Um inverno por un été


''Si tu viens, par exemple, à quatre heures de l'après-midi,
dès trois heures je commencerai d'être heureux."

(É em julho, mas a gente fica feliz antes.)

Lá no finado ano de 1998, enquanto estudava em Londres, transformei o feriado da Páscoa em três semanas de recesso e fiz um rápido giro por alguns cantinhos da Europa. Foi um passeio bom pelas razões óbvias e que me deixou com gostinho de quero mais eterno; foi divertido pelo que vi e visitei, mas também pelo ótimo grupo com quem viajei, composto em sua maioria por australianos, além de neozelandeses, sul-africanos e pessoas vindas de vários outros cantinhos do mundo; foi enriquecedor e barulhento, inesquecível e, digamos, eclético, para usar uma palavra bem apropriada. A profusão de idiomas, sabores, cheiros e cores daquela viagem alimentou muito papo bom depois, deu-me amigos e fotos desfocadas em minha velha kodak, além de uma coleção inútil de moedas da qual devo ter me desfeito, apesar de não me lembrar quando ou como. Tour gastronômico, etílico e turístico para estudante nenhum desse mundo botar defeito, minha pequena batida de pernas fez valer muito a pena cada centavo aplicado e transformado em pequenas doses de variedade, coisa de que gosto demais nesse mundão.

Um dos pontos altos da viagem era, sem dúvida, Paris. Era também o último ponto antes de retornamos a Londres pelo Canal da Mancha, cheios de vínculos pessoais eternos que se desfizeram em semanas ou meses. Paris encerraria a grande farra com chave de ouro e transformaria meu conceito de cidade bonita. Passei pouco mais de dois brevíssimos dias reerguendo meu queixo e anotando, mentalmente, que um dia voltaria, com mais tempo, com outros olhos e sabe-se lá em que companhia. Voltaria para passear sem pressa, perder-me nas ruas e pontes, olhar, olhar, olhar.

Daqui a pouco mais de um mês voltarei, acompanhada daquele que já me fazia suspirar diante da Torre Eiffel enquanto pensava, cheia de romantismo piegas regado a vinho, "aquele mané bem que poderia ver isso aqui comigo, aff". Agora, enfim. Com mais tempo, outros olhos, um par de filhos e um bom número de anos que me transformaram tanto que chego a pensar que será, de novo, a primeira vez, voilá. Se tudo der certo, partiremos em 03 de julho, dia em que minha mãe completaria 71 anos, para o último mês do mesmo recesso de que usufruímos no ano passado. Estamos matriculados em um curso de língua francesa que frequentaremos em horários alternados, dividindo nosso tempo entre as aulas e as crianças. E umas espiadas nas redondezas.

Não temos pensado muito em tudo que nos espera no nosso julho quente, envolvidos até o pescoço com a rotina ligeira e outros projetos instigantes (ai, minha língua coça, mas tudo tem seu tempo). No entanto, há algo que já antecipo com um sorriso bem fácil: tenho encontros marcados. Tenho encontros marcados com amigas que fiz aqui nessa blogosfera imprevisível, encontros com pessoas que já fazem parte de minha vida, com quem tenho dividido mais que posts and comments. Tenho amigas a abraçar e será a Paris, mon dieu! Eu ainda vou agradecer muito por aqui todas as dicas e toques, favores enormes e deslocamentos planejados para me ver (a gratidão, a gratidão), mas começo já. Amanda, Luci, falta pouco. Seulement un petit peu, é assim? Quero tempo para estacionar no blog da Dé e em suas dicas imprescindíveis, quero ir, quero ir. Fiquem aí, paradinhas.

Além de encontrar amigas blogueiras, passear com meus pequenos e meu grandão, essa será minha terceira tentativa séria de engrenar um curso de francês que me faça ir além do passé composé. Tenho fé e laptop. A língua, aliás, será a cereja do bolo, para o bem e para o mal. Meu francês inteiro já foi usado neste post e o do Ulisses ainda nem existe. Mas a gente encara, com vontade de experimentar e, certamente, aprender um tiquinho, rindo aos montes. Porque inevitavelmente diremos muitos Pardon?. Como garantia, ouvidos atentos e paciência. Espero que estejam em voga nesse verão.



O birô

O birô era o mesmo do antigo escritório mantido em nossa casa: grande, feito de madeira marrom escura, com um tampo de vidro. Você cercada de pastas, organizava muitos papéis para deixar tudo bem encaminhado antes de partir. Eu me deitava no sofá em frente ao birô e ficava observando você trabalhar cheia de energia, com os cabelos brancos bem volumosos, com aquelas ondas que eles faziam algumas décadas atrás. Você também observava meus cabelos, entre uma papelada e outra, e fazia algum comentário sobre eles, de novo. Eu passava a mão nos meus cabelos e voltava a fixar minha atenção em você. Sua energia era incrível, quase entusiasmada. Sabíamos que você partiria para um tratamento médico, retornaria, trabalharia um pouco mais e logo iria se despedir de vez. Mas não havia angústia. Havia essa energia indescritível vinda de você e que preenchia todos os espaços em minha volta, diante de mim: você em seu birô, como em minha infância.

Foi meu sonho dessa madrugada, foi assim que me acordei para o dia. Falta pouco para completar seis meses de sua despedida e finalmente vi você em um sonho longo, tranquilo, bom. E assim foi meu dia, com você em minha mente, grande, clara, sorridente. Uma saudade enorme. Amanda está tão grande e esperta; Arthur é um menino crescido. Eu sou sua menina, hoje, olhando o birô. O dia inteiro.



Loucurinhas do blogger


Não reparem na postagem repetida aí embaixo, estou tentando organizar os marcadores do blog e ele resolveu republicar o post. Espero conseguir recuperar o controle, oremos.


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O post abaixo, Lá na minha escola, foi publicado em 12/05/2011. Por causa do surto psicótico sofrido pelo blogger naquela data, os marcadores do post entraram em crise. Hoje resolvi arrumá-los e, plim, o post saltou para a data atual. Não sei devolvê-lo ao seu devido lugar, deixa aí. Pelo menos tá no blog, né. Nos dias atuais de pane seguida de pane no blogger, convenhamos, é um luxo. Amém.

Lá na minha escola


Tem rolado um papo muito bom na lista de blogueiras feministas sobre métodos pedagógicos de educação infantil. Papo vai, papo vem, a conversa chegou em homeschooling (e até unschooling, que vi aqui), e a gente segue se perguntando o que fazer para oferecer aos filhos uma educação que vá além das decorebas voltadas aos vestibulares, sempre, claro, levando em conta a importância da convivência com o meio escolar na formação do caráter e da personalidade dos futuros cidadãos que criamos. E toda essa conversa me deixou aqui bem saudosa dos meus tempos de colégio. E mesmo que há muito eu tenha percebido falhas importantes nos métodos adotados pela minha antiga escola, não posso deixar de reconhecer o gigantesco papel que ela teve na minha vida - e nem estou mais falando de educação formal.

Meu prazer em ir à escola tinha relação direta com o clima meio confuso em casa. Meus pais tinham um casamento difícil e a escola era meu porto seguro longe dos climas pesados em dias de discussões mais acirradas. Mas não era só isso. Eu gostava do prédio do colégio, por exemplo, vejam vocês. Adorava aquela coisa enorme, um misto de escola e convento que já tinha sido colégio interno em décadas passadas, com seus jardins internos lindos, a biblioteca com estantes muito altas e mesas imensas, o assoalho cor de vinho. Adorava a sala de música com o piano velho que vivia sendo afinado, os pátios de recreio em vários níveis que sempre me davam a sensação de estar em um lugar infinito de tão grande: acabava a quadra, vinha o campo, terminava o campo, vinha outro pátio, terminava o pátio, chegávamos à horta, da horta se via a mata e o verde não tinha mesmo fim. Sem falar das alas proibidas aos alunos, restritas às irmãs que ainda habitam as seções-convento do prédio: nada nesse mundo poderia ser mais transgressor que se esgueirar com nossas saias azuis pelos jardins do convento e deles sair pelas passagens “secretas” que levavam à capela. Naquele tempo eu ainda rezava, mas ali dentro eu nem conseguia. Entrava e ficava admirando o silêncio, a limpeza (a limpeza, nunca vou me esquecer da limpeza daquele lugar), o altar tão cheio de simbologia confusa - e eu nem suspeitava o tamanho da confusão do mundo, apesar de achar que já sabia. E então abrir lentamente a pesada porta de madeira, espiar, sinalizar para a amiga que o caminho estava livre e voltar para o reino das salas de aula - grandes, iluminadas, com janelões que tocavam o teto e revelavam o verde sem fim da mata para além da horta. Ainda me espanto como eu conseguia prestar atenção às aulas. Mas revolucionário mesmo era convencer o chefe de disciplina (veja bem) a nos levar à torre dos morcegos. Meu colégio tinha uma torre, como nesse mundo eu poderia não gostar dali?

Mas nada me deixava mais feliz que o auditório e seu palco. Porque palco tem bastidores e minha cabeça tem muitos deles. Então imaginação pouca não servia, mas isso nunca foi problema. Em tempos de preparações para eventos (dia disso, dia daquilo), o que já era bom virava o céu e as horas de ensaios e preparativos pareciam voar na velocidade dos meus pensamentos mais apressados. Penso nas tardes de ensaios, nas horas silenciosas na biblioteca, nas aulas de música com a amiga prodígio que tocava Beethoven, na descoberta do mundo que sinalizava para mim de dentro daquelas paredes e penso que fui uma criança/adolescente muito sortuda.

Na sala de aula sobravam decorebas e aulas maçantes, tarefas diante das quais hoje eu me escandalizaria. Sempre havia três ou quatro professores com uma visão um pouco mais moderna em torno dos processos de aprendizagem, mas, via de regra, a coisa era mesmo muito quadrada e tradicional. Lembro de sublinhar trechos dos textos no livro de História, guiando o lápis com a régua, durante a aula inteira: eram os trechos que cairiam na prova. No que se tornava o caminho mais curto para acharmos História a disciplina mais chata do pedaço, fazíamos uma leitura automatizada, praticamente sem discussões críticas ou questionamentos de qualquer sorte. Ainda assim, lembro-me de passar horas folheando aquele livro com ilustrações de sarcófagos e reis amamentados por lobas e sei que nem tudo se perdia.

Lá na discussão da lista, falaram que o conteúdo aprendido pode mesmo nem ser o principal mérito de nossos anos escolares e isso faz muito sentido mesmo. Sempre que penso em meus anos de colégio, penso mais no aprendizado social a que tive acesso do que propriamente nos conteúdos estudados. A escola é um grande ensaio para a vida. Nem cheguei a ler todo o texto sobre unschooling que mencionei no início desse post, mas acho muito difícil que uma ideia assim me cative (apesar de acreditar que pode ser uma excelente saída para crianças envolvidas em determinados estilos de vida que as impeçam de frequentar a escola).

Olho para meus filhos todos os dias, com suas histórias envolvendo os coleguinhas e os professores, o episódio do recreio, o tom de voz usado por Fulana, a birra do Beltrano e sorrio por dentro. Penso no conteúdo curricular, sim. No entanto a escola oferece muito, muito mais que isso. E aí torço de verdade que eles tenham uma experiência semelhante à minha. Se der para ser com aulas de História bem interessantes, tanto melhor.

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Esse papo pode ir muito longe e outro dia volto a falar dos conteúdos curriculares. Hoje eu só queria dar vazão à nostalgia mesmo. :-)

Meu encontro com Gatsby


Minhas primeiras impressões quando comecei a ler O Grande Gatsby, em tradução de Roberto Muggiati (Editora Record), foram de desapontamento. Primeiro pelo óbvio: foi começar a ler e me perguntar por que cargas d'água não tinha dado preferência ao original, já que se trata de um romance reverenciado mundialmente como uma das principais obras literárias da literatura americana. Depois, por algumas construções textuais que me pareciam meio truncadas e que me deixavam imaginando se seria coisa do texto original ou da tradução. Mas na real, o que pegou mesmo foi o fato de eu ter lido o prefácio do tradutor: apesar de conter algumas informações interessantes sobre a composição de Gatsby e sobre a carreira de Fitzgerald - além, claro, de breves considerações sobre o trabalho de tradução -, não gostei muito do tom do prefácio. Talvez por um ou outro detalhe que me soou coloquial demais da conta, fiquei com a impressão de que leria um texto... do Muggiati (em tempo: precisaria de um blog inteiro dedicado aos dramas da tradução literária; não estou nem tentando tocar no assunto). E é só escrever isso agora para ver o tamanho da bobagem, mas foi o que aconteceu. O que quero dizer é que iniciei a leitura munida de preconceito contra a tradução. E aí ficava toda hora: hum, devia ter comprado o original. Mas. Continuei lendo, grazadeus, e, lá pelas tantas, os personagens começaram a tomar corpo e a história seguiu por rumos que quase me fizeram esquecer a dor de cotovelo por não estar lendo as palavras escolhidas por Fitzgerald para contar sua história de amor e desencontros. Resumindo: gostei muito.

Como sou sempre a última criatura do mundo a ler as coisas, nem deveria falar da história, mas quem me segura? O Grande Gatsby fala de uma história de amor interrompida e do resto de uma vida inteira dedicada a resgatá-la. Uma tentativa dolorida e incerta que põe na boca do protagonista coisas como: "'Não pode repetir o passado?, gritou incrédulo. 'Ora, claro que você pode!'". Mas a vida é mesmo incerta e nem sempre o que parece nos conferir poder é capaz de nos dar o que mais desejamos, right?

O Grande Gatsby foi publicado em 1925 e é tido como um livro que retrata com precisão o burburinho das altas rodas da sociedade americana de então, com suas festas magníficas regadas a jazz e bebida contrabandeada. A ambientação é mesmo uma delícia, um passeio por subúrbios novaiorquinos, festas luxuosas e, claro, os casarões de Gatsby e seus conhecidos onde boa parte dos ótimos diálogos se desenvolve, além do mar logo ali com seus ventos e, onde a estrada encontra a ferrovia, o vale de cinzas que tudo vê... O narrador da história é um amigo de Gatsby, Nick Carraway, que conta os episódios que compõem a trama em flashback.  Nick também é amigo de Tom Buchanan, marido de sua prima Daisy - alvo da adoração de Gatsby. Tudo em Gatsby é cercado de mistério, suas origens e as de sua fortuna, suas atividades, suas amizades, suas intenções. O leitor precisa ser paciente e acreditar que as informações virão, mas isso não significa tédio, já que a história é servida de pequenos eventos para nos manter bem entretidos - e, ao final, tudo se costura. À medida que Nick libera as informações, passamos a entender os laços que uniram Gatsby e Daisy no passado e conhecemos a principal motivação de cada um de seus passos. O mais é deleite: para mim, a história cresceu a partir do meio do livro e foi ficando difícil largar o osso. A intensidade dos diálogos, os enfrentamentos dos amantes, os fatos inesperados, tudo se condensa numa reviravolta desconcertante e, ao mesmo tempo, sedutora. A história, de repente, funciona e nos vemos diante de um drama contado com beleza, aquela receita que, nas mãos certas, resulta em obras de arte.

A dor de cotovelo não passou de todo. Há momentos de lindas construções linguísticas (mérito do tradutor, aqui) e eu adoraria lê-las em inglês também. Não conheço a obra de Fitzgerald, mas acredito quando leio que essa é uma característica de sua escrita: às descrições precisas, às caracterizações primorosas de seus personagens e ao seu impressionante poder de síntese, soma-se uma habilidade engenhosa em construir passagens onde a linguagem é a detentora de toda a beleza. Às vezes simbólica ou até surreal, a linguagem em O Grande Gatsby tem daqueles momentos que abrem o sorriso em nossa cara, livro na mão:

"Trinta anos - a promessa de uma década de solidão (...) Mas havia Jordan ao meu lado que, ao contrário de Daisy, era esperta o suficiente para não carregar sonhos esquecidos de uma época para outra. Quando passávamos pela ponte escura seu rosto pálido tombou preguiçosamente sobre o ombro do meu casaco e a batida formidável dos trinta anos se apagou com o toque tranquilizador de sua mão.
E assim seguimos em direção da morte através do refrescante crepúsculo."

Já apaixonada pelo livro, abandonei as ressalvas à minha edição quando terminei de ler a história. Meu exemplar contém um apêndice generoso: um texto de M. J. Bruccoli sobre os erros textuais da escrita original de Fitzgerald, erros factuais na ficção e também em relação ao mundo real retratado em alguns cenários da história. É interessante ver o quanto já se estudou sobre a escrita dessa obra: há todo tipo de consideração, da localização de Fitzgerald enquanto escrevia o livro (Europa) à sua dificuldade em lidar com prazos editoriais, já que tinha por hábito reescrever muitas vezes seus textos. No apêndice estão ainda o prefácio à edição crítica de 1991, também de Bruccoli, o posfácio do editor americano, "notas explanatórias" e uma lista de leitura suplementar sugerida sobre a obra. Ou seja, a gente lê o livro e aprende um monte sobre o autor. \o/

O Grande Gatsby foi um fracasso literário em seu lançamento. O livro só entrou para a história "classe A" da literatura mundial mais de vinte anos após a primeira publicação. F. Scott Fitzgerald não chegou a saber disso. Morreu em 1940, depois de anos de endividamento, alcoolismo, doenças e do difícil drama familiar causado pela doença psiquiátrica de sua esposa Zelda. Quando Fitzgerald morreu de ataque cardíaco, escrevia roteiros para Hollywood e tinha iniciado seu romance sobre o mundo do cinema, The Last Tycoon. Devia acreditar em sua mediocridade, em seu talento insuficiente. Assim, como se nunca tivesse lido O Grande Gatsby, incapaz de prever o futuro.

"E assim prosseguimos, barcos contra a corrente,
arrastados incessantemente para o passado." F.S.F

Não que precise, afinal estamos falando daquele que é tido como o segundo melhor livro em língua inglesa do século XX, mas recomendo muito. Em inglês, certamente, mas também em português. :-)

Who cares?


Meu marido assinou uma revista e ganhou um brinde por isso. Hoje o brinde chegou: o Guinness World Records 2011. Eu não sei o que fazer com isso, essa entidade que sempre achei meio abstrata e que agora está ali no meu sofá. Acho que vou esquecê-lo acidentalmente na calçada. Ou no estacionamento da farmácia. Mas antes disso, vou dividir com vocês algumas informações sem as quais ninguém deveria sequer pensar em botar o pé para fora da cama. Espero que façam bom uso. Não precisa agradecer, é cortesia da casa mesmo.

A maior língua de cão já registrada mede 11,43cm.

A italiana M. Santelia digitou o maior número de livros de trás pra frente: 68 livros.

O maior pompom do mundo tem 91,4cm de altura e 320cm de diâmetro!

S. Smith encantou 567 minhocas em apenas 30 minutos no Campeonato de Encantamento de Minhocas de 2009.

O recorde de rolha de champanhe cuspida a maior distância é de 5m.

O americano R. Begley possui a maior coleção de toalhas de bar do mundo: 2.372 toalhas. 

(Tem alguém aí ainda?)

C. Vaughan tem 1.331 sabonetes em sua coleção.

Em 2009 aconteceu a maior reunião mundial de pessoas fantasiadas de abelha: 1.901 pessoas.

Tá bom, parei. Vocês percebem do que estou falando? Há muuuito mais para tornar vocês, queridos leitores, pessoas mais cultas e bem informadas. Chega de se preocupar com o código florestal ou os recuos indesejados do governo: leiam o Guinness. Se alguém quiser emprestado, é só falar. Sem pressa para devolver. 

Livro de retalhos


Ah, o prazer de descobrir pequenas preciosidades. Hoje levei a duplinha daqui para a Feira de Livros do colégio deles, no final do dia. Estrutura bem simples, sofrível até (não havia lugar para se sentar e explorar os livros, por exemplo; as poucas bancas espalhadas pelo ginásio davam a impressão de que era muito espaço para pouco livro, mas tuuudo bem), pouco para se ver, preços bem salgados. Quando ouço "feira de livros", penso logo em promoções imperdíveis, oportunidade para se conhecer o que há de novo, a hora certa para se comprar aquele dicionário cobiçado que está com 40 por cento de desconto, ou coisa que o valha.  Nada disso. Mas era no colégio e lá estávamos nós; e o que importa mesmo estava ali: a gurizada fuçando letrinhas. E rolava um lanchinho logo ali. O Arthur tratou de explorar umas bancas com alguns colegas de sala e eu fiquei cercando a Amanda para que ela não destruísse nenhum exemplar de 6-páginas-por-27-reais. Ela logo se cansou de não ter onde se sentar para folhear os livros e resolveu brincar de subir e descer arquibancadas. E eu me deparei com a tal preciosidade: Ponto de Tecer Poesia.

                                            

O visual patchwork da capa piscou para mim e abri assim, só para conferir. Ai, lindeza. O livro é todo ilustrado com técnicas de colagem, diversos tipos de bordado e pinturinhas em tecido etamine. Babando com as imagens, comecei a ler os poemas e, crente que estava entendendo a coisa, fui pensando "ai, que sacada legal da Sylvia Orthof, fazer poeminhas para os bordados"... Aí olhei direito e vi que a dona das imagens é, na verdade, a ilustradora Tatiana Paiva, que elaborou os bordados fofos para os poemas que foram originalmente publicados lá em 1987, pela Editora Ebal (a edição ilustrada pela Tatiana é de 2010, pela FTD). Prestando mais atenção às palavras da Orthof (que, agora sei, faleceu em 1997), fui me encantando tanto quanto pelas imagens:

Para tecer muita poesia
Dona Aranha foi à feira
comprou três quilos de beleza,
dois litros de chuvarada,
comprou um colar de contas
de orvalho sobre rosas,
comprou oitenta e três metros
de luar de purpurina.
Depois
teceu um rendado,
pediu ao sol,
emprestado,
um pouco de ouro em pó.
Aí, a Dona Aranha
deu uma laçada de volta,
meia-volta,
volta e meia,
teceu depressa esta meia
feita de poesia só.
E foi dormir numa rede,
lá no canto
da
parede.





A Amanda não chegou a dar duas olhadas para o livro ainda, mas não tem pressa, eu espero. Vou deixar o livro por aí e sei que um dia ele vai crescer aos olhos dela e fisgá-la de jeito. Já fisgou o Arthur, que leu comigo em casa e soltou vários "que bonitinho...". Quando olhei para ela pulando as arquibancadas, balançando suas marias-chiquinhas, enquanto eu descobria Orthof & Tatiana, pensei: vou comprar para inspirá-la a ver belezas em coisas miúdas. Como eu vejo nas marias-chiquinhas dela.





Com vontade de ver mais do trabalho da Tatiana Paiva, de quem já sou fã, visitei seu lindo site e vi que também são dela as ilustrações do Festa no Céu, de que falei nesse outro post. Danadinha, ela, viu. 

***

Calhou tanto um tiquinho de poesia nesse dia. Calhou tanto um pouquinho de leveza.

Aniversário da caixinha


Eu quis um lugarzinho onde coubessem alguns devaneios. Quis uma caixinha para guardar as conversas e imagens que não quero esquecer, para buscar depois que minhas costas estiverem mais curvas. Eu quis brincar de exercitar umas vontades que me vinham toda hora, vontade de botar pra fora certas impressões que se formavam sobre qualquer coisa que tivesse chamado minha atençãozinha pequena de quem leva essa vidinha. Quis juntar palavras porque me encanto e me curvo diante de seus dramas para expressar os caminhos absurdos do pensamento humano. Foi isso que eu quis. Então fiz uma caixinha, sem saber que era uma coisa assim meio de bruxa, como uma canastra cheia de objetos mágicos. Mas era. E aí cada vez que eu abria a caixa para botar uma lembrancinha, a coisa se mexia e vi que eram janelinhas. A caixa era cheia de janelinhas e eu mesma fui botando outras. Gostei tanto da brincadeira de ver outras janelas que quase me viciei no troço. Passei a abrir e a mexer na caixa todos os dias e, quanto mais mexia, mais aprendia. Porque crescer é assim: olhando pra dentro, para as próprias lembranças, mas também para fora, para o que o outro nos mostra. O que eu também não sabia é que seria tão divertido, que me acrescentaria tanto. Que a caixa que já tinha nome de estrada iria mesmo me levar por tantos caminhos bons, porque a caixa abriu janelas com amigos. E aí o que seria um mero álbum de retratos passou também a ser uma fabriqueta de alegrias - e elas têm sido muitas.

Eu gosto daqui, desse prolongamento inventado de minha vida que seguiu rumos impensáveis (por mim) há dois anos. Gosto do contato com quem está longe, gosto dos relatos que poderei reler daqui a décadas, gosto da troca, dos papos, gosto muito. A estrada nem sempre é tão anil, mas isso também é bom. O blog está de aniversário e quero mesmo agradecer o olhar de quem espia pelas minhas janelinhas inventadas, agradecer de coração a quem visita minha caixinha de guardar palavras. Obrigada pela companhia, demais.

(Acabei de ver no twitter que o blogger está enfrentando nova pane. Espero não comemorar o aniversário do blog com posts sumidos e comentários deletados. Mas se rolar, tá tudo certo. Um buraquinho aqui outro ali até que dá certo charme na estrada. - Mentira, se rolar, vou xingar um monte.)

Enquanto isso, o amor


Na mesa de jantar, reclamo de dor nas costas depois de um dia de levantamento de peso no trabalho. Arthur, seis anos, prontamente se posta atrás de minha cadeira e me faz uma massagem.

***

Arthur ganhou dois presentes repetidos em sua última festa de aniversário. Fomos à loja efetuar a troca. Ele:

- Mãe, vou trocar por um brinquedo pra mim e outro pra Amanda.

***

Estou ajudando a Amanda a se vestir para a escola quando o forno avisa que o bolo ficou pronto. Peço a ela que espere um minuto e desço correndo para a cozinha. Cinco minutos depois eu volto e encontro o Arthur ajudando a irmã a pôr a calça.

Amo demais.


A lista


Falei que logo contaria tudo sobre algo que mencionei rapidamente nesse post e por isso volto ao assunto agora, mas o faço apenas para não ficar em dívida com vocês, que respeito muito. Então vou só clarear eventuais curiosidades (tá, Biddle?), mas me perdoem a brevidade na abordagem. É que o assunto ocupou tanto a minha cabeça nos últimos dias que não consigo evitar certo ranço e se vocês pudessem me ver agora talvez achassem graça da minha cara de nojinho. Se eu tivesse escrito este post na semana passada, ele soaria bem agressivo e certamente seria mais longo. [Hehehe, li este parágrafo agora, depois de terminar o post, e morri de rir: ficou enorme.] Meu intuito inicial em compartilhar a história aqui era meramente um desabafo, afinal este é meu blog e posso usá-lo como saco de pancadas, se quiser. Mas passada essa vontade, restou outra que considero mais louvável: fornecer uma pequena amostra, vinda de dentro da história, de um daqueles casos em que a imprensa mais atrapalha que informa e, de quebra, prejudica um monte de gente. Todo mundo tem meia dúzia de exemplos para ilustrar isso, mas o que apresento agora, infelizmente para mim, é o mais amargo de todos.

O que eu sei porque me contaram: o Ministério Público está investigando supostas irregularidades na folha de pagamento de funcionários e pensionistas do Estado da Paraíba. Para isso, solicitou ao órgão do governo responsável pela folha de pagamento da galera uma lista preliminar com nomes que passariam pelo crivo da tal investigação. O órgão em questão é a PBPREV. [Correção possível: parece que a iniciativa foi do Governo, que solicitou a investigação ao MP] Pois bem, na semana passada, uma revista de circulação no Estado publicou essa tal lista preliminar. Os primeiros rumores davam conta de que o próprio MP teria fornecido a lista aos jornalistas, o que foi posteriormente desmentido. Até onde sei, não está claro até agora como a lista vazou para a imprensa. O que importa: a lista nunca poderia vazar para a imprensa, porque ela não é resultado de investigação. Ela é uma lista de nomes que seriam averiguados na investigação e acho que todo mundo com meio neurônio entende a diferença. Tá. E eu com isso?

Capítulo um. Minha mãe era funcionária aposentada do Estado da Paraíba. Logo após sua morte, em dezembro do ano passado, uma amiga dela atendeu a um de seus pedidos e se dirigiu ao banco para comunicar o fato, retirar extratos bancários de sua conta corrente e poupança, para posterior saque pela família, e garantir que não haveria equívocos em ajustes futuros com a PBPREV ou com o próprio banco. A consequência imediata dessa atitude é o bloqueio da conta bancária que somente volta a se tornar disponível para a família após liberação pela Justiça, mediante Alvará Judicial. Nosso alvará ainda não saiu, então a conta segue bloqueada até hoje. Não há problema algum com isso, a cidade onde minha mãe morava tem apenas uma Juíza e sua mesa deve ter pilhas de processos, ninguém estava mesmo contando com nada.

Capítulo dois. Em março nossa família comunicou à PBPREV a morte de minha mãe. Só em março? Sim, só em março. Um parêntese importante: eu não resolvi absolutamente nada referente às pendências burocráticas relacionadas com a morte de minha mãe. Eu nem consegui comprar flores. Eu não tinha maturidade ou estrutura ou chame do que quiser para resolver nada. Então eu seria a última pessoa desse mundo a questionar tal atraso, porque enquanto várias pessoas de minha família se dividiam para cancelar isso e aquilo, eu chorava e olhava fotos. E, afinal de contas, nossa conta seguia bloqueada. Bom, como se deu a comunicação? Através de documento protocolizado junto à PBPREV, instruído com Certidão de Óbito (com a data da morte, obviamente) e "solicitação de devolução de valores" que tivessem caído na conta após a morte dela.

Capítulo três. É natural que, até saber da morte dela, a PBPREV tenha creditado em sua conta valores como se viva ela estivesse. É natural que após a comunicação da morte o estorno fosse realizado de pronto. Bom, não foi o que aconteceu. A PBPREV seguiu depositando dinheiro na conta bloqueada de minha mãe e o primeiro estorno (espero que os outros ocorram logo) só se deu no início deste mês de maio. As razões que levaram a PBPREV a não solicitar ao banco devolução da totalidade dos valores em março (ou solicitar a nós mesmos, sei lá como seria isso) são desconhecidas para mim. Ficamos assim com cara de lua esperando a PBPREV se mexer porque, afinal, nem que quiséssemos nos mover para providenciar qualquer movimentação com o dinheiro na conta, não poderíamos fazer nada (nada = devolver os valores ao órgão) já que a conta segue bloqueada.

Capítulo quatro, o clímax. Voltemos à tal revista que publicou a lista. Eu não li a revista, mas vi a notícia replicada em vários sites na internet e o tom era o seguinte, basicamente: veja a lista de mortos e fantasmas do Estado. Vou desenhar: publicaram uma lista longa de nomes de funcionários mortos cujas famílias estariam se beneficiando indevidamente do dinheiro do Estado. Mas era aquela lista preliminar. Uma lista que não era resultado de investigação, já que lá estava o nome de minha mãe (e aí sou levada a crer que é perfeitamente possível que haja ali outros nomes na mesma situação) e nossa família nunca sacou um centavo de dinheiro indevido nenhum, além de ter comunicado a morte dela e solicitado estorno dos valores porventura creditados em sua conta após seu falecimento. Mas isso não vende, sabe. Vende o barulho, então fizeram um bem grande. E aqui eu queria deixar o óbvio bem claro, que eu acho excelente que se façam investigações dessa natureza e desejo que as punições aos aproveitadores tenham o efeito de coibir ações futuras da mesma natureza. Mas tem outra coisa que eu também acho excelente, que é a tal seriedade na notícia. A irresponsabilidade de se publicar uma lista que contém nomes de pessoas cujas famílias jamais sacaram um centavo indevido de dinheiro oriundo seja lá de onde e rotulá-las de vilões é difícil de ser descrita. Qualquer investigação de cinco minutos no processo referente a minha mãe na PBPREV evidenciaria o absurdo de incluí-la em uma lista de "mortos e fantasmas do Estado". A lista publicada, minhas pessoas queridas, tem a data da morte dela. Estou desenhando direito? Tem a data da morte. Assim, ó: a PBPREV só conhece a data da morte dela porque a gente comunicou quando pediu para que os valores depositados depois de dezembro fossem retirados da conta (bloqueada) dela. Mas ela é uma morta do Estado, de acordo com jornalistas paraibanos. Que eu vou amar de paixão para o resto da vida, concordam?

Capítulo cinco, eu de perna pra cima. Caí para trás com a notícia, chorei, fiquei angustiada, indignada, revoltada, ganhei o Oscar de mimimi. Comentei em alguns sites, depois cansei e deixei pra lá. Minha família entrou em contato com a PBPREV e solicitou uma certidão atestando o equívoco (olha, que doce, estamos chamando de equívoco) cometido por eles. Estamos aguardando. Estamos aguardando o alvará judicial para poder ir ao banco e pedir, ei, moço do banco, faz um favor e devolve isso aqui que não deveria estar aqui. Ou a PBPREV se resolver direto com o banco, o que vier primeiro ou o que as regras mandarem.

Capítulo seis, o tempo dirá. A intenção óbvia e entrar com ação por danos morais. O tempo vai me ajudar a amadurecer a ideia e entender direito os mecanismos de um processo dessa natureza.

Capítulo sete, o que eu queria aqui. Aqui, no blog, queria dividir a história com quem se importa e usá-la como exemplo de jornalismo perigoso: a notícia rendeu muito por lá e ainda ocupa bastante espaço na mídia local. As pessoas comentam e correm a lista em busca de nomes e se deparam com nomes de famílias que podem ser inocentes como a nossa, como saber? As datas das mortes estão lá, a PBPREV sabe. Se sabe, por que segue com os depósitos? Como a lista vazou? A quem interessa isso? Tchan tchan tchan! Esse episódio ilustrou para mim aquilo que eu e Ulisses comentamos sempre: é preciso desconfiar das notícias. Ô, nem te conto.

***

(Se eu passar a entender alguma coisa relevante de forma diferente do que está descrito aqui, voltarei com as devidas correções.)

Por onde a gente anda



Eu tinha outros planos para o blog hoje, mas aquela menina de asas me passou um meme irresistível, desses sob medida para a gente adiar posts e ficar de trololó cazamiga da rede (ai, deixa eu corrigir antes que digam que não sei português: com as amigas internautas, está bom assim, pois não? - Para não perder o mote, o bonde e o lote, passe aqui).

Mas eu dizia que ganhei um meme. Ele veio por aí, em boas caronas, e agora vou brincar de tentar lembrar. Vou deixar passar muita coisa porque quase passei batida na fila da memória e me esqueço de muita coisa boa, lamentavelmente. E isso é o bom desse meme, além dos trololós: os pequenos registros para a gente resgatar daqui a cinquenta anos. Se o blogger deixar, claro.

O papo é recorrente por aqui, tenham paciência. Seguem as dez perguntinhas básicas e as respostas que rendem muito papo na hora de qualquer café com bolo. Não haverá grandes revelações ou indicações cheias de requinte; apenas minhas pegadas que enfeitam minha vida e fazem meu mundo maior.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Sim, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Foi até hoje a experiência literária mais arrebatadora que tive. Eu me apaixonei por Marquez no primeiro capítulo e nunca mais me curei. Li em dois dias, quando já morava em Florianópolis e fazia Mestrado, e me lembro nitidamente que no final da tarde do segundo dia comecei a ler bem devagar, com o peito apertado de saudade daquela família. Eu não queria terminar e, depois de finda a leitura, fiquei passeando pelo apartamento com o livro na mão, relendo pequenos trechos aleatórios. Amor demais. Mas essa pergunta comportaria muitas respostas.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Sim, Dom Quixote, de Cervantes. Comprei há muito tempo, quando ainda fazia faculdade, e comecei a ler em uma época de muita leitura e trabalho. Lembro-me que voltei ao início após ter lido cerca de vinte por cento da história porque sentia que não estava envolvida, dada a importância da obra. Voltei e voltei e abandonei. Mora na minha estante até hoje e, se ainda me quiser, não desisti dele ainda. Mas o fato de ter tentado há tanto tempo, várias vezes, sempre o empurra para mais tarde outra vez. Enquanto há vida, há esperança. Morro de inveja de quem leu.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Pergunta difícil. Eu leria Clarice Lispector para sempre, porque nem precisa ser uma história, pode ser qualquer página dela (do que li, claro, não descartando a possibilidade de um dia ler algo e não gostar, apesar de duvidar muito que isso venha a acontecer). Então eu acho que leria Laços de Família, com seus contos absolutamente apaixonantes e que tiram fotografias de nossa alma a cada parágrafo. Assustadores. Destaque eterno em meu coração para o lindo "A Imitação da Rosa".



4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Eu gostaria de ter lido Ulysses, de James Joyce, pela importância do livro para a literatura mundial. Já li trechos do famoso monólogo de Molly Bloom, mas ainda não me abracei com Ulysses por inteiro. Com o outro, aquele sem y, já, várias vezes. :-) Ah, eu sempre achei que James Joyce tinha o maior bom gosto para nomes. E, claro, preciso ler O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, porque isso é um absurdo. Tá, tá, eu sei. Já falei que vou ler.

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Paula, de Isabel Allende. Completamente tomada pela emoção, soluçando de tanto chorar, em meus devaneios eu me transportava para a sala de Allende a via sentada escrevendo aquilo tudo de dentro de sua dor e de sua saudade. Nunca livro algum me fez chorar tanto. E olha que isso quer dizer muita coisa, porque sou a maior manteiga do pedaço. Mas nem é pela dor: é pela beleza que ela conseguiu criar da dor. Um livro de redenção, um final com imagens lindas, inesquecível.

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim, já falei disso por aqui. Lia Lobato e gibis, lia Pollyanna, oh, não diga, lia as enciclopédias de capa dura da estante da minha mãe, lia um livro azul e branco sobre mitologia e ciência e nunca vou me esquecer da impressionante gravura de Hércules erguendo o mundo sobre os ombros - uau, ele era forte; ganhei uma coletânea de histórias infantis uma vez, com o patinho feio na capa e era muito amor nessa vida; lia um livro sobre um grilo que tocava o terror na floresta escondendo-se dentro do tronco de uma árvore e imitando voz de monstro; lia tudo da biblioteca do colégio, obrigatórios ou não. Gostava de Jorge Amado e Sidney Sheldon, minha rede aceitava qualquer peixe. Sempre foi igual a ou melhor que brincar.

7. Qual o livro que achaste chato e mesmo assim leste até o fim? Por quê?

Lembro que não gostei de Senhora, de José de Alencar. Mas, né, José de Alencar e tal. Queria ler. E fui, fui, fui, até o fim. Sem tesão. Quem sabe volto um dia. Faz muito tempo e me lembro de ter gostado de outros do autor, então pode ter sido só um momento ruim.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.


Hehehe, sacanagem, né, Luciana. Algumas pitadas: O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz; qualquer coisa da Clarice Lispector; As Horas Nuas de Lygia Fagundes Telles, que me apresentou à autora e me deixou encantada, leitura bem recente; Madame Bovary, Flaubert, pelo retrato da época, pela loucura, a loucura; Paula, A Soma dos Dias, A Ilha sob o Mar, de Allende, pela Allende, adorável, articulada, de imaginação viva e um coração gigantesco, cheio de amor pelas pessoas; O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, porque todo mundo precisa de um best seller para guardar no coração e ele sabe fazer; na mesma linha "leia algo que vendeu muito", indico Os Pilares da Terra, de Ken Follet, mas isso é coisa da minha cabeça: apesar de não ser uma pessoa religiosa, tenho loucura pelos templos e igrejas erguidas mundo afora. Os Pilares conta a saga de várias gerações de diversas famílias envolvidas na construção de uma imensa catedral no interior da Inglaterra. Ah, saboroso. Cem Anos de Solidão, Do Amor e Outros Demônios, Crônica de uma Morte Anunciada, O Amor nos Tempos do Cólera, Doze Contos Peregrinos ("A Luz É Como a Água" é meu favorito) e o documentário Relato de um Náufrago, além da autobiografia Viver Para Contar, todos do eterno Gabriel García Marquez. Ensaio Sobre a Cegueira, Caim, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e o ótimo As Intermitências da Morte, do lindo Saramago. Eu ia indicar vários livros do Veríssimo, mas estou de birra, porque andei lendo umas crônicas tão machistas que fiquei de mal dele. Quando passar, se passar, eu indico o menino. Mas ele escreve direitinho. :-) Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte; Crime e Castigo, de Dostoiévski, na tradução de Paulo Bezerra. Contos do James Joyce (The Dead (Os Mortos) mora no meu coração: no início a releitura era obrigação; depois virou prazer). Jane Austen, sirva-se à vontade; Edgar Allan Poe, idem. O Violino e outros contos, de Luiz Vilela.  E Dom Casmurro, do Machado, para parar em grande estilo. Já falei que esse poço não tem fundo. Melhor por língua: os brasileiros, os americanos e os ingleses, os franceses, sei lá. Por estilo ou época literária: regionalistas, românticos; os não literários (Foucault!! Bordieu!! Edward Said!!); os poetas... pensemos.

9. Que livro estás a ler neste momento?

O Grande Gatsby, de Fitzgerald. Povo bem animado.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.

Rá! Umas meninas duns blogs bons por aí:

Luci, do Caso Me Esqueçam (quando as provas acabarem);

Amanda, do Porte Doree;

Juliana, do Fina Flor;

Tina, do Pergunte ao Pixel, que não vai fazer agora, mas quem sabe um dia (eu adoraria conhecer seus pitacos e sugestões).

Miniconto displicente II


Copas e varandas*

Assim que dobrei a esquina percebi o vulto que se erguia rápido rumo às copas das árvores mais altas do outro lado do quarteirão. No primeiro momento pensei ter visto grandes asas brancas, pensei numa coruja de desenhos animados. Segundos depois de ter subido um pouco a rua, no entanto, voltei a notar o rebuliço no verde e pude ver que se tratava, na verdade, de um grande gavião marrom e acredito que o branco que não se confirmou não tenha sido mais que um recurso meu para clarear um pouco algumas visões. Dei mais alguns passos pesados e parei diante da árvore que servia de gangorra para o animal livre cuja imponência nem combinava com quem detinha tamanho troféu: havia algo de tolo naquele gavião vaidoso, como se ele não soubesse da liberdade que tem, já que, se a entendesse de fato, seria um ser feliz, não um esnobe. Com a rua inclinada entre nós dois, pensei no dia do gavião. O que teria feito desde as primeiras horas até aquele final de tarde quase cinza, meio confuso e que se rendia à inexorável chegada da noite. Tentei supor quantas presas teria devorado, quantos quilômetros teria voado, o que possivelmente teria merecido seu olhar vindo do alto. Pensei que ele escolhera  as copas da minha rua para se recolher e que aquilo, de alguma maneira estúpida ou secreta, aproximava nossas vidas. O dia dele cruzado com o meu, durante o qual não pude escolher copas ou observar além de cinco metros à frente de meu nariz, um dia de refeições nervosas e alimentos empurrados com rancor. Absolutamente imóvel a partir do momento em que interrompi minha caminhada para observá-lo, meu pássaro marrom certamente investigava o vulto a alguns metros e talvez, por que não, tenha me dedicado um pouco de sua atenção de caçador. Olhei, suspirei de cansaço e segui meu caminho para casa. Não voltei a olhar para as árvores do outro lado da rua, não ouvi piados ou batidas de asas. Não saberia dizer o que meu vizinho alado decidira fazer da minha despedida silenciosa e quase desdenhosa. Abri a grade do portão da minha casa, destranquei a porta pesada que me separa das árvores e entrei no espaço formado por paredes que me aquecem e me protegem do mundo que ajudo a confundir. Subi para o meu quarto e abri a cortina para adiar um pouco o momento de apertar os interruptores e me lembrar de minha visão inútil na escuridão. Destravei a tranca da porta que simula um encontro com o ar livre e fui para a varanda adivinhar se a Lua viria me salvar das lâmpadas. Não vi a Lua. Do outro lado da rua, a pupila negra como um alvo no centro do olho branco e redondo me observava investigativa, analisando-me em meu ninho. Devolvi o olhar com meu par de tristes pupilas cansadas e meu coração se trancou ainda mais quando as grandes asas se abriram e suas pernas se esticaram lançando-o num voo de quem sabe o que lhe basta, de quem se reconhece em sua forma de vida. No voo. Já quase não havia mais luz no céu e não pude segui-lo por muito tempo, meus pés tão presos às lajotas da varanda. Gosto de pensar que ele volta e lamenta meu sono fechado enquanto se entrega à sua solidão de caçador com a sabedoria de quem não cresceu.

Há dias em que eu voltaria ao simples, se pudesse. De asas abertas, sem muito pensar.  

***


Prendam as bruxas


A semana me engoliu entre gripes e intempéries várias, nem a vi passar. Eu faria uma boa lista das coisas que deixei de fazer enquanto mofava na sala de espera do consultório médico, enquanto lamentava o dia perdido no trabalho (em semana bem cheia por lá), enquanto sentia vontade de sair correndo diante de algumas novidades bem desagradáveis. O mundo girou com notícias que eu bem que gostaria de ter acompanhado de perto, minha timeline no twitter me deixou com água na boca com alguns papos bons dos quais não pude participar, seja porque não tinha tempo, seja porque não tinha cabeça. Não escrevi nada, li muito pouco, mimimimizei bastante. Chega, certo? Bem sei que minha vida continua mais para um filme leve do que para uma tragédia, ainda bem, mas me permito uma lamentação leve pelos meus tropeços ou pelas pedras que surgem de onde menos se espera. E já vou avisando que detesto começar uma história e não terminar, não sou de fazer suspenses por aqui, mas vocês vão me perdoar o deslize, porque ainda estou colhendo detalhes para contar a história de uma vez. 

Enquanto o prato principal está no forno, vamos às entradas: depois de ser nocauteada por um vírus mequetrefe (que, felizmente, sucumbiu à primeira dose do remédio) e perder um dia de trabalho (sei que parece bom, mas não é minha definição de alegria acumular serviço em uma semana que já está bem puxada), recebemos uma multa de trânsito, hey, que alegria. Sabe a que horas o carteiro entregou a multa? No exato momento em que Ulisses chegava em casa. Sabe de onde ele vinha? Da farmácia! Sabe o que ele foi comprar lá? O novo remédio da minha sogra, que vai substituir uma substância e começar de novo um tratamento bem longo. Ah, mas ele não conseguiu comprar o remédio, estava em falta. E quando ele estava tirando o carro do estacionamento da farmácia, bateu no poste. Coisa boba, sabe, perto dos perrengues do mundo, mas ninguém gosta, certo? Enfim. Tudo bem, porque as crianças estão ótimas e ontem o Arthur quebrou um dos óculos e só cortou a testa na segunda queda do dia. Então o mundo tem muitas dores e as minhas nem são dores, são mais conteúdo de conversas futuras regadas a risadas e teorias incríveis sobre a Lei de Murphy. Mas não estou achando lá muito ruim a semana estar acabando. Porque deu.

***

De bom teve Weezer no carro, cantado bem alto para matar saudades dos tempos em que Ulisses me emprestou uma fita K-7 (jovens, consultem o Google) com o CD azul gravado. Ele tinha surrupiado a fita de um amigo, que, por sua vez, nem se lembrava mais a quem pertencia. Nunca devolvi a fita até o dia em que ela sumiu, certamente levada por algum fã apaixonado pela banda. Eu ouvia e ouvia e cantava e berrava e pulava no quarto enquanto me arrumava para sair e dar aulas de inglês. Se eu olhasse pela janela do futuro naquela época e visse uma semana qualquer anos depois em que o Ulisses faria sopa numa cozinha nossa para aplacar minha gripe, em que lamentaria um pequeno acidente no carro com um comentário engraçado qualquer ao que eu responderia, olhando para os nossos dois filhos no banco de trás, "o que realmente importa está bem", eu certamente teria uma síncope de felicidade. Então não liguem, às vezes encarno a reclamona, mas não precisa nem me levar a sério. Não trocaria nada. Uma vírgula sequer.

***

A história desagradável que vou contar em breve envolve revolta e indignação. Acho sensato escrever depois que eu digerir melhor alguns elementos da história, porque não quero correr o risco de ser injusta ou precipitada em meus julgamentos. Eu quero entender direitinho antes de falar. Entender direito antes de falar é algo tão importante, tão... elementar. Digo, eu posso falar sobre o que não entendo, lógico, dialogando, perguntando, até pitacando. O que não posso é divulgar como se fato fosse algo cuja veracidade não posso atestar. Bem, até posso, se o faço em casa, do tipo: "gente, e não é que o Pitecos do Sul ganhou o jogo!" E logo depois, ao descobrir que o jogo terminou empatado, posso olhar para o marido e a sogra e dizer "uia, eu achei que o Pitecos do Sul tinha ganhado, mas o Pitecos do Norte empatou!" Isso pode, acho. Mas não pode assim: leio uma notícia bombástica. Ela é bombástica e, como tal, pode me trazer visibilidade. Posso me beneficiar dela, afinal sou blogueira/jornalista/tuiteira/escritora, you name it. Então replico e publico algo carregado de equívocos e potencialmente prejudicial a várias pessoas, sem me perguntar por um segundo se aquela fonte é confiável. Porque eu quero "informar", sabe. Só por isso. Então divulgo, depois eu vejo, afinal todos só falam disso. Acho que assim fica ruim. Juro que explico tudo depois.

***

Quero um banquinho no meio de um parque onde eu possa sentar com meu livro e ler parágrafos cortados toda vez que ergo os olhos para ver as crianças. Quero cansar de ler e me deitar nas folhas que forram o chão e então comer biscoitos com eles. Quero rir boba e achar que o maior problema do mundo é aquele que a Amanda, três anos, contou hoje, enquanto voltávamos para casa no nosso carro amassado:

- Mãe, meu dia na escola foi horrível!
- Por quê, filha?
- Eu cansei de pintar!

Caiu o segundo


Enquanto eu choramingava na cama, reclamando da febre e exercitando toda minha manha, ouvi o seguinte diálogo entre os homens da casa:

- Arthur, vem passar o fio dental.
- Tá bom.
- Abre um bocão.
- :-O
 [passa, passa, passa...]
- Ooops...
- Eiiiiiii, você arrancou o meu dente mole!!!
- Hehehehe, caiu.
- Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! A Fada do Dente vai trazer moeda!

E não é que trouxe mesmo? Impressionante.

37,7ºC


Aiiii... que frio... meu corpo inteiro arde, sinto a pele arrepiada roçando a roupa por baixo das quatro camadas de pano. Meus olhos queimam, minha garganta não existe e minha cabeça só dói quando respiro.

Cof cof cof cof cof ... cof cof cof cof ... cof cof cof cof ... (repita mil vezes).
A... aaa... aa tchiiiiiiiim! Oops.

Eu não poderia ficar doente agora. Mas me esqueci de avisar ao vírus.

Mimimimimi (ad infinitum).
***

Obrigada, amor, pela sopa.

***

Aiiii... cof cof...
:-(
Damn it!


Também

O frio tá vindo, com força. Os sapameias e moletons já estão por aí, pela sala, na cozinha. E foi lá na cozinha mesmo, agorinha, antes da hora de dormir, que montamos um tabuleiro e jogamos uma partidinha boa regada a pipoca (para os que gostam). E agora tá todo mundo embaixo dos edredons. Eu vou ali pegar meu chá e sentar bem pertinho dele.

Vou dizer que é para aquecer os pés e tal. Mas é meu coração que gosta e fica bem mais quentinho. Também. 


Devagar e em silêncio


Lembro-me bem de uma coisa que me saltou aos olhos quando comecei a praticar yoga em 2006: a ausência de espelhos nas salas. Achei bem coerente com uma prática que dizia voltar sua atenção ao equilíbrio de cada um, sem comparações com o desempenho alheio e sem manter o foco na aparência do nosso corpo. Passei a observar e, de fato, sempre que via alguma cena ou foto de centros de yoga, notava a ausência de espelhos, um grande contraste se pensarmos nas academias de ginástica, por exemplo. (Para mim, que tinha certa agonia diante de tanto narcisismo das academias, foi o primeiro deleite.)

Minha professora atual de yoga costuma dizer que yoga é intenção. Vale a tentativa, a consciência corporal (consciência das funções, do alinhamento, do equilíbrio, não da aparência) e a atenção voltada ao movimento e à respiração. Assim, a meta é tentar. Praticar yoga é tentar praticar. E eu gosto muito disso, dessa visão que reconhece as limitações individuais, o grau de intimidade com a prática, as diferentes "tendências" de cada corpo. Em uma sala de yoga com dez pessoas é possível termos dez níveis de evolução diferentes e, ainda assim, todos praticarem juntos as mesmas posturas, em total harmonia e com o mesmo grau de eficiência. Porque ninguém precisará alcançar onde o outro chegou ou imitar um posicionamento que simplesmente seu corpo (ainda) é incapaz de atingir: valerá a intenção devotada por cada participante, a concentração com que cada um tentará compor a postura e a forma consciente com que cada um estará respirando - com ritmo, som e em harmonia com os movimentos: inspira, sobe; exala, desce... E, sem mágica ou milagre, a evolução acontece, o corpo aprende e se expande.

Hoje Ulisses não pôde sair do trabalho na hora planejada e chegamos bem atrasados à nossa aula de yoga. A professora precisou adaptar o "cardápio" ao curto tempo de que dispúnhamos. Ainda assim, no final da aula, eu estava absolutamente satisfeita. A aula encolhida foi igualmente prazerosa porque cada dez minutos de yoga bem praticada valem a pena. Hoje vi como um tiquinho de prática no meu dia me acrescenta tanto, sem que para isso eu tenha feito qualquer contorção mirabolante. Apenas prestei atenção à minha respiração, à minha coluna, ao meu equilíbrio; alongueeei e isso é bom. Para os entusiastas da filosofia por trás da prática, uma sala de yoga é como um templo. Para mim, é um templo de mim mesma. Lá consigo fechar os olhos e enxergar o que a luz me impede de ver. Lá consigo conversar com meu corpo e ouvir dele que é bom estar aqui e poder me valer de meus braços e pernas para dançar lentamente ao som de minha respiração. Lá me sinto bailarina e os pensamentos se assentam à medida que experimento posturas que me mostram que sempre há o além - ou simplesmente sinto-me bem quando presto um pouco mais de atenção aos ombros.

A aula de hoje me acalmou, puxou-me para dentro. Andei difusa nos últimos dias, tanto barulho, tanta comilança (não que eu esteja reclamando, uai); mas hoje me ouvi: quero conversar comigo, fazer um pouco de silêncio e me permitir pensar sem pressa. Os planos são muitos, o mundo corre, mas eu vou devagar. Que a estrada é longa e é preciso respirar direito.

***

Tenho uma saudade que fica aqui, mesmo quando a sala está barulhenta. Ela fica sussurrando no meu coração: queria, gostaria, ah, se pudesse. O sussurro tem voz firme e aberta e um par de olhos carinhosos e de olhar vasto. Sinto assim, sozinha, independente da multidão. Amor é uma coisa que fica dentro. Tenho uma saudade que fica. Não passa. Não passa. Há dias, como hoje, em que quero parar e ouvi-la. E quase sinto seu abraço, aquele das comemorações. Há dias em que a sala borbulha e eu miro um cantinho lá perto da porta e a imagino ali. Meus olhos ficam quentes, minha alma fica tonta. Tenho uma saudade que ficou para sempre.

Inverno quente, os caquis que ninguém comeu, o primeiro bolo e planos infalíveis para caçar ratos


Pessoas boas desse mundo, prestem atenção. Eu precisava voltar aqui para dizer que aquele bolo de ontem fez tamanho sucesso aqui em casa que hoje repeti a dose. Preparei outro bolo igualzinho, dessa vez com a baunilha também, porque queria oferecê-lo aos amigos que vinham para o almoço e o que eu tinha preparado ontem já estava, digamos, bem menor. Fiz tudo igualzinho e novamente tudo saiu perfeito. Joguei chocolate granulado sobre a cobertura e os homens que circulavam pela minha cozinha tiveram a brilhante ideia de servi-lo com sorvete de creme... imaginem. Ou melhor, experimentem. ;-)

Floripa teve um final de semana chuvoso e friorento, mas minha casa se manteve aquecida porque praticamente não saí da cozinha. Como disse o Ulisses, o bom de ligar o forno no inverno é justamente aquecer a casa. E nossas barrigas também, for sure. Depois do bolo de ontem, pulei da cama às nove da madrugada, em pleno domingo, pessoas, e preparei aquelas torradas para o café da manhã. Desci enquanto as crianças, que já tinham invadido nosso quarto, ainda se aninhavam em nossa cama com o pai. Eles ficaram um pouco por lá, curtindo as primeiras horas preguiçosas de domingo. Na cozinha, foi só jogar a canela sobre o ovo batido para sentir o aroma que marcou meu dia. Não há nada mais gostoso na cozinha, para mim, que o aroma da canela tomando conta de minhas narinas e deixando tudo feliz. Enquanto batia o ovo para a rabanada, olhei pela janela e vi o Roque dormindo na grama, aproveitando aquele breve momento sem chuva, e me senti plenamente satisfeita. Não é engraçado como essas sensações nos invadem às vezes em momentos cheios de simplicidade? Ali estava eu, misturando ovo com canela e açúcar numa manhã friorenta de domingo e nada me faltava. Deve ser efeito da chuva, algo de que gosto muito, mas pode ser a canela também. Enfim, servi as torradas com fatias finas de maçã e morangos que Arthur devorou como se não houvesse amanhã.

Daí todo mundo foi para a sala jogar Pictureka enquanto fui pôr em prática a ideia que me rondava desde o início da semana. Na escola dos meus filhos, cada criança é responsável pela fruta do dia na merenda do grupo. Segunda-feira passada, Amanda levou caquis. Caquis que quase ninguém na turma comeu. E aí no final do dia voltamos para casa com uma porção considerável de caquis partidos e prontos para o consumo. Só que aqui em casa não temos o hábito de comer caquis (eu mesma nunca comi) e o Ulisses sugeriu que eu transformasse aquilo em uma geleia. Okay. Guardei os pedaços da fruta na geladeira e hoje, depois de encontrar essa receita, fiz a primeira geleia da minha vida, eba. Não tínhamos pau de canela em casa, então coloquei (o Ulisses, na verdade) uma pitada generosa de canela no segundo cozimento. Acreditem, pessoas, ficou maravilhosa, perfeita para aquele cafezinho do final de tarde. E de agora em diante quero experimentar outras geleias caseiras. Mantemos o açúcar, mas pelo menos escapamos dos conservantes. Darei notícias de geleias futuras, aguardem.



Minha geleia de caqui não foi a única estreia do dia. Hoje a Amanda fez seu primeiro bolinho. Enquanto eu fazia o Texas Sheet Cake outra vez, minha pequena montou acampamento na mesa da cozinha com sua potente batedeira rosa, forneci-lhe partes da massa do bolo, ela bateu tudo direitinho, untou sua forminha e, depois de assado seu primeiro bolinho, decorou com confetis. Tudo registrado para a posteridade:


A minha...

... e a dela.

Lambreca, lambreca, lambreca...

Tchan-ans!

Normalmente o Arthur me ajuda a preparar os bolos, mas hoje ele não pôde. É que depois de terminada aquela partida de Pictureka, ele se envolveu com a elaboração de um "projeto". Que projeto, Arthur? "Ah, é o Projeto Caça aos Ratos". Vou ver se consigo reproduzir aqui a explicação dele:


- Esse é o rato que tá de olho no queijo, aqui é a ratoeira, mas aí o gato aciona esse relógio e a coisa começa a correr por aqui [linha de cima] e daí tem esses botões que fazem tudo girar e o gato aperta esse botãozão e daí o queijo chega aqui e caí nesse riachinho que eu desenhei e aí sobem essas manchas de [não me lembro, mas ele tá falando daquelas nuvens lá] e aí, zum, o Tom pega o Jerry!

Tem um outro projeto também de caça aos morcegos em que o Coelho da Páscoa participa, mas eu não fotografei. Fico devendo.

Nosso tarde ainda teve duas partidas de Scotland Yard, show de malabarismo do amigo, cafezinho e aqueles planos mirabolantes de rodar pelo mundo. Enfim, jura que amanhã não é domingo de novo? AH, não! :-/

 
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