos de Shakespeare, por puro amor ("What's in a name? That which we call a rose. By any other name would smell as sweet...") e alguns poucos trechinhos de várias outras obras. Guardo os eventos, os sentimentos, mas as sequências preciosas esculpidas por seus escritores, essas preciso buscar nas páginas outra vez. Lembro-me de meus livros favoritos assim, numa nuvem de sensações. Agora, por exemplo, sei que vou guardar para sempre a vibração com que li, ontem à noite, um trecho d'Os Irmãos Karamazov, em que dois dos irmãos, Ivan e Aliocha, dialogam sobre a fé, a justiça, a caminhada absurda da humanidade sobre a Terra. De tirar o fôlego, mas até meus neurônios se excitam e aí não decoram nada (boa essa, hein!). É isso, gente, tudo culpa da emoção, cof, cof.

L'amour

Day 27: Favorite love story


Minha história de amor favorita é a minha com Ulisses, mas ainda não escrevi o livro, hohoho...
 
Enquanto isso não acontece, Florentino Ariza e Fermina Daza quebram nosso galho. ;-)
 
"Fermina Daza deu instruções ao camareiro para que a deixasse dormir a seu gosto, e quando acordou havia na mesa da cabeceira um jarro com uma rosa branca, fresca, ainda suada de orvalho, e com ela uma carta de Florentino Ariza com tantas folhas quantas conseguira escrever depois de se despedir dela. Era uma carta tranquila, que procurava apenas exprimir o estado de ânimo que o embargava desde a noite anterior: tão lírica quanto as outras, tão retórica como todas, mas apoiada na realidade. Fermina Daza leu-a um tanto envergonhada de si mesma com os descarados galopes do seu coração."
(O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel García Marquez, tradução de Antonio Callado.) 
 

Não tem mais bebê aqui



2 dias

1 ano

2

3

4...

O amor cresce junto, enche a casa, forra o chão, faz brilhar o teto, estoura pelas frestas das janelas, clareia a rua e dança com as árvores do lado de lá.
Toda vez que olho em seus olhos.
Feliz aniversário, minha filha. Meu amor, minha pimenta, minha florzinha.

zzzzzzzz

Day 26: A book that makes you fall asleep



Comecei a leitura d'Os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni, com empolgação. A contracapa me contou que eu leria um thriller histórico em que o protagonista seria Dante Alighieri, retratado como um detetive, tentando solucionar o caso de uma série de "crimes assustadores" que assolavam a Florença de 1300. Fui paciente, dei tempo ao livro, insisti, li de novo a contracapa, hahaha. Mas, olha, foi preciso muita persistência para seguir adiante. Talvez se eu relesse agora, Florença fresquinha na cabeça, a coisa fosse diferente. Mas há mais ou menos cinco anos foi assim, entre cochilos.


"Dante não conseguia tirar os olhos do templário. Talvez fosse o olhar do demônio que transparecia das suas pupilas. Ao seu lado, o rosto de Antilia estava mais próximo, quatro olhos que o observavam firmes. Sentiu uma ligeira vertigem. Não seria a besta do Apocalipse que teria congelado o homem com seus múltiplos olhos?" (Tradução de Gian Bruno Grosso)

A contracapa também diz que "o mundo não será mais o mesmo depois de Os Crimes do Mosaico". Eu concordo. O mundo ficou mais... sonolento.




Voltaremos amanhã com a nossa programação normal

Day 25: A book you used to hate but now love



Um livro que eu odiava? Mas agora adoro? Nunca antes na história de vida dessa blogueira aconteceu semelhante fato estrambótico.

No reino da távola redonda

Day 24: Favorite book series



Não me lembro como comprei, nem onde. Não sei o que fizemos com os exemplares repetidos quando nos casamos - eu tinha, ele também. Mas me lembro de como era bom ler aquele troço. O nome de meu filho não vem daí, não, mas adoro a coincidência. Meu sonho de consumo era o original, que uma amiga tinha, em único volume. Nunca comprei. Quem sabe um dia. Não li, sorvi. E lambi os beiços. Quis morar em Avalon.
 
 
"Mesmo em pleno verão, Tintagel era um lugar assombrado. Do promontório onde estava, Igraine, esposa do Duque Gorlois, olhou para o mar. Enquanto contemplava a cerração e a névoa, pensava em como poderia saber quando a noite e o dia teriam a mesma extensão, para poder celebrar a Festa do Ano-Novo. Naquele ano, as tempestades de primavera haviam sido excepcionalmente violentas; noite e dia o rumor das ondas ressoava pelo castelo, impedindo seus habitantes de dormir, e até os cães uivavam dolorosamente."
(As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradely, Tradução de Waltensir Dutra)
 
Queria abocanhar tudo de uma vez, nham! 

E de novo

Day 23: The book you’ve read the most times

Não costumo reler. Leio devagar, sofro de ansiedade eterna porque quero ler tanta coisa, não tenho tempo, mimimi. Eu revisito alguns livros de vez em quando, releio partes deles. E, obviamente, releio inúmeras vezes alguns livros infantis com os filhos. Dentre os que revisito, acredito que Água Viva, de Clarice Lispector (é, eu sei) seja o primeirão. Vira e mexe, dou uma espiada. É inspirador, envolvente, poético e, de alguma maneira, musical.
 
 
"Neste instante-já estou envolvida por um vagueante desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos do sol na água que corre da bica na relva de um jardim todo maduro de perfumes, jardim e sombras que invento já e agora e que são o meio concreto de falar neste meu instante de vida. Meu estado é o jardim com água correndo. Descrevendo-o tento misturar palavras para que o tempo se faça. O que te digo deve ser lido rapidamente como quando se olha."
 
"misturar palavras para que o tempo se faça" - o tema de Clarice é a linguagem, acima de tudo, e em Água Viva ela experimenta mil formas de nos mostrar o grande dilema, a maneira como somos moldados pela linguagem ao mesmo tempo em que podemos revirá-la do avesso.
 
"A densa selva de palavras envolve espessamente o que sinto e vivo, e transforma tudo o que sou em alguma coisa minha que fica fora de mim."

Sempre a imagino angustiada, hahaha, sofrendo, tentando desesperadamente traduzir a maneira como experimentamos o mundo através da liguagem. Acho que sempre volto a Água Viva como quem faz uma prece: com respeito, tentando alcançar.



Sigo lendo

Day 22: Favorite book you had to read for school



School again? Humm... vou imitar a Tina e pular para a faculdade. Aliás, vou pular mais longe, vou lá para a pós. Um dos livros da bibliografia básica do mestrado era um compêndio de literatura em língua inglesa, Elements of Literature - Essay, Fiction, Poetry, Drama, Film, edited by Scholes, Comley, Klauys & Silverman, floreado com notas sobre os elementos que compõem os diversos tipos de textos de ficção (canônicos, néam): um bocado bom de poemas, contos, textos para teatro, cinema, etc. sempre precedidos por algumas páginas introdutórias sobre a história e os elementos de cada tipo de texto - páginas introdutórias estas que eu ignorava solenemente e ia direto aos contos e poemas (além dos originais em língua inglesa, há algumas traduções, como um conto do Jorge Luis Borges e vários outros textos escritos originalmente em outras línguas). Para comer de colherinha, um pouquinho por vez. Tá todo mundo lá: de D. H. Lawrence a Kate Chopin, de William Faulkner a Alice Walker. Um sacrifício enorme fazer o dever de casa. #not
 

Good girls

Day 21: The best book you’ve read this year

No news is good news, right? O melhor que li este ano vocês já sabem. Também passaram a morar no meu coração Wuthering Heights, de Emily Brontë, e Persuasion, de Jane Austen. Ou seja, a mulherada daquela ilha sabe escrever. Penso nelas. Sem computador, sem internet, sem a avalanche de informação que nos invade hoje em dia e faz de nós seres ansiosos, apressados e atrasados; na quantidade absurda de canais; tanta janela, tanto link. Penso nelas, com a caneta-tinteiro e a janela da sala, talvez. Woolf, Brontë, Austen. Minhas meninas, always. Eternas.



É só isso?

Day 20: The last book you read


Ultimamente tenho comentado aqui no blog sobre os livros que leio, normalmente com um post feito assim que termino a leitura. Além disso, o último livro que li já ganhou post no meme. Sendo assim, vamos ao último livro "postless". As razões para o não-post são essas mesmas que vocês estão pensando: não gostei muito. Apesar de toda a badalação (que me levou a pedir a tal trilogia de presente de aniversário, né, Ulisses?), a personagem central não me convenceu e o enredo tem passagens "chocantes" absolutamente desnecessárias (salvo algum fato nos livros seguintes da trilogia, que ainda não li, que venham a justificar os tais fatos chocantes). Pra completar, a meu ver, a estrutura do primeiro volume é mestre em anticlímax: resolve-se o grande mistério e, a partir daí, o livro se arrasta em resoluções secundárias que, pelo menos para mim, foram enfadonhas, e estou sendo simpática. Como não vi nenhum elemento na sequência final que justificasse as muitas páginas pós-resolução-do-grande-mistério, achei só fraco mesmo. Mas quero ver o filme, mesmo assim, e sigo amando todas as pessoas queridas que adoraram o livro (e, olha, é muita gente).
 

"-Quero que durante um ano more e trabalhe em Hedeby. Quero que percorra toda a investigação sobre o desaparecimento de Harriet, documento após documento. Quero que examine tudo com olhos novos, totalmente novos. Quero que questione todas as antigas conclusões, como deve fazer um jornalista investigativo. Quero que examine o que eu mesmo, a polícia e outros investigadores podem ter deixado escapar.
- Está pedindo que eu abandone a minha vida e a minha carreira para me dedicar durante um ano a uma coisa que será completa perda de tempo?"

Os Homens que Não Amavam as Mulheres (volume 1 da Trilogia Millennium), Stieg Larsson (Tradução de Paulo Neves)

A fonte

Day 19: Favorite nonfiction book


"Alguma coisa havia mudado em minha mãe que me impediu de reconhecê-la à primeira vista. Tinha quarenta e cinco anos. Somando onze partos, havia passado quase dez anos grávida e pelo menos outros tantos amamentando seus filhos. (...) Antes de qualquer coisa, antes mesmo de me abraçar, ela disse com seu estilo cerimonioso de sempre:

-Venho pedir a você que por favor me acompanhe para vender a casa.

Não precisou dizer qual, nem onde, porque para nós só existia uma casa no mundo: a velha casa dos avós em Aracataca, onde tive a boa sorte de nascer e onde não tornei a morar desde que fiz oito anos. Eu acabava de abandonar a faculdade de direito depois de seis semestres, dedicados sobretudo a ler o que caísse em minhas mãos e a recitar de memória a poesia irrepetível do Século de Ouro espanhol. Já havia lido, traduzidos e em edições emprestadas, todos os livros que teriam me bastado para aprender a técnica de romancear, e tinha publicado seis contos em suplementos de jornais, que mereceram o entusiasmo de meus amigos e a atenção de algusn críticos. Ia fazer vinte e três anos no mês seguinte, havia fugido do serviço militar e era veterano de duas blenorragias, e fumava cada dia, sem premonições, sessenta cigarros de um tabaco feroz. Alternava meus ócios entre Barranquilla e Cartagena das Índias, na costa caribenha da Colômbia, sobrevivendo feito um nababo com o que me pagavam pelos textos diários no El Heraldo, ou seja, quase menos que nada, e dormia o mais bem acompanhado possível onde quer que a noite me surpreendesse. Como se a incerteza sobre minhas pretensões e o caos da minha vida não fossem suficientes, um grupo de amigos inseparáveis estava disposto a publicar uma revista temerária sem recursos que Alfonso Fuenmayor planejava fazia três anos. O que mais eu podia querer da vida?"

(Viver para Contar, autobiografia de Gabriel García Marquez, tradução de Eric Nepomuceno)


Caraminholas

Day 18: A book no one would expect you to love

Ser formada em Letras, ex-professora de inglês, ex-aspirante a tradutora, enamorada pela literatura, tudo isso pode sugerir um perfil de pessoa totalmente avessa às ciências exatas. Não é meu caso, mesmo que o setor de meu cérebro voltado a essa área esteja certamente atrofiado. Ainda que a matemática seja, para mim, uma linguagem abstrata e quase misteriosa, sei que minha relação distante com as exatas é, em parte, consequência de ter praticamente desperdiçado três anos de meus estudos em um curso de magistério, quando deveria ter ingressado no ensino médio regular (que naquele tempo era chamado de "científico"). Durante muito tempo tive absoluta certeza de que somente em um curso de Humanas ou Biológicas (cursei um semestre de Jornalismo e dois anos de Agronomia antes de me decidir por Letras) eu encontraria algo que de fato me manteria empolgada e com fome de mais. Até que de mansinho, meio por acaso, comecei a me interessar pela Física. Uma curiosidade discreta, sem muito alarde, mas suficiente para abaixar o volume do mantra que repeti praticamente sem pensar por muitos anos: não gosto de exatas, não tenho jeito pra matemática, não suporto cálculo. Há alguns poucos anos passei a lamentar não ter aproveitado melhor minha época de ensino médio. Sei lá, eu poderia estar no CERN. Hahahahahaha! Joking, people, joking. Os leitores mais antigos deste blog já me viram falar do livro Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson (tecnicamente, isso compromete o meme, mas ignoremos), uma espécie de manual do pensamento científico para leigos bem leiguinhos mesmo. É leve, divertido e deixa a gente com uma vontade danada de estudar ciência. 



"Mas o evento memorável - o limiar de uma nova era - adviria em 1905, quando a revista alemã de física Annalen der Physik publicou série de artigos de um jovem burocrata suíço* sem nenhum cargo acadêmico,  nenhum acesso a um laboratório e cuja única biblioteca consultada regularmente era a do escritório de patentes nacionais em Berna, onde estava empregado como perito técnico de terceira classe. (Um pedido para ser promovido a perito técnico de segunda classe fora indeferido havia pouco tempo.)
Seu nome era Albert Einstein, e naquele ano memorável ele submeteu à Annalen der Physik cinco artigos, dos quais três, de acordo com C. P. Snow, 'estavam entre os maiores da história da física': um examinando o efeito fotoelétrico através da nova teoria quântica de Planck, outro sobre o comportamento de partículas minúsculas em suspensão (...) e ainda outro delineando uma teoria da relatividade restrita.
O primeiro valeu ao autor um prêmio Nobel  e explicou a natureza da luz (além de ajudar a tornar possível a televisão, entre outras coisas). O segundo forneceu uma prova da existência dos átomos - fato que, surpreendentemente, era objeto de certa controvérsia. O terceiro simplesmente mudou o mundo." (Tradução de Ivo Korytowski)

*Einstein renunciou à cidadania alemã para evitar o serviço militar e se tornou cidadão suíço em 1901. Garoto esperto.

Bem ruim e bem bom

Day 17: A book that’s a guilty pleasure (avisei no twitter ontem que este post ia enterrar de vez minha reputação, hehehe. Mas num ligo, não.)

Na primeira vez que vi O Código Da Vinci, do agora pop star Dan Brown, não sabia nada sobre o livro, nunca sequer tinha ouvido falar no autor. Eu tinha entrado na livraria para comprar um presente para uma amiga que estava fazendo aniversário, li a contracapa, achei que ela poderia gostar e arrisquei. Nunca perguntei, não sei se ela me xinga até hoje ou se gostou. Dias depois falei pro Ulisses que iria comprar um exemplar para nós também, tinha ficado curiosa sobre a trama envolvendo "um segredo milenar", uia. Comprei, li comentando o tempo todo com o Ulisses que, por sua vez, leu logo em seguida. Curtimos a história, demos boas risadas com os trechos meio ridículos e viramos fãs do livro. Reconheço que Dan Brown é um Sidney Sheldon melhorado, que seus heróis são rasos como um pires, mas O Código Da Vinci tem seus méritos e tem uma história bem costurada, com boas curvas (nem todas presentes no filme) e uma boa dose de ousadia. Não sei em que deram os tais processos por plágio, acho que andei lendo que acusaram Brown de ter copiado a história de não sei quem. Quando esse papo rolou, eu já tinha lido o livro há um tempo e não cheguei a acompanhar o desenrolar do(s) processo(s). Seja como for, curti demais, adorei ter lido. Enfim, o pleasure veio das ambientações, do pano de fundo histórico por trás da seleção dos livros bíblicos, do próprio tema central da história, dos grandes nomes que enfeitam a trama e a tornam gostosinha: Da Vinci, Pope, Isaac Newton. E, ó Nossa Senhora dos lugares clichezentos, Londres e Paris, Escócia, muito amor.



"A Capela Rossly - costumeiramente chamada de Catedral dos Códigos - eleva-se 11 quilômetros ao sul de Edimburgo, Escócia, no local de um antigo templo de culto ao deus Mitra. Construída por Cavaleiros Templários em 1446, a capela possui gravada em suas paredes uma quantidade impressionante de símbolos judeus, cristãos, egípcios, maçônicos e originários das tradições pagãs.
As coordenadas geográficas da capela coincidem precisamente com os meridiano norte-sul que passa por Glastonbury. Essa Linha Rosa longitudinal é o marco tradicional da ilha de Avalon do rei Arthur, e é considerada o pilar central da geometria sagrada* da Grã-Bretanha. Foi dessa Linha Rosa sagrada que Rosslyn - que originalmente se escrevia Roslin - tirou seu nome." 
Tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook *[que raios é isso, gente, "geometria sagrada"?]

A guilt vem de muitos trechinhos pedantes, assim:

"-Robert - disse, em voz baixa. - Pegue o volante. Você dirige. (...)
-Sophie? Talvez seja melhor você...
- Anda logo! - exclamou ela. (...) Vai mais devagar! - disse Sophie, em francês, quando o carro partiu acelerando rua abaixo. - O que está fazendo?
- Tentei avisar - gritou Langdon, berrando para ser ouvido acima da barulheira das engrenagens. - Meu carro é hidramático!" [ha ha ha, que engraçado #not. Zzzzz...ronc!]

Enfim, li e me diverti, fui ver o filme e tal. Ainda li os outros livros dele (olha a reincidência aí, gente), todos bem fraquinhos, sempre com uma personagem feminina estonteante (com QI acima da média) e revelações científicas/históricas bombásticas! Tá.

Virginia

Day 16: Favorite book that was made into a movie

Vou burlar as regras agorinha mesmo, na maior cara de pau, fiquem só olhando.


Essa semana assisti As Horas, filme de 2002, pela segunda vez. A primeira vez foi no cinema, logo após seu lançamento, quando ele era um badalado filme indicado a nove Oscars e tinha Nicole Kidman com um nariz diferente. Naquela época eu ainda não tinha lido Mrs. Dalloway, então considero que só agora vi, de verdade, o filme - na primeira vez só olhei para ele. 

Mrs. Dalloway é um livro redondo, um círculo fechadinho. É uma história tão impecavelmente bem costurada que me custa crer que sua autora enfrentava profundas perturbações psicológicas enquanto o escrevia. Ou talvez a dor seja justamente a base de tanta sensibilidade, como saber? A história do livro se passa em apenas um dia e descreve as horas que antecedem uma festa dada por Mrs. Dalloway em sua casa. Entre o momento em que ela sai para comprar flores para a festa e o finalzinho da noite, os demais personagens vão surgindo, todos mais ou menos relacionados com a personagem central, todos  pretextos para Woolf desenvolver suas análises de nossos conflitos internos, nossas falsas certezas e aquele tanto bom de valores equivocados. A narrativa passeia de um personagem para outro assim como os pensamentos desses personagens deslizam na pena de Virginia Woolf no estilo que ela mais celebrava em sua escrita, o chamado fluxo da consciência (e que Clarice Lispector tão bem transportou para nossa língua). Então Clarissa Dalloway sai para comprar flores, Septimus Smith passa pela calçada e lá se vai a narrativa junto com ele para o parque; mais adiante surge, casualmente, Peter Walsh e a narrativa segue com ele como seguem sucessivas descrições psicológicas, devaneios angustiados, questionamentos, saudades, dúvidas, loucuras, deslocamentos, enfim, nossa matéria-prima. Várias vezes a narrativa retorna para Clarissa em sua casa e suas lembranças do passado, do amor que ela rejeitou, do casamento socialmente perfeito. Seus pensamentos em torno de sua família, da festa. Tudo se reúne na festa. Tudo se costura. A amiga vai. O ex-amor talvez. Todos vão. Ou quase todos.  


"Sitting at little tables round vases, dressed or not dressed, with their shawls and bags laid beside them, with their air of false composure, for they were not used to so many courses at dinner; and confidence, for they were able to pay for it; and strain, for they had been running about London all day shopping, sightseeing; and their natural curiosity, for they looked round and up as the nice-looking gentleman in horn-rimmed spectacles came in; and their good nature, for they would have been glad to do any little service, such as lend a time-table or impart useful information; and their desire, pulsing in them, tugging at them subterraneously, somehow to establish connections if it were only a birthplace (Liverpool, for example), in common or friends of the same name; with their furtive glances, odd silences, and sudden withdrawals into family jocularity and isolation; there they sat eating dinner when Mr. Walsh came in and took his seat at a little table by the curtain." (Parece que vem tradução nova por aí.)

É preciso ter um olho bom e saber dosar a medida certa de sensibilidade e ironia para escrever uma descrição assim. Li e reli esse parágrafo várias vezes, por puro prazer. Mr. Walsh, antigo amor de Clarissa Dalloway, sai de seu quarto de hotel e vai até o restaurante, momentos antes de decidir se vai ou não à festa. Adoro a pequena amostra de tipos humanos, representando seus minúsculos papéis.

E aí o filme. E aqui eu burlo: porque As Horas não é uma adaptação de Mrs. Dalloway, mas uma adaptação de... As Horas, escrito por Michael Cunningham (ganhador do prêmio Pulitzer com o livro) e que ainda não li. Mas vocês vão ser legais comigo e aceitar que Mrs. Dalloway está lá, via livro de Cunningham, mas, né, é Mrs. Dalloway. O elenco tem todas, Meryl Streep, Julianne Moore, Toni Collette (ai, adoro), Nicole Kidman. Tem um Ed Harris, hum, bom. Sei que muita gente detestou a atuação de Kidman, mas gostei. Obviamente, minha opinião, como crítica, vale nada, pois vi o filme embevecida pela história, feliz da vida de estar vendo "Virginia", então relevem, por favor. E foi tão bom ver o livro nascendo no filme, delicioso. Não sei como o filme se relaciona com a leitura que o próprio Cunningham fez do livro de V. Woolf, mas adorei ver alguns personagens espalhados em um só, ao mesmo tempo  em que há mais de uma Clarissa (e não há?).

(Enquanto lia o livro, comentei com o Ulisses que, de certa forma, uma camada da história parece uma homenagem a Londres, tamanha a frequência com que ruas e pontos famosos da cidade são mencionados. Os personagens caminham pela Bond Street, por Kensington, Bloomsbury; estão lá Buckingham Palace, Westminster, Tottenham Court Road, Hyde Park, quase um guia turístico; o Big Ben marca as horas de Clarissa. E lá está Woolf/Kidman no filme, angustiada pela distância da cidade que amou, lá está Londres no coração dela para sempre. Eu sei, Virgina, eu sei.) [Todos suspiram.]

Mrs. Dalloway poderia entrar em várias categorias desse meme (já entrou em lista de outras blogueiras que seguem o meme), mas vou tentar seguir as regras... depois. Pronto, burlei. 
  

Sem choro ou fantasmas: Allende leve


Day 15: Favorite holiday book

Imediatamente após ler Paula, embarquei na leitura de A Soma dos Dias - Memórias, também de Isabel Allende. Acho que acabei fazendo o que Allende tinha em mente: contrabalançar a intensidade de Paula com a leveza de um livro bem mais suave, uma espécie de elixir para a dor. Autobiográfico como Paula, A Soma dos Dias oferece um lenço para secar as lágrimas geradas pela leitura do primeiro. É o relato do que veio depois, do rumo que tomou sua vida após o ocorrido com a filha (se você ainda não sabe o que ocorreu com Paula, pare aqui, pois lá vem spoiler). O título é bem oportuno, pois quem já perdeu alguém querido sabe que o caminho para a superação da dor vem na forma "um dia por vez"; A Soma dos Dias conta o que Allende fez para continuar no mundo sem sua filha. Novamente é um texto direcionado a Paula: no primeiro livro, Allende escrevia para que as histórias não se perdessem e ela pudesse contá-las à filha quando esta saísse do coma; no segundo, escreve como se contasse à filha o que aconteceu com a família após sua partida. 

A narrativa se inicia tocante e melancólica para, à medida que os curtos capítulos se sucedem, tornar-se solta e alegre. Allende apresenta sua família, narra viagens (inclusive ao Brasil), conta de seus amigos e amores, de sua casa, de sua escrita. Há vários episódios cheios de humor ou mesmo beirando o ridículo. É certamente um livro para fãs, com anedotas familiares e detalhes sobre a rotina da escritora. Perfeito para um feriadão esticado/a no sofá. Falei que adorei?



"Quando meu primeiro romance foi publicado, vários membros da família de minha mãe se chatearam comigo, uns porque nossas idéias políticas estão em extremos opostos e outros porque consideravam que eu havia traído nossos segredos. 'Roupa suja se lava em casa' é o lema do Chile. Para escrever esse livro, peguei como modelos meus avós, alguns tios e outros personagens extravagantes de minha numerosa tribo chilena, e utilizei também as histórias que durante anos escutei meu avô contar e os acontecimentos políticos da época, mas nunca imaginei que algumas pessoas tomariam isso tudo ao pé da letra. Minha versão dos fatos é oblíqua e exagerada. Minha avó nunca pôde mover uma mesa de bilhar com o pensamento como Clara del Valle, nem meu avô era um estuprador e assassino, como Esteban Trueba no romance. Durante muitos anos esses parentes não me dirigiram a palavra ou me evitaram. Pensei que o filme seria como jogar sal na ferida, mas aconteceu o contrário. O poder do cinema é tão acachapante que o filme se transformou na história oficial de minha família, e fiquei sabendo que agora as fotos de Meryl Streep e Jeremy Irons substituíram as de meus avós." (Tradução de Ernani Ssó)

Por onde anda

Day 14: A book that reminds you of someone


Ulisses e eu temos um amigo em comum chamado João. Eu o conheci por intermédio do Ulisses durante nosso primeiro namoro nos tempos da faculdade. Os dois eram, além de amigos, colegas de curso - quer dizer, foram colegas por um tempo, já que o Ulisses abandonou a faculdade de Engenharia e ficou mesmo no curso de Ciências da Computação. Nós três estudávamos no Campus da Universidade Federal da Paraíba, apesar de cada um morar em uma cidade diferente: eu em Campina Grande, Ulisses em João Pessoa e João em Recife. E era lá em Recife que, de vez em quando, rolavam uns finais de semana que guardo com carinho na memória até hoje; João nos hospedava e a gente fazia o percurso básico: cinema e, em seguida, balada num velho casarão do Recife Antigo. Eram tempos maravilhosos aqueles, viu. Enfim, o tempo passou, Ulisses foi pra Minas, eu vim pra Santa Catarina, depois Ulisses também veio para Santa Catarina e o resto vocês já sabem. Mas ninguém sabe do João. A gente tem pistas, parece que ele anda pelo Canadá fazendo alguma coisa com desenhos animados. Esse é nosso grau de precisão: a gente "acha" que é no Canadá, mas pode ser no Chipre. E parece que é desenho animado, mas pode ser desenho industrial também (mas não era engenharia que ele fazia? ah, sei lá, viu). É por aí. Bem, em algum final de semana daqueles, voltei para Campina Grande com um livro do João emprestado. O livro, claro, nunca foi devolvido, mas não me julguem: eu não tive a intenção de surrupiar nada, apenas perdi contato com o João antes de minha vida mudar do jeito que mudou. O livro tá aqui até hoje, tem páginas amareladas e uma capa plástica (eu que pus, acho): O Farol no Fim do Mundo, de Júlio Verne. É uma edição de 1978! Pego nele agora e vejo o marca-páginas na página 73 e não consigo me lembrar do final da história. Grandes chances de eu ter abandonado o livro no meio do caminho, assim, sem mais nem menos. Parece, né? Enfim, inevitavelmente, sempre me pergunto por onde anda o João quando passo os olhos pela lombada do livro na estante. O Ulisses tem histórias ótimas para contar dos dois, todas grandes roubadas em que eles se metiam, sempre ideias de jerico do João: subir um morro tal pra ver não sei o quê, no meio do mato, à tarde. Claro que o morro é longe, a fome chega e a noite também, etc. Ir de bicicleta não sei de onde para não sei qual lonjura: furada. Tudo furada. João só arrumava programa de índio. Uma vez ele foi de bicicleta não sei pra que chapada dormir numa pedra. (!) Em outra história foi à cata de um castelo no interior dos confins do sertão não sei de onde, acho que Pernambuco. Enfim. Nós gostamos demais dele e adoraríamos manter contato com ele outra vez, apresentá-lo nossos filhos. Por onde anda João? Preciso devolver o livro antes que ele sinta falta.


"O sol estava prestes a sumir atrás das colinas que demarcavam o horizonte a oeste. O tempo estava lindo. Do lado oposto, sobre o mar que se confundia com o céu a leste e nordeste, algumas pequenas nuvesn refletiam os últimos raios que logo se apagariam nas sombras do crepúsculo bastante prolongado naquela elevada latitude do 55º grau do hemisfério austral". (Tradução de Attílio Cancian)

Nunca mais

Day 13: A book that reminds you of something/sometime

Nasci no início da década de 70 em uma família que não achava a ditadura algo "tão ruim assim". Foi só quando a década de 80 já ia no meio do caminho, e eu tinha visto pela TV o retorno dos anistiados, que realmente comecei a me dar conta do que tinha acontecido em meu país enquanto eu crescia segura no seio de uma família classe média (baixa) que aprovava a censura e achava que só se dava mal quem desobedecia (eu sei). Aos poucos comecei a questionar minha mãe e a duvidar que tanta gente tivesse sido expulsa do país ou simplesmente desaparecido se a coisa não fosse mesmo tenebrosa. Comecei a realmente entender o que significava aquele carimbo preto e branco e enorme na tela da TV antes de alguns programas: "LIVRE". O crivo. Comecei a entender o crivo, a me dar conta do manto que tinha coberto os olhos de tanta gente, por tanto tempo. A escola aprofundava pouco, os debates eram rasos e eu ainda decorava nomes dos generais presidentes. O tempo seguiu e enquanto a adolescência me enchia de rebeldia por causas bem menores, conheci alguns amigos que foram fundamentais em minha formação. Pessoas que me sacudiram, aprofundaram a conversa e me botaram pra pensar em uma época em que seria bem fácil seguir dormindo ou simplesmente brigando para ir ao baile. Uma dessas pessoas me emprestou o livro Brasil: Nunca Mais. E nunca mais as conversas sobre a ditadura com a minha mãe foram as mesmas. O bom foi que ela também aprofundou sua própria visão do assunto e mais tarde compreendeu que, em certos aspectos, ela vivia em um mundo cor de rosa enquanto pessoas eram mortas por acreditar na liberdade. Brasil: Nunca Mais me chocou profundamente. Eu lia trancada no quarto e ficava longos minutos fitando a parede tentando visualizar os horrores descritos em alguns registros. Sempre que vejo a capa dele por aí me lembro da adolescente que fui: boba, medrosa, confusa, raivosa, curiosa, apaixonada e, a partir de certo ponto, indignada, desconcertada, impressionada. Impressionada.




"A senhora mais idosa me fez a pergunta que já vinha repetindo há meses: “O senhor tem alguma notícia do paradeiro de meu filho?” Logo após o sequestro, ela vinha todas as semanas. Depois reaparecia de mês em mês. Sua figura se parecia sempre mais com a de todas as mães de desaparecidos. Durante mais de cinco anos, acompanhei a busca de seu filho, através da Comissão Justiça e Paz e mesmo do Chefe da Casa Civil da Presidência da República. O corpo da mãe parecia diminuir, de visita em visita. Um dia também ela desapareceu. Mas seu olhar suplicante de mãe jamais se apagara de minha retina." (Do prefácio, por Dom Paulo Evaristo Arns) 

***

Quem também está seguindo o meme: Suzana, Renata, Mari, Grazi, Lu, Niara e Tina (e quem mais?)


Único


Day 12: Favorite sci-fi book


Se este fosse um meme de filmes eu pelo menos poderia citar meia dúzia de queridinhos da ficção científica que todo mundo viu e trocar com vocês algumas figurinhas antigas sobre Blade Runner ou Matrix, Contato ou 2001. Mas, forçando bem a barra, a única obra literária de ficção científica que li e que me vem à cabeça agora é Operação Cavalo de Troia, do espanhol J. J. Benítez. A série que virou febre quando foi lançada no Brasil contava em detalhes (muitos detalhes - as notas de rodapé ocupavam, às vezes, páginas inteiras) as viagens de um membro da Força Aérea Americana (era isso mesmo?) ao passado, mais precisamente ao tempo de Jesus Cristo. A viagem, que tinha por objetivo comprovar a passagem de Cristo pela Terra, dava-se a bordo de uma nave cheia de características incríveis que eram descritas a níveis técnicos quase insuportáveis, mas que eu encarava com disciplina de apóstolo para poder chegar às partes que realmente me interessavam: as descrições dos hábitos, falas e gestos de Jesus. Eu achava o máximo. Devorei os dois primeiros livros da série, abandonei o terceiro para nunca mais voltar e até hoje não sei quantos livros a série tem. Se você não leu é porque certamente ainda não sabia ler nos anos 80.
 
(Era divertido, vai. Não tenho os livros, vou ficar devendo trechinhos e o nome do (a) tradutor(a) da edição que li.)
 
Eu sei, é uma vergonha, mas nem Duna eu li.

Lygia felina

Day 11: Favorite animal book


Não sei se entendi bem esse item, mas vamos lá - já avisando que se alguém me perguntar meu favorite vegetal book ou mineral book, eu vou pular.
 
Uma das coisas que mais curti em As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles, foi o gato Raul. Raul não é um gato qualquer - ou eu é que sei pouco dos gatos, vá saber. Raul tem sensibilidade aguçada (é, outros também) e, pasmem, memórias de outras vidas (aí já não sei). Os capítulos narrados por Raul são uma graça: um gato sarcástico que zomba dos dramas de sua dona, a atriz Rosa Ambrósio, a quem "chama" de Rosona; zomba das manias da criada Dionísia, zomba, zomba, zomba. De vez em quando Raul se perde em suas memórias de outras vidas; depois volta a fazer referências a diálogos dos humanos que o cercam em sua vida atual que ele testemunha de sua posição privilegiada de peludo que se esgueira por todos os recantos da casa... As descrições do ambiente feitas por Raul são um primor e ele acaba conferindo certo tom de humor a Horas Nuas, ainda que ao longo da história haja mais motivos para rir dos desatinos e desencontros humanos do que dos pulos e sacadas do bichano. A vantagem de Raul está em seu afastamento, sua independência (mesmo que reclame do leite gelado em sua tigelinha), sua... superioridade. Irônico, abusado, convencido e, no entanto, sensível, Raul é tudo de bom. (Vocês aí que têm gatos em casa, fiquem ligadinhos.)


"A poltrona fria. A sala enorme, toda branca com suas sombras azuladas mais frias ainda, é madrugada. Vou todo arrepiado para a cozinha que é o lugar mais quente deste apartamento gelado. No calendário da Dionísia há sempre receitas tropicais escritas nas costas do dia. País tropical. Ainda bem que tenho este meu casaco de pele que Rosa Ambrósio considera uma pele vagabunda mas sou um gato vagabundo. E completamente inútil, na opinião da Lili que prefere ter um cachorro a um gato, O cachorro é tão mais amoroso!, vive repetindo. Rosona faz aquela cara de falsa distraída e fica me olhando. Sorrio por dentro, concordo, língua de gato é áspera, imprópria para consolar as velhotas solitárias."
(Hahahahaha!)


***


São os olhos (e uma nota importante sobre traduções)


Day 10: Favorite classic


Por pouco o livro que escolhi para este meme não perde o posto. É que há poucos dias concluí a leitura de Mrs. Dalloway e, olha, estou em estado de graça. O livro de Virginia Woolf entrou com força na minha lista de favoritos, mas já arrumei outro cantinho para ele no meme e falarei dele em breve (é o favorito da Niara, olhem lá). Primoroso, alguns de seus parágrafos são obras primas e a história inteira parece um... um quadro, harmonioso, preciso, onde nada sobra, nada falta. A gente senta e fica ali, admirando.

Por ora, fico com os olhos de Capitu, as dúvidas, um coração descompassado pela angústia do ciúme e a linguagem saborosa de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Li sofrendo junto com Bentinho. Lia e pensava "tadinho". Essa sou eu. O Machado faz uma obra prima e meu comentário é "tadinho do Bentinho". Dez vivas para a melhor dúvida da literatura brasileira: e aí, rolou? Ou não rolou? De qualquer forma... tadinho do Bentinho!!

Daquelas obras que, quando a gente termina de ler, reconhece: não é clássico à toa. Ave, Machado.



"Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles. Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto e Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuei surdo, a sós comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue..."

(Tadinho...)


***

Em um comentário excelente no post de ontem, o leitor e amigo (não necessariamente nessa ordem) Nakereba me deu um tapa com luva de pelica. Tendo passado quatro anos de minha vida passeando pelos chamados Estudos da Tradução é mesmo uma vergonha que eu tenha deixado de mencionar os tradutores de algumas obras que tenho citado no meme. Na minha época de pós-graduação, a questão da visibilidade do tradutor era uma das coisas mais caras para mim - e ainda o é, mesmo que eu tenha me afastado tanto de minha área de formação. Em minha defesa, digo que, sempre que faço um post sobre algum livro que tenha acabado de ler, menciono os tradutores (pode ter havido deslizes, claro, mas sempre tenho a intenção de mencioná-los), a não ser que eu tenha lido a obra no original em língua inglesa, e o faço por concordar completamente com o comentário do Nakereba (vejam lá). Faço o mesmo na listinha que mantenho na barra lateral do blog com minhas leituras mais recentes. Já voltei aos posts que publiquei no meme até aqui e acrescentei os nomes daqueles que fizeram as pontes para que eu tivesse contato com obras de Allende, Marquez, Hosseini ou Dostoiévsky. Merci, Nakereba!

 
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