Antecipando a visita


Eu queria vir aqui papear, mas meu quarto tem três malas abertas, tenho papelada para organizar, o mês novo começa amanhã e isso significa contas, banco, blergh. O bicho tá pegando no trabalho, blergh. Não parece que estou reclamando? Reparem não. Tá tudo certinho, a correria é inevitável, quero crer. É que eu faço assim: ao invés de estar ali arrumando as malas, estou aqui contando para vocês que as malas estão ali esperando por mim. Quem sabe elas se cansam de esperar e, ziip, arrumam-se sozinhas... não? Tudo bem. Entendi, já estou indo, não precisa gritar. Mas antes vou contar uma coisinha: ontem, ao invés de arrumar malas, eu fui ao cinema, rá! Fui ver Meia-noite em Paris, rá! E, claro, assim como todas as torcidas de todos os times juntas, gostei demais. E antes que alguém diga "também, tá indo pra...", aviso que não é só isso, quem viu sabe. O filme é uma graça, bem divertido e, uh, surreal. Claro que tem Paris liiiiiiinda de doer, mas tem também o humor do Woody Allen bem afiadinho, e um grupo de personagens de peso - juro. ;-) Inusitado é a palavra. Não deixem de conferir, se der. Bom, é verdade que tem o Owen Wilson, cuja cara sempre me deixa um pouco desconfortável - não sei ao certo o que é, mas ele não me parece uma pessoa de verdade. Sei lá, não me perguntem. De qualquer maneira, o Woody deve ser um bom diretor de atores, porque, olha, nem me incomodei com o fato de ter Owen na tela o tempo todo. Será que é porque tinha Paris ao fundo o tempo todo? Pode ser, mas a verdade é que não dava para perder o filme por não gostar de um ator: o elenco tem de Carla Bruni (!) a Kathy Bates, Marion Cotillard a Adrien Brody (impagável como Salvador Dalí - isso mesmo que você leu). Ou seja, você pode nem gostar dos atores, mas a mistura ficou divertida demais.

Enfim, vou lá, cuidar da vida. Nível de ansiedade, numa escala de 0 a 10? Hum... 18? Tá bom, equilibradinho.

;-)

Em combate



Então hoje comprei as cuecas. E meias, toucas (que frio é esse?), calcinhas para a pequena, essas coisas. Eles receberam os apetrechos como quem ganha brinquedos novos, a Amanda deslumbrou-se com os bichinhos estampados nas calcinhas, a fofa. E resolveu que queria dormir de touca nova. Como alguém esqueceu a porta da geladeira aberta na entrada da cidade e não fechou mais, falei "pode, pode dormir de touca". Além do mais, era importante inaugurar, né, porque, vejam bem, "tem um laço". Pois bem, banho tomado (brrrrrr!), pijama quentinho em três camadas, touca nova de lacinho na cabeça, eis que desce a cacheada lá pra sala, exibir o visual para a vovó.

- Ooooolha, que linda que ela está! Onde vai assim, toda linda, de touca nova?

- Vou lá fora, lutar com os inimigos.

***

(Cá pra nós, bem baixinho: foi nada, foi dormir.)

Sem noção


Vou tentar ser breve: não gosto de você e já faz tempo. Nunca gostei, para ser bem franca. Até tentei, no início, de verdade. Depois apenas fingi, confesso sem constrangimento. Fingi porque não tive coragem de admitir que a novidade já estava vencida, que eu não achava mais cool sua presença em minha vida. Mas isso já faz muito tempo e agora digo a quem quiser me ouvir que não gosto de você. O que não quer dizer que eu não entenda sua situação, até me solidarizo, sabe. Imagino que não deve ser fácil ser tão inconveniente e causar tanta repulsa por aí; o que você poderia fazer? Nada. É a sua natureza, foi para isso que você veio ao mundo: falar o que praticamente ninguém quer ouvir. Tudo bem, há dias em que sua voz até soa bem vinda, mas são tão raros esses momentos que quando os confrontamos com a infinidade de dias em que sua voz causa nada mais que tristeza, olha, não há muita escapatória: desagradável, my friend. Você é desagradável. E sabe quando tudo piora? No inverno. Porque no inverno até o sol se permite chegar mais tarde. Não você: você tem vindo antes dele. Ah, não dá, é demais. Você fala e, imediatamente, meu corpo inteiro se curva na última tentativa vã de ignorar sua existência. Mas é justamente aí que você insiste com seu mantra insuportável. Na boa, não gosto de você, despertador.

E é por isso que desprezo você nos finais de semana. Vê se se toca.


O olhar de Anne Elliot


Ironia. Essa é a primeira palavra que me vem à cabeça agora, poucas horas depois de concluir a leitura do delicioso Persuasion, da britânica Jane Austen. O livro me deixou com vontade de reler outros dois de seus romances - Pride and Prejudice e Sense and Sensibility - que li durante a faculdade, como tarefa de casa da disciplina Literatura Inglesa. Lembro-me de que gostei muito, especialmente de Pride and Prejudice, cuja leitura foi feita quase que inteiramente durante a madrugada que antecedia a avaliação (é, eu sei). A lembrança que tenho era de que, à medida que lia, lamentava não dispor de mais tempo para me envolver com a história, para apreciá-la com a atenção devida. Normalmente sou uma leitora lenta e nunca perdi a impressão de que li Pride and Prejudice aos trancos e barrancos. E acabei nunca lendo nada da Austen outra vez. Agora, depois de Persuasion, tenho motivos para revisitar o que já li e para degustar outras obras suas.

Persuasion foi o último romance escrito por Austen, só publicado após sua morte. Vejo várias razões para indicar o livro: a escrita de Austen nos conduz de um parágrafo a outro sem grandes percalços, tudo fluindo suave como em um bom filme de época (sério, com um pouquinho de esforço a gente ouve a trilha de violinos), com personagens muito bem construídos que saltam das páginas em diálogos absolutamente perfeitos. Se eu soubesse escrever diálogos assim, ah (suspiro longo), não seria blogueira, obviamente. E é ali, nas falas dos Elliots, Musgroves e Crofts que a ironia refinadíssima de Austen nos abraça de vez e não conseguimos mais parar de ler. Em Persuasion, várias famílias se cruzam em relações sociais construídas sobre valores que, aos olhos da protagonista Anne Elliot, não poderiam ser mais equivocados: os nomes, as tradições, os títulos, tudo que compõe as altas rodas sociais dos confins da Inglaterra no final do século XVIII e início do século XIX tem primazia sobre sentimentos e caráter, retidão e sensibilidade. O olhar de Anne é aguçado, seu coração é generoso e seus valores vão muito além da superficialidade que ronda sua família e seu círculo social. O desconforto é maior ou menor, dependendo das circunstâncias, claro, mas ela carrega consigo o peso de ter tido sua vida marcada, talvez de maneira irreversível, pelos mesmos valores que tanto questiona. A história começa oito anos após Anne ter rompido com o amor de sua vida, Frederick Wentworth, graças aos apelos de sua família que não via nele alguém "à altura" de uma Elliot. Agora, com as finanças da família Elliot em apuros, Wentworth volta à cena e Anne tem a chance de fazer valer os valores em que acredita - resta saber se os sentimentos de Wentworth ainda resistem depois de tanto tempo - tchan-ans!

O forte de Persuasion, repito, está nas falas das personagens, que deixam transparecer a mesquinharia, a superficialidade, a boa e velha falta de noção de quem acredita que o mundo é feito apenas de rendas e títulos. Mas também há aqueles trechos descritivos em que Austen nos mostra a alma de suas personagens, com aquela sutileza em que a boa literatura é, via de regra, tão generosa; como quando Anne, para fugir dos diálogos insuportáveis durante os inevitáveis saraus noturnos, entrega-se ao piano. Ela sabe que ninguém está realmente ouvindo o que ela toca, que sua presença ali sequer é devidamente notada; mas mergulhada na melancolia que a cerca desde a separação de seu amor, há tantos anos, Anne já se vira bem sozinha:

"She knew that when she played she was giving pleasure only to herself; but this was no new sensation."

Anne parece mesmo estar sozinha o tempo todo. As pessoas com quem convive enxergam prazer onde ela vê desgosto, regozijam-se naquilo que a enfada. Em certo momento, seu primo, Mr. Elliot, tenta fazê-la ver que, ainda que família tal não tenha lá muitos atrativos, são pessoas de valor pelas relações sociais que mantêm. A reposta de Anne é um retrato de sua personalidade:

"My idea of good company, Mr. Elliot, is the company of clever, well-informed people, who have a great deal of conversation; that is what I call good company."

É uma delícia (daquelas de rir alto) quando Jane Austen aproxima em sua trama esse disparate de visões de mundo. Em certo momento, a irmã de Anne, Elizabeth, encontra-se maravilhada pela aproximação com a nobreza local, enquanto Anne festeja intimamente um breve encontro que acabara de ter com seu querido Wentworth. Ambas estão felizes, mas as motivações para essa sensação têm natureza tão distinta que seria justo se houvesse palavras diferentes para descrevê-las. Austen fala assim:

"... it would be an insult to the nature of Anne's felicity to draw any comparison between it and her sister's; the origin of one all selfish vanity, of the other all generous attachment."

Quando a gente já ama Anne completamente, Austen ainda lhe confere certos traços feministas (claro, estamos falando do final do século XVIII). Imaginando as circunstâncias que cercavam aquelas mulheres, naquela época, acho um trunfo que a personagem perceba que sua visão de mundo e sua relação com os sentimentos amorosos sejam fruto do confinamento em que elas viviam, enquanto os homens desbravavam o mundo em seus navios. Na reta final da história, Anne questiona as afirmações categóricas de seu amigo Captain Harville sobre a inconstância dos sentimentos femininos. Quando Harville cita o fato de que qualquer livro que se abra dirá algo sobre "woman's inconstancy", Anne rebate:

"... if you please, no reference to example in books. Men have had every advantage of us in telling their own story. Education has been theirs in so much higher a degree; the pen has been in their hands. I will not allow books to prove anything."

Como não torcer por Anne? Muito amor pela Jane Austen.

***

Quando visitamos Bath no ano passado, tentamos visitar a casa em que Jane Austen viveu durante alguns anos. Hoje a casa é um pequeno museu, mas eu não faço ideia do que há lá dentro. Quando chegamos, a pequena casa já estava fechada. Parte da história de Persuasion se passa em Bath e lamentei um tiquinho mais ter chegado atrasada ao museu. Foi de lá, daquela casinha, que Jane Austen observou a cidade onde morou entre 1801 e 1805 e que ela incluiu na trama de alguns de seus romances. Um dia, quem sabe - mas duvido muito. Algo em comum com a personagem Anne: como ela, que adiou o quanto pôde sua ida a Bath, eu também não simpatizei muito com a cidade.

***

Hoje vi que praticamente 90% da minha timeline do twitter já se renderam à Trilogia do Millenium, do sueco Stieg Larsson. Ulisses me deu os livros de presente de aniversário e em três dias devorou, sem piscar, o primeiro livro da série. Agora estou aqui entre na dúvida: não sei se começo a ler o tal, Os Homens que Não Amavam as Mulheres; ou se, como já tinha planejado anteriormente, inicio a leitura de Mrs. Dalloway, da V. Woolf. A tentação para ler Larsson é grande, mas sou uma leitora bem mais lenta que o Ulisses e nunquinha vou conseguir terminar o livro antes de viajar no próximo domingo. Aí fico imaginando ter de carregar esse tijolo na bagagem de mão. E o livro da Woolf é tão levinho... como vocês podem ver, meus critérios para escolher a próxima leitura são altamente acadêmicos.

O muquifo e as cuecas


Perto da minha casa tem um restaurante de comida caseira bem feitinha. Por ser recuado em relação à margem da rodovia, o lugar é meio escondido e é bem comum ouvir comentários de pessoas que tentam ir lá, mas não conseguem encontrar a entrada. Lembro de uma amiga ter comentado comigo uma vez que tentou ir várias vezes, mas ainda não tinha conseguido localizar placa ou qualquer outro sinal do restaurante. Pena. Eu mesma, depois de ter ido algumas vezes, já passei pela rodovia procurando uma referência bem óbvia para indicar aos amigos e, adivinhem, quando dei por mim, já tinha passado do restaurante sem ter visto nem sombra dele.

Toda essa muquifice (inventei agora) não deve ser problema para os proprietários. O lugar está sempre lotado, é raro não encarar uma filinha para conseguir uma mesa. Quando conseguimos (encontrar o restaurante, estacionar no estacionamento apertado, vencer a fila, servir e sentar), geralmente ficamos satisfeitos com o tempero da comida que pode não ter nada demais, mas é bem gostosinha sim. Hoje fomos lá e, mais uma vez, fiquei me perguntando de onde vem a quantidade infinita de badulaques e bugigangas que decoram o ambiente. A parte térrea do prédio é, na verdade, uma lojinha de... de... bem, eu não saberia dizer. De decoração, talvez, mas também de doces e brinquedos. E louça. E artesanato. E enfeites de Natal, Páscoa, o que for. E lamparinas. E flores artificiais. E coisas antigas, beeeem antigas, como espelhos com molduras da vovó e esculturinhas de porcelana. E rendas. E nécessaires. E jogos americanos. E o que mais houver nesse mundo para se vender. Os objetos (ah, tem gaiolas também!) estão dispostos em prateleiras ou móveis antigos com suas enormes gavetas abertas também cheias de coisas expostas. Ou descem pendurados do teto ou das paredes. O ambiente é pequeno e é no meio dessas, ah, coisas, que a fila se forma enquanto o proprietário do lugar se posiciona no pé da escada anotando o nome de quem quer uma mesa. Quando a senhora que está lá no topo da escada dá o sinal, ele chama os sortudos da vez que caminham com cuidado entre os badulaques quebráveis rumo ao almoço. Bem moderno.

Lá em cima, as mesas estão dispostas como dá, porque o ambiente também não é muito amplo. Mas nada que a boa vontade não nos permita olhar ao redor e dizer "bacana, né?". Daí cada um se serve à vontade, não há balança, nem cardápio. E aí você, que acha que já viu coloridos para o resto do mês, já que as paredes expõem quadros de todos os tipos, depara-se com os pratos dispostos junto ao buffet: cada prato de um tipo diferente. Ah, achei supercoerente com o lugar. Hoje comi em um prato branco decorado com flores, o Arthur usou um prato amarelo e a Amanda comeu num prato lilás. Fofo.

De barriga cheia, desci praticamente arrastando as crianças que param para ver cada um dos quadros que se acumulam na parede ao longo da escada, e saí pelo meio das bugigangas outra vez me perguntando, oh, céus, eles vendem alguma coisa disso tudo? E aí me lembrei que alguns ovos de nossa última Páscoa vieram de lá e que hoje mesmo eu e Ulisses ficamos de olho em um jogo de copos para cerveja bem gracinhas. Não compramos nada, mas o feijão estava bem bom e foi uma pena mesmo eu ter chegado depois que a banana à milanesa já tinha acabado.

***


Depois do almoço, voltei para a arrumação de malas. A foto acima foi tirada uns três minutos depois de eu ter aberto a primeira mala e saído do quarto das crianças para buscar alguma coisa. Quando voltei, vi que eles já tinham se encarregado de botar o essencial: pijama, chinelos e bonecos. Quase pronta, né? Algumas horas depois vi que preciso comprar cuecas para o Arthur. Será que vou almoçar no restaurante escondido amanhã outra vez? Eles devem ter cuecas para vender, não duvido.

E quem consegue não falar das flores?


Quero mesmo falar dos mimos que ganhei ontem. Vieram em várias formas, todas recebidas com alegria genuína. Teve livros pedidos descaradamente, teve fofices de enfeitar orelhas e pescoço, teve meu primeiro audiolivro e outros agrados. Teve telefonema de cortar meu coração em mil pedacinhos, teve vozes muito bem-vindas e abraços, muitos abraços. Teve tanto carinho, tanto carinho. Teve até um bebezinho para eu segurar e matar um tiquinho as saudades de tempos que já parecem assim, como direi, bem passados.

Houve também uma cesta de café da manhã, certamente a mais especial de todas que já ganhei. Não estava à venda em nenhum catálogo de floriculturas ou confeitarias, não existia até ser montada, item por item, pelo Ulisses e as crianças. Ulisses me contou que, uma vez no supermercado, cada um podia palpitar à vontade para escolherem juntos os ingredientes. Amanda queria biscoitos de polvilho que ela ama - e eu odeio. Mas o papai explicou que a cesta era pra mim e ela simplesmente devolveu o biscoito para a gôndola. Arthur sugeriu pasta de dentes, escolha também contestada. No final das contas, ganhei pães fofos, biscoitos engraçados e frutinhas - picadinhas, tá? Arthur pulou da cama cedíssimo (saio para o trabalho antes das sete) para me acompanhar no café, mas Amanda não conseguiu. :-) Sei não, viu. Tenho muito forte aqui a impressão de que felicidade é assim, desse jeitinho.

Ganhei também um post da Borboleta que me fez chorar e sorrir, assim, bem misturado. E houve os mil afagos no twitter, facebook e na lista de blogueiras feministas do coração.

"Agora vou falar da dolência das flores para sentir mais a ordem do que existe", disse Clarice. E eu digo que tal qual uma criança se sente quando ganha um brinquedo, assim me sinto quando ganho flores. Então imaginem.






Ai, ai... minha casa tem cheiro bom, cores lindas e sorrisos fáceis.

Obrigada, pessoas.


Inverno, canjica e um a mais



Se minha mãe estivesse ainda viva, teria me ligado já na segunda para me avisar a que horas ligaria na terça. Desde que a infância passou, o dia do meu aniversário era, de certo modo, mais dela que meu. E eu a entendo muito, sei das celebrações de se amar um filho. Será meu primeiro aniversário sem ela e a ausência de seus telefonemas cava um buraco quente no meu peito.

Não trago comigo as neuroses que os números carregam, ou pelo menos as tenho bem suaves, se isso é possível. Fazer 39 não me amedronta, não envelhece mais o meu espírito -  gosto da palavra "espírito", acho um bom nome para essa coisa que vibra aqui dentro. Gosto muito mais da Rita de hoje, mais envelhecida por fora, com cabelos brancos que insistem em se multiplicar, com um corpo que traz marcas dos passos que tenho dado, para o bem e para o mal. Gosto muito de agora, gosto mais com os filhos, gosto mais com o amor de minha vida ao meu lado, gosto mais com os planos e as perspectivas que enxergo hoje. E não precisa ser perfeito ou ideal, pois gosto de ter ajustes por fazer, gosto dos improvisos, das surpresas, dos "será?", das interrogações, das possibilidades. Gosto assim, do jeito que está. É nesse tantinho de confusão que também mora a graça, eis uma coisa que amo muito nessa vida: a estrada à minha frente, cheinha de bifurcações.

Sentir-se bem consigo mesma é algo grande. Reconhecer-se nas subidas e descidas e gostar da companhia é ter a sensação de escolhas boas e é também se permitir os tropeços. Sinto-me bem assim, de mãos dadas com essas Ritas que invento e de que lanço mão nas esquinas, que me servem bem, como luvas macias, como chá de maçã com canela. E se você quer saber, gosto de inaugurar o inverno também. Vinte e um de junho sempre me soou bom, um dia de transição. Pois que seja. 

Minha mãe me contava que cheguei por volta das nove da noite, em um parto natural fácil que se anunciou enquanto ela raspava o fundo do tacho de canjica, pois cheguei a tempo das festanças de São João. A canjica que amo até hoje deve ter me avisado de que o mundo me esperava cheio de sabores e sigo sentindo assim: muito, muito ainda a degustar. Então aqui estou: trinta e nove, com corpinho de trinta e oito, cabeça de vinte e nove (ou quarenta e nove, dependendo da maré), juízo de dezenove (quando muito) e entusiasmo de nove. Coração? De oitenta e nove. Que o mundo está aqui para a gente enchê-lo de amor, todinho. 

Então quero os abraços e beijos de meus amores que hão de conter (ou adoçar) minhas lágrimas de saudades e fazer do início desse inverno um dia bom, como ela sempre se encarregava de fazer. Um dia bom pra mim, vou gostar demais. :-)



Emoções eu vivi


Meu final de semana de vida social dos filhos teve festa junina na escola, cinema (o Panda que luta e tal) e hoje, para coroar, festa infantil da amiguinha do Arthur. Teve outras coisas menos legais, como arrombamento de nossa casa (tudo bem, tudo bem, nem quero mais falar disso) e um vírus que pegou o Ulisses de jeito (aquele meu marido que tá ali embaixo daquele monte de edredons no sofá). E eis que hoje tomei um susto bem maior que uma fechadura forçada e um alarme disparado, ou um vírus que derrubou meu parceiro. Perdi minha filha por dez minutos. Dez minutos, talvez menos, mas mesmo assim.

Estou aqui blogando enquanto ela dorme na cama dela e isso é uma alegria gigantesca. Penso nos milhares de pais que nunca encontram seus filhos perdidos e tudo na minha vida me parece pequeno. Mas que susto.

Eu não gosto do lugar onde a festinha de hoje foi realizada, nunca gostei. Sempre levo as crianças lá quando somos convidados, porque eles adoram e se divertem mui-to. O problema é que não é apenas uma casa de festas: é um salão/galpão imenso, com diversos brinquedos daqueles que toda casa de festas tem, bem grandes; uma miniboate para a garotada dançar; uma lanchonete; e dois salões menores, que são os ambientes destinados às festinhas infantis. Não gosto porque o grande salão está disponível para os convidados das duas festas (caso os dois ambientes estejam sendo utilizados), além das pessoas que pagam para usar os brinquedos do salão. Então o que acontece é que se você ficar no ambiente da festa, você não vê seus filhos brincando pelos brinquedos do salão, não vê com quem eles estão interagindo e tal. Em dias de duas festas no mesmo horário e muito movimento independente da festa, a casa fica lotada e, na minha cabeça neurótica, qualquer adulto pode sair dali com qualquer criança e ninguém vai ver nada. E tudo bem, não há necessidade de ficar de olho nas crianças o tempo todo, nem de ficar de papo com a galera da festa o tempo todo; mas com uma criança de dois ou três anos, é como se você nem tivesse ido à festa - e como esse seria o último lugar que eu escolheria para levá-los para simplesmente brincar, está explicado meu nariz torcido. Ulisses normalmente reveza comigo e a gente se vira bem - um papeia enquanto o outro vigia as crianças. Mas não gosto.

Hoje, por causa do resfriado, Ulisses ficou em casa e fui sozinha com as crianças. Já sabia que ficaria praticamente por conta da Amanda, que quer brincar em todos os brinquedos, naturalmente. Com seis anos, o Arthur já tem mais independência em ambientes assim, o nível de preocupação é diferente. No início da festa, Amanda integrou-se com a turma do Arthur e, num grupo de cinco crianças, brincou de pega-pega. Enquanto eles corriam, eu papeava lá dentro do salão da festa. Até que em certo momento Arthur e sua trupe passaram correndo pela porta, mas Amanda não passou atrás deles. Pedi licença, saí da mesa e fui lá perguntar ao Arthur onde estava a pequena. Diante do "não sei", dei uma circulada básica para assumir meu posto de sentinela. Como não encontrava a Amanda, perguntava por ela a todas as crianças da turma do Arthur com quem eu encontrava no meio do salão. Depois de uns dez "não vi", desliguei das crianças e comecei a vasculhar os brinquedos. Até aí, eu estava mais curiosa que preocupada. Mas depois da terceira volta pelo salão sem sinal da Amanda (detalhe: o ambiente não estava muito cheio, havia apenas uma festa rolando e os brinquedos estavam relativamente vazios, o que tornava a tarefa de encontrar alguém bem mais fácil), comecei a entrar em pânico. Voltei ao salão da festa e comentei com as mães que estavam conversando comigo e então voltei a circular. Daí me lembrei do trenzinho, um brinquedo externo, cujo acesso fica no piso superior. Subi as escadas, torcendo muito pelo trem, mas a porta fechada me fez crer que o brinquedo nem estava funcionando. Desci, já desesperada e com um nó na garganta, corri para a portaria. O moço me assegurou que ela não tinha saído, que o único adulto que tinha deixado o lugar na última meia hora era um senhor que ainda podia ser visto na entrada do lugar, pondo os sapatos numa criança. Agarrei-me ao que ele disse e comecei a descrever a Amanda para todos os recreadores que tomam conta dos brinquedos. Nada. Dei outra volta pelo salão, vasculhei os brinquedos mais uma vez. Nada. Voltei à portaria com medo de abrir a boca e cair no choro. Nem me lembro do que o moço falou, mas comecei outra volta pelo salão, quando o Arthur me apareceu e falou, lindamente, "tá ali, mamãe!". Olhei para o moço, fiz sinal de "ok" e corri para a Amanda que contava, nem lembro para quem, que estava no trem. No trem. Aquele, da porta de acesso fechada. Que estava fechada porque o trem estava em movimento lá fora, ora. Onde estava o monitor do trem na hora em que fui lá em cima, não faço ideia. E nem importa mais. Nada importava mais. Ufa.

Não sei me controlar nesses momentos, só penso no pior. Eu me programo para manter a calma e relaxar, que logo a coisa se explica, mas não consigo. Não foi a primeira vez, Arthur já sumiu em um parque por cerca de três minutos e tudo em que eu pensava era no lago à minha frente. Essa sou eu, fazer o quê.

E eu que ando apaixonada pela Jane Austen, lendo Persuasion com vontade de que não acabe; que ontem me deliciei com uma série de vídeos indicados pela Tina Lopes; eu que arrumarei malas na semana que vem para uma viagem que promete momentos de muita beleza; essa mesma eu, agora, acha que beleza mesmo são aqueles cabelos esparramados no travesseiro de peixinhos, o pé do urso de pelúcia cor-de-rosa roçando a bochecha dela e uma respiração suave de quem sonha com um passeio de trem. Ao alcance da minha mão.

Não desejo o mesmo susto a ninguém. Nem por um minuto.

***

-Amanda, meu amor, quando você quiser ir no trem de novo, chama a mamãe que eu vou com você, tá bom?
- Tá bom, mamãe! Pra você não achar que eu se perdi, né?
- É.

A infância, as histórias, Saramago

Na contracapa de A Maior Flor do Mundo, de José Saramago, lê-se: "E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"

Ulisses descobriu A Maior Flor do Mundo por acaso, enquanto procurava por outro livro para encomendar para as crianças. Nem me consultou, porque sabia que não precisava, e aumentou a encomenda. Dias depois, quando voltei do trabalho no final da manhã, as crianças estavam divididas entre o outro livro e o do Saramago. E achei lindas as asas azuis na capa do concorrente, mas, ah, surrupiei discretamente o livro do menino português e li como quem bebe água depois da corrida. Não é uma história, simplesmente. É uma declaração de amor às histórias infantis em que o escritor nos diz que adoraria saber escrever para as crianças, com as "poucas palavras" que elas conhecem - e que, olha lá, "não gostam de usá-las complicadas": o livro apresenta a história que ele gostaria de contar, caso dispusesse de "um certo jeito". Sei.

O que ele contaria, se pudesse, é a história de um menino que salva uma flor. (O Pequeno Príncipe pulou na  minha frente, claro, mas há mais que isso.) E segue Saramago revelando a trama de sua história inventada (lindinha demais) para, no final, convidar o leitor a recontá-la, "com palavras mais simples que as minhas":

"Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?..."

Cabe um mundo de aventuras literárias em A Maior Flor do Mundo. O livro estende a mão e nos chama para, tal qual o menino da história que Saramago queria ver contada, salvar uma flor bem valiosa, a imaginação de nossas crianças: contem, recontem, imaginem, digam do seu jeito, criem. Num mundo onde tudo vem pronto e automatizado, com luzes e botões, Saramago pede ajuda aos usuários das palavras simples para realçar a magia da contação de histórias, da criação. Olha, muito amor, viu. Como todo livro infantil que se preza, A Maior Flor do Mundo (Ed. Cia das Letrinhas) é lindamente ilustrado. O autor das gravuras é João Caetano (que com o livro ganhou o Prêmio Nacional de Ilustração em 2001); o texto escorre (mesmo) da caneta do Saramago para as ilustrações que enchem as páginas e oferecem um prato cheio para as histórias que cabem ali.

Para crianças, que certamente saberão fazer bom uso; e para adultos que insistem em tentar aprender a ver o simples.

***

Navegando pelo tio Google, vi que a Maria Fro já se rendeu; e lá vi o link para outro post sobre o livro; e também para um site inteirinho dedicado ao projeto A Maior Flor do Mundo!

No Google, vi também o curta-metragem baseado no livro (Ângela, para você e Max). Não pude deixar de abrir um sorrisão desse tamanho, agora que o Arthur cismou em examinar insetos com sua lupa. Vejam lá.

***

"Logo na primeira página, sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce ao rio e depois por ele abaixo, naquela vagarosa brincadeira que o tempo alto, largo e profundo da infância a todos nós permitiu..." J.S.

Voilá


Atendendo aos MILHÕES de pedidos do post anterior, eis os brindes. Aceito sugestões para uso da jaqueta - porque, né, onde, gente? :-) E sabe que agora, com as fotos, fico pensando se não teria saído do guarda-roupa do Michael Jackson, não da Madonna... o que vocês acham?

Fico devendo fotos do pijama "aceso", mas adianto que todos aqueles desenhos verdes brilham com força no escuro. E, durante o dia, é só abrir a espinha dorsal do urso e, tchan-ans, um indispensável porta-pijamas.

(E fico devendo, também, fotos do besoura-aranha. Vocês sabem, não deu pra ver. :-/)



Num guento, gente, Num guento! 

O besouro-aranha


Amanda foi lá na sala ver o que estava acontecendo e voltou para me dar a notícia:

Ela - MÃE! O mano achou um besouro-aranha!
Eu - Uia!
Ela - Enóme!
Eu - É mesmo? E aí?
Ela - Tinha sete pernas!
Eu - Ahn... sete? Tem certeza? Deve ser seis... ou oito.
Ela - Tinha oito pernas.
Eu - Ah, tá. Então era uma aranha.
Ela - Tinha sete pernas desse lado e oito pernas do outro! Enóme!
Eu - Uau. Era praticamente uma centopeia, né não?
Ela - Era um centopeia! Tinha duas asas o besouro-aranha!
Eu - ...
Ela - Enóme, mãe!
Eu - É, filha? Nossa, e o que o mano fez?
Ela - Num fez nada, tá lá na sala o besouro-aranha.
Eu - Nossa, vou já ver.
Ela - Tem quatro asas e voa beeem alto! Você  num vai conseguir ver.
 
Ela tinha razão, não consegui ver. Mas os olhinhos faiscando enquanto aquela boquinha linda me contava do besouro-aranha enóme, ah, isso eu vi e nunquinha vou me esquecer.
 
____
 
No sábado comprei umas calças para o Arthur. Aí a moça da loja me ofereceu uns cupons para eu preencher e concorrer a dois sorteios: uma jaqueta para meninas e um urso-porta-pijamas (!) com pijama incluído. Okay. Preenchi na maior preguiça porque nunca na vida ganho sorteio nenhum e sempre tenho a nítida sensação de que estou desperdiçando preciosos minutos durante os quais poderia, ah, sei lá, cochilar. Enfim. Preenchi e nem me dei ao trabalho de depositá-los na urna, deixei lá, sobre o balcão da loja.
 
Ontem a moça da loja me ligou. Fui sorteada. Duas vezes, ganhei tudo. \o/ Estou falando sério: nunca ganho nada em sorteio, nada. Pois ganhei. Agora a Amanda tem uma jaqueta saída do armário da Madonna e eu preciso arrumar uma balada para ela. E o Arthur trocou o inseparável Cebolinha pelo Panda enóme na hora de dormir (muuuito fofinho e macio) e não vai mais perder o pijama. Como vivi até hoje sem um porta-pijamas, não me pergunte. :-)
 
Tudo fofo e o pijama ainda brilha no escuro. Tá? Tipo assim, não preciso mais acender a luz do quarto do Arthur se quiser espiar seu sono no meio da madrugada. o/ Gente, a vida só melhora.
 

A escada



Tenho um sonho.
Nem pequeno, nem grande.
Tem um tamanho bom que o mantém.
Às vezes finjo que ele não é, não existe - e sigo.
E tudo fica bom ou ruim, plano ou a galope, sem riscos.
Até que chega o dia em que sinto vontade de brincar de novo.
Então me entrego e deixo que ele me cubra com seu manto de possíveis.
Há uma escada que preciso subir como quem escala uma história: palavra por palavra.





Winter


Disseram que tá bem frio hoje. Esquecida do mundo em minha cozinha, não sei do termômetro. Sei do cheirinho da canela na hora em que liguei o fogo para esquentar as maçãs picadinhas; e da massa densa que achei que não fosse funcionar, mas que resultou em uma cuca* da melhor qualidade. A palavra "barrinha" me fez pensar em "crocante", mas não foi bem o que veio; mesmo assim, fechei os olhos e me entreguei (tudo bem, a farofinha é um pouco crocante; estou implicante assim por causa das barrinhas indefectíveis, não reparem).  


Sei também que adoro a vida longa, que nos permite experimentar coisas que, um dia, julgamos inviáveis ou impossíveis. É bom seguir em frente e botar o dedo onde não nos julgávamos capazes de chegar. É muito bom.

Mas eu estava falando da cozinha. Hoje botei o dedo no recheio trufado de maracujá e fiz um bolo cheio de ideias. O bolo, na verdade, é um pão de ló com cacau; depois de pronto, penso que prefiro o pão de ló que vi em um livro bem útil que tenho aqui em casa: é mais leve e macio. Mas isso é um detalhe, o que importa é o conjunto da obra: o recheio supercremoso com o sabor azedinho do maracujá que invade nossa boca e se mistura ao ganache, ooohhhhhhh. Como se não bastasse ser gostoso, o bolo é lindo, lindo.



Agora, depois do banho e longe da cozinha, sinto mesmo um friozinho. Acredito até que, à medida que a noite avançar, vou precisar visitar a cozinha. Só por garantia.


_________

*A palavra "cuca" era desconhecida para mim, até vir morar em Florianópolis. Aqui conheci os bolos recheados com fruta e cobertos com farofinha. Amor à primeira mordida.

Barrinhas de maçã e bolo de chocolate com recheio trufado de maracujá: tudo do blog da Patrícia, mas aposto que vocês já sabiam.


Mexendo no que estava quieto


Quando eu tinha seis ou sete anos, minha tia me levou a uma festa em um colégio da cidade onde ela morava. Era uma espécie de “festival do guaraná” e consistia, basicamente, em música, comilança e crianças correndo. Durante anos, o que ficou na minha lembrança daquele domingo foi um lugar imenso, com pátios infinitos, largos sem fim, muros altíssimos e corredores quilométricos. Tempos depois, com onze anos, passei a estudar no tal colégio e, como geralmente acontece quando voltamos a um lugar que tínhamos visitado quando éramos menores, surpreendi-me com as dimensões dos espaços: mesmo que continuassem grandes, não eram, de forma alguma, tão descomunais como nos quadros da minha memória. Não houve decepção ou frustração, apenas achei graça e me dei conta de como nosso olhar molda os lugares por onde passamos.

Acabei de revisitar outro “lugar” por onde costumava passear em minha adolescência. Experimentei novamente aquela sensação de estranhamento diante de algumas dimensões que me parecem, agora, distorcidas em minhas lembranças. O que ainda não sei é se mudou o meu olhar ou se a coisa que visitei agora não é exatamente um bom exemplar do que eu costumava ver há mais de duas décadas. Porque me parecem tão diferentes, a de ontem e a de hoje, que me custa crer que estou falando da mesma coisa: inventei de ler um livro de Agatha Christie.

Eu já estava na fila do caixa da livraria quando caí naquela tentaçãozinha de pegar os pocket books que ficam ali piscando pra gente. Pensei “ah, vai ser divertido, o Poirot outra vez com suas sacadas geniais” e tal. Hum. Comprei e pus na estante. Deveria ter deixado lá. Na estante. Ou na arara da livraria mesmo. Durante sete dos doze capítulos d’Os Trabalhos de Hércules, lutei para encontrar vestígios da velha inquietação que, lembro-me nitidamente, fazia com que eu adiasse o jantar ou o lanche para descobrir quem, afinal, era o vilão da história. Procurei pelos nós na trama que faziam com que eu soltasse “ah!”s a toda hora; nada. Procurei pelo texto bom, bem escrito, que me deixasse, ao menos, com o prazer da boa leitura... nada. Detestei. Achei pobre, fraco, chato, boring.

Fiquei quase triste. Para me manter enganada, digo que Trabalhos de Hércules tem doze casos curtos - aos quais Poirot se dedica antes de se aposentar - e que, por serem contos, não têm a complexidade que as histórias mais longas dos livros que eu comia com açúcar tinham. Pode ser. Ainda assim, resta o fato de que achei tudo ruim, não só os enredos cheios de obviedade. Nada prestou. Tudo bem, tudo bem, eu não esperava nenhuma obra prima, mas custava ser pelo menos legalzinho? Hum-hum. Nem isso. Sabe a sensação de que preferia não saber, queria morrer enganada, hohoho, ignorance is bliss? Pois é. (Mas Rita, e os cinco contos finais? Não sei, não vou saber, larguei o livro.)

Um dia, quem sabe, eu leia outro romance da dama do crime e faça as pazes com ela. Não descarto a possibilidade de tentar de novo, em nome dos velhos tempos. Mas com a fila de coisa boa que nunca vou conseguir ler e dois filhos pra criar, hum, essa nova visita vai levar pelo menos outro par de décadas para acontecer.

Nota mental: deixe o passado lá. :-)

Miniconto displicente III

Precipitação

Acordou e logo voltou a fechar os olhos, apertando as pálpebras como bordas de pastel. Queria nada menos que a perfeição: antecipou o parque, o cachorro, a bicicleta e o sorvete; lembrou-se do perfume dos bolinhos de nata invadindo a casa ontem, a essa altura já estariam no fundo da cesta. Abriu os olhos, agora sim, podia começar. Livrou-se dos lençóis, ignorou os chinelos. Com a cabeça saltitando entre o balanço, a caixa de areia e a escalada na mangueira, pôs-se nas pontas dos pés e fez uma pirueta. (Do teto, uma fada conseguiria ver a teia dançante de cabelos; seria como ver a primeira pincelada e já adivinhar a obra toda: uma menina.) Portando seu sorriso silencioso, saiu da camisola, vestiu com pressa a roupa eleita, sentou-se no tapete e calçou as sandálias de flor. Passou as mãos pelos cabelos e achou que já estava bom, abriu a porta e foi ao banheiro. Escovou os dentes da frente, viu-se no espelho e acreditou.

Desceu as escadas, ainda sem ouvir o barulho da água.

Parou no último degrau da escada, olhar fixo na janela da sala. Sentiu duas lágrimas grossas molhando as faces que tremiam, seu peito juntando-se aos humores do céu que despencava numa chuva dura como um brinquedo quebrado.

A colina



Não é sempre que o calendário traduz meu estado de espírito. Não sou mais romântica no dia 12 de junho, nem amo mais ou menos as pessoas do mundo de janeiro a novembro que nos festejos do Natal. Sou igualzinha nos feriados. Gosto de aniversários de pessoas queridas, pelo pretexto de afagar ou ficar junto, de reforçar o que elas já devem saber, que são especiais - ou pelo menos queridas - para mim. Mas, normalmente, gosto de todos os sábados, tenho simpatia pelas terças, e bem que já tive algumas quartas-feiras inesquecíveis.

Vivo dizendo que o conceito de idade, que assimilamos como uma sentença, é supervalorizado; que o calendário já teve outras divisões e que mais vale o quanto ainda queremos estar por aqui ou a forma como tocamos a vida de quem cruza com a gente todo dia. Com 16, 38 ou 56 anos. No entanto, aqui estou, meio surpresa. Como se os números da folhinha de repente tivessem se agigantado para me sacudir e me dizer, ei, já se passou meio ano. A aparente contradição não me aflige. Eu sei que sua presença em minha vida tem essa força intrínseca que não cabe na contagem do tempo. Mas se escapa à contagem, ainda assim opera com uma força tão pungente que, ainda que eu tentasse muito, jamais conseguiria ignorar. Durante os últimos meses, nesse meio ano, tenho inaugurado um forma nova de me mesclar com minha rotina: ao mesmo tempo em que me engalfinho nos acontecimentos diários, no meu trabalho, nas minhas alegrias com minha família, nos planos bons, nas expectativas, nos tropeços, nas mudanças de rumo; ao mesmo tempo em que me enrolo com essa colcha de retalhos que costuro um pedaço por dia; em meio a isso tudo, aqui e ali, vejo você. Vejo você nas pistas que espalhei pela casa: no seu vestido preto e branco que pendurei em meu armário junto aos meus, na colcha de cama sobre a qual tantas vezes conversamos em seu quarto e que agora é minha, nos seus copos no armário da sala, nas suas fotos, suas fotos, suas fotos. Vejo você nas nossas conversas que invento, cheias de "ai, mãe, o que você não me diria agora, hein!"; vejo você naquele momento em que, ainda, olha só, miro o telefone e sei que não; vejo você naquela brincadeira que inventei, quando me desequilibro na yoga: você me segura. Vejo você na Amanda, todo dia, o mesmo azul no olhar. Vejo você nos choros que me assustam de vez em quando, porque vêm do nada, no banho, no elevador, no trânsito. Alguns sorrisos também chegam, falar de você é bom.

Em todos esses dias, nessas tantas semanas, tenho percebido que você é meu fractal: não há início ou fim, não há centro; a intensidade das cores e os limites das formas variam com meu olhar, mas estão sempre ali, oscilando e refletindo a verdade inegável de que eu, em certa medida, sou e serei sempre um pedaço de você. Posso estender minha mão e mergulhá-la na imagem mais linda que surge quando penso nisso: você vive em mim.

Meio ano não é muito, nem pouco. Não é uma medida, exatamente. É um ponto na estrada, como o alto de uma colina, de onde posso ver uma paisagem bonita. Vejo flores, um olhar terno e uma mão sempre estendida. Vejo um olhar amoroso, emoldurado por um semblante melancólico; vejo além e percebo as alegrias, as danças e os sonhos. Vejo uma mulher, uma filha, uma mãe. Vejo uma amiga. Vejo uma luz. Que não se apaga nunca.

O frio e um sucrilho


Hoje o dia foi frio e chuvoso, todo cinza. Hoje a janela da minha sala no trabalho mostrava esguichos que os carros levantavam na avenida, o inverno não diminui a pressa. Mantive a persiana erguida para ver o mundo monocromático do lado de fora porque gosto do inverno. Hoje foi dia de meias grossas e mãos no bolso. Junho é meu mês, foi quando nasci; não acho que isso explique muita coisa, não explica minhas preferências, certamente. É só um mês aconchegante, penso aqui. Gosto do recolhimento do inverno, das mantas no sofá, do chocolate quente. Gosto do livrinho embaixo do edredom, de ir ver as crianças quentinhas com seus pijamas fofos. Gosto do meu quarteto enroscado no sofá, ou se enchendo de comida na cozinha aquecida pelo forno. Adoro o barulho da chuva e quanto mais forte, mais gosto. Gosto do friozinho, lido bem com o friozão, mesmo sem voz - minha garganta não compartilha desse entusiasmo por ventos gelados. O café, sempre parceiro, vira meu amigo; minha caneca de chá, um ótimo aquecedor de falanges. Mas, né, não são as coisas. Aconchego é quente, e por isso fica bom. Então gosto mesmo, de verdade, é de ter você para passar o inverno comigo porque a gente tem um jeito nosso de mesclar as estações e colher flores imprevisíveis. Gosto de ir dormir com você ali, esquentando tudo. Gosto de acordar com você ali, mantendo o mundo nos eixos. Nenhuma vergonha: você põe meu mundo nos eixos. Fica tudo bom. E mesmo naqueles dias, frios ou não, em que preciso ser sozinha, você está lá, na minha órbita. Sempre sei. Gosto de dividir meu inverno com você ou estaria aqui reclamando do frio. Minha alma aquecida pela sua presença faz isso que você faz, essa coisa aí que não sei o nome. Deve ser calor. Tem outras rimas: amor, bom humor, cobertor, aquecedor. Tem tudo isso, com você, seu lindo. Tem sua voz, também. Aqueles segredos que a gente troca, aquelas conversas no carro. Um mundo enorme.

Hoje o dia foi frio e chuvoso, todo cinza. Hoje a janela da minha alma mostrava esguichos de alegria, como acontece todo dia, faça chuva, ou faça sol. Gosto do inverno, é verdade. Mas tudo nessa vida é pretexto pra dizer de você.

***

E por falar em mãos no bolso, ontem, enquanto eu penteava o cabelo da minha pequena de três anos, eis que ela enfia a mão no bolso do moletom e saca de lá um sucrilho. E come. Comeu o sucrilho que estava no bolso do moletom desde tempos imemoriais. Uma pessoa prevenida. :-)

As novidades da lancheira - barrinha de granola feita em casa


Desbancando tradições - a barrinha que esnoba

Eu deveria ter publicado um post com essas barrinhas na primeira vez que experimentei a receita, mas acabei escrevendo sobre outras coisas. Nem lamentei, no entanto. Fizeram tanto sucesso que eu sabia que logo faria a receita novamente e, aí sim, passaria a dica para vocês. A fonte é a de quase sempre, o irretocável blog da Patrícia Scarpin, o preparo é facílimo e os elogios chegam de todos os lados: meu filho adorou, o marido virou fã e os colegas do trabalho que provaram também lamberam os beiços. :-)

De vez em quando ponho uma barrinha de cereal, daquelas que a gente compra no mercado mesmo, na lancheira do Arthur e ele sempre agradece. Daí, quando vi a receita no TK*, pensei por que não, vai que dá certo e ele passa a levar mais um treat para a escola feito com a mão da mamãe (além dos eventuais bolos e muffins)? Acertei na mosca. O problema é que as barrinhas desaparecem em dois dias (porque até o papai resolveu levar uma "lancheira" para o trabalho...) e agora a barrinha do mercado tem sido implacavelmente rejeitada, sempre volta pra casa, intacta na embalagem. Chego a sentir pena daquelas que já fizeram sucesso por aqui, mas preciso ser sincera com elas: não dá para comparar.



Imagine cravar os dentes na superfície crocante de granola e, quando a porção alcança sua língua, sentir o docinho da geleia de framboesa; daí você enche a boca com outro pedacinho e fecha os olhos e a coisa toda nem é só doce ou só crocante, é o casamento perfeito. *Ao invés de 110g de nozes, como manda a receita, pus 50g de nozes e 50g de castanha-do-pará, igualmente picadinha e tostada. Heaven.

E a Amanda, também não leva? Não, minha filha vive em um universo paralelo onde lanche bom é pão com nutella e não se arrisca assim tão facilmente. Um dia, quem sabe.

Como agir quando meu filho machuca um amigo?


O título deste post é uma pergunta mesmo, um convite a uma conversa sobre o assunto. Gostaria de compartilhar ideias, saber a opinião de mamães e papais que passam por aqui. Ninguém que ama seus filhos gosta de vê-los feridos ou assustados, seja por um acidente ou agressão, mas igualmente angustiante é ver um amiguinho ou amiguinha numa situação assim, causada por uma atitude de nossos próprios filhotes.

Ontem nos reunimos na casa de amigos para uma noite bem agradável com muita conversar, comilança e jogatina (uia). Enquanto os grandinhos se empanturravam de papo e comida, a criançada se esbaldava naquelas brincadeiras e correrias intermináveis. Tudo perfeito para aquecer a geladeira que abriram em Florianópolis ontem à noite, até que. Até que meu Arthur jogou uma caneta em direção ao rosto de sua amiga e por pouco não causa um ferimento muito grave. A caneta atingiu o supercílio da pequena, fez um pequeno furo que sangrou, assustou e machucou.

Eu não sei o que fazer. Toda reação, a partir do momento em que Amanda me deu a notícia ("mamãe, o Arthur jogou a caneta no olho da amiga"), foi regida pelo meu pânico de que alguma coisa grave tivesse acontecido com a pequena. Então pus o Arthur numa cadeira afastada do ambiente e me juntei à mãe da outra criança,  na tentativa de acalmá-la, examinar o ferimento, fazer parar o sangramento. Olha, gente, não é moleza. Eu sei, sei, sei, todos sabemos que faz parte da infância, que acidentes acontecem e que kids will be kids. Mas, sinceramente, a sensação de que estou deixando passar alguma coisa é inevitável. Eu gosto muito de ter dois filhos porque todos os dias tenho a chance de gerenciar pequenos e grandes conflitos entre eles, presenciar atitudes egocêntricas e imaturas tão comuns à idade e ajudá-los a lidar com as inseguranças e os rompantes de agressividade que devem ser moduladas todo dia. Eu entendo, ou acho que entendo, que tudo na primeira infância é uma grande ebulição de sensações que precisa de mãos adultas para encontrar o ponto certo. O que a gente nunca espera é que os "deslizes" atinjam outras crianças que não seus próprios filhos. Quando Amanda bate no Arthur, por exemplo, dói bem menos em mim do que quando um deles agride outra criança.

Depois de tentar ajudar minha amiga na tarefa de acalmar sua filhota, voltei para o Arthur, que, a essas alturas, já tinha levado bronca do pai, e dei outra bronca. Bronca mesmo. Eu não conversei com ele numa boa, com calma e tal, porque eu não estava calma. Eu estava com a péssima mania que tenho nessas horas de imaginar que poderia ter sido pior. Então ralhei com ele, repeti a ladainha de que não se pode resolver nada com agressões, que a amiga dele agora estava com dor e medo e que isso não é coisa que se faça e bla bla bla eterno. Ele pediu desculpas e eu nem respondi, falei que ele fosse lá se desculpar com a amiga. Ele foi, pediu desculpas e deu um abraço (delicadamente retribuído por ela, tadinha) e o pus de volta no cantinho do castigo. Deixei-o lá por cerca de dez minutos, tempo durante o qual ele só não ficou isolado porque a vovó se encarregou de fazer companhia, sabe como são as avós docinhas. Ele chorou muito, parecia assustado e eu agia como quem diz "tá reclamando do quê?". Depois retirei o Arthur do castigo, dei outra bronca e ele brincou mais um tempo com as outras crianças. Em determinado momento, fui verificar o que estavam fazendo e, de novo, porque eu sou chata, mandei que ele se desculpasse - o que não foi necessário porque a própria amiga machucada olhou pra mim e disse "já passou", assim como quem diz, "ai, deu".

Daí fiquei, toda envergonhada porque, né, aff. E eu não faço a menor ideia, a menor, gente, do que fiz de certo e errado nessa história. Deveria ter feito diferente? Considerando que ele já tem seis anos e já vai longe a tal fase que combina muito mais com a Amanda, de três, em que agressões são comuns e até esperadas, como agir? Ontem mesmo, pela manhã, os dois levaram uma chamada minha por atirar objetos no sofá da sala. Não é a primeira vez que a categoria "atirar objetos" esteve no centro do furacão. Mas ontem, infelizmente, chegou onde a gente sempre teme que chegue.

Help.

Update: depois de ler os primeiros comentários, vi que realmente não dei contexto nenhum. Não tenho muitos detalhes a contar, de qualquer maneira. O Arthur não gostou de um comentário que a amiga fez, só isso. Não estavam brigando, ninguém estava xingando, pelo que sabemos. Ela falou, ele não gostou e jogou a caneta.

Update 2: se você leu até aqui, sugiro que leia os ótimos comentários. Há uma resposta minha que também é um complemento ao post.

Pela estrada escura, To The Sea


Já falei aqui que foi meu filho quem me apresentou ao som do Jack Johnson e suas canções de guardar no coração. Já mostrei presentinho que amo muito, muito, muito. Também já falei por aí que saídas com o Ulisses costumam ter pitadinhas de emoção. Agora vou juntar tudo, olhem bem.

O show da turnê To The Sea estava marcado para as dez horas. Como sempre fazemos quando escapamos na calada da noite, colocamos antes as crianças na cama, deixamos minha sogra de plantão, tadiiinha, e zupt, tchau. Já sabíamos que pegaríamos trânsito, já tínhamos ligado para a casa de shows e tínhamos noção do que nos esperava. Então fomos de taxi, com receio de perder muito tempo procurando vaga bla bla bla. Mas se fosse simples não tinha graça, então quando chegamos a certo ponto do caminho, entendemos que o acesso ao local  estava fechado e que a única forma de chegar lá seria fazendo uma volta homérica. Faltavam 50 minutos para o início. Bom, em meio segundo, Ulisses me convenceu a descer do taxi e seguir caminhando pelo trecho interditado, aquecendo as pernas por cerca de quinze minutos e chegando lá sem sustos. Sem sustos. Como eu não fazia ideia de onde estava, nem como chegaria ao nosso destino, nem como cargas d'água se interdita a rodovia de acesso ao local do show na noite do espetáculo, obedeci. Bem assim mesmo, obedeci. Concordar não é a palavra mais adequada. Enfim. Descemos do taxi, cruzamos a avenida e descobrimos que nós éramos o único casal seguindo por aquele caminho. A pouco mais de meia hora de o Jack subir ao palco. Os únicos. As únicas pessoas. Ninguém mais seguia por lá. E aí, né, exercitei meu esporte favorito, reclamar. Como meudeusdocéu aquela poderia ser a melhor opção se não havia mais ninguém indo por lá? Onde estava o público do show? Como o povo estava chegando lá, porque era evidente que não era por ali. Ulisses argumentava que já estava tarde, que o povo já estava lá e muita gente chegaria atrasada. Eu andava e torcia para chegar e sair daquela estrada escura. Cerca de dez minutos depois, de fato, chegamos. E vimos, sim, que o Ulisses tinha certa razão, o povo já estava lá, o trânsito que vinha do lado oposto estava infernal e era evidente que muita gente ainda demoraria muito para chegar à pista. Não nós, que entramos no melhor estilo ufa ainda bem e, score!, escapamos da chuvarada que despencou logo depois que entramos na área coberta da pista. Aí parei de reclamar. Em minha defesa, digo que não foi sem sustos, porque estava escuro como breu e, né, é bem razoável duvidar que se esteja no caminho certo quando não há mais ninguém indo por lá. Né? Hein?

Bom, quando chegamos estava rolando o show de abertura, com o homem-banda G. Love. Canta, toca violão, gaita e percussão, tudo ao mesmo tempo, sapateia e agita sem suar. Fiquei só esperando ele sacar a harpa e o violino também, mas não rolou. Legal, legal, beleza, mas, né, cadê o Jack. Com meia hora de atraso, ele veio. Pronto. Tudo que eu esperava que fosse, só que muito mais gostoso. Porque adoro as canções, a voz e o estilo tranquilão, mas a energia dos músicos no palco é o que faz valer tudo. E o que vimos e curtimos vai ficar para nós como um dos shows mais legais que já vimos. Nada é grandioso e ou fantástico. O palco tem apenas músicos excelentes, um telão zen como o próprio Jack e aquele cara bacana que olha para o público como quem diz "gente, o que vocês tão fazendo aqui, eu nem sou tão legal, olha, obrigado, viu". Comentei com o Ulisses "olha, meu, o cara, que barato; bem assim, de jeans e a camiseta mais surrada do armário, dividindo com a gente sua simpatia". Esse era o clima, tipo, senta aí e conta mais. Delícia, gostei com força.

O set list é, obviamente, tudo de bom, mas ainda saímos falando de tantas outras que não foram tocadas. Curtimos todas as músicas, não há momento ruim. O G. Love voltou ao palco e desconfio que ele já integra a banda do Jack, porque voltou e não saiu mais, ficou por lá incendiando várias canções com sua gaita impossível.

Quando Jack cantou Upside Down, saquei o celular e filmei para mostrar para o Arthur. É a tal canção da trilha sonora do filme do macaquinho George, a canção que trouxe Jack aqui para casa. E quando eu nem achava que faltava mais nada, ele encerrou tudo com Better Together, com arranjos diferentes, mas com o mesmo charme. Pra ninguém esquecer que o bom é assim  mesmo, together, no taxi ou na estrada escura, com o arranjo que for.

Aí o show acabou e ninguém achava taxi. Sei lá quanto tempo depois, o mesmo taxista do início da noite nos enviou um socorro. E a gente fechou a noite comendo pão na cozinha.

Os iluminados


E os tontos.

Sempre que passo os olhos pelo texto do meu perfil aí ao lado, diminuo a velocidade do olhar na palavra "iluminadas". Fico me perguntando se os desavisados a leem como evidência inequívoca de corujice desmedida e sem noção, declaraçãozinha metida a besta daquela que acha seus rebentos os mais, ah, especiais dentre todos os fedelhos do universo. Mãe de duas crianças iluminadas, faz favor, etc. Ontem à noite pensei nisso, não por algum ato de luz dos tais especiais aqui de casa, muito antes pela falta de luz da mãe deles mesmo, coitados. Ah, os dias em que a gente erra a mão.

Aceito "errar a mão" como condição da maternidade, até aí nenhuma novidade. No dia em que eu declarar que não tenho mais nada a aprender em determinada área da vida, qualquer ela, tsc, coitada de mim. Imaginem quando falamos justamente de maternidade, aquele que é, de longe, o maior desafio de minha vida. No entanto essa aceitação não me impede de refletir sobre os tropeços e tentar evitá-los em eventos futuros, que a gente sempre quer melhorar um tiquinho a cada dia, quero crer. Mas, ai, há dias em que me olho no espelho e tudo que tenho para me dizer é um lamentável "muito bem, Flipper".

Ontem à noite, depois do jantar, as crianças se dividiram pela sala para pintar sei lá o quê e ver não sei o quê na TV. Avisei que o banho seria dali a pouco e já cantei a bola para o papai delas que "quanto antes, melhor", porque a noite estava fria e tal. Na hora fatídica, tudo tranquilo para o Arthur, que prontamente desligou a TV e correu para o banheiro. Nada tranquilo para a Amanda que, oh dear, cochilava no sofá. Bom, aí começamos nosso show de equívocos. Porque tudo poderia ser tão simples: deixá-la dormir sem banho uma noite, ninguém morreria por isso. Mas nãnãnãnão, vamos pentelhar. Ulisses levou Amanda para o quarto, já aos berros, despertada de sua soneca QUENTINHA no sofá quentinho, dentro de seu moletom quentinho. Aí eu bem que poderia ter botado a pititica na cama, trocado seu pijama, escovado seus dentes e apagado a luz. Nãnãnãnã, temquedarbanho. Daí iniciei todo um processo fadado ao fracasso de tentar convencê-la a encarar o banheiro, que, afinal, filha, já vai estar bem quentinho, o mano já tá tomando o banho dele, bla bla, buauaaaaaaaaaa. Etc. Sem acordo, o banho foi dado, tadinha, com a criança aos berros. E porque estava estressada, com frio e lutando, vejam bem, eu disse lutando, para escapar do banho, levou bronca homérica e depois se desculpou por ter gritado.

Momentos depois, eu embalava a pequena no colo, cheia de culpa. Ela dormiu limpinha e se sentindo, talvez, culpada por seu "mau comportamento". Eu dormi limpinha e com cara de pateta: foi tirar a roupa no banheiro, bater o queixo de frio e me sentir ainda mais idiota. Tentei comprar noção, mas não vende na farmácia.

Então que há dias em que acho que eles são uns iluminados mesmo, sabe, porque, combinemos, ninguém merece. A criatura tem três anos e eu espero que ela enfrente frio e sono porque eu não dei banho mais cedo. Obrigada. O pior foi o falatório: você precisa obedecer, bla bla bla, não faça escândalo, mimimimi, deixe de grito. Ai, ai.

O que mais? Quando Ulisses entrou no quarto do Arthur com a Amanda embrulhada na toalha para vestir o pijama dela (o quarto do mano estava mais quentinho), o Arthur estava lá, livro em punho, mostrando pra ela: "olha, mana, vou contar uma história pra você dormir! Não precisa chorar mais!". Iluminado, gente. Toda sapiência da casa ontem à noite na cabeça do mais velho, enquanto pai e mãe se agarravam ao dogma do banho bla bla bla pra dormir limpinha, nhen nhen nhen.

Enfim, nada grave, grau de drama tendendo a zero e hoje ninguém falava mais nisso. Mas não posso deixar de me sentir uma tonta porque sei que isso ocorre, em menor escala, em outras ocasiões. Nem sempre nos posicionamos de mente aberta diante de eventuais protestos infantis. O Arthur, por exemplo, é uma criança que se alimenta muito bem, experimenta tudo e raramente abandona um prato de comida. Mas é só abandonar e lá estou eu, general do maternal, "se não comer tudo, bla bla bla". Aff, são uns iluminados, viu. Tadinhos.


 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }