"Ao cair da tarde de um início de julho..."

Day 09: Saddest book you’ve ever read

Pensei em Drácula, de Bram Stoker, que nunca achei ser um  livro de terror, mas uma triste história de amor e saudade; pensei em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que me lembrava de histórias reais que eu via na TV; até que olhei para a estante e vi Crime e Castigo, de Dostoiévski, e me lembrei da profunda solidão de Raskólnikov, de sua angústia, sua insegurança, sua baixa auto-estima, seu pesado destino. A ambientação da história é algo tão distante de mim que houve certo estranhamento durante boa parte de minha leitura; mas, a partir de certo ponto, as tormentas do protagonista também me fizeram lembrar de histórias reais e me mostraram o porquê dessa obra ter seu lugar no mundo dos clássicos: sofrimento, dúvidas, insegurança, medo, quem  não os tem? E julgar, quem pode? (Só avancei na leitura quando peguei a tradução publicada pela Ed. 34. Tinha tentado antes, em outra edição bem mais antiga, e desistido. Valeu a pena ter voltado.)
 
 
"Para ele era terrivelmente doloroso. Se fosse possível ir para algum lugar nesse instante e ficar totalmente só, ainda que fosse para toda a vida, ele se consideraria feliz. O problema é que ultimamente, embora estivesse quase sempre só, não havia como sentir que estava só. Acontecia-lhe de sair da cidade, tomar a estrada real, uma vez até chegou a um bosque; no entanto, quanto mais isolado era o lugar, mais fortemente ele se dava conta de algo como a presença próxima e inquietante de alguém, não é que ela fosse terrível mas de certo modo era muito agastante, de sorte que ele voltava o mais rápido para a cidade, misturava-se com a multidão, entrava nas tabernas, nos bares..." (Tradução de Paulo Bezerra)


***

Quem também está seguindo o meme: Suzana, Renata, Mari, Grazi, Lu, Niara e Tina (e quem mais?)

O livro mais aterrorizante

Acompanhem as blogueiras que embarcaram na brincadeira: Suzana, Renata, Mari, GraziLu, Niara e Tina (e quem mais?)



Day 08: Scariest book you’ve ever read



Eu não conseguia ficar sozinha na sala, muito menos no quarto. Tomar banho era um martírio. Só lia se houvesse alguém em casa comigo ou no ônibus a caminho da escola. Seguia minha mãe, disfarçadamente, pela casa. Se ela ia à cozinha tomar água, eu me sentava por ali, lendo na mesa. Logo ela seguia para o quarto dela e eu fechava o livro e ia lá puxar qualquer assunto, perguntar qualquer coisa. Se ela ia ao banheiro, eu ficava rondando a porta, o livro fechado na mão. Quando ela voltava para a sala, eu ficava toda feliz e voltava a ler a história que mais me apavorou na vida: O Exorcista, de William P. Blatty. Por alguma razão (hoje desconfio que devia ser aquela ânsia adolescente por conhecer tudo, a qualquer preço), eu não conseguia interromper a leitura, ainda que o livro tenha me tirado a paz e o sono por vários dias. Um horror. O filme é fichinha. Para mim, o livro foi terrível, horripilante, realmente assustador. (Como vocês podem ver, não ando lendo muitas histórias de horror por aí. Um conto do Poe de vez em quando já tá bom. Eu ia escrever aqui que hoje, bem mais cética, talvez eu me assustasse menos, mas aí me lembro que, não faz muito tempo, passei dias dormindo mal depois de ver Atividade Paranormal. Melhor mudar de assunto.)


"...Karras ficou um momento a olhar para ela. Intrigado. Que estaria errado? Reparou então no silêncio repentino do quarto. Foi breve. Agora ouvia-se o ladrido de gargalhadas diabólicas. Avançou. Apalpou na algibeira o frasco de água benta. Abriu a porta e entrou no quarto. O fedor era mais forte que na tarde anterior. Fechou a porta. Olhou aquele horror, aquela criatura na cama." (Infelizmente não faço ideia de quem o traduziu.)
(É, ainda tenho medo.)

Para casa


Day 07: A book you hated but had to read for school


Simplesmente não me lembro. Houve, certamente, mas não me lembro. Eu gostava da tarefa "ler livro tal"; acredito que não gostava de todos, mas nada foi tão traumatizante que me venha agora facilmente à memória. Lembro-me de muitos livros ruins que li voluntariamente, mas, entre os obrigatórios, nenhum foi o fim do mundo. Quando estava me preparando para o vestibular de Letras, por exemplo, sei que peguei a lista para a prova de literatura brasileira e li todos que não havia lido ainda (a lista nem era longa, uns doze livros, talvez) - não gostei de todos, é verdade, mas nem me lembro quais os que li por pura necessidade. Havia Lima Barreto e Machado, Manuel de Macedo e tal. Alguns devorei feliz, outros li para a prova, simplesmente. Não odiei nenhum, acho. Acho. Se eu me lembrar de algo bem ruim mesmo, atualizo o post depois. Toca o bonde.

(Eu me lembro de ouvir a turma inteira protestando contra O Cortiço; eu ficava quieta na minha carteira porque tinha gostado, mas não precisava de outros motivos para me sentir esquisita, sacumé.)

***

Posso dizer que li Senhora e Cinco Minutos, ambos de José de Alencar, porque eles moravam lá na estante da minha mãe e tals. E eu vivia naquele tempo em que não largava um livro começado de jeito nenhum. Então li, meio assim sem achar muita graça. Mas isso faz tanto tempo que nem me lembro das sensações durante as leituras. Sei que li, por uma obrigação que eu mesma me impus. Serve?

Ainda ela


Day 06: A book by your favorite author

Depois que a gente sai da adolescência, tende a se libertar de rótulos como "o favorito", "o melhor", "o mais isso" e percebe a delícia que é a liberdade de eleger vários e vários, de gostar das coisas sem necessariamente encaixá-las em escalas. O meme, contudo, não está interessado nisso. :-) 

Ela veio tarde, eu já estava na faculdade. Mudou tanta coisa, mudou minha relação com a linguagem, mudou minha forma de estudar literatura, mudou minhas preferências. Irreversível. Clarice é irreversível: não posso mais sem ela. Maior que as mudanças foi justamente o seu oposto: o reconhecimento. Leio Clarice aos sustos: como ela sabe? Eu não contei isso pra ela! Pois ela sabia. Tinha a lupa que mostrava as almas. Bruxa. Toda minha reverência para quem, aos 16 anos, escreveu Perto do Coração Selvagem e anunciou:

"Mais uma vez ou duas na vida - talvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer - teria sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era realmente imortal para todo o sempre."

E é.

Há muito dela que ainda não li. Dos que já tive a sorte de ter nas mãos, meu eterno amor para os contos de Laços de Família. Um, em especial, morou em mim durante meses na faculdade e relê-lo infinitas vezes foi sempre um prazer: A Imitação da Rosa.



"Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
Mas agora que ela estava de novo "bem", tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Ar­mando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade — e vendo enfim Armando esquecido da própria mulher. E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando."

(É preciso seguir lendo...) 




Os devaneios do português


Meme dos livros, bom demais. Acompanhem as tuiteiras que embarcaram na brincadeira: Renata, Mari, GraziLu e Tina - esqueci alguém?

Day 05: A book that makes you laugh


Dei boas risadas com As Intermitências da Morte, de José Saramago. Se tem uma coisa que o Saramago sabia fazer bem, essa coisa era começar um livro. Lembro-me que iniciei a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira na livraria e não pude deixar de comprar porque o início da história é impactante, convidativo: uma cara parado no sinal, esperando o verde, de repente fica cego. É a mesma coisa com Intermitências: "No dia seguinte ninguém morreu".

O "fato" inusitado, que causou "uma perturbação enorme" no mundo dos vivos, transforma-se em uma história absurda e, uh, tenebrosa - porque as pessoas deixam de morrer, mas não deixam de sofrer: quem está moribundo, segue moribundo; quem está ferido, segue ferido... mas não morre. Como o curioso fenômeno é restrito a um determinado país, não tardam a surgir os contrabandistas de moribundos; estes, mergulhados num sofrimento literalmente sem fim, fazem qualquer negócio para cruzar as fronteiras e morrer em paz. O caos logo se instaura naquele país de pessoas aparentemente fadadas a viver para sempre - um horror. Descrito com a ironia caprichada do saudoso menino português, recheado de situações engraçadíssimas criadas sob medida para que Saramago se esbalde com seu arraigado ceticismo, Intermitências da Morte traz risadas garantidas ou o seu dinheiro de volta (quer dizer, o dinheiro eu não garanto, mas se você não achar engraçado eu conto uma piada de papagaio, quem sabe).


"Embora a palavra crise não seja certamente a mais apropriada para caracterizar os singularíssimos sucessos que temos vindo a narrar, porquanto seria absurdo, incongruente e atentatório da lógica mais ordinária falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada pela ausência da morte, compreende-se que alguns cidadãos, zelosos de seu direito a uma informação veraz, andem a perguntar-se a si mesmos, e uns aos outros, que diabo se passa com o governo, que até agora não deu o menor sinal de vida. É certo que o ministro da saúde, interpelado à passagem no breve intervalo entre duas reuniões, havia explicado aos jornalistas que, tendo em consideração a falta de elementos suficientes de juízo, qualquer declaração oficial seria forçosamente prematura..."

Caixa de lenço


Segue o meme.

Day 04 - The first book that made you cry

Não sei qual foi o primeiro livro que me fez chorar. Pode ter sido Pollyanna, lá atrás, como não? Choro fácil, com filmes então... a lista seria infinita. No quesito caixa de lenço sou campeã, chega a ser meio ridículo. São muitos os livros que me comoveram com suas histórias, que me deixaram com aquele nó na garganta e aquela cara olhando através da janela, com o livro já fechado entre os braços, revivendo a história, grata por tê-la conhecido. Dois livros, no entanto, me levaram ao choro forte, a interromper a leitura, respirar e prosseguir. Nada que todo mundo já não tenha lido, nada que não carimbe minha testa com a marca "manteiga derretida", tudo bem óbvio, mas se é para ser sincera, vamos lá: o primeiro deles foi o bestseller O Caçador de Pipas, livro que deve ter deixado Khaled Hosseini e as próximas gerações de sua família milionários (seu outro romance, A Cidade do Sol é bom também). Chorei muito, foram muitos lenços. Mais tarde, chorei no trailler do filme. O filme é bom, mas foram menos lenços. Gosto da história, da narrativa, das imagens. Mergulhei na infância daquele menino. Mergulhei e saí de lá com olhos inchados.


"Depois disso, Hassan ficou circulando pelas beiradas da minha vida. Eu tomava todas as precauções para que os nossos caminhos se cruzassem o mínimo possível, planejando os meus dias nesse sentido. Porque, quando ele estava por perto, o oxigênio desaparecia do aposento. Sentia o peito apertado e tinha dificuldade para respirar; ficava ali, sufocando na minha bolhazinha de atmosfera absolutamente abafada. Mas mesmo quando ele não estava por perto, estava presente. Estava nas roupas lavadas e passadas sobre a cadeira de assento de palhinha, nos chinelos aquecidos deixados diante da porta do meu quarto, na lenha que já ardia no fogareiro quando eu descia para tomar o meu café da manhã. Para onde quer que eu me virasse, lá estavam os sinais da sua lealdade, da sua maldita lealdade inabalável." (Tradução de Maria Helena Rouanet)

***

E aí teve Paula, de Isabel Allende. Avisei que era óbvio. Chorei um rio inteiro.



"Água e mais água. Escorre como delgadas serpentes cristalinas pelas fissuras das pedras e pelas entranhas recônditas dos morros, unindo-se em riachinhos, em fragorosas cascatas. Súbito me sobressalta o grito de um pássaro perto de mim ou o choque de uma pedra que veio rolando do alto, mas em seguida volta a paz completa dessas vastidões e vejo que estou chorando de felicidade. Essa viagem cheia de obstáculos, de perigos ocultos, de solidão desejada e de beleza indescritível é como a viagem da minha própria vida. Para mim, essa lembrança é sagrada, é também a lembrança da minha pátria, quando digo Chile, é a isso que eu me refiro. Ao longo da vida procurei uma vez ou outra a emoção que o bosque desperta em mim, mais intensa que o orgasmo mais perfeito e o mais longo aplauso.” (Tradução de Irene Moltinho)


Dias 02 e 03 - Como me fazer largar um livro / Na Grécia com a Emília


Ontem não teve post, então hoje seguem dois itens do meme dos livros.
***
Seguindo com o meme dos 30 livros, devo dizer que o segundo dia (a book you don't like) por si só daria uma lista bem grande. Já li coisa ruim nessa vida, viu. Já li um livro daquela autora de Melancia cujo nome me esqueci, já li um do Paulo Coelho (ARGH!), já li aquele da Agatha Christie (mágoa), já li até um do Gabriel García Marquez para o qual torci o nariz (Memórias de Minhas Putas Tristes - tudo bem, não desgosto totalmente, mas, comparado às outras obras do autor, perde feio em minhas preferências), dentre muitos outros; mas livro ruim que se preza é aquele que a gente nem consegue acabar de ler, certo? Então anote aí e passe bem longe: A Cabana.


Tenho implicância com o tom de "você também pode enxergar a luz" ou algo parecido. Sorry, mas não rola. Larguei antes da metade e acho que fui longe demais.

"Mackenzie, meus propósitos não existem para o meu conforto nem para o seu. Meus propósitos são sempre e somente uma expressão de amor. Eu me proponho a trabalhar a vida a partir da morte, a trazer liberdade de dentro do que está partido, a transformar a escuridão em luz. O que você vê como caos, eu vejo como desdobramento. Todas as coisas devem se desdobrar, ainda que isso ponha todos os que eu amo no meio de um mundo de tragédias horríveis..." (Tradução de Alves Calado)

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Day 03 - favorite book as a child


Procurei na rede o título de um livrinho que li inúmeras vezes em minha infância, mas não encontrei nada. Era a história de um grilo que tocava o terror na floresta escondido dentro do tronco de uma velha árvore morta. O tronco oco reverberava sua voz e ele amedrontava os grandões das redondezas com ameaças horrorosas. Até que alguém descobre o segredo do grilo e acaba com a festa. Lembro-me direitinho de que todas as vezes eu sentia um medinho até a página que revelava a farsa. Aí eu relaxava. Toda vez.

Além desse e outros tesourinhos que chegavam às minhas mãos, meu grande parceiro na infância no quesito imaginação sem limites era mesmo Os Doze Trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato. Nele, Pedrinho, Emília e Visconde (e sempre me perguntei por que cargas d'água a Narizinho não foi  junto) tomam pó de pirlimpimpim e visitam a Grécia Antiga para ajudar o Hércules em cada um dos famosos doze trabalhos. Sempre a Emília com soluções espertíssimas, sempre o Pedrinho com a maior coragem do mundo, sempre o Visconde explicando tudo. Apaixonante, inesquecível, para fazer a gente amar mitologia para o resto da vida. Até hoje, quando vejo pinturas ou esculturas de figuras mitológicas, esse livro me volta à memória: foi com ele que tudo começou (e continuou, claro, com a primeira versão do filme Fúria de Titãs, que assisti 5.639 vezes e meia).


"No terceiro dia pela manhã já tudo estava pronto para a partida.
Pedrinho deu uma pitada de pó a cada um e contou: Um… dois e … TRÊS! Na voz de Três, todos levaram ao nariz as pitadinhas e aspiraram-nas a um tempo. Sobreveio o fiun e pronto.
Instantes depois Pedrinho, o Visconde e Emília acordavam na Grécia Heróica, nas proximidades da Neméia. Era para onde haviam calculado o pó, pois a primeira façanha de Hércules ia ser a luta do herói contra o leão da lua que havia caído lá."


Séculos depois, lendo sobre as ideias eugenistas de Monteiro Lobato, sinto uma dorzinha no peito. Sinto mesmo. Mas não posso negar o papel desse livro em minha vida.


Quebrando a palavra


Olha, eu tentei resistir, juro. Tá rolando o tal do meme dos 30 livros em 30 dias e jurei que não faria. Não sou uma pessoa de palavra, como vocês podem ver. A Tina tá fazendo, a Lu tá fazendo, a Mari tá fazendo, etc. As listas delas, claro, vão engordar minha lista de wannaread e como já brincamos de fazer listinhas de livros aqui achei que seria repetitivo demais. No entanto, não adianta. Rendo-me. Tudo assim sem muito compromisso, certamente vou falar de outros assuntos nos próximos dias e creio que vou pular uns itens aí... veremos onde isso vai dar.

É assim:

Day 01: All-time favorite book

Day 02: A book you don't like

Day 03: Favorite book as a child

Day 04: The first book that made you cry

Day 05: A book that makes you laugh

Day 06: A book by your favorite author

Day 07: A book you hated but had to read for school

Day 08: Scariest book you’ve ever read

Day 09: Saddest book you’ve ever read

Day 10: Favorite classic

Day 11: Favorite animal book

Day 12: Favorite sci-fi book

Day 13: A book that reminds you of something/sometime

Day 14: A book that reminds you of someone

Day 15: Favorite holiday book

Day 16: Favorite book that was made into a movie

Day 17: A book that’s a guilty pleasure

Day 18: A book no one would expect you to love

Day 19: Favorite nonfiction book

Day 20: The last book you read

Day 21: The best book you’ve read this year

Day 22: Favorite book you had to read for school

Day 23: The book you’ve read the most times

Day 24: Favorite book series

Day 25: A book you used to hate but now love

Day 26: A book that makes you fall asleep

Day 27: Favorite love story

Day 28: A book you can quote by heart

Day 29: A book someone read to you

Day 30: A book you haven’t read yet but want to


***

Então vamos logo começar.

Day 01: All-time favorite book

Não sei, hahaha. Nossa, difícil. O primeiro impulso é falar do Marquez, de Cem Anos de Solidão, por mais clichê que isso possa parecer. "All-time" é tão pesado, mas já que o primeiro pensamento é mesmo a chuva de Macondo, voilá.

"Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento. O céu desmoronou-se em tempestades de estrupício e o Norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações. Como acontecera durante a peste da insônia, que Úrsula dera para recordar naqueles dias, a própria calamidade ia inspirando defesas contra o tédio." (Tradução de Eliane Zagury)

Amor. Demais. Mas esse post precisa ser encerrado rapidamente, porque outros títulos começam a pular em minha cabeça clamando o lugar no pódio.

Já boicotei por menos

Já comprei e recomendei diversas vezes as roupas da Zara. Alguns meses atrás, virei fã da ala infantil, com roupas de alguma qualidade a preços razoáveis. Agora, claro, não mais. Em papos rápidos sobre o assunto, vejo que algumas pessoas alegam que não adianta boicotar, "os trabalhadores na China não têm sequer uma política que garanta os mínimos direitos trabalhistas". Sei pouco ou quase nada da China. Aqui, no Brasil, há leis trabalhistas. "Muitas outras lojas devem fazer o mesmo". Não sei das outras - à medida que for descobrindo quaisquer ligações ao trabalho escravo, vou engordando o boicote. Agora sei das acusações contra a Zara. Basta, pra mim. Não vou consertar o mundo, não vou erradicar o trabalho escravo na China, mas vou deixar de consumir os produtos vendidos por uma empresa que comprovadamente supostamente* se aproveita de pessoas em situação de miséria para aumentar seus lucros. Isso eu posso fazer. E nem acho que seja tão pouco assim. Há anos boicoto uma empresa de calçados porque eles não trocaram um par de tamancos que vieram com defeito; boicotar uma loja por trabalho escravo, então, só se for agora.


*Update: Acho importante fazer um adendo. Da mesma forma que há leis trabalhistas, há também leis processuais e jurídicas segundo as quais ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado de qualquer ação. Até onde sei, os vínculos da Zara com trabalho escravo em sua cadeia de produção são recentes e, imagino, a loja deve se defender sei lá como. Então faço a devida ressalva e substituo o comprovadamente por supostamente, caso o tempo nos mostre que a Zara é inocente nessa história (duvido, mas vocês me entendem, né?).

Amanda Monroe


Tantas telas




Gosto muito da vista que temos aqui em casa, a vista da janela da cozinha. De lá vemos um morro que esconde o outro lado da cidade. Em dias como hoje olhamos pela janela e vemos o verde do morro, o azul do céu e algum colorido a mais dado pelas plantas que se espalham pelo nosso quintal e que apontam nos muros dos vizinhos. Há ainda o vermelho velho de um telhado meio escondido e o preto acinzentado de outro telhado mais próximo. E há o branco dos guarda-sóis fechados, que esperam pacientemente os meses mais quentes.


Venho para o escritório e daqui vejo mais verde, todo o verde de nossas palmeiras e do mato do quarteirão em frente. Com o dia claro como está hoje, podemos ver pequenos pedacinhos de azul por entre as árvores. À direita, para além das árvores, outros morros e mais céu infinito. Não há  nuvens por aqui hoje e tanto a mata quanto o jardim esbanjam aquele jogo de luz e sombra, exibindo muitos tons de verde e prata.


Gosto também quando me deito no sofá da sala e a janela só mostra plantas. Deitada, não vejo a rua, nem o portão, só o verde e o vermelho-alaranjado de algumas folhas grandes.

Tenho vários vizinhos, gosto de morar em um bairro relativamente central, perto do trabalho, com facilidades logo ali. Mas também gosto desses momentos em que brinco de ilha no meio do mato.

O que tá pegando é que agora me dou conta de que olho, olho e não consigo pintar nada. Eu não sei pintar. Damn it. (Vou lá no post linkado aqui e vejo todos os tons de verde no quadro do Monet. Os pálidos, os sombreados, os iluminados. Damn it.)

(Só uma folha seca e velha que já encheu a barriga de várias formigas. Mas se balançou tanto quando viu a câmera. E tem um laranja tão vivo que a foto não mostra. Não mostra, juro.)

Ah, quem dera.

Baseado em fatos reais


A geleia de framboesa estava praticamente no fim. No interior do pote restavam apenas aquelas ínfimas porções que escapam à faca. Ainda pensei em limpar os restinhos preciosos com um miolinho de pão, mas eu queria mesmo era passar geleia no biscoito cracker. Então não desisti. Ao invés de descartar o pote, peguei a faca pela última vez e, indiferente à barulheira das crianças, tratei de capturar toda a geleia, cem por cento da geleia, toda ela para mim. Primeiro foi preciso juntar o que podia no fundo do pote, raspando minuciosamente cada milímetro melecado. Depois, fiz o mesmo com a parede interna do vidro - nada escapava à minha faca. Finalmente, mordendo o lábio inferior e antecipando o prazer que viria dali a meio minuto, raspei tudo, tudinho mesmo, da dobrinha próxima à tampa. Juntei tudo na borda do pote, colhi aquele montinho vermelhinho salpicado de minúsculas sementinhas imperdíveis com a lâmina de minha faca amiga e espalhei tudo sobre a superfície do biscoito premiado. Ainda segurando a faca, abri a boca e mordi o nada porque o biscoito escapou da minha mão e caiu no chão.

Eu teria catado os sete ou oito pedaços do meu biscoito espatifado e comido mesmo assim, não fosse a Amanda na cadeira ao lado que parou de gritar só para me lembrar: "caiu no chão é cacaca, né, mamãe?".



17:40

- Rita, vamos buscar as crianças na escola?
- Vamos. Você viu a chave do carro?
- Tá aqui, vumbora?
- Tô indo.

Blam!
Blam!
Vr...Vr..vruuuuuuuummmmmmmmmm....

E aí, passando pela avenida que nos leva à escola:





Assim, indo buscar as crianças na escola. Um abuso.

(Ah, se eu soubesse pintar.)

O gênio, o livrinho e as recomendações médicas


Não reparem, mas ainda estou um pouco mergulhada lá nas bandas de cima. Logo passa, volto ao trabalho na quinta e a rotina me engole sem deixar tempo para "ai, foi tão bom quando...". Saí de Florença com esse livrinho embaixo do braço e assim, convenhamos, fica difícil desgarrar:


Terminei de ler ontem, mas esse é um daqueles que a gente visita de vez em quando. O livro traça um breve retrato dos cenários políticos em Florença e Roma na época em que Michelangelo transitava pelos dois grandes centros artísticos do final do século XV e início do XVI. É útil para entender os temas escolhidos para as esculturas e afrescos do artista e nos dá uma ideia da intensidade impressionante de sua produção; é útil também para entender a força das várias gerações da família Medici que bancava muitos artistas e criava o cenário propício ao que ficou conhecido como Renascimento. Transitando entre Florença e Roma, de acordo com as marés políticas e tensões sociais de seu tempo, Michelangelo trabalhou incessantemente esculpindo e pintando algumas das obras mais impressionantes de todos os tempos. Ainda que eu considere meu analfabetismo artístico, quanto mais observo detalhes de suas obras, mais entendo que sua fama (felizmente gozada ainda quando vivo) não veio à toa.

Ao contrário do que eu pensava, Michelangelo morreu velho,  com mais de setenta anos, e esculpiu até a véspera de sua morte (uma outra pietá, inacabada, muito mais dramática que a mais famosa do Vaticano). Algumas curiosidades mencionadas no livro me deixam ainda mais impressionada ao imaginar o contexto que cercava as grandes obras deixadas por ele, em um tempo em que os artistas fabricavam suas tintas... Michelangelo trabalhava sozinho, geralmente dispensava auxílio de alunos ou assistentes; passou quatro anos dependurado nos andaimes que o permitiam pintar o teto da Capela Sistina e escreveu a seu pai quando terminou, algo como "acabei aquela capela; o papa gostou", assim, básico. Muitos anos antes, o bloco de mármore extraído para esculpir a Pietá precisou de nove meses para ser levado de Carrara a Roma. Nove meses. Um ano depois, era isso:

Michelangelo tinha 24 anos.

Não há praticamente nenhum dado sobre a vida pessoal de Michelangelo nesse livro, há apenas indícios de que ele levou uma vida solitária, amargurado com sua solidão, tinha humores difíceis e deixava de comer para não interromper a confecção de uma obra. Há relatos escritos por ele, em cartas para os poucos com quem se relacionava socialmente, lamentando-se de sua sorte com trabalhos intensos e pouco tempo. Enfim, um estressado, igualzinho a mim, an-han.

***

Falando em livrinhos, durante minha viagem li o primeiro volume da série Millenium e devo confessar que não compartilho do entusiasmo das multidões. Achei bom, no máximo. Sou chata? Antes de passar para o segundo volume, vou ler Mrs. Dalloway que anda me chamando faz tempo.

***

Os médicos recomendam uma taça de vinho tinto na hora do almoço. Sempre torci o nariz, preferia vinho branco e, né, todo dia não dá. Não dava. Porque agora não só dá, como adoro. Não vou dizer que me viciei em vinho tinto porque a palavra "viciar" nesse contexto pode gerar interpretações indesejadas, mas posso afirmar que virei fã dessa historinha. Uma taça de vinho tinto (às vezes branco, por que não) na hora do almoço foi rotina em nossa última viagem e acho bom continuar atendendo as recomendações médicas, o que vocês acham? Só por obediência. Reza a lenda que o vinho tinto ajuda a evitar obstruções nas artérias. Outra lenda reza que ajuda o humor também. O paladar. O prazer. O bom. Hum, bom demais. Tim tim.

Em Versailles...



Em Veneza...



Em Florença...



Ou em Milão, para se despedir...


... o almoço sempre acabava levinho. ;-)

(Em Paris comprávamos vinhos deliciosos a preços excelentes no supermercado; eu, que não entendo bulhufas do babado, voltei a Floripa e fui toda feliz procurar um francês qualquer para recordar, sacumé; hahahahaha, os preços dos vinhos franceses!!!!!!!!!! Socorro! Deixa quieto. #classemediasofre campeão)

A maior aventura das férias: as malas


Houve um tempo em que era tão comum algo dar errado com minha bagagem em aeroportos que eu chegava a me surpreender quando tudo corria bem e eu via minha mala chegar intacta às minhas mãos depois de aterrissar. Já me aconteceu de tudo: já peguei um voo para o Nordeste em que toda a bagagem de todos os passageiros foi enviada para outra cidade, enquanto nós ficamos vendo a bagagem do outro voo se acumular na esteira à nossa frente; já cheguei em casa para descobrir que minha mala tinha sido aberta e que eu tinha sido roubada; já peguei mala de outra pessoa e só descobri quando abri a dita cuja em casa e vi um enorme chapéu de praia onde deveriam estar as roupas das crianças. Etc. Dessa vez também experimentamos um pequeno incidente na chegada a Florianópolis, conto já. Antes, porém, vou matar minha vontade de descrever nossas andanças pela Itália, de trem, com duas crianças e nove volumes de bagagem. Nove. 

Bom, não eram todos grandes volumes, é verdade, mas acompanhem. Em nossa última semana em Paris, a irmã do Ulisses (que você vê nesse post, atrás do sorvete) juntou-se a nós e seguiu conosco pela Itália. Eu e Ulisses tínhamos três grandes malas (uma com nossa roupa, outra com as roupas das crianças e mais uma com patinetes, capacetes, livros e sapatos), e uma última bolsa de mão com roupas que as crianças poderiam precisar trocar, o laptop, a máquina fotográfica, essas coisas; a Lílian tinha sua mala grande e outro volume de mão; idem para Dona Tereza, minha sogra. O Ulisses achou pouco e comprou um componente para a guitarra dele que ocupava uma caixa grande de papelão. Uma caixa, vão pensando. E, finalmente, deixamos Paris com uma mochila com lanches rumo à viagem noturna no trem que nos levaria para Veneza.

A estação de trem de Paris tinha à nossa disposição carrinhos de bagagem, similares aos dos aeroportos, à custa de um euro (ou dois, não me lembro), então foi fácil. Quando o trem chegou, seguimos rapidamente pela plataforma, cientes de que não dispúnhamos de muito tempo para acomodar tanta bagagem no vagão. Como não conseguimos um vagão só para nós (os trens ficam lotados nessa época do ano - anotem aí, viajar no verão é uma m***a, em certos aspectos), precisamos dividir um vagão para seis pessoas. Nós éramos quatro pagantes em nosso vagão (a Amandinha viaja de graça e a Lílian viajou em outro vagão porque comprou a passagem dela em outro momento), além das duas outras ocupantes. Se eu for falar da sorte, vou falar das duas americanas que dividiram o espaço conosco, mãe e filha simpáticas e falantes, porque, claro, tudo poderia ser pior se tivéssemos que dividir o espaço com dois seres mal encarados, por exemplo. Agora visualizem a cena: fui a primeira a entrar no trem para procurar nosso lugar, enquanto Ulisses, Lílian e D. Tereza se dividiam nas tarefas de empurrar carrinhos e cuidar das crianças na plataforma. Quando entrei no trem mal pude acreditar no que nos esperava. A cabine era minúscula e praticamente todo o espaço disponibilizado para bagagem estava ocupado pela bagagem das duas americanas. Eu ri de nervoso, cumprimentei as duas e disse "I'm in trouble". Anunciei que eu tinha duas crianças e muita bagagem para já ir preparando o espírito das coitadas que viajariam com a gente. Nesse momento o Ulisses chega ao vagão com a caixa. Rapidamente tratou de enfiá-la sob um dos bancos. A caixa entalou. Não entrava, não saía e bloqueava a entrada do vagão. Eu me espremia no corredor para dar passagens aos muitos passageiros, todos carregados de bagagem, que circulavam pelo corredor estreito. Chegaram as crianças. Olhei para as americanas e perguntei "Are you scared?" (vocês estão com medo?) e elas soltaram uma sonora gargalhada. A mais nova delas prontamente começou a tentar ajudar o Ulisses a desentalar a caixa e depois de cerca de três minutos de intensa luta corporal-caixal conseguiram. Não restava alternativa e ele teve de erguer todos os nossos pesados volumes de bagagem para a cama superior, o que significava que um de nós não teria onde dormir. Àquelas alturas, ficamos felizes pelo fato de que todas as bagagens couberam na cama e seguimos rumo à Itália.

Ulisses, exausto, depois de encarapitar as malas lá em cima (veja no detalhe lá em cima a mala preta onde seria uma cama para alguém dormir).
  

Dona Tereza e eu: só nos restava rir.

Para quem nunca viajou em um trem noturno em vagão de segunda classe (os da primeira comportam quatro pessoas e devem ser mais amplos, não sei, estavam todos lotados semanas antes de nossa viagem), imaginem: um compartimento retangular com assentos para três pessoas em cada lado e uma cama alta sobre cada um dos assentos; na hora de dormir, os encostos dos assentos podem ser convertidos em outras duas camas a meia altura entre o assento propriamente dito (que vira uma cama) e a cama lá de cima; a altura desse encosto convertido em cama não permite que alguém permaneça sentado no assento inferior, o que significa que é preciso haver certo acordo quanto à hora de se deitar: se alguém decidir permanecer sentado "mata" duas camas ao mesmo tempo, o assento propriamente dito e o encosto que não pode ser convertido. Enfim. A americana mãe anunciou que era claustrofóbica e que permaneceria sentada durante toda a noite, já que não suportaria a ideia de ter o encosto convertido em cama sobre sua cabeça (caso usasse o assento inferior para dormir), nem tinha condições de escalar o caminho rumo às camas superiores. Oh well. Fiz as contas: Arthur e Amanda dormiriam em uma das camas lá de cima (a única disponível, já que a outra estava tomada por nossas malas), D. Tereza dormiria no assento inferior, a americana-filha dormiria num encosto convertido em cama acima da D. Tereza, enquanto eu e Ulisses passaríamos a noite sentados ao lado da americana-mãe. Não sei se um anjo soprou no ouvido dela, ou se as duas entenderam que isso complicava tudo, o fato é que a americana-mãe mudou de ideia e decidiu tentar se deitar em um encosto convertido em cama, oba! Aí foi fácil (veja que meu conceito de "fácil" mudou bastante com essa experiência): D. Tereza e a americana-filha ocuparam cada uma as duas camas inferiores, Arthur e a americana-mãe ocuparam cada um dos encostos convertidos em cama, eu me deitei com a Amanda na cama superior e Ulisses ficou em pé no corredor até que as crianças adormecessem. Quando o silêncio reinou, Ulisses entrou, migrei para a cama do Arthur e Ulisses se espremeu na cama junto com a Amanda. E todo mundo dormiu. O ar-condicionado tratou de preservar a beleza de nossa pele e precisei resgatar cobertores enfiados sob malas no meio da madrugada, enquanto Lílian pingava de suor em sua cabine. Diversidade.

Amanda e eu em nosso puleiro.

Amanda precisou ser acordada quando já chegávamos a Veneza, Arthur bateu altos papos com a americana-filha cheia de simpatia e todos sobrevivemos. Minhas crianças foram um sucesso à parte: sem choros ou grandes birras, comeram, usaram o banheiro quando solicitei, encararam tudo como uma brincadeira, olha que trem esquisito e que cama legal. Aí descemos na estação de Veneza e descobrimos que as estações de trem na Itália não têm carrinhos para bagagem. Ok.

Todos os passageiros desciam do trem e seguiam seus rumos. Nós descíamos e nos reuníamos (nos acumulávamos) em algum ponto da plataforma, combinando a logística de movimentação: alguém ficava tomando conta de parte da bagagem, outro seguia com uma mala e o olho nas crianças e outros dois arrastavam quantos volumes desse conta. Sempre conseguíamos arrastar tudo em três etapas. Aí chegávamos a um ponto da estação em que alguém se afastava para descobrir os taxis e fazíamos tudo de novo até o taxi. Fácil. O esquema se repetiu na saída de Veneza para Florença, na chegada a Florença, na saída de Florença para Milão, na chegada a Milão e no traslado para o aeroporto - quando cheguei ao aeroporto de Milão e vi carrinhos de bagagem, achei um luxo. Luxo, tô falando. Sempre comemorávamos cada etapa. Prêmio cara de tacho para mim que fui à cata de um taxi em Veneza: larguei meu grupo com a bagagem e saí da estação - dei de cara com água, claro; andei alguns metros pelo largo que fica em frente à estação e logo vi um ponto de taxi; era um ponto de water taxi que me cobrou a bagatela de 70 euros para nos conduzir ao hotel. Aí, pérola, perguntei se não havia outros meios, carro, por exemplo. E o moço, riu, né: "hahahaha, there are no cars in Venezia!". Tá bom, então.

A gente chegava e tudo valia a pena.

Em Florença, comprei mais uma mala para dividir o peso das outras e evitar os altos custos de excesso de peso no aeroporto de Milão; a Lílian comprou mais um volume de mão e agora nós tiramos de letra. Quer dizer, tiramos a experiência de letra: juro solenemente que vou viajar com pouca bagagem daqui pra frente. Vou dar um jeito; não há nenhuma necessidade de transportar uma roupa que só será usada uma vez, por exemplo. Já melhorei muito nesse quesito, mas vou aprimorar meus critérios, principalmente se no roteiro existir alguma passagem por estações de trem na Itália (e torço que haja, né).


No aeroporto de Milão, dando risada: com carrinhos de bagagem fica fácil.

***

Daí houve a emoção final: quando chegamos ao aeroporto de Florianópolis, vimos toda a nossa bagagem chegar, exceto uma das malas grandes. Foi bem irritante, principalmente porque a toda hora eu me deixava enganar por uma mala quase idêntica à nossa que ficou rolando por lá até que todos os passageiros tivessem ido embora. A funcionária da empresa aérea já veio nos atender e de cara levantou a hipótese de que outra pessoa, a dona da mala esquecida na esteira, tivesse se enganado e levado a nossa... como em um filme, ouvi a moça falar e imediatamente corri para o saguão do aeroporto. É engraçado como nosso cérebro funciona. Eu corria pelo saguão e só via malas, não via as pessoas. Fui avançando rapidamente por entre passageiros, carrinhos e malas, segui para a parte externa onde ficam os taxis, espiando para os volumes que os motoristas botavam nos porta-malas, a minha mala deveria estar ali. Já fazia certo tempo que o avião tinha pousado, muita gente já tinha ido embora, mas tive uma sorte danada: em um carrinho cheio de malas, já colado em um taxi prestes a ser colocada no porta-malas, vi a minha mala! Gritei "achei" e só então reparei na mulher que segurava o carrinho: "essa mala é minha, a sua tá lá na esteira!". E ela foi logo tirando a mala e me devolvendo e eu voltei correndo arrastando a minha malona, que nunca me pareceu tão leve, para dar a boa notícia à minha turma. Chegamos todos bem.

Sob o céu de Florença


Eu queria já contar da volta pra casa, das malas - ah, sempre as malas e essa mania de adicionar emoção às viagens; queria contar de nosso último trem na Itália, das despedidas, do voo de volta. Mas fazer isso agora seria não falar de Florença e, convenhamos, não seria justo. Porque Florença tem umas coisinhas sobre as quais vale a pena trocar uma palavra ou duas.

Ela tem o Duomo de Santa Maria del Fiore. É necessário viajar exclusivamente para visitá-lo, acredito; só assim tem-se tempo suficiente para gastar na fila absurda que se forma todos os dias à sua porta. Nosso hotel ficava praticamente ao lado; ainda assim, não conseguimos entrar - quer dizer, não quisemos trocar quatro ou cinco horas de andanças pela cidade por uma fila eterna sob um sol implacável. Em Florença, gente, não há nuvens. Mas a gente ergueu o pescoço muitas vezes. Muitas vezes.




Florença também tem o Batistério com seus famosos portões esculpidos em bronze. Suas figuras, badaladíssimas pelo uso até então inédito de perspectiva, são consideradas as primeiras obras do Renascimento. Para se olhar por uma eternidade.





Florença, como não poderia deixar de ser, guarda os túmulos de muita "gente grande". A maior ironia, talvez, fique por conta de o túmulo de Galileu Galilei estar situado dentro de uma igreja... Enfim. Na mesma igreja, Santa Croce, está o belíssimo túmulo de Michelangelo. Três esculturas apaixonantes celebram as três artes dominadas pelo mestre: pintura, escultura e arquitetura.




Ao lado dos restos mortais de Michelangelo estão os do poeta Dante; seu túmulo, também grandioso, contrasta com a simplicidade do local onde foram depositados os restos mortais de sua amada Beatriz. Um dia antes de visitar Santa Croce, encontrei por acaso, enquanto procurava a casa de Dante, uma pequena igreja; lá dentro, o túmulo de Beatriz me causou uma onda de emoção que não sei explicar ou descrever muito bem. Não há, de maneira clara em minha mente, nenhuma razão especial para que eu tenha me comovido tanto quando entrei ali; lembrei-me de como Dante a descreve no Paraíso de sua Divina Comédia, mas isso não explica muito; talvez tenha sido a simplicidade do lugar - uma capela, na verdade, muito modesta - pela aparência tão antiga (é uma capela de mil anos...) que nos joga no passado; ou por imaginar que Beatriz foi inspiração para Dante, objeto de um amor que parece ter sido muito marcante; talvez por ter olhado para umas poucas rosas deixadas sobre a pedra nua e ter imediatamente me lembrado de minha mãe; talvez; o fato é que fui tomada por uma onda de emoção que nunca vou me esquecer e chorei como quem visita o túmulo de alguém querido. No dia seguinte, olhando o suntuoso túmulo de Dante na Santa Croce, só lamentei que eles não tivessem sido enterrados juntos - poderia não significar nada, mas o pensamento me foi inevitável. Mimimi dantesco. :-)

Dante...

... e Beatriz.

Florença tem museus, né. Visitamos duas galerias, a Uffizi, maior museu de arte da Itália, e a Academia de Belas Artes, porque não resistimos à vontade de dar uma espiada no Davi original (há uma cópia da escultura de Michelangelo na Praça Vecchio, mas quem se aguenta?). A visita à Academia valeu a pena também por algumas esculturas inacabadas de Michelangelo, o que nos permite ter uma noção do tamanho da genialidade de alguém que arranca formas perfeitas de um bloco de mármore. É impressionante. Mas... o museu em si deixou a desejar, pelo menos para mim. Achei caro e pequeno. Por que não colocam tudo junto na Uffizi, né? Ah, tá, para o turista gastar mais (ô maldade, há toda uma história em torno de um lugar específico para o Davi e tal; bla).

A cópia de Davi. O original fica dentro da Academia, "infotografável".

Enfim, a Uffizi. Há mais Da Vinci no Louvre, é verdade; mas há Botticelli até onde a vista alcança e minha nova paixãozinha é essa aí. Entrei à caça d'O Nascimento de Vênus, mas me apaixonei pela Primavera. Boa surpresa.


Primavera.

Florença também tem sorvete.


Né, Lílian?


E pôr do sol.


E artistas que pintam o chão.


E um céu de um azul fora do comum. E olha que eu moro em uma cidade azul.

A partir de agora, "Sob o céu da Toscana" é para mim um pouco mais que o nome de um livrinho legal. Enfim. Chegamos. Já já conto da mala que quase foi.

 
 
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